SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO




         SOCIOLOGIA        ENSINO MDIO




 Este livro  pblico - est autorizada a sua reproduo total ou parcial.
                           Governo do Estado do Paran
                                 Roberto Requio

                       Secretaria de Estado da Educao
                         Mauricio Requio de Mello e Silva

                                     Diretoria Geral
                                 Ricardo Fernandes Bezerra

                          Superintendncia da Educao
                          Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde

                          Departamento de Ensino Mdio
                                 Mary Lane Hutner

                   Coordenao do Livro Didtico Pblico
                                Jairo Maral




Depsito legal na Fundao Biblioteca Nacional, conforme Decreto Federal n.1825/1907,
de 20 de Dezembro de 1907.


 permitida a reproduo total ou parcial desta obra, desde que citada a fonte.
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO
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Catalogao no Centro de Editorao, Documentao e Informao Tcnica da SEED-PR




             Sociologia / vrios autores.  Curitiba: SEED-PR, 2006.  266 p.

             ISBN: 85-85380-41-1

             1. Sociologia. 2. Ensino mdio. 3. Ensino de sociologia. 4. Teorias sociolgicas. 5.
        Instituies sociais. 6. Cultura. 7. Trabalho. 8. Ideologia. 9. Movimentos sociais. I. Folhas.
        II. Material de apoio pedaggico. III. Material de apoio terico. IV. Secretaria de Estado da
        Educao. Superintendncia da Educao. V. Ttulo.

                                                                                       CDU 316+373.5



                                         .
                                        2 Edio
                                   IMPRESSO NO BRASIL
                                 DISTRIBUIO GRATUITA
                        Autores
                   Everaldo Lorensetti
             Katya Cristina de Lima Picano
                      Marilda Iwaya
                 Salvina Maria Ferreira
              Sheila Aparecida Santos Silva
                      Valria Pilo

            Equipe Tcnico  Pedaggica
                Isabel Cristina Couto
              Laura Jane R. Garbini Both
                    Marilda Iwaya

     Assessora do Departamento de Ensino Mdio
              Agnes Cordeiro de Carvalho

Coordenadora Administrativa do Livro Didtico Pblico
               Edna Amancio de Souza

                Equipe Administrativa
                   Mariema Ribeiro
                 Sueli Tereza Szymanek

              Tcnicos Administrativos
              Alexandre Oliveira Cristovam
                   Viviane Machado

                       Consultora
            Ftima e Silva de Freitas - UniBrasil

                     Colaboradora
                    Ana Maria da Silva

            Consultor de direitos autorais
              Alex Sander Hostyn Branchier

                   Reviso Textual
             Luciana Cristina Vargas da Cruz
                   Renata de Oliveira

     Projeto Grfico, Capa Editorao Eletrnica
            Eder Lima/Icone Audiovisual Ltda

                 Editorao Eletrnica
                  Icone Audiovisual Ltda


                           2007
z Carta do Secretrio
Este   Livro Didtico Pblico chega s escolas da rede como resultado
do trabalho coletivo de nossos educadores. Foi elaborado para atender
 carncia histrica de material didtico no Ensino Mdio, como uma
iniciativa sem precedentes de valorizao da prtica pedaggica e dos
saberes da professora e do professor, para criar um livro pblico, acessvel,
uma fonte densa e credenciada de acesso ao conhecimento.

A motivao dominante dessa experincia democrtica teve origem na
leitura justa das necessidades e anseios de nossos estudantes. Caminhamos
fortalecidos pelo compromisso com a qualidade da educao pblica e
pelo reconhecimento do direito fundamental de todos os cidados de
acesso  cultura,  informao e ao conhecimento.

Nesta caminhada, aprendemos e ensinamos que o livro didtico no 
mercadoria e o conhecimento produzido pela humanidade no pode ser
apropriado particularmente, mediante exibio de ttulos privados, leis
de papel mal-escritas, feitas para proteger os vendilhes de um mercado
editorial absurdamente concentrado e elitista.

Desafiados a abrir uma trilha prpria para o estudo e a pesquisa,
entregamos a vocs, professores e estudantes do Paran, este material de
ensino-aprendizagem, para suas consultas, reflexes e formao contnua.
Comemoramos com vocs esta feliz e acertada realizao, propondo,
com este Livro Didtico Pblico, a socializao do conhecimento e dos
saberes.

Apropriem-se deste livro pblico, transformem e multipliquem as suas
leituras.


                    Mauricio Requio de Mello e Silva
                     Secretrio de Estado da Educao
z Aos Estudantes
                           Agir no sentido mais geral do termo significa tomar ini-
                      ciativa, iniciar, imprimir movimento a alguma coisa. Por
                      constiturem um initium, por serem recm-chegados e ini-
                      ciadores, em virtude do fato de terem nascido, os homens
                      tomam iniciativa, so impelidos a agir. (...) O fato de que o
                      homem  capaz de agir significa que se pode esperar de-
                      le o inesperado, que ele  capaz de realizar o infinitamente
                      improvvel. E isto, por sua vez, s  possvel porque cada
                      homem  singular, de sorte que, a cada nascimento, vem
                      ao mundo algo singularmente novo. Desse algum que 
                      singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele no
                      havia ningum. Se a ao, como incio, corresponde ao fa-
                      to do nascimento, se  a efetivao da condio humana
                      da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distino
                      e  a efetivao da condio humana da pluralidade, isto
                      , do viver como ser distinto e singular entre iguais.


                                                                  Hannah Arendt
                                                             A condio humana



   Este  o seu livro didtico pblico. Ele participar de sua trajetria pelo
Ensino Mdio e dever ser um importante recurso para a sua formao.

    Se fosse apenas um simples livro j seria valioso, pois, os livros re-
gistram e perpetuam nossas conquistas, conhecimentos, descobertas, so-
nhos. Os livros, documentam as mudanas histricas, so arquivos dos
acertos e dos erros, materializam palavras em textos que exprimem,
questionam e projetam a prpria humanidade.
   Mas este  um livro didtico e isto o caracteriza como um livro de en-
sinar e aprender. Pelo menos esta  a idia mais comum que se tem a res-
peito de um livro didtico. Porm, este livro  diferente. Ele foi escrito a
partir de um conceito inovador de ensinar e de aprender. Com ele, como
apoio didtico, seu professor e voc faro muito mais do que "seguir o li-
vro". Vocs ultrapassaro o livro. Sero convidados a interagir com ele e
desafiados a estudar alm do que ele traz em suas pginas.

    Neste livro h uma preocupao em escrever textos que valorizem o
conhecimento cientfico, filosfico e artstico, bem como a dimenso his-
trica das disciplinas de maneira contextualizada, ou seja, numa lingua-
gem que aproxime esses saberes da sua realidade.  um livro diferente
porque no tem a pretenso de esgotar contedos, mas discutir a realida-
de em diferentes perspectivas de anlise; no quer apresentar dogmas,
mas questionar para compreender. Alm disso, os contedos abordados
so alguns recortes possveis dos contedos mais amplos que estruturam
e identificam as disciplinas escolares. O conjunto desses elementos que
constituem o processo de escrita deste livro denomina cada um dos tex-
tos que o compem de "Folhas".

    Em cada Folhas vocs, estudantes, e seus professores podero cons-
truir, reconstruir e atualizar conhecimentos das disciplinas e, nas veredas
das outras disciplinas, entender melhor os contedos sobre os quais se
debruam em cada momento do aprendizado. Essa relao entre as dis-
ciplinas, que est em aprimoramento, assim como deve ser todo o pro-
cesso de conhecimento, mostra que os saberes especficos de cada uma
delas se aproximam, e navegam por todas, ainda que com concepes e
recortes diferentes.
    Outro aspecto diferenciador deste livro  a presena, ao longo do tex-
to, de atividades que configuram a construo do conhecimento por meio
do dilogo e da pesquisa, rompendo com a tradio de separar o espao
de aprendizado do espao de fixao que, alis, raramente  um espao de
discusso, pois, estando separado do discurso, desarticula o pensamento.

    Este livro tambm  diferente porque seu processo de elaborao e
distribuio foi concretizado integralmente na esfera pblica: os Folhas
que o compem foram escritos por professores da rede estadual de en-
sino, que trabalharam em interao constante com os professores do De-
partamento de Ensino Mdio, que tambm escreveram Folhas para o li-
vro, e com a consultoria dos professores da rede de ensino superior que
acreditaram nesse projeto.

    Agora o livro est pronto. Voc o tem nas mos e ele  prova do valor
e da capacidade de realizao de uma poltica comprometida com o p-
blico. Use-o com intensidade, participe, procure respostas e arrisque-se a
elaborar novas perguntas.

   A qualidade de sua formao comea a, na sua sala de aula, no traba-
lho coletivo que envolve voc, seus colegas e seus professores.
  Ensino Mdio




Sumrio
Apresentao
Contedo Estruturante: O Surgimento da Sociologia e Teorias
                       Sociolgicas
                  Apresentao............................................................................10
                  Introduo.................................................................................12
          1  OsurgimentodaSociologia...........................................................17
          2  Asteoriassociolgicasnacompreensodopresente.........................31
          3  Aproduosociolgicabrasileira...................................................49


Contedo Estruturante: O Processo de Socializao e as Instituies
                       Sociais
                  Introduo.................................................................................62
          4 AInstituioEscolar....................................................................67
          5  AInstituioReligiosa..................................................................83
          6  AInstituioFamiliar.....................................................................99
                                                                                                 Sociologia

Contedo Estruturante: Cultura e Indstria Cultural
               Introduo...............................................................................118
         7  DiversidadeCulturalBrasileira......................................................123
         8  Cultura:criaoouapropriao?..................................................143


Contedo Estruturante: Trabalho, Produo e Classes Sociais
               Introduo...............................................................................158
         9  Oprocessodetrabalhoeadesigualdadesocial..............................161
        10  Globalizao.............................................................................171


Contedo Estruturante: Poder, Poltica e Ideologia
               Introduo...............................................................................188
        11  Ideologia.................................................................................191
        12  FormaodoEstadoModerno.....................................................207


Contedo Estruturante: Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
               Introduo...............................................................................216
        13  MovimentosSociais..................................................................221
        14  MovimentosAgrriosnoBrasil............................................. 235
        15  MovimentoEstudantil...................................................251
       Ensino Mdio




            A
            p
            r                 z Apresentao

            e                     Compreender as caractersticas das sociedades capitalistas tem sido
                              a preocupao da Sociologia desde o incio da sua consolidao co-
                              mo cincia da sociedade no final do sculo XIX. Nesse perodo, o ca-

            s                 pitalismo se configurava como uma nova forma de organizao da so-
                              ciedade caracterizada por novas relaes de trabalho. Essas mudanas
                              levaram os pensadores da sociedade da poca a indagaes e  elabo-


            e
                              rao de teorias explicativas dessa dinmica social, sob diferentes olha-
                              res e posicionamentos polticos. Desde ento, essa tem sido a principal
                              preocupao dessa cincia, qual seja, entender, explicar e questionar
                              os mecanismos de produo, organizao, domnio, controle e poder,

            n                 institucionalizados ou no, que resultam em relaes sociais de maior
                              ou menor explorao ou igualdade.
                                  A sociedade globalizada assumiu tamanha complexidade e mostra-

            t                 se por meios de to diversas faces que tornou-se impossvel  cincia
                              sociolgica, ou mesmo  qualquer outra cincia, responder ou expli-
                              car a toda problemtica social que se apresenta hoje, sem correr o ris-


            a
                              co de cair em simplificaes banais.
                                   preciso termos humildade para perceber que a amplitude das trans-
                              formaes sociais, polticas, culturais, econmicas e ecolgicas que a so-


            
                              ciedade e o planeta esto vivendo, no nos permite explicaes estreitas
                              ou sectrias, com pretenses de apropriar-se da verdade.
                                  Por outro lado, pensamos que a complexidade e a amplitude que
                              caracterizam as sociedades contemporneas, tambm no devem nos

                             intimidar ou amedrontar, mas sim, nos desafiar para o estudo, para a
                              pesquisa e para uma melhor compreenso e atuao poltica no mun-
                              do em que vivemos.

            o
10   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                Sociologia




                                                                            S
    , portanto,  partir dessa dupla perspectiva que apresentamos o Li-
                                                                            O
                                                                            C
vro Didtico Pblico de Sociologia:
     Com humildade, pois temos clareza de suas limitaes. Os conte-
dos desenvolvidos foram escolhidos a partir das Diretrizes Curricula-
res da disciplina, as quais foram discutidas em simpsios e encontros
envolvendo professores da rea. Certamente muitos outros temas e
contedos poderiam estar presentes, por sua relevncia e urgncia, os
quais podero ser contemplados em trabalhos futuros, ou mesmo se-
                                                                            I
rem desenvolvidos pelos professores e alunos nas escolas.
    Mas tambm com muito orgulho, pois trata-se do resultado de um
trabalho realizado coletivamente, por professores da rede pblica de
ensino, os quais, lanando mo de seus conhecimentos tericos, ar-
                                                                            O
                                                                            L
ticulados aos conhecimentos obtidos na prtica escolar, ousaram es-
crever para seus alunos reais, considerando suas dificuldades e neces-
sidades. Algumas pessoas chamam a isto como "tomar a histria nas
mos", ou seja, encher-se de coragem e tornar-se sujeito na histria.
     com esse esprito que desejamos que voc abra as folhas desse
livro e inicie-se nos caminhos da sociologia. Voc no encontrar res-
postas prontas, tampouco receitas de como agir na sociedade para tor-
                                                                            O
                                                                            G
nar-se um cidado bem-sucedido ou um bom consumidor, mas se de-
frontrar com desafios que podero lev-lo a refletir sobre o mundo
ao qual voc pertence, e, quem sabe, contribuir para uma insero cr-
tica e participativa na sociedade. Esteja certo de que estas so atitudes


                                                                            I
de que precisamos para construo de uma sociedade cujas relaes
apontam tambm para transformao social. Boa sorte!




                                                                            A

                                                                            Apresentao     11
       Ensino Mdio




             I
             n                Aprendendo sociologia

             t                            us! Aprender Sociologia deve ser muito complicado! Afinal, cin-
                                         cia para se entender a sociedade? O que isto significa? Que agora
                                        terei que me tornar cientista, vestir jaleco e tudo mais, para com-
                                       preender os fatos que esto  minha volta?

             r                     Bem, talvez voc ao ler este texto esteja pensando exatamente co-
                              mo mostram os questionamentos acima. Quem sabe em toda sua vi-


             o
                              da como estudante voc nunca ouviu falar na Sociologia e este es-
                              teja sendo o seu primeiro contato com ela.
                                   Se pelo menos parte do quadro que "desenhamos" acima se iden-
                              tifica com o seu, o fato  que ele se identifica com o de muitas pesso-


             d
                              as, pois historicamente falando, a Sociologia, cincia que  voltada pa-
                              ra o pensamento e reflexo sobre a sociedade, foi sendo deixada de
                              ser lecionada nas escolas.
                                   Hoje, porm, estamos ajudando a fazer uma nova histria: a que in-


             u
                              sere a Sociologia como ferramenta para nos ajudar a entender o mun-
                              do em que vivemos.
                                   Por exemplo, veja alguns aspectos da nossa sociedade aos quais a
                              Sociologia pode nos ajudar a ter maior compreenso:


                                Imagine como seriam suas respostas se algum lhe fizesse as seguintes
                              perguntas:
                                 -- Por que h poucos negros nas universidades brasileiras?


                                -- Por que o Brasil  visto como um pas em desenvolvimento, pa-
                              ra no dizer atrasado, em relao aos pases mais ricos?




             o
12   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                               Sociologia




                                                                             S
                                                                             O
    -- Por que os negros so a maioria pobre do pas?
    -- Por que o homem moderno cada vez mais se faz prisioneiro do
trabalho?
    -- Apesar de tanta riqueza produzida pelo trabalho no sistema ca-
                                                                             C
                                                                             I
pitalista, por que se tem, em boa parte dos pases, a maioria dos traba-
lhadores em situao de pobreza?
    Ora. Talvez voc consiga dar boas respostas s perguntas acima,
apontando, inclusive, as origens dos problemas questionados, o que
seria muito desafiador e necessrio. Mas, talvez outros, no tendo ar-
gumentos para dar boas respostas, diriam:                                    O
                                                                             L
    "Bom, eu acho que...".
    Mas sabe... com certeza voc j ouviu a frase:
    "Quem acha, pode no saber muita coisa", no  mesmo?


                                                                             O
    Pois bem. O que estamos propondo aqui  que todos podemos ir
alm do que j sabemos, ou "achamos" saber, sobre nossa sociedade.
    E o papel da Sociologia como disciplina  justamente nos ajudar
nesse sentido: a percebermos, por exemplo, que fatos considerados


                                                                             G
naturais na sociedade, como a misria de muitos, o enriquecimento de
poucos, os crimes, os suicdios, enfim, a dinmica e a organizao so-
cial podem no ser to naturais assim, como o Sol que a cada manh
"nasce" naturalmente.
    Os questionamentos apresentados acima, dentre outros, podero
ser melhor esclarecidos pelas teorias, ou seja, "lentes" tericas sociol-
gicas que nos ajudaro a ver nossa sociedade de maneira muito mais
                                                                             I
                                                                             A
crtica e com base cientfica.




                                                                             Introduo     13
       Ensino Mdio




             I
             n                    Portanto, neste trabalho composto de trs "Folhas", queremos fo-
                              car dois aspectos fundamentais da Sociologia. O primeiro deles, seria
                              uma espcie de apresentao, isto , mostrar como  que essa cincia
                              foi sendo constituda e se estabelecendo como tal.


             t                    Sobre este primeiro aspecto, construmos um "Folhas" que nos mostra-
                              r os acontecimentos, as transformaes sociais e cientficas que ocorriam
                              no mundo quando a Sociologia comeou a ser constituda como uma ci-
                              ncia, uma disciplina, um saber, uma forma de pensar o mundo.


             r                    Para isso, recorreremos  Histria com a finalidade de descobrir-
                              mos, alm do contexto do surgimento da Sociologia, quem foram os
                              precursores desta disciplina, como o filsofo Augusto Comte e o soci-
                              logo mile Durkheim, pensadores que empenharam-se em transformar


             o                a Sociologia em um saber cientfico.
                                  O segundo aspecto que trabalharemos aqui, representado nos "Fo-
                              lhas" Dois e Trs, focaliza algumas teorias da Sociologia que deram um
                              "outro olhar" sobre o mundo, trazendo a compreenso de que a socie-


             d                dade  construda e acionada a partir das motivaes e intenes dos
                              homens, desmitificando a "naturalidade" de muitos fatos.
                                  No "Folhas" Dois, dos clssicos da Sociologia trabalharemos as teo-
                              rias do francs mile Durkheim, que apresenta uma viso funcionalista


             u                da sociedade: para este autor, por exemplo, um suicdio, aparentemen-
                              te uma "loucura" individual, pode estar relacionado com a sociedade e
                              a "partes dela que no estejam funcionando".
                                  Max Weber ser outro autor que veremos na continuidade deste


                             mesmo "Folhas". Este pensador empenhou-se em compreender a so-
                              ciedade (por isso que a sua teoria  chamada de Sociologia Compreen-
                              siva) a partir das pessoas que nela vivem, num enfoque micro social.
                              Pelo conceito dos tipos ideais de ao que ele prope, ao compreen-


                             dermos as aes dos indivduos, compreenderemos o macro social,
                              enfim, a sociedade.




             o
14   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                             Sociologia




    Ainda neste "Folhas" Dois trabalharemos com as teorias do alemo
                                                                           S
                                                                           O
Karl Marx, que apresenta duras crticas  sociedade capitalista, na qual
vivemos. Este autor representa a perspectiva crtica da Sociologia e nos
ajudar a olharmos as relaes de trabalho de maneira a entender os
seus bastidores, isto , o que motiva o mundo do capital e do lucro,


                                                                           C
leitura obrigatria para quem deseja compreender o "porqu" do en-
riquecimento de alguns, a misria de outros e a existncia da explora-
o no mundo do trabalho.
    Finalmente, no "Folhas" Trs, nos preocuparemos em trabalhar as
teorias sociolgicas desenvolvidas no Brasil, para entendermos um
pouco mais das bases da sociedade em que vivemos. Comearemos
por Euclides da Cunha, um dos autores que iniciaram o pensamen-
                                                                           I
                                                                           O
to sociolgico no Brasil, passaremos por Gilberto Freyre e Caio Pra-
do Jnior, autores que se propuseram a entender a "formao" do po-
vo brasileiro, bem como a discutir quais seriam as causas dos supostos
"atrasos" da nossa nao. Na seqncia, trabalharemos com o socilo-


                                                                           L
go Florestan Fernandes que procurou entender, dentre outros fatos, as
dificuldades do povo negro no Brasil, ou seja, os acontecimentos que
transformaram esse grupo na maioria menos privilegiada e pobre da
nao brasileira.
    Todos os autores que procuramos trabalhar nestes "Folhas" foram
selecionados por atenderem  interpretao dos recortes (assuntos)
que elegemos para serem analisados e compreendidos. So autores
                                                                           O
que acreditamos serem essenciais para comearmos nossa reflexo so-
bre as sociedades de forma mais crtica e participativa.
    Existem, porm, muitos outros autores que poderiam ser trazidos
para a discusso dos temas propostos aqui. Todavia, no sendo poss-
                                                                           G
                                                                           I
vel trabalhar todos, apenas os que mencionamos e suas valiosas inter-
pretaes sero trazidos para o nosso aprendizado e reflexo.
    Uma boa leitura e conhecimento para voc!



                                                                           A

                                                                           Introduo     15
                                                                      1
                                       O SURGIMENTO DA
                                            SOCIOLOGIA            <Everaldo Lorensetti1




                                         z Voc  um privilegiado!
                                              eitor:  Como assim, privilegiado?
                                              O livro:  , privilegiado! Voc  um
                                               deles!
                                                  Na sociedade, h pessoas privile-
                                               giadas. Uma delas, por exemplo, po-
                                               de ser aquela que tem o poder de
                                               governar e de conduzir os rumos da
                                                sociedade, o que muitas vezes pode
                                                no ser da maneira mais justa para
                                                todos. Outro exemplo...




1
 Colgio Estadual Chateaubriandense.
Assis Chateaubriand - PR
       Ensino Mdio

                                         Leitor:    Um outro...?
                                        O livro:    Voc mesmo  um, caro leitor!
                                         Leitor:    Mas, eu?! Como?
                                        O livro:    Simples! Seu privilgio est no fato do que voc vai
                                                   adquirir agora: conhecimento! Voc poder avanar
                                                   no entendimento de como funciona a sociedade em
                                                   que voc vive, conhecer como trabalham os demais
                                                   privilegiados (a elite social) e aumentar sua autonomia
                                                   de reflexo e de ao diante dos fatos que lhe cercam.
                                                   Sigamos adiante?

                                  Mas o que  essa AUTONOMIA de que estamos falando?
                                  Vamos l! Vamos descobrir! Voc vai entender o que estamos dizen-
                              do, passo a passo.
                                  Essa autonomia  quanto  sua maneira de pensar e de agir frente a
                              diversas situaes. Muitas pessoas no sabem (e no se preocupam em
                              saber) como e por que determinadas coisas mexem com suas vidas.
                                  Vamos pensar num exemplo bem simples para voc entender: vo-
                              c j viu uma TV que no "pega" direito? O que pode ser feito para se
                              resolver o problema do sinal?

                                 Colocar palha-de-ao na antena resolveria?
                                 Essa atitude, de pr a palha-de-ao na antena, falando de tempos
                              passados, era algo muito mais comum do que hoje com as antenas pa-
                              rablicas e TVs a cabo, o que no significa que ningum mais o faa.
                                 Mas a palha-de-ao pode at resolver o problema, consideravel-
                              mente. Outras vezes, porm, ela no ser suficiente para acabar com o
                              defeito. Dependendo do sinal que a TV esteja recebendo.
                                 O que seria a palha-de-ao?
                                 Palha-de-ao = uma espcie de Senso Comum.
                                 No caso da TV, um tcnico resolveria melhor o problema do sinal
                              porque ele tem um conhecimento mais apurado daquilo que opera o
                              funcionamento da televiso. Provavelmente ele iria dar uma boa gar-
                              galhada ao ver a palha-de-ao na antena, pois ele sabe que aquilo po-
                              de se apenas um "remendo no rasgo", ainda que em alguns casos re-
                              solva, entende?
                                 Resumindo: Ento, o que seria um Senso Comum?
                                 Poderamos dizer que  uma resposta ou soluo simples para o
                              cotidiano, geralmente pouco elaborada e sem um conhecimento mais
                              profundo.




18   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                                     Sociologia

    O telogo brasileiro e Doutor em Filosofia, Rubem Alves, em seu li-
vro Filosofia da Cincia, considera o senso comum como sendo aqui-
lo que no  cincia. De outra maneira, seria dizer que a palha-de-ao
na antena da TV no  algo cientfico, mas sim um "eu acho que fun-
ciona" para o dia-a-dia das pessoas.
    Mas existe uma lgica em pr a palha-de-ao na antena. As pesso-
as s no sabem qual . E  por esse motivo, tambm, que Rubem Al-
ves diz que a cincia, na verdade,  um refinamento, ou melhoramen-
to, do senso comum.
    O senso comum e a cincia nos do respostas, ou inventam solu-
es prticas para nossos problemas. A diferena  que a cincia  um
conhecimento mais elaborado.

   "Eu acho que..." Fique sabendo!

    Muitas vezes quando algum co-
mear uma resposta com as palavras
"eu acho que...", tal resposta pode
no chegar no centro real do proble-
ma a ser entendido ou resolvido. O
que no significa, porm, que ela de-
va ser rejeitada. Ela s precisa ser re-
finada.
    Por exemplo, se algum nos per-
guntasse o motivo que leva a econo-
mia de um pas oscilar, ns podera-
mos dar uma resposta certeira, com
demonstraes, inclusive, mas tam-
bm poderamos dizer apenas: "eu
acho que...".
    A exemplo da economia, existem
muitas outras coisas que acontecem na
sociedade e que nos atingem direta-
mente. E para todas essas coisas seria
muito bom que tivssemos curiosida-
de para saber se aquilo que  mostra-
do  realmente como , entende?
    E a Sociologia? Como vai aparecer
nessa conversa?
                                                                                                                                   < Foto: Joo Urban




                                           < Para muitas pessoas, passar por debaixo de uma escada traz azar. Crenas como essa,
                                             tambm podem ser um exemplo de senso comum.

                                                                                          O surgimento da Sociologia               19
       Ensino Mdio

                                  Contribuindo para que possamos entender um pouco mais o lugar onde
                              vivemos!
                                  Veja, como j falamos, o senso comum no deve ser rejeitado.
                                  O que estamos propondo  que voc pode ir alm desse conheci-
                              mento comum, neste caso, sobre a sociedade.
                                  Uma outra coisa que deve ser desmitificada  o termo cientista.
                              Confirmamos o pensamento de Rubem Alves quando diz que um cien-
                              tista no  uma pessoa que pensa melhor do que os outros. Rubem Al-
                              ves nos fala que a tarefa de refletir e de entender os porqus das coisas
                              cabe a todos ns, e que a idia de que no precisamos pensar, porque
                              existem pessoas "melhores" para isto,  furada.
                                  Avanar um pouco mais em relao a um conhecimento elaborado
                              e investigativo vai lhe trazer um entendimento mais claro sobre como
                              funciona a sociedade, dentre outras coisas.
                                  Alm do fato de que voc ter maior autonomia para CONCOR-
                              DAR OU DISCORDAR POR SI PRPRIO sobre as questes que voc
                              vive na sociedade.

                                 Essa  a independncia que queremos que voc tenha: A DE RE-
                              FLEXO.




                      ATIVIDADE

        E para comearmos a pensar: "ELITE SOCIAL"
         Voc j ouviu falar na existncia dela na Sociedade? Pesquise e veja o que voc consegue sobre
     esse termo (em livros, revistas, pessoas que voc conhece, etc.). Traga os seus registros para a clas-
     se. Vamos iniciar uma discusso a partir do que sabemos, hoje, sobre a chamada elite. Por que ela 
     considerada elite e como surgiu?




20   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                           Sociologia

   Pensando em elites: NS PODEMOS VIVER DE FORMA ALIENADA?


z E o que  ser alienado?
    Veja: se no tivermos nossa independncia de pensa-
mento e ao, ou seja, se no conseguimos refletir sobre
aquilo que vemos e ouvimos, ou se concordamos com tu-
do o que acontece, ento podemos estar vivendo de forma
alienada.
    Segundo a filsofa brasileira Marilena Chau, a alienao
acontece quando o homem no se v como sujeito (criador)
da histria e, nela, capaz de produzir obras.
    Para o homem alienado, e segundo esta mesma viso, a
histria e as obras produzidas nela so fatos estranhos e ex-
ternos. E, sendo estranhos, tal homem no os pode controlar, ficando
numa posio de dominado. J o conhecimento pode nos fazer trans-
formadores da histria, e no apenas espectadores dela.
    Mais  frente retomaremos essa discusso sobre a alienao e a exis-
tncia de elites e o faremos com mais recursos para a nossa reflexo.


z Conhecer e entender
  (sobre a Sociologia)  preciso!
    A Sociologia no  redentora ou solucionadora dos males sociais,
ou dos problemas intelectuais das pessoas. Ela surge como uma cin-
cia que vai fornecer novas vises sobre a sociedade.
    Sua contribuio est no fato de nos dar referenciais para refletir-
mos sobre as sociedades.




                ATIVIDADE

     Mais um pouco de prtica inicial: "AUTONOMIA DE REFLEXO".
     Observe sua comunidade e traga para nossa aula uma relao dos "problemas sociais" que nela
 existem. Vamos discutir a possvel origem dos mesmos, a partir do que temos hoje, em termos de re-
 cursos tericos, para mais tarde podermos retomar essas questes.




                                                                         O surgimento da Sociologia     21
       Ensino Mdio

                              z A "Gnesis Sociolgica":
                                  importante...
                                 Nesse incio de trabalho, buscaremos conhecer como a Sociologia
                              surgiu, para depois sabermos como  que ela pode nos ajudar a en-
                              tender a sociedade, bem como os problemas levantados pela atividade
                              anterior. Vamos fazer um passeio pela histria para encontrarmos su-
                              as bases. Acompanhe:

                                  Como tudo comeou!
                                  Apesar da cincia sociolgica ser considerada nova, pois ela se
                              consolidou por volta do sculo XIX, a angstia de se entender as so-
                              ciedades, por sua vez, no  to nova assim. Se olharmos para a Gr-
                              cia Antiga, vamos ver que l j havia o desejo de se entender a socie-
                              dade.
                                  No sculo V a.C, havia uma corrente filosfica, chamada sofista,
                              que comeava a dar mais ateno para os problemas sociais e polticos
                              da poca. Porm, no foram os gregos os criadores da Sociologia.
                                  Mas foram os gregos que iniciaram o pensamento crtico filosfico.
                              Eles criaram a Filosofia (que significa amor ao conhecimento) e que,
                              por sua vez, foi um impulso para o surgimento daquilo que chama-
                              mos, hoje, de cincia, a qual se consolidaria a partir dos sculos XVI e
                              XVII, sendo uma forma de interpretao dos acontecimentos da socie-
                              dade mais distanciada das explicaes mticas.
                                  Foram com os filsofos gregos Plato (427-347 a.C) e Aristteles
                              (384-322 a.C), que surgiram os primeiros passos dos trabalhos mais
                              reflexivos sobre a sociedade. Plato foi defensor de uma concepo
                              idealista e acreditava que o aspecto material do mundo seria um tipo
                              de fruto imperfeito das idias universais, as quais existem por si mes-
                              mas. Aristteles j mencionava que o homem
                              era um ser que, necessariamente, nasce pa-
                              ra estar vivendo em conjunto, isto , em so-
                              ciedade. No seu livro chamado Poltica, no
                              qual consta um estudo dos diferentes sis-
                              temas de governo existentes, percebe-
                                                                                                         < www.koxkollum.nl/ beelden/aristoteles.htm




                              se o seu interesse em entender a so-
                              ciedade.




                                                                 Aristteles



22   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                           Sociologia

    J na Idade Mdia...
    Sculos mais tarde, no perodo chamado de Idade Mdia (que vai
do sculo V ao XV, mas exatamente entre os anos 476 a 1453), houve,
segundo os renascentistas (que vamos conhecer mais  frente), um
perodo de "trevas" quanto  maneira de ver o mundo.
    Segundo eles, havia um prevalecer da f, onde os campos m-
tico e religioso, tendiam a oferecer as explicaes mais viveis pa-
ra os fatos do mundo. Na Europa Medieval, esse predomnio reli-
gioso foi da Igreja Catlica
    Tal predomnio da f, de certo modo, e segundo os humanistas
renascentistas, asfixiava as tentativas de explicaes mais especulati-
vas e racionais (cientficas) sobre a sociedade. No cumprir uma regra
ou lei estabelecida pela sociedade, poderia ser entendido como um
pecado, tamanha era a mistura entre a vida cotidiana e a esfera sobre-
natural.
     claro que se olharmos a Idade Mdia somente pela tica dos renas-
centistas ela pode ficar com uma "cara meio tenebrosa". Na verdade, ela
tambm foi um perodo muito rico para a histria da humanidade, impor-
tante, inclusive, para a formao da nossa casa, o mundo ocidental. Vale
a pena conhecermos um pouco mais sobre essa histria.
    E, na continuidade da histria...

    Tudo caminhava para o uso da razo
    O predomnio, na organizao das relaes sociais, dos princpios
religiosos durou at pelos menos o sculo XV. Mas j no sculo XIV
comeava a acontecer uma renovao cultural. Era o incio do perodo
conhecido por Renascimento.
    Os renascentistas, com base naquilo que os gregos comearam, isto
, a questionar o mundo de maneira reflexiva (como j contamos ante-
riormente), rejeitavam tudo aquilo que seria parte da cultura medie-           < http://www.epdlp.com/
                                                                                 fotos/rodin2.jpg
val, presa aos moldes da igreja, no caso, a Catlica.
    O renascimento espalhou-se por muitas partes da Europa e in-
fluenciava a arte, a cincia, a literatura e a filosofia, defendendo,
sempre, o esprito crtico.
    Nesse tempo, comearam a aparecer homens que, de forma mais
realista, comeavam a investigar a sociedade. A exemplo disso te-
mos Nicolau Maquiavel (1469-1527) que, em sua obra intitulada de O
Prncipe, faz uma espcie de manual de guerra para Lorenzo de M-
dici. Ali comenta como o governante pode manipular os meios para a
finalidade de conquistar e manter o poder em suas mos.
    Obras como estas davam um novo olhar para sociedade,
olhar pelo qual, atravs da razo os homens poderiam domi-
nar a sociedade, longe das influncias divinas.



                                                                       O surgimento da Sociologia        23
                                      Ensino Mdio

                                                             Era a doutrina do antropocentrismo ganhando fora. O homem
                                                          passava a ser visto como o centro de tudo, inclusive do poder de in-
                                                          ventar e transformar o mundo pelas suas aes.
                                                             Alm de Maquiavel, outros autores renascentistas, como Francis Ba-
 < http://renascimento.clio.pro.br/




                                                          con (1561-1626), filsofo e criador do mtodo cientfico conhecido por
                                                          experimental, ajudavam a dar impulso aos tempos de domnio da ci-
   Figuras/maquiavel.JPG




                                                          ncia que se iniciavam.

                                                             No perdendo de vista...
                                                             Estamos contando tudo isso para que voc perceba que nem sem-
                                                          pre as pessoas puderam contar com a cincia para entender o mundo,
                                      Nicolau Maquiavel
                                                          sobretudo o social, que  o queremos compreender.
                                         (1469-1527)
                                                             Dessa maneira, muitas pessoas no passado, ficaram `presas' princi-
                                                          palmente, quelas explicaes a respeito da realidade que eram base-
                                                          adas na tradio, em mitos antigos ou em explicaes religiosas.



                                                          z O Iluminismo
                                                              J no sculo XVIII, houve um momento na Europa, chamado de
                                                          Iluminismo, que comeou na Inglaterra e na Frana, mas que poste-
                                                          riormente espalhou-se por todo o continente em que a idia de valori-
                                                          zar a cincia e a racionalidade no entendimento da vida social tornou-
                                                          se ainda mais forte.
                                                              Uma caracterstica das idias do Iluminismo era o combate ao Es-
                                                          tado absoluto, ou absolutismo, que comeou a surgir na Europa ainda
                                                          no final da Idade Mdia, no sculo XV, em que o rei concentrava to-
                                                          do o poder em suas mos e governava sendo considerado um repre-
                                                          sentante divino na terra, uma voz de Deus, a qual at a igreja, no ra-
                                                          ramente, se sujeitava.
                                                              Com a cincia ganhando fora, era, digamos, invivel o fato de vol-
                                                          tar a pensar a vida e a organizao social por vias que no levassem
                                                          em conta as consideraes da cincia em debate com as de fundo re-
                                                          ligioso. Como por exemplo, imaginar os governantes como sendo re-
                                                          presentantes sobrenaturais.
                                                              Nesse perodo, a continuada consolidao da reflexo sistemtica
                                                          sobre a sociedade foi ajudada por autores como Voltaire (1694-1778),
                                                          filsofo que defendia a razo e combatia o fanatismo religioso; Jean-
                                                          Jacques Rousseau (1712-1778), que estudou sobre as causas das desi-
                                                          gualdades sociais e defendia a democracia; Montesquieu (1689-1755),
                                                          que criticava o absolutismo, e defendia a criao de poderes separa-
                                                          dos (legislativo, judicirios e executivo), os quais dariam maior equi-
                                                          lbrio ao Estado, uma vez que no haveria centralidade de poder na
                                                          mo do governante.

24                              O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                              Sociologia

   Portanto, com a contribuio Iluminista...
   A partir das teorias sobre a sociedade que no perodo Iluminista
surgiram,  que comea a ser impulsionada, ou preparada, a idia da
existncia de uma cincia que pudesse ajudar a interpretar os movi-
mentos da prpria sociedade.


z Consolidao do Capitalismo e a Revoluo
  Industrial!
                                                                             Sistema capitalista:

     Estamos mudando de assunto?                                            A propriedade privada 
                                                                            sua caracterstica mais for-
    Mudando em parte, porm no estamos deixando de falar do surgi-
                                                                            te. O capitalista  aquele que
mento da Sociologia. H outros elementos que a motivaram surgir.
                                                                            a possui, isto , a empresa
    As transformaes na sociedade europia no estavam ocorrendo so-       ou os meios de produo.
mente no campo das idias, como era o caso da consolidao da cincia       Os empregados so aque-
como ferramenta de interpretao do mundo, que vimos at aqui.              les que vendem sua fora
    H tambm a consolidao do sistema capitalista, culminando com a       de trabalho para o capitalis-
Revoluo Industrial, que ocorreu em meados do sculo XVIII, na Ingla-      ta. E o lucro, alm da recupe-
terra, gerando grandes alteraes no estilo de vida das pessoas, sobretu-   rao do capital investido na
                                                                            fabricao dos bens a serem
do nas das que viviam no campo ou do artesanato. Estes temas desper-
                                                                            vendidos,  a meta deste sis-
tavam o interesse de crticos da poca.
                                                                            tema. Distino de classes:
    Dessa maneira, quando a Sociologia iniciou os seus trabalhos, ela o     embora no a nica, a pro-
fez com base em pensadores que viram os problemas sociais ocasiona-         priedade ou no dos meios
dos a partir da crise gerada pelos fatos acima mencionados.                 de produo  a primeira e
    Acompanhe:                                                              mais importante condio
                                                                            que separa os indivduos em
    Recorrendo  Histria para entendermos...                               diferentes classes sociais.
    Podemos dizer que o incio do sistema capitalista se deu na chama-
da Baixa Idade Mdia, entre os sculos IX e XV, na Europa Ocidental.
A partir do sculo XI, com as "cruzadas" realizadas pela Igreja Cat-
lica, para conquistar Jerusalm que estava dominada pelos muulma-
nos, um canal de circulao de riquezas na Europa foi aberto.
    O contato cultural e o comrcio do ocidente com o oriente europeu
foram retomados via Mar Mediterrneo. Com a movimentao de pes-
soas e riquezas houve, na Europa Ocidental, o surgimento de ncleos
urbanos, conhecidos por burgos. Destes, ressurgiram as cidades, pois
existiam poucas naquele tempo.
    As chamadas corporaes de ofcio, que eram uma espcie de as-
sociao que organizava as atividades artesanais para ter acordo en-
tre os preos de venda e qualidade do produto, por exemplo, come-
aram a aparecer a fim de regular o trabalho dos arteses que vinham
para as cidades exercer sua profisso. Aqui vemos que a idia do lu-
cro se fortalecia.


                                                                        O surgimento da Sociologia           25
       Ensino Mdio



                      PESQUISA

     "Quase no existiam cidades..."
        Descubra pela histria o porqu do fato que acima  mencionado. No lhe soa estranho? O que fez
     com que isso ocorresse? Tal fato poder se repetir algum dia em alguma sociedade? Vamos discutir
     pensando o nosso mundo, hoje.



                                     Mais tarde, os europeus...
                                     ...comearam a explorar o comrcio em termos mundiais, principal-
                                 mente depois dos sculos XV e XVI e das chamadas Grandes Navega-
                                 es. Por exemplo, com o descobrimento da Amrica, muita riqueza
                                 daqui era levada  Europa para a criao de mercadorias que seriam
                                 vendidas nesse mercado mundial que estava surgindo. A idia de uma
                                 produo em srie de mercadorias comeava a surgir.
                                     As antigas corporaes de ofcios foram transformadas pelos co-
                                 merciantes da poca em manufatura. O trabalho manufatureiro acon-
                                 tecia com vrios artesos, em locais separados e dirigidos por um co-
                                 merciante que dava a eles a matria-prima e as ferramentas. No final
                                 do trabalho encomendado, os arteses recebiam um pagamento acer-
                                 tado com o comerciante.
                                     Mais  frente ainda, os comerciantes (futuros empresrios capitalis-
                                 tas) pensaram que seria melhor reunir todos esses artesos num s lu-
                                 gar, pois assim poderiam ver o que eles estavam produzindo. Alm de
                                 cuidar da qualidade do produto, o controle sobre a matria-prima e rit-
                                 mo da produo poderia ser maior.


                                     Foi ento que surgiu a idia da fbrica...
                                     Um lugar com uma produo mais organizada, com a acentuao
                                 da diviso de funes, onde o arteso ia deixando de participar do
                                 processo inteiro de produo da mercadoria e onde passava a operar
                                 apenas parte da produo. Desse ponto para a implantao das mqui-
                                 nas movidas a vapor, restava somente o tempo da inveno das mes-
                                 mas.
                                     Quando o inventor escocs James Watt (1736-1819) conseguiu paten-
                                 tear a mquina a vapor, em abril de 1784, ela veio dar grande impulso 
                                 industrializao que se instalava, aumentando a produo, diminuindo os
                                 gastos com mo-de-obra e aumentando o acmulo de capital.




26   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                                               Sociologia

                                                                                                     Fbrica de papel.




                                                                          < Foto: Acervo Icone Audiovisual
   Veja o quadro que se montava...
   O sistema feudal da Europa Ocidental, estava sendo superado. Ele                                          Sistema feudal:
no conseguiria suprir as necessidades dos novos mercados que se                                             Sistema social que existiu du-
abriam. O sistema capitalista, com base na propriedade privada e no                                          rante e Idade Mdia. Com o
lucro, isto , na acumulao de capital, estava sendo consolidado.                                           desaparecimento das cida-
   A partir da Revoluo Industrial (sculo XVIII), as cidades da Euro-                                      des, o comrcio tambm de-
pa Ocidental comeavam a se transformar em grandes centros urbanos                                           saparecia. As bases econmi-
comerciais e, posteriormente, industriais. Muitas delas "inchadas" por                                       cas se centraram no campo,
desempregados. O estilo de vida das pessoas estava se transformando                                          nos feudos. Os feudos eram
                                                                                                             grandes reas de terras per-
 para alguns de forma violenta e radical  como era o caso de muitos
                                                                                                             tencentes a um senhor. Den-
camponeses que eram expulsos pelos senhores das terras que as cer-
                                                                                                             tro deles havia as colnias de
cavam para criar ovelhas e fornecer l s fbricas de tecidos.
                                                                                                             servos que lavravam a terra.
   J no caso dos artesos, esses "perdiam" sua qualificao profissio-                                      Parte da produo era des-
nal e o controle sobre o que produziam, ou seja, de profissionais, pas-                                      tinada ao senhor da terra, e
savam a "no ter profisso", pois a indstria era quem ditava que tipo                                        parte era para os servos.
de profissional precisava ser. No importava se fossem grandes arte-
sos, s precisariam aprender a operar a mquina da fbrica. Se fosse
hoje, usaramos o termo aprender a "apertar botes". Dessa maneira,
como no tinham capital para ter uma produo autnoma e competir
com a fbrica, submetiam-se ao trabalho assalariado.




                                                                      O surgimento da Sociologia                                              27
         Ensino Mdio

                                        Novas e grandes invenes estavam sendo realizadas no campo
                                    tecnolgico, como as prprias mquinas a vapor das indstrias. O co-
                                    mrcio mundial estava aumentando cada vez mais. O mundo estava
                                    "encolhendo", em termos de fronteiras comerciais e ficando "europei-
                                    zado".
                                        E em meio a isto, duas classes distintas emergiam: a composta pe-
                                    los empresrios e banqueiros, chamada de classe burguesa, e a classe
                                    assalariada, ou proletria.
     Burguesia:                          A classe burguesa  aquela que ao longo do tempo veio acumu-
                                    lando capital com o comrcio e reteve os meios de produo em suas
     As pessoas que moravam
                                    mos, isto , as ferramentas, os equipamentos fabris, o espao da f-
     nos ncleos urbanos (bur-
                                    brica, etc., bem como o poder poltico. J a classe proletria, sem ca-
     gos), eram identificadas co-
                                    pital e expropriada dos meios de produo por meio de sua expulso
     mo sendo os burgueses. Mas
     com o passar dos tempos,       dos feudos e das terras comuns, tornava-se fornecedora de mo-de-
     essa denominao ficou ape-    obra aos donos das fbricas.
     nas para os que haviam enri-       Agora perceba comigo:
     quecido com o comrcio, so-        O quadro social na Europa Ocidental do perodo passava, ento,
     bretudo os comerciantes e      por transformaes profundas, provocadas pela consolidao do siste-
      banqueiros.
                                    ma capitalista, pela valorizao da cincia contrapondo as explicaes
                                    mticas a respeito do mundo, pela abertura de mercados mundiais e
                                    pelos conflitos derivados das condies de vida miserveis dos ope-
                                    rrios, confrontadas com o enriquecimento da classe burguesa.  em
                                    meio a todas essas mudanas que a Sociologia comea a ser pensada
                                    como sendo uma cincia para dar respostas mais elaboradas sobre os
                                    novos problemas sociais.
                                        A Sociologia e suas teorias, as quais vamos ver a seguir, se consti-
                                    tuem ferramentas de reflexo sobre a sociedade industrial e cientfica
                                    que surgia. Vamos ver como elas refletem para entendermos os proble-
                                    mas sociais e ajudar a encontrar solues para os mesmos.


                         ATIVIDADE

           Com base no que vimos at aqui, associe...
           Que relao h entre o sistema capitalista, a existncia de uma elite na sociedade e o processo de
       alienao?
            Retomando os problemas que voc levantou para a atividade da pgina 20, relacione-os com o es-
       tilo de vida imposto pelo sistema capitalista.




28    O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                            Sociologia

z Referncias:
  ALVES, R. Filosofia da cincia. So Paulo: Ars Potica, 1996.

  AZEVED , F. Princpios de Sociologia: pequena introduo ao estudo da so-
  ciologia geral. 11 ed.  So Paulo: Duas Cidades, 1973.

  CASTRO, A. M. DIAS, Edmundo Fernandes. Contexto histrico do apareci-
  mento da sociologia. In.: Introduo ao pensamento sociolgico. So Pau-
  lo: Centauro, 2001.

  CHAUI, M. S. O que  ideologia. So Paulo: Brasiliense, 1980.

  MAQUIAVEL, N. O prncipe. So Paulo: Martins Fontes, 1990.

  MARX, K. O capital: crtica da economia poltica. Rio de Janeiro: Bertrand
  Brasil, 1994.

  MARX, K; ENGELS, F. O manifesto do partido comunista. Rio de Janeiro: Paz
  e Terra, 1998.




                                                                          O surgimento da Sociologia     29
                                                                           2
                                   AS TEORIAS SOCIOLGICAS
                                          NA COMPREENSO
                                               DO PRESENTE
                                                                       <Everaldo Lorensetti1

                                                uito bem. Segundo os pensadores de tem-
                                                pos atrs..."
                                               Nossa! Espere um pouco... Tempos atrs?
                                              Essa moada j no foi para o "andar de ci-
                                               ma"?
                                               Como  que eu posso pensar o meu mundo
                                           hoje a partir de quem s viu o passado?
                                            possvel?
                                           Vamos ver se podemos...




1
 Colgio Estadual Chateaubriandense.
Assis Chateaubriand - PR
       Ensino Mdio

                                  Vamos comear por Auguste Comte (1798-1857), pois foi ele quem
                              criou o termo "sociologia" a partir da organizao do curso de Filoso-
                              fia Positiva em 1839.
                                  O que desejava Comte com esse curso? Ele pretendia fazer uma
                              sntese da produo cientfica, ou seja, verificar aquilo que havia sido
                              acumulado em termos de conhecimento bem como os mtodos das ci-
                              ncias j existentes, como os da matemtica, da fsica e da biologia. Ele
                              queria saber se os mtodos utilizados nessas cincias, os quais j ha-
         Auguste Comte        viam alcanado um "status" de positivo, poderiam ser utilizados na f-
                              sica social, denominada, por ele de Sociologia.
                                  Este pensador era de uma linha positivista, o que quer dizer que
                              acreditava na superioridade da cincia e no seu poder de explicao
                              dos fenmenos de maneira desprendida da religiosidade, como era co-
                              mum se pensar naquela poca. E tem mais... como positivista ele acredi-
                              tava que a cincia deveria ser utilizada para organizar a ordem social.
                              Na viso dele, naquela poca, a sociedade estava em desordem, orien-
                              tada pelo caos. Devemos considerar que Comte vislumbrava o mundo
                              moderno que surgia, isto , um mundo cada vez mais influenciado pe-
                              la cincia e pela consolidao da indstria, e a crise gerada por uma
                              certa anarquia moral e poltica quando da transio do sistema feudal
                              (baseado nas atividades agrrias, na hierarquia, no patriarcalismo) pa-
                              ra o sistema capitalista (baseado na indstria, no comrcio, na urbani-
                              zao, na explorao do trabalhador).. Era essa positividade (instaurar
                              a disciplina e a ordem) que ele queria para a Sociologia.
                                  Assim sendo quando Comte pensava a Sociologia, era como se fos-
                              se uma "criana" sendo gestada, na qual colocava toda sua crena de
                              que poderia estudar e entender os problemas sociais que surgiam e re-
                              estabelecer a ordem social e o progresso da civilizao moderna. Ele
                              queria que a Sociologia estudasse de forma aprofundada os movimen-
                              tos das sociedades no passado para se entender o presente e, inclusi-
                              ve, para imaginar o futuro da sociedade.

                                        Percebeu? Olhando o passado para compreender o presente.
                                       Os do "andar de cima", e no s eles, nos ajudaro a ver melhor
                                    o mundo que vivemos hoje.

                                  Comte via a consolidao do sistema capitalista como sendo al-
                              go necessrio ao desenvolvimento das sociedades. Esse novo sistema,
                              bem como o abandono da teologia para explicao do mundo seriam
                              parte do progresso das civilizaes. J, os problemas sociais ou desor-
                              dens que surgiam eram considerados obstculos que deveriam ser re-
                              solvidos para que o curso do progresso pudesse continuar.
                                  Portanto, a Sociologia se colocaria, na viso deste autor, como uma
                              cincia para solucionar a crise das sociedades daquela poca. Mas
                              Comte no chegou a viabilizar a sua aplicao. Seu trabalho apenas
                              iniciou uma discusso que deveria ser continuada, a fim de que a So-
                              ciologia viesse a alcanar um estgio de maturidade e aplicabilidade.
32   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                        Sociologia


                  ATIVIDADE

    Voc j reparou no lema da nossa bandeira? Tem alguma relao
 com o pensamento de Comte? O Brasil pode ser visto como uma socie-
 dade que orienta-se pelo cumprimento da "Ordem e Progresso" inscritos
 na nossa bandeira?




 Um pouco de Histria do Brasil: A Bandeira Nacional.
    Smbolo nacional idealizado por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Le-
 mos, baseada na antiga bandeira do Brasil Imprio. Ela tremulou pela pri-
 meira vez no dia 19 de novembro de 1889, na cidade do Rio de Janeiro.
 Este dia ficou marcado como sendo o da sua adoo oficial. E hoje vemos
 em nossos calendrios que em todo 19 de novembro  comemorado o dia
 da bandeira.
     Bordada em pano de algodo suas estrelas foram projetadas por um
 astrnomo. A inscrio ao centro substituiu o smbolo da "coroa" e foi um
 resumo feito por Miguel Lemos, um de seus idealizadores, com base em
 princpios positivistas de ordem e progresso.
                                                                                 < Acervo Icone Audiovisual




    Continuando o trabalho iniciado por Comte, o de fazer da Sociolo-
gia uma cincia, numa viso positiva, surge nessa histria o socilogo
francs mile Durkheim (1858-1917). Dar  Sociologia uma reputao
cientfica foi o seu principal trabalho.
     a partir desse pensador que a Sociologia ganha um formato mais
"tcnico", sabendo o que e como ela iria buscar na sociedade. Com m-
todos prprios, a Sociologia deixou de ser apenas uma idia e ganhou
"status" de cincia.
    Durkheim presenciou algumas das mais importantes criaes da
sociedade moderna, como a inveno da eletricidade, do cinema, dos                         mile Durkheim
carros de passeio, entre outros. No seu tempo, havia um certo otimis-
mo causado por essas invenes, mas Durkheim tambm percebia en-
traves nessa sociedade moderna: eram os problemas de ordem social.
    E uma das primeiras coisas que ele fez foi propor regras de obser-
vao e de procedimentos de investigao que fizessem com que a So-
ciologia fosse capaz de estudar os acontecimentos sociais de manei-
ra semelhante ao que faz a Biologia quando olha para uma clula, por
exemplo.


                                                        As teorias sociolgicas na compreenso do presente           33
       Ensino Mdio

                                   Falando em Biologia nota-se que o seu objeto de estudo  a vida
                              em toda a sua diversidade de manifestaes. As pesquisas dos fenme-
                              nos da natureza feitas pela Biologia so resultantes de vrias observa-
                              es e experimentaes, manipulveis ou no.
                                   J para a Sociologia, manipular os acontecimentos sociais, ou repe-
                              ti-los,  muito difcil. Por exemplo, como poderamos reproduzir uma
                              festa ou um movimento de greve "em laboratrio" e sempre de igual
                              modo? Seria impossvel.

                              z Os fatos sociais  objetos nas mos
                                  Mas Durkheim acreditava que os acontecimentos sociais  como os
                              crimes, os sucidios, a famlia, a escola, as leis  poderiam ser obser-
                              vados como coisas (objetos), pois assim, seria mais fcil de estud-los.
                              Ento o que ele fez ? Props algumas das regras que identificam que
                              tipo de fenmeno poderia ser estudado pela Sociologia. A esses fen-
                              menos que poderiam ser estudados por uma cincia da sociedade ele
                              denominou de fatos sociais.
                                  E as caractersticas dos fatos sociais so:
                              = Coletivo ou geral  significa que o fenmeno  comum a todos os
                                  membros de um grupo;
                              = Exterior ao indivduo  ele acontece independente da vontade indi-
                                  vidual;
                              = Coercitivo  os indivduos so "obrigados" a seguir o comportamen-
                                  to estabelecido pelo grupo.




                                                                                                                            < Foto: Icone Audiovisual.




                                Para entender melhor, veja o exemplo de um fato social: o casamento
                               As pessoas pensam, em um dia, se casar. Salvo algumas excees, pois no pensamos todos da
                               mesma forma, certo? Mas se fizermos uma pesquisa, veremos que a grande maioria das pesso-
                               as deseja se unir a algum.

34   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                 Sociologia

   Ento podemos dizer que o casamento  um fato coletivo ou geral, pois
existe pela vontade da maioria de um grupo ou de uma sociedade.

                                                      Isso significa que o fato social "casamento"  exte-
      Mas ainda que algum no
                                                 rior ao indivduo. O que quer dizer que ele se constitui
  queira se casar, a grande maio-
                                                 no como resultado das intenes particulares dos indi-
  ria das pessoas vai continuar
                                                 vduos, mas como resposta s necessidades ou influn-
  querendo, no  mesmo?
                                                 cias do grupo, da comunidade ou da sociedade.

    Outra coisa. No  verdade que os mais velhos ficam nos "incen-
tivando" a casar? "No v ficar pra titia, heim!", "Onde j se viu! Todo
mundo, um dia, tem que se casar!". Com certeza voc j ouviu algum
dizendo isso.
    Pois . Esses dizeres nos levam a crer que o casamento tambm 
coercitivo, pois nos vemos "obrigados" a fazer as mesmas coisas que
fazem os demais membros do grupo ou da sociedade a que perten-
cemos.
    Todo fato que reuna essas trs caractersticas (generalizao, exte-
rioridade e coero)  denominado social, segundo Durkheim, e pode
ser estudado pela Sociologia. Quanto ao casamento, poderamos es-
tudar e descobrir, por exemplo, quais fatores influem na deciso das
pessoas em se casarem e se divorciarem para depois se casarem no-
vamente.

      Perceba, ento: No apenas com o casamento...
     Essas regras so da mesma maneira aplicadas ao trabalho,  escola,
   moda, aos costumes do nosso povo,  lngua, etc.




                 ATIVIDADE

     O que  fato social?
     Faa o exerccio de localizar os fatos sociais a partir das caractersticas que Durkheim percebeu ne-
 les. Recorte de jornais e revistas e traga para que a turma discuta se os fatos que voc encontrou so
 sociais e podem ser estudados pela Sociologia.




    Veja que interessante...
    Para Durkheim, a sociedade s pode ser entendida pela prpria so-
ciedade. As aes das pessoas no acontecem por acaso. A sociedade-
as influencia. Voc concorda com isso? Veja o exemplo na pgina se-
guinte e tire suas concluses.


                                                      As teorias sociolgicas na compreenso do presente      35
       Ensino Mdio

                                   O Suicdio = Fato Social
                                   O que leva uma pessoa a se suicidar? Loucura?
                                   Durkheim utilizou sua teoria para explicar, por exemplo, o suicdio.
                              O que aparentemente seria um ato individual, para ele, estava ligado
                              com aquilo que ocorria na sociedade.
                                   Esse pensador compreende a sociedade como um corpo organiza-
                              do. Assim como a Biologia que compreende o corpo humano e todas
                              suas partes em pleno funcionamento.
                                   O mdico Joaquim Monte, em seu livro "Promoo da qualidade de
                              vida" (1997) considera o corpo humano como sendo um "organismo
                              vivo concebido sob forma de uma estrutura que apresenta constituio
                              e funo (um conjunto organizado de elementos biticos de anatomia
                              e fisiologia). A estrutura do corpo humano representa a dimenso or-
                              gnica da pessoa: a carne da qual somos constitudos (matria org-
                              nica com suas caractersticas constitucionais e suas propriedades fun-
                              cionais) e que tem a potencialidade de reproduzir, nascer, maturar,
                              crescer, desenvolver, agir, adaptar, adoecer, sarar e morrer" (p. 257).
                                    de maneira semelhante que Durkheim entende a sociedade: com
                              suas partes em operao e cumprindo suas funes. E, caso a fam-
                              lia, a igreja, o Estado, a escola, o trabalho, os partidos polticos, etc.,
                              que so elementos da sociedade com funes especficas, venham a
                              falhar no cumprimento delas, surge no corpo da sociedade aquilo que
                              Durkheim chamou de anomia, ou seja, uma patologia. Assim, como no
                              corpo humano, se algo no funcionar bem, em "ordem", significa que
                              est doente.
                                   D uma olhada nas manchetes abaixo e reflita: o que leva esse fa-
                              to a ocorrer com muito mais freqncia no Japo do que aqui no Bra-
                              sil, ou em outro pas?

                                Problemas financeiros e de sade aumentam suicdios no Japo
                                < 23/07/2004  09h38 - data de publicao.
                                < http://opt.zip.net/arch2004-07-18_2004-07-24.html - acesso em 20/mar/2005.


                                Nove morrem em suicdio coletivo no Japo
                                < O5/02/2005  08h24  data de publicao.
                                < http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0%2C%2COI467123-EI294%2C00.html - acesso em 20/
                                  Mar/2005


                                 Andar em `desconformidade' com o que seria tido como ideal na
                              sociedade pode ser fator altamente propcio ao suicdio no Japo. No
                              ser aprovado no vestibular ou se endividar podem ser exemplos de
                              `desconformidade' nessa sociedade.




36   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                    Sociologia

   A propsito desse tema, Durkheim verificou que existem trs cate-
gorias de suicdios. Analise-os:
= Suicdio Altrusta: ocorre quando um indivduo valoriza a sociedade
   mais do que a ele mesmo, ou seja, os laos que o unem  socieda-
   de so muito fortes. Deixe-me lembrar voc do ocorrido em 11 de
   Setembro de 2001. Homens, em atos aparentemente "loucos", pilo-
   tavam avies que se chocaram contra o World Trade Center em No-
   va York, lembra? Para Durkheim, os agentes dessa aparente "lou-
   cura" poderiam ser classificados como suicidas altrustas, pois se
   identificavam de tal forma como o grupo Al Qaeda, ao qual per-
   tenciam, que se dispuseram a morrer por ele. Da mesma maneira
   aconteceu com os kamikases japoneses durante a 2 Guerra Mun-
   dial (1939-1945) e que, de certa forma, continua acontecendo com
   os "homens-bomba" de hoje. Se voc assistir ao filme "O Patriota",
   com Mel Gibson, poder ver um exemplo de algum que se disps
   a morrer por uma causa que acreditava em relao ao seu pas, no
   caso, a Inglaterra.
= Suicdio Egosta: se algum se desvinculasse das instituies sociais
   (famlia, igreja, escola, partido poltico, etc.) por conta prpria, pa-
   ra viver de maneira livre, sem regras, qual seria o limite para es-
   sa pessoa, uma vez que ningum a controlaria? Pois , segundo
   Durkheim, a falta de redes de convvio ou limites para a ao po-
   deria levar a pessoa a desejar ilimitadas coisas. Mas caso tal pessoa
   no consiga realizar os seus desejos, a frustrao poderia lev-la a
   um suicdio.
= Suicdio Anmico: este tipo pode acontecer quando as partes do cor-
   po social deixam de funcionar e as normas ou laos que poderiam
   "abraar"(solidarizar) os indivduos perdem sua eficcia, deixando-
   os viver de forma desregrada ou em crise. Um exemplo disso pode
   ser pensado quando, na nossa sociedade, uma famlia abandona o
   filho, ou o idoso, ou o doente.



                 PESQUISA

     Pesquisa de dados
    Procure na internet, jornais, livros ou revistas, a origem dos suicdios atuais para discutirmos  luz do
 que pensa Durkheim. Verifique sua teoria analisando alguns fatos.
     Qual a relao entre o corpo humano, estudado pela Biologia, e o corpo da sociedade, pensado
 por Durkheim?




                                                       As teorias sociolgicas na compreenso do presente        37
       Ensino Mdio

                                   E o mundo moderno para Durkheim?
                                  A humanidade, para esse autor, est em constante evoluo, o que
                              seria caracterizado pelo aumento dos papis sociais ou funes. Por
                              exemplo, para Durkheim, existem sociedades que organizam-se sob a
                              forma de um tipo de solidariedade denominada mecnica e outras so-
                              ciedades organizam-se sob a forma de solidariedade orgnica.
                                  As sociedades organizadas sob a forma de solidariedade mecnica
                              seriam aquelas nas quais existiriam poucos papis sociais. Segundo
                              Durkheim, nessas sociedades, os membros viveriam de maneira seme-
                              lhante e, geralmente, ligados por crenas e sentimentos comuns, o que
                              ele chama de conscincia coletiva. Neste tipo de sociedade existiria pou-
                              co espao para individualidades, pois qualquer tentativa de atitude "in-
                              dividualista" seria percebida e corrigida pelos demais membros.
                                   A organizao de algumas aldeias indgenas poderiam servir de
                              exemplo de como se d a solidariedade mecnica: grupos de pesso-
                              as vivendo e trabalhando semelhantemente, ligados por suas crenas e
                              valores. Nesses grupos, se algum comeasse a agir por conta prpria,
                              seria fcil perceber quem estaria "tumultuando" o modo de vida local.
                              Outro exemplo que pode caracterizar a solidariedade mecnica so os
                              mutires para colheita em regies agrrias ou para reconstruir casas
                              devastadas por vendavais e, ainda, so exemplos tambm as campa-
                              nhas para coletar alimentos.
                                   Diferentemente das sociedades organizadas em solidariedade me-
                              cnica, nas sociedades de solidariedade orgnica  tpicas do mundo
                              moderno - existem muitos papis sociais. Pense na quantidade de tare-
                              fas que pode haver nas reas urbanas, nas cidades: so muitas as fun-
                              es e atividades. Durkheim acreditava que mesmo com uma grande
                              diviso e variedade de atividades, todas elas deveriam cooperar entre
                              si. Por isso, deu o nome de orgnica (como se fosse um organismo).
                                  Mas, nessas sociedades, diante da existncia de inmeros papis
                              sociais, diminui o grau de controle da sociedade sobre cada pessoa. A
                              individualidade, sob menor controle, passa a ser uma porta para que a
                              pessoa pretenda aumentar, ainda mais, o seu raio de ao ou de posi-
                              es dentro da sociedade.
                                  Uma das maiores expresses da anomia no mundo moderno, se-
                              gundo Durkheim, seria esta: o egosmo das pessoas. E a causa desta
                              atitude seria a fragilidade das normas e controles sobre a individuali-
                              dade, normas e controles que nas sociedades de solidariedade mec-
                              nica funcionam com maior eficcia
                                  Qual seria, ento, a soluo para o mundo moderno, segundo
                              Durkheim?




38   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                           Sociologia

    J que ele compara a sociedade com um corpo, deve haver algo ne-
la que no est cumprindo sua funo e gerando a patologia (a ano-
mia, a doena). O corpo precisa de diagnstico e remdio. Segundo
ele, a Sociologia teria esse papel, ou seja, o de encontrar as "partes"
da sociedade que esto produzindo fatos sociais patolgicos e apontar
para a soluo do problema. Durkheim chegou a fazer, para as escolas
francesas, propostas de valores tais como `o respeito da razo, da ci-
ncia, das idias e sentimentos em que se baseia a moral democrtica',
visando contribuir  restaurao da ordem social naquela sociedade.


z Uma outra maneira de ver a sociedade...
    O pensamento do socilogo que estudare-
mos a seguir vai em direo diferente ao que
vimos at agora. Max Weber (1864-1920), ao
contrrio de Durkheim e Comte, acreditou na
possibilidade da interpretao da sociedade
partindo no dos fatos sociais j consolidados
e suas caractersticas externas (leis, instituies,
normas, regras, etc). Props comear pelo indi-            Max Weber
vduo que nela vive, ou melhor, pela verificao
das "intenes", "motivaes", "valores" e "expectativas" que orientam
as aes do indivduo na sociedade. Sua proposta  a de que os indi-
vduos podem conviver, relacionar-se e at mesmo constituir juntos al-
gumas instituies (como a famlia, a igreja, a justia), exatamente por-
que quando agem eles o fazem partilhando, comungando uma pauta
bem parecida de valores, motivaes e expectativas quanto aos objeti-
vos e resultados de suas aes. E mais, seriam as aes recprocas (re-
petidas e "combinadas") dos indivduos que permitiriam a constituio
daquelas formas durveis (Estado, Igreja, casamento, etc.) de organi-
zao social.
    Weber desenvolve a teoria da Sociologia Compreensiva, ou seja,
uma teoria que vai entender a sociedade a partir da compreenso dos
`motivos' visados subjetivamente pelas aes dos indivduos.
    Uma crtica de Weber aos positivistas, entre os quais se encontrariam
Comte e Durkheim, deve-se ao fato de que eles pretendiam fazer da
Sociologia uma cincia positiva, isto  , baseada nos mesmos mtodos
de investigao das cincias naturais. Segundo Weber, as cincias natu-
rais (biologia, fsica, por exemplo) conseguiriam explicar aquilo que es-
tudam ( a natureza) em termos de descobrir e revelar relaes causais
diretas e exclusivas, que permitiriam a formulao de leis de funciona-
mento de seus eventos, como as leis qumicas e fsicas que explicam o




                                                 As teorias sociolgicas na compreenso do presente     39
       Ensino Mdio

                              fenmeno da chuva. Mas a cincia social no poderia fazer exatamente
                              o mesmo. Segundo Weber, no haveria como garantir que uma ao ou
                              fenmeno social ocorrer sempre de determinada forma, como respos-
                              ta direta a esta ou aquela causa exclusiva. No caso das Cincias Huma-
                              nas, isso ocorre porque o ser humano possui "subjetividade", que apa-
                              rece na sua ao na forma de valores, motivaes, intenes, interesses
                              e expectativas.
                                  Embora esses elementos que compem a subjetividade humana se-
                              jam produtos culturais, quer dizer, produtos comuns acolhidos e assu-
                              midos coletivamente pelos membros da sociedade, ou do grupo, ainda
                              assim se v que os indivduos vivenciam esses valores, motivaes e ex-
                              pectativas de modos particulares. s vezes com aceitao e reproduo
                              dos valores e normas propostas pela cultura comum do grupo; outras
                              vezes, com questionamentos e reelaborao dessas indicaes e at re-
                              jeio das mesmas.
                                  Decorre dessa caracterstica (de certa autonomia, criatividade e in-
                              ventividade do ser humano diante das obrigaes e constrangimentos
                              da sociedade) a dificuldade de se definir leis de funcionamento da ao
                              social que sejam definitivas e precisas.
                                  Por isso, o que a Sociologia poderia fazer, seria desenvolver procedi-
                              mentos de investigao que permitissem verificar que conjunto de "mo-
                              tivaes", valores e expectativas compartilhadas, estaria orientando a
                              ao dos indivduos envolvidos no fenmeno que se quer compreender,
                              como uma eleio, por exemplo. Seria possvel sim, prever, com algum
                              acerto, como as pessoas votaro numa eleio, pesquisando sua "sub-
                              jetividade", ou seja, levantando qual , naquela ocasio dada, o conjun-
                              to de valores, motivaes, intenes e expectativas compartilhadas pelo
                              grupo de eleitores em foco, e que serviro para orientar sua escolha elei-
                              toral. Esses pressupostos esto por detrs das conhecidadas "pesquisas
                              de inteno de voto", bastante freqentes em vsperas de eleies.
                                   Vamos tentar ver isso na prtica...
                                  Segundo Weber, as pessoas podem atuar, em geral, mesclando qua-
                              tro tipos bsicos de ao social. So eles:
                              = A ao racional com relao a fins: age para obter um fim objetivo
                                  previamente definido. E para tanto, seleciona e faz uso dos meios
                                  necessrios e mais adequados do ponto de vista da avaliao. O
                                  que se destaca, aqui,  o esforo em adequar, racionalmente, os fins
                                  e os meios de atingir o objetivo. Na ao de um poltico, por exem-
                                  plo, podemos ver um foco: o de obter o cargo com o poder que de-
                                  seja a fim de...Bom. A depende do poltico.
                                  Agora, "dando um tempo" nas teorias, veja o que Weber pensa so-
                              bre a poltica: ele nos fala no livro Cincia e Poltica  Duas vocaes




40   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                             Sociologia

(2002), que h dois tipos de polticos que por ns so eleitos. Acom-
panhe:
a) Os polticos que exercem essa profisso por vocao, ou seja, os
    que tm o poder como meta para trabalhar arduamente em prol
    da sociedade que os elegeu. Podemos dizer, em concordncia com
    Weber, que estes so os que vivem para a poltica, certo?
b) E os que so polticos sem vocao, ou seja, que olham para a po-
    ltica como se fosse um "emprego" apenas. So aqueles que, uma
    vez eleitos, geralmente se esquecem dos compromissos sociais que
    assumiram, pouco fazem pelo social, trabalham apenas para man-
    ter-se no poder a fim de continuar ganhando o salrio. Weber diz
    que estes so os que vivem da poltica.
    Bem. Fechados os parnteses tericos, voltemos aos demais tipos
de ao.
= A ao racional com relao a valores, ocorreria porque, muitas ve-
    zes, os fins ltimos de ao respondem a convices, ao apego fiel
    a certos valores (honra, justia, honestidade...). Neste tipo, o senti-
    do da ao est inscrito na prpria conduta, nos valores que a mo-
    tivaram e no na busca de algum resultado previa e racionalmente
    proposto. Por esse tipo de ao podemos pensar as religies. Nin-
    gum vai a uma igreja ou pertence a determinada religio, de livre
    vontade, se no acredita nos valores que l so pregados. Certo?
= Na ao afetiva a pessoa age pelo afeto que possui por algum ou
    algo. Uma serenata pode ser vista como uma ao afetiva para
    quem ama, no  mesmo?
= A ao social tradicional  um tipo de ao que nos leva a pensar
    na existncia de um costume. O ato de tomar chimarro ou pedir a
    beno dos pais na hora de dormir so aes que podem ser pen-
    sadas pela ao tradicional.
    Agora, entendendo a sociedade por Weber...
    Muito bem. A idia de Weber para se entender a sociedade  a se-
guinte: se quisermos compreender a instituio igreja, por exemplo,
vamos ter que olhar os indivduos que a compem e suas aes. Pro-
vavelmente haver um grupo significativo de pessoas que agem do
mesmo modo, quer dizer, partilhando valores, desejos e expectativas
quanto  religio, o que resultaria no que Weber chama de relao so-
cial.
    A existncia da relao social dos indivduos, ou seja, uma combi-
nao de aes que se orientam para objetivos parecidos,  que faz
compreender o `porqu' da existncia do todo, como neste prprio
exemplo da igreja.  assim que, as normas, as leis e as instituies so
formas de relaes sociais durveis e consolidadas.




                                                   As teorias sociolgicas na compreenso do presente     41
       Ensino Mdio

                                  Os tipos de ao, para Weber, sempre sero construes do pensa-
                              mento, isto , suposies tericas baseadas no conhecimento acumu-
                              lado, que o socilogo far para se aproximar ao mximo daquilo que
                              seria a ao real do indivduo nas circunstncias ou no grupo em que
                              vive. Com esse instrumento, o socilogo pode avaliar, na anlise de
                              um fenmeno, o que se repete, com que intensidade, e o que  novo
                              ou singular, comparando-o com outros casos parecidos, j conhecidos
                              e resumido numa tipologia.
                                  Por exemplo, se h algum apaixonado que voc conhea, qual se-
                              ria o tipo ideal de ao desta pessoa? A afetiva! Assim sendo, seria "f-
                              cil" prever quais seriam as possveis atitudes desta pessoa: mandar flo-
                              res e presentes, querer que a hora passe logo para estar com ela(e),
                              sonhar acordado e coisas do tipo. E assim poderamos entender, em
                              parte, como se forma a instituio famlia. Uma coisa liga a outra.
                                  Outro exemplo. Pode ser que algum perto de voc nem pense em
                              querer se apaixonar para no atrapalhar os estudos. Sua meta  a uni-
                              versidade e uma tima profisso. Ento, o que temos aqui? Uma ao
                              racional! Para esta pessoa nem adiantaria mandar flores ou "torpedos",
                              certo? O que no significa que no possamos tentar, no  mesmo?




                                                                                                          < Foto: Joo Urban




                                 Quanto ao sistema capitalista e mundo moderno...
                                 O que pensa Weber?
                                 Uma contribuio relevante de Weber, neste caso,  demonstrar
                              que a montagem do modo de produo capitalista, no ocidente euro-
                              peu, principalmente, contou com a existncia, em alguns pases, de
                              uma `pauta' de valores de fundo religioso que ajudou a criar entre cer-
                              tos indivduos, predisposies morais e motivaes para se envolve-
                              rem na produo e no comrcio de tipo capitalista.


42   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                Sociologia

    Na crena dos calvinistas, os homens j nasceriam predestinados  sal-     Para relembrar...
vao ou ao inferno, embora no pudessem saber, exatamente, seu desti-
                                                                              O Calvinismo tem sua ori-
no particular. Assim sendo, e para fugir da acusao de pecadores e des-      gem nas idias protestan-
merecedores do melhor destino, dedicavam-se a glorificar Deus por meio        tes pregadas por Joo Cal-
do trabalho e da busca do sucesso na profisso.                               vino (1509-1564) que, a
    Com o passar dos tempos, essa idia de que a predestinao e o            exemplo de Martinho Lu-
sucesso profissional seriam indcios de salvao da alma foi perdendo         tero (1483-1546), funda-
fora. Mas o interessante  que a tica estimuladora do trabalho disci-       dor da Igreja Luterana, rom-
plinado e da busca do sucesso nos negcios ganhou certa autonomia             peu com os ensinamentos
e continuou a existir independente da motivao religiosa.                    da Igreja Catlica. Na inten-
                                                                              sa busca do conhecimento
    Para Weber, ser capitalista  sinnimo de ser disciplinado no que         bblico, os calvinistas torna-
se faz. Seria da grande dedicao ao trabalho que resultaria o sucesso        ram-se altamente moralis-
e o enriquecimento. Herana da tica protestante, vlida tambm pa-           tas (puritanos) e muito disci-
ra os trabalhadores.                                                          plinados. Tambm criam que
    Mas por que os catlicos e as outras religies orientais no tiveram      os homens eram predestina-
parte nesta construo capitalista analisada por Weber?                       dos  salvao.
    Porque a tica catlica privilegiava o discurso da pobreza, repro-
vando a pura busca do lucro e da usura e no viam o sucesso no traba-         Para lembrar...
lho como indcios de salvao e nem como forma de glorificar a Deus,
                                                                              Budismo: Sidarta Gautama
como faziam os calvinistas. Assim sendo, sem motivos divinos para de-
                                                                               o Buda  (563a.C-486a.
dicarem-se tanto ao trabalho, no fizeram parte da lista weberiana dos        C) foi o fundador do Budis-
primeiros capitalistas.                                                       mo, uma religio e filoso-
    Quanto s religies do mundo oriental, a explicao seria de que          fia que surgiu na ndia e que
essas tinham uma imagem de Deus como sendo parte do mundo se-                 tem como moral a preserva-
cular, ao contrrio da tica protestante ocidental que o concebia como        o da vida e a moderao,
estando fora do mundo e puro. Assim sendo, os orientais valorizavam           alm de praticar o ensino de
o mundo, pois Deus estaria nele. O Budismo e o Confucionismo so              boas aes, purificao e trei-
                            exemplos do que falamos. E da a idia e a        no da mente (meditao). Os
 < Foto: Icone Audiovisual.                                                   budistas no crem que h
                              prtica de no se viver apenas para o tra-
                                                                              um Deus criador de todas as
                              balho, mas sim de poder aproveitar tudo o
                                                                              coisas.
                     Buda     que se ganha pelo trabalho com as coisas
                              desta vida, entende?
                                  Em relao ao mundo moderno (cientfi-      Para lembrar...
                              co), Weber demonstrava um certo pessimis-       Confucionismo: Filosofia cria-
                              mo e no encontrava sada para os proble-       da pelo pensador chins
                              mas culturais que nele surgiam, assim como      Kung-Fu-Tzu  o Confcio 
                              para a "priso" na qual o homem se encon-       (551a.C  479a.C). Tal filo-
                              trava por causa do sistema capitalista.         sofia tem quatro pilares: a re-
                                                                              ligio, a poltica, a pedagogia
                                  Antes da sociedade moderna, a religio
                                                                              e a moral.
                              era o que motivava a vida das pessoas e
                              dava sentido para suas aes, inclusive ao
                              trabalho. Mas com o pensamento cientfico
                              tomando espao como referencial de mun-
                              do, certos apegos culturais  crenas, for-
                              mas de agir  vindos da religiosidade fo-

                                                  As teorias sociolgicas na compreenso do presente            43
       Ensino Mdio

                              ram confrontados. O problema que Weber via era que a cincia no
                              poderia ocupar por completo o lugar que a religio tinha ao dar sen-
                              tido ao mundo.
                                  Se, em contextos histricos anteriores, o trabalho poderia ser mo-
                              tivado pela religio, como foi explicado anteriormente, e agora no 
                              mais, devido  racionalizao do mundo, por que, ento, o homem se
                              prende tanto ao trabalho?
                                  Porque o sistema capitalista  da produo industrial em srie e
                              da explorao da mo-de-obra  deixou o homem ocidental sem uma
                              "vlvula de escape". Preso, agora ele vive do e para o trabalho.



                       ATIVIDADE

        Contrapondo...
        No que difere o raciocnio de Weber em relao ao de Durkheim sobre a maneira de ver a socieda-
     de? Justifique.
        Como Durkheim e Weber nos auxiliam a compreender o sistema capitalista e o mundo moderno?



                              z Seguindo para mais um clssico da Sociologia:
                                A crtica da sociedade capitalista.
                                  Vamos falar agora de quem tambm viu a consolidao da socieda-
                              de capitalista e fez uma forte crtica a ela. O alemo, filsofo e econo-
                              mista Karl Marx (18181883), foi um dos responsveis, se no o maior
                              deles, em promover uma discusso crtica da sociedade capitalista que
                              se consolidava, bem como da origem dos problemas sociais que este
           Karl Marx
                              tipo de organizao social originou.
                                  E veja, tambm, que interessante. Para ele "a histria de todas as so-
                              ciedades tem sido a histria da luta de classes".
                                  Mas como assim, lutas de classe? Quais so elas?
                                  Nas sociedades de tipo capitalista a forma principal de conflito
                              ocorre entre suas duas classes sociais fundamentais: a burguesia ver-
                              sus o proletariado.
                                  Voc se lembra que comentamos no primeiro "Folhas" como foi
                              que surgiu a chamada burguesia e por que ela ficou conhecida assim ?
                              Pois bem, segundo Marx, a burguesia foi tendo acesso, a partir da ati-
                              vidade comercial  posse dos meios de produo, enriqueceu e tam-
                              bm passou a fazer parte daqueles que controlavam o aparelho estatal,
                              o que acabou, por fim funcionando, principalmente como uma espcie


44   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
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de "escritrio burgus". Com esse acesso ao poder do aparelho estatal,
a burguesia foi capaz de usar sua influncia sobre ele para ir criando
leis que protegessem a propriedade privada (particular), condio in-
dispensvel para sua sobrevivncia, alm de usar o Estado para facili-
tar a difuso de sua ideologia de classe, isto , os seus valores de in-
terpretao do mundo.
    Enquanto isso, a classe assalariada (os proletrios), sem os meios
de produo e em desvantagem na capacidade de influncia poltica            Ideologia:
na sociedade, transforma-se em parte fundamental no enriquecimen-            Segundo Marx e Engels, o
to da burguesia, pois oferecia mo-de-obra para as fbricas, (as novas       termo se encaixa na tra-
unidades de produo do mundo moderno).                                      duo de "falsa conscin-
    Marx se empenhava em produzir escritos que ajudassem a classe            cia", ou seja, um conjunto
proletria a organizar-se e assim sair de sua condio de alienao.         de idias falsas que justifi-
                                                                             cavam o domnio burgus
    Alienado, segundo Marx, seria o homem que no tem controle so-           e camuflava a existncia
bre o seu prprio trabalho, em termos de tempo e em termos daquilo           da dominao desta clas-
que  produzido, coisa que o capitalismo faz em larga escala, pois o         se sobre a classe trabalha-
tempo do trabalhador e o produto (a mercadoria) pertencem  burgue-          dora.
sia, bem como a maior parte da riqueza gerada por meio do trabalho.
    Falando em lucro...
    O objetivo do sistema capitalista, como modo de produo,  justa-
mente a ampliao e a acumulao de riquezas nas mos dos proprie-
trios dos meios de produo. Mas de onde sai essa riqueza? Marx di-
ria que  do trabalho do trabalhador.




                                                                                                             < Foto: Joo Urban




                                                As teorias sociolgicas na compreenso do presente                           45
         Ensino Mdio

                                         Veja um exemplo. Quantos sofs por ms um trabalhador pode fa-
                                     zer? Vamos imaginar que sejam 15 sofs, os quais multiplicados a um
                                     preo de venda de R$ 300,00 daria o total de R$ 4.500,00.
                                         E quanto ganha um trabalhador numa fbrica? Imagine que seja uns
                                     R$ 1.000,00, para sermos mais ou menos generosos.
                                         Bem, os R$ 4.500,00 da venda dos sofs, menos o valor do sa-
                                     lrio do trabalhador, menos a matria-prima e impostos (imagine-
                                     mos R$ 1.000,00) resulta na acumulao de R$ 2.500,00 para o do-
                                     no da fbrica.
                                         Esse lucro Marx chama de mais-valia, pois  um excedente que
                                     sai da fora de cada trabalhador. Veja, se os meios de produo per-
                                     tencessem a ele, o seu salrio seria de R$ 3.500,00 e no apenas
                                     R$ 1.000,00.
                                         Ento podemos dizer que o trabalhador est sendo roubado? No
                                     podemos dizer isso, pois o que aqui exemplificamos  conseqncia
                                     da existncia da propriedade privada e de os meios de produo nas
                                     mos de uma classe, a burguesia.
                                         Para entender a sociedade, por Marx
                                         Devemos partir do entendimento de que as coisas materiais fazem
                                     a sociedade acontecer. De outra maneira, seria dizer que tudo o que
                                     acontece na sociedade tem ligao com a economia e que ela se trans-
                                     forma na mesma medida em que as formas de produo tambm se
                                     transformam. Por exemplo, com a consolidao do sistema capitalista,
                                     toda a sociedade teve que organizar-se de acordo com os novos mol-
                                     des econmicos.
                                         Marx tambm via o homem como aquele que pode transformar a
                                     sociedade fazendo sua histria, mas enfatiza que nem sempre ele o faz
                                     como deseja, pois as heranas da estrutura social influenciam-no. As-
                                     sim sendo, no  unicamente o homem quem faz a histria da socie-
                                     dade, pois a histria da sociedade tambm constri o homem, numa
                                     relao recproca. Entendeu?
                                         Vamos tentar explicar melhor. As condies em que se encontram a
                                     sociedade vo dizer at que ponto o homem pode construir a sua his-
                                     tria. Por essa lgica podemos pensar que a classe dominante, a bur-
                                     guesia, tem maiores oportunidades de fazer sua histria como dese-
                                     ja, pois tem o poder econmico e poltico nas mos, ao contrrio da
     Socialismo:                     classe proletria que, por causa da estrutura social, est desprovida de
                                     meios para tal transformao. Para modificar essa situao somente
 Pressupe uma sociedade na
                                     por intermdio de uma revoluo, pois assim a classe trabalhadora po-
 qual os meios de produo
                                     de assumir o controle dos meios de produo e tomar o poder polti-
 pertenam a todos os seus
                                     co e econmico da burguesia.
 membros. Para tal, o sistema
 capitalista deveria ser superado,       Para Marx, a classe trabalhadora deveria organizar-se politicamen-
 deixando de existir a proprieda-    te, isto , conscientizar-se de sua condio de explorada e dominada
 de privada e passando a existir     por meio do trabalho e transformar a sociedade capitalista em socialis-
 a "propriedade coletiva".           ta por intermdio da revoluo.

46    O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                  Sociologia



                ATIVIDADE

    Pensando como Marx...
    Como a teoria de Marx nos ajuda a entender a sociedade contempornea?
    A pobreza no Brasil e no mundo pode ser pensada como sendo uma das conseqncias do siste-
 ma capitalista? Por qu?
    No que Marx diferencia-se dos demais autores vistos at aqui?




z Referncias:
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  _______________. O suicdio. 6. Ed. Lisboa: Presena, 1996.
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  SELL, C. E. mile Durkheim. In.: Sociologia Clssica: Durkheim, Weber e Marx  3 ed.  Itaja: Ed. Uni-
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                                                     As teorias sociolgicas na compreenso do presente        47
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                                             A PRODUO
                                             SOCIOLGICA
                                              BRASILEIRA           <Everaldo Lorensetti1




                                          -- E o Brasil?
                                          -- O Brasil? Como assim? O que tem ele?
                                          -- Mas  isto mesmo o que queremos saber...
                                          -- O que tem o Brasil?

                                            fato  que at aqui vimos apenas teorias
                                            sociolgicas "importadas".
                                            Mas ser que tais teorias, de pensadores
                                           que no viveram a realidade deste que 
                                          gigante pela prpria natureza, belo, forte,
                                       um impvido colosso, e que tem um futuro
                                       que espelha sua enorme grandeza, podem dar
                                       contar de explicar o que acontece por aqui?


                                       O que h de VERDE e
                                                           AMARELO na SOCIOLOGIA?




1
 Colgio Estadual Chateaubriandense.
Assis Chateaubriand - PR
       Ensino Mdio

                                  Bom, antes de estudarmos a produo sociolgica brasileira, gosta-
                              ria de mencionar, bem rapidamente, uma idia que pode nos ajudar a
                              pensar sobre um aspecto muito importante: a escolha das teorias para
                              refletirmos sobre a sociedade.
                                  Vamos imaginar que durante a leitura destes textos voc se identifi-
                              cou muito com os elementos que Karl Marx nos fornece para interpre-
                              tao da sociedade, isto , pela lgica econmica e material.
                                  Mas veja. Ser que a teoria marxista, apenas, seria suficiente para
                              entender todas as questes sociais, como por exemplo, o movimento
                              feminista, a unio de casais homossexuais, os suicdios dos homens-
                              bomba, as religies, etc.?
                                  Bem, o que estamos querendo transmitir com essa reflexo  que,
                              o ideal,  no termos posturas doutrinrias quanto  teoria que mais
                              gostamos, como se fosse uma espcie de "verdade absoluta", no acei-
                              tando, portanto, a contribuio que outras teorias podem nos dar para
                              o trabalho de reflexo sobre a sociedade.
                                  Portanto, o que devemos fazer  exercitar uma "conversa" com as
                              mesmas para, ento, elegermos a teoria que seja mais adequada  situ-
                              ao que queremos entender. Ok?
                                  E falando em teorias...


                              z A Sociologia no Brasil...
                                  Podemos dizer que a Sociologia brasileira comea a "engatinhar" a
                              partir da dcada de 1930, vindo a se fortalecer nas dcadas seguintes.
                                  Apesar de alguns autores da sociologia dizerem que no h uma
                              data correta que marca o seu comeo em solo brasileiro, essa poca
                              parece ser a mais adequada para se falar em incio dos estudos socio-
                              lgicos no Brasil.
                                  Quando dizemos "data mais adequada",  porque as produes li-
                              terrias que surgem a partir dessa dcada (1930) comeam a demons-
                              trar um interesse na compreenso da sociedade brasileira quanto  sua
                              formao e estrutura.
                                  Mas note no estamos afirmando que antes da data acima ningum
                              havia se proposto a entender nossa sociedade. Antes da dcada de
                              1930 muitos ensaios sociolgicos sobre o Brasil foram elaborados por
                              historiadores, polticos, economistas, etc. No entanto, na maioria des-
                              tes trabalhos, os autores apresentavam a tendncia de escrever sobre
                              raa, civilizao e cultura, mas no tentavam explicar a formao e a
                              estrutura da sociedade brasileira.
                                   A partir de 1930, surge no Brasil um perodo no qual a reflexo sobre
                              a realidade social ganha um carter mais investigativo e explicativo.



50   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                               Sociologia

    Esse carter mais investigativo e explicativo foi impulsionado pelos     Movimento Modernis-
muitos movimentos que estimularam uma postura mais crtica sobre o          ta: Lutava para que as regras
que acontecia na sociedade brasileira. Dentre alguns destes movimen-        vigentes sobre a arte e a lite-
tos esto o Modernismo, a formao de partidos (sobretudo o partido         ratura deixassem de "enges-
comunista) e os movimentos armados de 1935.                                 sar" a produo brasileira. A
    Movimentos como esses, de alguma forma, traziam transformaes          inteno do movimento era
                                                                            que os moldes internacionais
de ordem social, econmica, poltica e cultural ao pas, e despertavam
                                                                            no sufocassem o que vies-
o interesse de pensadores em dar explicaes a tais fenmenos. Aos
                                                                            se a ser arte com um jeito
poucos a Sociologia passa a constituir-se como uma forma de reflexo        nacional. A Semana de Arte
sobre a sociedade brasileira. Veja como isso aconteceu:                     Moderna de 1922, em SP,
                                                                            foi uma espcie de marco da
                                                                            independncia da arte brasi-
z Fases da sua implantao                                                  leira.

    Dividindo os acontecimentos da implantao da Sociologia no Bra-
                                                                            Partido Comunista: Fun-
sil como cincia, em fases, ou em gerao de autores, de acordo com         dado em 25 de Maro de
o socilogo brasileiro Otvio Ianni (1926-2003), destacamos aqui trs       1922, tinha o iderio de criar
delas, as quais se complementam:                                            uma cultura socialista no Bra-
                                                                            sil. Com base em tericos co-
    A fase "A" da implantao da Sociologia no Brasil:                      mo o alemo Karl Marx, inau-
                                                                            guraram uma maneira de se
    A primeira gerao da Sociologia brasileira seria composta por
                                                                            fazer poltica voltada aos inte-
aqueles autores que se preocuparam em fazer estudos histricos sobre        resses do proletariado.
a nossa realidade, com um carter mais voltado  Literatura do que pa-
ra a Sociologia.
    Desta gerao de autores, queremos destacar Euclides da Cunha           Movimentos armados de
(1866-1909). Cunha nasceu no Rio de Janeiro, foi militar engenheiro,        1935: Tambm conhecidos
alm de ter estudado Matemtica e Cincias Fsicas e Naturais. Porm,       como o "Levante Comunis-
                                                                            ta". Tiveram como protago-
o que gostava de fazer, como profissional, era o jornalismo.
                                                                            nistas o Partido Comunista
    Em 1895, abandonou o Exrcito e comeou a trabalhar como cor-           (PCB) e os Tenentes de es-
respondente do jornal "O Estado de So Paulo". Nessa funo foi en-         querda do exrcito brasileiro.
viado para a Guerra de Canudos, no interior da Bahia, de onde surgiu        Alguns de seus projetos e lu-
sua maior contribuio  Sociologia brasileira: o livro Os Sertes.         tas eram pelo fim do impe-
    Se analisarmos este livro pelo enfoque literrio, podemos perceber      rialismo e pela existncia de
que Cunha faz, usando seus conhecimentos de Cincias e Fsicas Na-          uma ditadura democrtica.
turais, relatos sobre como era a terra e a paisagem de Canudos. Tam-        Apesar de vencidos, servi-
                                                                            ram para que o PCB ficasse
bm faz a descrio dos homens que ali viviam, ou seja, os sertanejos,
                                                                            conhecido e ganhasse maior
nos quais percebe que, ao contrrio do que pensava antes de conhe-
                                                                            fora no cenrio brasileiro.
c-los, eram fortes e valentes, ainda que a aparncia dos mesmos no
demonstrasse isso.                                                          Ver indicao de filme corres-
                                                                            pondente no final deste tra-
     Por fim, Cunha descreve a guerra, isto , como foi que o governo
                                                                             balho.
da poca conseguiu acabar com o que considerava ser uma revoluo
que reivindicava a volta do sistema monrquico no Brasil. Na verdade




                                                                  A produo sociolgica brasileira            51
        Ensino Mdio

     Guerra de Canudos              Antonio Conselheiro (o lder da Revoluo de Canudos) e seus segui-
     (1897): Aconteceu numa         dores apenas defendiam seus lares, sua sobrevivncia.
     abandonada fazenda no in-
     terior da Bahia que tinha o         " que estava em jogo, em Canudos, a sorte da Repblica..." Diziam-no
     nome de Canudos. As tro-        informes surpreendedores; aquilo no era um arraial de bandidos truculen-
     pas federais massacraram        tos apenas. L existiam homens de raro valor  entre os quais se nomeavam
     milhares de pessoas que         conhecidos oficiais do exrcito e da armada, foragidos desde a Revoluo
     viviam naquele lugar ten-       de Setembro, que o Conselheiro avocara ao seu partido." (CUNHA, 1979: 250).
     do por lder um beato cha-
     mado Antonio Conselheiro
     o qual, a partir de 1890,          Olhando mais pelo lado sociolgico, podemos perceber que Cunha
     comeou a ajunt-los pre-      estava fazendo revelaes quanto  organizao da Repblica que es-
     gando esperana para os        tava sendo consolidada. Canudos era um retrato de uma sociedade re-
     que foram esquecidos pelo      publicana que no conseguia suprir as necessidades bsicas de seu po-
     governo republicano. Con-      vo. Coisa que Antonio Conselheiro, com sua maneira missionria de
     selheiro era visto, pelo go-   ser, acreditava e lutava para acontecer, pois...
     verno, como sendo um l-
     der perigoso e contrrio             "...abria aos desventurados os celeiros fartos pelas esmolas e produ-
     consolidao da Repbli-
                                     tos do trabalho comum. Compreendia que aquela massa, na aparncia in-
     ca. Por isso o objetivo da
                                     til, era o cerne vigoroso do arraial. Formavam-na os eleitos, felizes por terem
     guerra.
                                     aos ombros os frangalhos imundos, esfiapados sambenitos de uma peni-
     Ver indicao de filme no       tncia que lhes fora a prpria vida; bem-aventurados porque o passo trpe-
     final do trabalho.              go, remorado pelas muletas e pelas anquiloses, lhes era a celeridade mxi-
                                     ma, no avanar para a felicidade eterna". (CUNHA, 1979: 132 ).

                                        Aps duas tentativas sem sucesso de "tomar" Canudos  pois os
                                    sertanejos tornavam difcil a vida dos soldados, por conhecerem mui-
                                    to bem a caatinga sertaneja  o governo federal republicano deixou
                                    de subestimar a fora daquelas pessoas que se uniram a Conselheiro.
                                    Convocou para uma terceira expedio batalhes armados de vrios
                                    estados brasileiros e promoveu uma grande guerra e matana naquela
                                    regio, em prol da Repblica.
                                        A observao de Euclides da Cunha e as revelaes que faz quanto
                                     sociedade brasileira em Os Sertes, transforma esta obra em um dos
                                    referenciais de incio do pensamento sociolgico no Brasil.



                         PESQUISA

         Pesquisa para reflexo.
          Faa uma pesquisa, a exemplo de Euclides da Cunha, a respeito dos problemas sociais do seu co-
     tidiano, por exemplo, na rea da educao, sade, transporte coletivo, moradia etc. Escolha pelo me-
     nos duas reas para sua pesquisa e, aps o levantamento dos dados, apresente suas concluses so-
     bre as aes do poder pblico com relao ao que voc investigou.


52   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                Sociologia

    A fase "B" da implantao da Sociologia no Brasil:
    Numa segunda fase de gerao de autores, a preocupao em se fa-
zer pesquisas de campo, que  uma caracterstica das pesquisas socio-
lgicas, comea a ser levada em conta.
    Existem vrios autores desta gerao que poderamos referenciar,
como Gilberto Freyre, Caio Prado Jnior, Srgio Buarque de Holanda,
Fernando de Azevedo, Nelson Wernek Sodr, Raymundo Faoro, etc.
No entanto, vamos nos fixar em dois deles, os quais podem ser vistos
como clssicos do pensamento social brasileiro: Gilberto Freyre e Caio
Prado Jnior.
    Gilberto Freyre foi o autor de Casa Grande & Senzala (1933), livro no
qual demonstrou as caractersticas da colonizao portuguesa, a for-
mao da sociedade agrria, o uso do trabalho escravo e, ainda, como
a mistura das raas ajudou a compor a sociedade brasileira.
    Freyre foi um socilogo que nasceu em Pernambuco no ano de
1900 e, no desenvolver de sua profisso, criou vrias ctedras de So-
ciologia, como na Universidade do Distrito Federal, fundada em 1935.
Freyre faleceu em 1987.
    Quando escreveu Casa Grande & Senzala tinha 33 anos e, anti-racis-
ta que era, inaugurou uma teoria que combatia a viso elitista existen-
te na poca, importada da Europa, a qual privilegiava a cor branca.
Segundo tal viso racista, a mistura de raas seria a causa de uma for-
mao "defeituosa" da sociedade brasileira, e um atraso para o desen-
volvimento da nao.
    Freyre prope um caminho inverso. Em Casa Grande & Senzala ele
comea justamente valorizando as caractersticas do negro, do ndio e
do mestio acrescentando, ainda, a idia de que a mistura dessas raas
seria a "fora", o ponto positivo, da nossa cultura.
    Este autor forneceu, para o seu tempo, uma nova maneira de ver a
constituio da nacionalidade brasileira, isto , o Brasil feito por uma
harmoniosa unio entre o branco (de origem europia), o negro (de
origem africana), o ndio (de origem americana) e o mestio, ressaltan-
do que essa "mistura" contribuiu, em termos de ricos valores, para a
formao da nossa cultura.
    Veja alguns trechos de sua obra a este respeito:

    "Um trao importante de infiltrao de cultura negra na economia e na vi-
 da domstica do brasileiro resta-nos acentuar: a culinria" (FREYRE, 2002)
    "Foi ainda o negro quem animou a vida domstica do brasileiro de sua
 maior alegria."(FREYRE, 2002)
    "Nos engenhos, tanto nas plantaes como dentro de casa, nos tan-
 ques de bater roupa... carregando sacos de acar... os negros trabalha-
 vam sempre cantando." (FREYRE, 2002).



                                                                        A produo sociolgica brasileira    53
       Ensino Mdio

                              No entanto, vale ressaltar aqui que Gilberto Freyre tinha um "olhar"
                              aristocrtico e conservador sobre a sociedade brasileira, pois alm de
                              justificar as elites no governo, sua descrio do tempo da escravido
                              em Casa Grande & Senzala adquire uma conotao harmoniosa, ele no
                              via conflitos nessa estrutura.

                                    Mas se para Gilberto Freyre era um erro pensar que a mistura das raas
                                seria um atraso para o Brasil, h um outro autor que se props a verificar
                                qual seria e onde estaria a origem do atraso da nao brasileira.


                                   Estamos falando de Caio Prado Jnior. Este autor vai nos fornecer
                              uma viso muito mais crtica sobre a formao da nossa sociedade. Ve-
                              ja por qu.
                                   Enquanto Gilberto Freyre fazia uma anlise conservadora da for-
                              mao da sociedade brasileira, Caio Prado recorria  viso marxista, is-
                              to , partindo do ponto de vista material e econmico para o entendi-
                              mento da nossa formao.
                                   Caio Prado Jnior nasceu em 1907 e faleceu em 1990. Formou-se em
                              direito e, de forma auto-didata, leu e tomou para si os ideais de Marx,
                              o que o fez uma pessoa comprometida com o Socialismo.
                                   Caio Prado tambm era uma espcie de "contra-mo" do Partido
                              Comunista Brasileiro no seu tempo, pois um dos militantes daquele
                              partido, Octvio Brando (1896-1980), havia escrito um livro na dca-
                              da de 1920, chamado Agrarismo e Industrialismo no qual apresentava a
                              tese de que o atraso do Brasil, em termos econmicos, estava no fa-
                              to dele ter tido um passado feudal. E esta tese continuou a ser defen-
                              dida pelo PCB com o historiador Nelson Wernek Sodr (1911-1999), que
                              interpretava o escravismo, no Brasil Colonial, como uma caractersti-
                              ca do feudalismo.
      Nelson Wernek Sodr
                                    por essa razo que Caio Prado era contrrio ao Partido Comunis-
                              ta, pois a idia de que no passado o Brasil havia sido feudal era "im-
                              portada" do marxismo oficial, da Europa, e que na sua opinio, no
                              funcionava aqui. E, para Caio Prado, a prova disso estaria no fato de
                              que no sistema feudal o servo no era considerado uma mercadoria,
                              coisa que ocorria aqui com os escravos, o que denota uma caracte-
                              rstica do sistema capitalista (e no feudal) no que tange  anlise da
                              mo-de-obra.
                                   No seu livro Formao do Brasil Contemporneo, publicado em 1942,
                              Caio Prado apresenta a tese de que a origem do atraso da nao brasi-
                              leira estaria vinculada ao tipo de colonizao a que o Brasil foi subme-
                              tido por Portugal, isto , uma colonizao perifrica e exploratria.
                                   Traduzindo para melhor compreendermos... Caio Prado explica
                              que Portugal teve grande contribuio no "nosso atraso" como nao,
                              pois o centro do capitalismo, na poca do "descobrimento" do Brasil,

54   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                    Sociologia

estava na Europa, o que fazia com que as riquezas daqui fossem leva-
das para l. Este tipo de organizao econmica foi denominado de
primria e exportadora, pois os produtos extrados das monoculturas
brasileiras, nos latifndios, eram exportados para os pases que esta-
vam em processo de industrializao.
   Segundo Caio Prado, a Amrica era vista pelos europeus como sendo

      "...um territrio primitivo habitado por rala populao indgena incapaz de
 fornecer qualquer coisa de realmente aproveitvel. Para os fins mercantis
 que se tinham em vista, a ocupao no se podia fazer como nas simples
 feitorias comerciais, com um reduzido pessoal incumbido apenas do neg-
 cio, sua administrao e defesa armada; era preciso ampliar estas bases,
 criar um povoamento capaz de abastecer e manter as feitorias que se fun-
 dassem e organizar a produo dos gneros que interessassem ao seu co-
 mrcio. A idia de povoar surge da, e s da". (PRADO JNIOR, 1942: 24).

    As teses desse autor rompem com as anlises dos autores que an-
tes dele apresentaram um pensamento conservador restrito, isto , de
reproduo daquilo que estava posto na sociedade brasileira e, conse-
qentemente, sem a inteno de apresentar propostas para sua trans-
formao.
    Assim sendo, segundo a viso de Caio Prado, Gilberto Freyre, em
Casa Grande e Senzala, pode ser considerado "conservador". Veja por-
que:
a) seus escritos nos levam a pensar que a miscigenao acontecia
    sempre de maneira harmoniosa. Mas e a relao entre os senhores
    brancos e suas escravas negras, por exemplo? Se verificarmos rela-
    tos da histria veremos que as negras eram foradas a terem rela-
    es sexuais com eles, o que  bem diferente de harmonia.
b) sobre os problemas sociais da poca, Freyre no apresenta nenhu-
    ma proposta para a soluo dos mesmos, ou para a transformao
    da sociedade.
    Para Caio Prado Jnior, os pontos "a" e "b" mencionados acima de-
monstram a postura conservadora de Gilberto Freyre, pois transparece
um certo conformismo com a situao em que se apresentava a socie-
dade. Conformismo que pressupe continuidade, sem transformao.



                 PESQUISA

    Segundo Caio Prado Jnior podemos dizer que a colonizao portuguesa contribuiu para o nosso
 subdesenvolvimento, certo? Pesquise a histria de alguns outros pases que tambm foram "coloniza-
 dos". Procure analisar a forma dessas "colonizaes". Em seguida, verifique se  verdadeira a tese de
 que explorao ocasiona necessariamente subdesenvolvimento.

                                                                            A produo sociolgica brasileira    55
                                                          Ensino Mdio

                                                                                    E a fase "C" da implantao da Sociologia no Brasil:
                                                                                    J a partir dos anos de 1940 novos socilogos comeam a aparecer
                                                                                no cenrio brasileiro.
                                                                                    Esta terceira gerao  formada por socilogos que vieram de di-
                                                                                ferentes instituies universitrias, fundadas a partir de 1930 e inaugu-
                                                                                ram estilos mais ou menos independentes de fazer Sociologia.
                                                                                    Dessa forma, e progressivamente, a intelectualidade sociolgica no
                                                                                Brasil comea a ganhar corpo. Tambm comeam a surgir estilos ou
                                                                                tendncias, o que fez com que surgissem diferentes "escolas" de So-
                                                                                ciologia em So Paulo, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizon-
                                                                                te e em outros lugares.
                                                                                    Dos autores que fazem parte dessa terceira gerao, podemos ci-
     < www.scielo.br/img/revistas/ ea/v9n25/25a02f1.gif




                                                                                tar Oliveira Viana, Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos, dentre
                                                                                vrios outros. Mas vamos nos deter na obra do socilogo paulista
                                                                                Florestan Fernandes (1920-1995), importante nome da Sociologia crti-
                                                                                ca no Brasil.
                                                                                    Qual  a proposta de Sociologia que ele apresenta?
                                                                                    Florestan Fernandes foi um socilogo que fez um contnuo ques-
                                                                                tionamento sobre a realidade social e das teorias que tentavam expli-
                                                                                car essa realidade. O objetivo deste autor foi de, numa intensa busca
                                                                                investigativa e crtica, ir alm das reflexes j existentes.
                                                          Florestan Fernandes            Florestan Fernandes tinha como metodologia "dialogar", de ma-
                                                                                neira muito crtica, com a produo sociolgica clssica, com os auto-
                                                                                res citados no Folhas 02. Mas veja, o dilogo no se dava somente com
                                                                                aqueles autores, pois a lista de clssicos, principalmente modernos, 
                                                                                bem extensa.
                                                                                    Florestan tambm mantinha contnuo dilogo com o pensamento
                                                                                crtico brasileiro. Autores como Euclides da Cunha e Caio Prado Jnior,
                                                                                os quais vimos anteriormente, fazem parte de sua lista de interlocuto-
                                                                                res. O dilogo com esses autores foi fundamental para o seu trabalho
                                                                                de anlise dos movimentos e lutas existentes na sociedade, principal-
                                                                                mente aquelas travadas pelos setores populares.
                                                                                    Um outro aspecto de sua maneira crtica de fazer Sociologia foi a
                                                                                sua afinidade com o pensamento marxista, principalmente sobre o mo-
                                                                                do de analisar a sociedade, o que se constituiu numa espcie de "nor-
                                                                                te" crtico orientador de seu pensamento.
                                                                                    As transformaes sociais que ocorreram a partir de 1930 no Brasil
                                                                                foram, tambm, uma espcie de "motor" para os trabalhos de Flores-
                                                                                tan. Mas no apenas para ele, pois como j mencionamos, essas trans-
                                                                                formaes serviram de impulso para os trabalhos sociolgicos no Bra-
                                                                                sil como um todo. E isso se deu principalmente a partir de 1940, pois
                                                                                essas transformaes se intensificaram muito por causa do aumento da
                                                                                industrializao e da urbanizao.



56                                                 O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                            Sociologia

    Algumas das conseqncias da urbanizao, inclusive gerada pela
migrao de pessoas que, vindas do campo, procuravam trabalho nas
indstrias das grandes cidades, foram o surgimento de problemas de
falta de moradia, desemprego e criminalidade. Essas situaes emer-
gentes, logicamente, tornavam-se temas para a anlise sociolgica.
    Para finalizar, vale ressaltar que a Sociologia crtica que Florestan
inaugura tambm tinha o "olhar" voltado aos mais diversos grupos e
classes existentes na sociedade. Algumas de suas pesquisas com gru-
pos indgenas e sobre as relaes raciais em So Paulo, por exemplo,
tiveram o mrito de fornecer explicaes que se contrapunham s ex-
plicaes dadas pelas classes dominantes da sociedade brasileira.



                 ATIVIDADE

     Contrapondo os autores...
     Com base nos autores que vimos at aqui, construa uma argumentao que diferencie um autor di-
 to "conservador" de um autor "revolucionrio".




    Para exemplificarmos a forma do trabalho sociolgico de Florestan...
    Veja que interessante:
    Uma de suas pesquisas, sobre os negros em So Paulo, demonstrada
no livro A integrao do negro na sociedade de classes, de 1978, vai auxi-
liar nossa explicao. Nesse trabalho, Florestan analisa como os negros
foram sempre situados  margem na nossa sociedade.
    Na presente obra podemos perceber as seguintes caractersticas so-
ciolgicas de Florestan:
a) O interesse em explicar fatos relativos aos setores populares da so-
    ciedade, neste caso, os negros. Florestan queria saber como se deu
    o processo que colocou esse grupo " margem" na sociedade bra-
    sileira. E, mais, queria uma interpretao diferente daquelas que as
    elites da sociedade forneciam a este respeito.
b) Ele se filia ao pensamento crtico brasileiro ao afirmar que o negro
    no era um problema para a nao. Inclusive desenvolve a idia de
    que os negros sempre foram agentes participantes das transforma-
    es sociais do pas, ainda que de maneira menos privilegiada que
    os brancos.
c) Faz uma crtica  sociedade capitalista que no "absorveu" os negros,
    que, segundo as elites da sociedade, encontravam-se em iguais condi-
    es em relao aos brancos e, inclusive, em relao aos inmeros es-
    trangeiros que chegavam ao Brasil para viverem e trabalhar.


                                                                    A produo sociolgica brasileira    57
       Ensino Mdio

                                 Hum... Iguais condies? Ser?
                                 Imagine s... De um dia para outro todos os negros, os que antes
                              foram de maneira desumana tratados como "coisas" e teis apenas pa-
                              ra o trabalho, tornaram-se livres para atuarem nas empresas e comr-
                              cio da poca, se  que assim podemos chamar os empreendimentos
                              daquele tempo, isto , em 1888.

                                    Os negros tentaram, mas "...viram-se repudiados, na medida em que
                                pretenderam assumir os papis de homem livre com demasiada latitude
                                de ingenuidade, num ambiente em que tais pretenses chocavam-se com
                                generalizada falta de tolerncia, de simpatia militante e de solidariedade."
                                (FERNANDES, 1978: 30-31).


                                  Afinal, quem  que daria emprego a um homem que "at ontem 
                              tarde" era no mais que um pertence de algum, isto , um utenslio
                              de um senhor?
                                  E se voc fosse um patro na poca da Abolio, daria trabalho a
                              tal pessoa em sua loja?
                                  Hoje, no Brasil, ainda podemos encontrar muitos problemas quan-
                              to  aceitao da diversidade cultural, apesar dos muitos movimentos
                              que combatem a desigualdade racial e social nas mais diversas reas
                              da sociedade. Esses problemas so, na verdade, heranas de um pas-
                              sado, que fora muito pior.
                                  Vamos "voltar" no tempo e tentar imaginar a cena de um negro, re-
                              cm-liberto, pedindo emprego. Talvez o dilogo fosse esse:




58   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                                                                                     Sociologia

   Ora veja, ainda que o discurso das elites privilegiasse a liberdade
dos negros, eles no tinham condies de igualdade na concorrncia
com os brancos,

        "como no se manifestou nenhuma impulso coletiva que induzisse os
    brancos a discernir a necessidade, a legitimidade e a urgncia de repara-
    es sociais para proteger o negro (como pessoa e como grupo) nessa fa-
    se de transio, viver na cidade pressupunha, para ele, condenar-se a uma
    existncia ambga e marginal." (FERNANDES, 1978: 20).

    Segundo Florestan, para os negros e os mulatos apenas duas por-
tas se abriam, pois...

       "vedado o caminho da classificao econmica e social pela proletariza-
    o, restava-lhes aceitar a incorporao gradual  escria do operariado ur-
    bano em crescimento ou abater-se penosamente, procurando no cio dis-
    simulado, na vagabundagem sistemtica ou na criminalidade fortuita meios
    para salvar as aparncias e a dignidade de "homem livre. (FERNANDES, 1978:20).


   Portanto, pela interpretao de Florestan, a inexistncia de um pla-
no de incorporao do negro, elaborado pela sociedade que o liber-
tou, com estratgias de aceitao social dos mesmos, foi fator impor-
tante que contribuiu para sua marginalidade social.



                    PESQUISA

       Olhando para o resultado.
        Primeiro faa uma pesquisa em rgos como o IBGE  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica
     e verifique qual  a situao do negro em termos econmicos e educacionais em relao ao branco.
        Aps a coleta dos dados, "trabalhe" com seus colegas os resultados, relacionando-os com as teo-
    rias de Florestan Fernandes sobre os negros.




z Sugesto de filmes:
=    "Guerra de Canudos", 1997, BRASIL, Direo: Srgio Rezende
=    "Olga", 2004, BRASIL, Direo: Jayme Monjardim




                                                                             A produo sociolgica brasileira    59
       Ensino Mdio

                              z REFERNCIAS:
                                  CUNHA, E. Os sertes  Campanha de Canudos. 29 ed. Rio de Janeiro:
                                  Francisco Alves, 1979.
                                  FERNANDES, F. Fundamentos da explicao sociolgica  3 ed. Rio de Ja-
                                  neiro: LTC, 1978.
                                  ____________________. A integrao do negro na sociedade de classes. So
                                  Paulo: tica, 1978.
                                  FREYRE, G. Casa grande e senzala. 46 ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
                                  GOMES, C. A educao em perspectiva sociolgica. So Paulo: EPU, 1985.
                                  IANNI, O. Sociologia da Sociologia  o pensamento sociolgico brasileiro. 3
                                  ed., So Paulo: tica, 1989.
                                  PRADO JNIOR, C. Formao do Brasil contemporneo. 23 ed. So Paulo:
                                  Brasiliense, 2000.
                                  MOREIRA, M. A vida dos grandes brasileiros  Cndido Portinari. Cajamar:
                                  Trs, 2001.
                                  VIANNA, M. A. G. Revolucionrios de 35: sonho e realidade. So Paulo: Com-
                                  panhia das Letras, 1992.




                      ANOTAES




60   O Surgimento da Sociologia e Teorias Sociolgicas
                                    Sociologia



ANOTAES




            A produo sociolgica brasileira    61
       Ensino Mdio




             I
             n                                 que voc acha de obedecer regras, de cumprir ordens,
                                            de seguir caminhos que j foram preestabelecidos para vo-
                                           c?



             t
                                              provvel que voc e muitos de seus colegas digam que
                                      no gostam de obedecer regras, e alguns cheguem mesmo a
                               afirmar com uma pontinha de orgulho que s fazem aquilo que gos-
                               tam ou que tm vontade...



             r
                                   Pois saibam que no  bem assim que as coisas acontecem. Mes-
                               mo que voc se considere um rebelde, voc est muito mais dentro da
                               ordem que imagina, principalmente se voc  um aluno devidamen-
                               te matriculado no Ensino Mdio, e est lendo este texto na escola ou
                               em sua casa.


             o                     Por que estamos falando disso?
                                   Para dizer que vivemos numa sociedade totalmente institucionali-
                               zada, ou seja, vivemos "imersos" em instituies sociais, portanto, so-



             d
                               mos continuamente levados a realizar coisas que no escolhemos, e na
                               maioria das vezes as realizamos "naturalmente", sem questionar de on-
                               de e de quem partiu aquela idia ou aquela ordem.
                                   Todo o nosso pensamento e nossa ao foram aprendidos e con-



             u
                               tinuam constantemente sendo construdos no decorrer de nossa vi-
                               da. Muito do que fazemos foi pensado e estabelecido por pessoas que
                               nem existem mais. Desde o momento de nosso nascimento at a nos-
                               sa morte estamos sempre atendendo s vrias expectativas dos vrios
                               grupos que participamos.


                                  Por isso, nosso objetivo com este estudo  coloc-lo em contato
                               com algumas instituies sociais muito presentes e atuantes em nossa
                               sociedade, mais especificamente trs: a escola, a religio e a famlia.
                               Colocar em contato quer dizer conhecer um pouco das origens histri-


                              cas das instituies, ou como foram construdas pelas diversas socieda-
                               des ao longo do tempo; perceber as transformaes que foram sofren-




             o
62   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                             Sociologia




do e como se configuram hoje, conhecer as diversas possibilidades de
leitura oferecidas pela Sociologia, e, principalmente, nos enxergarmos
como parte integrante dessas instituies. No como uma pea num ta-
buleiro de um jogo, mas como sujeitos atuantes e com capacidade de
mudar as regras do jogo quando considerarmos necessrio.
    Nossa inteno ao propor este tema de estudo vai muito alm da
simples informao de contedos da Sociologia, avalizados pelos gran-
des nomes dessa cincia. Pretendemos que voc, com auxlio dos ins-
trumentais tericos da Sociologia, possa compreender a dinmica da
sociedade contempornea, aprenda a questionar as "verdades" que lhe
so colocadas, e possa inserir-se de forma crtica e criativa nas diver-
sas instituies sociais que compem o sistema social.
    Vamos pontuar alguns aspectos destas trs instituies: famlia, es-
cola e religio.
    Nascemos todos em algum lugar da sociedade: num bairro de pe-
riferia, num edifcio no centro da cidade, numa favela, num condom-
nio fechado, e pertencemos quase sempre a algum tipo de famlia. 
dentro da famlia que aprendemos os primeiros valores do grupo e da
sociedade a que pertencemos. Os pais (ou aqueles que cumprem es-
te papel), criam e provm os filhos de condies para a subsistncia e
esperam desses respeito e obedincia. A sociedade espera que os pais
trabalhem e tenham uma vida honesta, s mes cabe o amor incondi-
cional, capaz de faz-las abrir mo da prpria vida para ver a felicida-
de de seus filhos. Isso pode parecer um pouco exagerado, mas, s ve-
zes, a caricatura de uma situao nos permite enxerg-la melhor.
    Bem, crescemos ouvindo que a famlia  um lugar "sagrado", que
devemos respeitar nossos pais, que tanto sacrifcios fizeram por ns.
Crescemos ouvindo que  o bem mais importante de um homem, e
quando finalmente crescemos, "desejamos" formar outra famlia, por-
que  isto que esperam de ns. Mas se no agirmos dessa forma espe-




                                                                           Introduo     63
       Ensino Mdio




             I
             n                 rada, se no nos transformarmos no pai trabalhador, na "me santa",
                               no filho respeitoso? Se escolhermos outro caminho e outros valores? A
                               sofreremos o que a Sociologia chama de coero social  significa que
                               seremos coagidos e pressionados pelo grupo familiar e pelas pessoas


             t                 prximas desse, a retomar os valores preestabelecidos.
                                    o grupo familiar que tambm vai nos indicar os caminhos escola-
                               res e profissionais. Para algumas famlias, percorrer toda a carreira es-
                               colar sem interrupo  algo indiscutvel, e desviar-se deste caminho


             r                 previsto pode ser traumtico. Novamente no escolhemos, mas as es-
                               colhas j esto feitas. Quase sempre fazemos o que  esperado.
                                   Passemos agora para a escola. Essa instituio ensina-nos novos pa-
                               dres de comportamento, ou refora aqueles que j trazemos de nos-


             o                 sa classe social e tenta nos fazer acreditar que somos todos iguais, por-
                               que podemos nos sentar igualmente nas carteiras escolares. Mas to
                               logo os alunos percebem que para haver igualdade  necessrio mais
                               do que um lugar na escola, comeam as reaes contrrias  ordem.


             d                 So as chamadas questes disciplinares.
                                   A escola valoriza a ordem, a disciplina, o bom rendimento. Os ado-
                               lescentes vem neste momento de suas vidas a oportunidade de rebe-
                               lar-se contra os padres de comportamento estabelecidos, de agredir


             u                 tudo que representa autoridade, de desprezar o que no atende a seus
                               interesses imediatos...
                                   H uma outra instituio social com a qual voc provavelmente
                               tambm convive. Caso tenha sido batizado ou iniciado em alguma re-


                              ligio em sua infncia, e tenha crescido seguindo os ensinamentos de
                               sua igreja, voc desenvolveu o que se chama de pensamento sagrado.




             
             o
64   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                Sociologia




Voc explica fenmenos da vida e da morte de acordo com os precei-
tos de sua f. Voc conhece os rituais de sua igreja e respeita, ou ao
menos sabe o significado das principais datas religiosas. Se, em algum
momento de sua vida, voc resolver se desligar de sua religio, esteja
certo de que sofrer forte presso de seu grupo religioso, o qual mui-
to o indagar a respeito de sua deciso, e mais do que isso, far tudo
para demov-lo de sua deciso.
    Com esses exemplos  possvel perceber o quanto as instituies
direcionam nossas aes, s vezes de forma to sutil que no percebe-
mos que as situaes vivenciadas cotidianamente so em sua maioria
reprodues de antigas instituies sociais.
    Tambm ser possvel que um dia voc chegue  concluso de que
uma ou todas as instituies no so assim to importantes para a sua
vida. Voc ver sobre isto nos Folhas a seguir, que em diversos mo-
mentos da histria, alguns grupos sociais e alguns indivduos negaram
a necessidade da autoridade, fosse esta poltica, familiar, religiosa, edu-
cacional ou qualquer outra. Acreditavam na capacidade de auto-gover-
no do ser humano, na liberdade e na autonomia de pensamento. Alis,
hoje  possvel encontrar em diversas partes do mundo, inclusive no
Brasil, pessoas que vivem em comunidades alternativas, que negam os
valores do pensamento dominante, e constrem suas prprias regras,
com base na viso que tm da sociedade e do planeta.
    Mas para chegar at isso, e quem sabe superar este modelo de so-
ciedade e de instituies sociais a que estamos sujeitos hoje,  preci-
so muito estudo e a construo de projetos coletivos. E  isto que es-
tamos lhe propondo nestes textos que se seguem.




                                                                              Introduo     65
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                                                    A INSTITUIO
                                                         ESCOLAR        <Marilda Iwayat




                                                             Como voc reagiria se
                                                         ouvisse ou lesse esta not-
                                                         cia? Ficaria feliz por ver-se
                                                         livre desta obrigao? Fica-
                                                         ria preocupado, pois voc
                                                         j ouviu falar que sem es-
                                                         colas temos poucas chan-
                                                         ces na vida? Ficaria triste,
                                                         pois  na escola que voc
                                                         encontra seus amigos?




Departamento de Ensino Mdio  Curitiba  SEED/PR
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                                                          Ensino Mdio

                                                                                    Pois , a escola j faz parte de sua vida diria. Voc j cursou oito anos
                                                                                do Ensino Fundamental, est cursando o Ensino Mdio, e talvez esteja
                                                                                pensando em ingressar em algum curso superior para seguir uma carreira.
                                                                                Voc pode mesmo ser considerado um vitorioso do sistema escolar, uma
                                                                                vez que muitos dos seus colegas que iniciaram a 1 srie com voc, no
                                                                                chegaram  8 srie, e daqueles que chegaram ao fim do Ensino Funda-
                                                                                mental, muitos no prosseguiram no Ensino Mdio, pois no tiveram con-
                                                                                dies de arcar com as despesas e exigncias da escola.
                                                                                    Sim! Pois estudar exige esforo e tambm custa caro! So cadernos,
                                                                                livros, roupas, transportes, etc. Em nosso pas, so poucas as famlias
                                                                                que conseguem arcar com os estudos de seus filhos.

                                                                                               Segundo dados do censo escolar, realizado pelo INEP
                                                                                         (Instituto Nacional de Estudos Pedaggicos), em 2004, ingres-
                                                                                         saram no Ensino Fundamental 26.614.310 alunos, enquanto
                                                                                         no Ensino Mdio ingressaram apenas 9.169.357 alunos.

                                                                                    A notcia apresentada no incio do texto pode parecer absurda, mas
                                                                                j houve um cientista da educao que props uma "sociedade sem
                                                                                escolas". Seu nome era Ivan Illich. Illich (1926-2002) era russo, e afir-
                                                                                mava que "(...) a obrigatoriedade da educao escolar  uma inveno
< http://www.altraofficina.it/ivanillich/Prima.htm




                                                                                relativamente nova, e no h porque aceit-la como se fosse algo ine-
                                                                                       vitvel" (GIDDENS, 2005:413).
                                                                                            Lembre-se, no entanto, que a inexistncia de escolas no sig-
                                                                                        nifica a inexistncia de educao. Esta ltima existe em todas as
                                                                                        sociedades humanas e so muitos os meios disponveis para o
                                                                                        seu acesso. Estudaremos sobre isto mais  frente.
                                                                                            Retornando a Illich, suas idias nos sugerem a pensar sobre
                                                                                        a origem das escolas. A partir de quando, e por que, esta instituio
                                                                                        passou a fazer parte do cotidiano de algumas sociedades?
                                                     < Ivan Illich                          A escola, tal como conhecemos hoje, intitulada pelos histo-
                                                                                      riadores da educao como Escola Moderna, comeou a se con-
                                                                                figurar em fins do sculo XVI e ao longo do sculo XVII.
                                                                                    Antes disso, nas sociedades antigas e medievais, j havia a preocu-
                                                                                pao com a educao de seus jovens, os quais estudavam ou indivi-
                                                                                dualmente, sob a orientao de um mestre, ou em pequenos grupos,
                                                                                independentes de idade ou seriao. Adultos e crianas freqenta-
                                                                                vam a mesma classe durante o tempo que desejassem ou precisassem,
                                                                                e isso no era considerado um problema. As teorias da psicologia da
                                                                                aprendizagem, que estabelecem etapas para o desenvolvimento huma-
                                                                                no, viro muitos anos depois.
                                                                                    Mas a escola moderna organiza-se inicialmente com caractersticas que j
                                                                                conhecemos bem:
                                                                                = a preocupao em separar os alunos em classes seriadas, de acor-
                                                                                    do com a faixa etria;
68                                                    O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                           Sociologia

=   a diviso sistemtica dos programas de acordo com cada srie;
= os nveis de estudos passam a ter um encadeamento: a escola ele-
    mentar (ler, escrever e contar), com a escola mdia ou profissional
    e os estudos superiores;
= o tempo para o estudo e para o cumprimento dos programas pa-
    ra uma determinada srie tambm passam a ser preestabelecidos.
    No ser mais o ritmo de aprendizado do aluno que dir de quan-
    to tempo ele necessita para aprender, mas sim o ritmo imposto pe-
    la instituio.
    Outros elementos muito comuns em nossa prtica escolar tambm
passaram a ser utilizados, como o registro das aulas, o controle de fre-
qncia (chamada), a elaborao de textos simplificados para cada
disciplina (livros didticos). Junto com isso teremos maior rigor disci-
plinar, com a criao de normas e regimentos de conduta. Enfim, so
prticas que tm a funo de organizar, disciplinar e controlar, e que ho-
je nos parecem naturais e quase imutveis.




                                                                          < Foto: Joo Urban

    Mas ateno! Um dos principais objetivos do estudo da Sociologia  auxi-
li-lo a "desnaturalizar" os fatos sociais, a desconstruir alguns conceitos
que, de to repetidos que foram, parecem ser os nicos verdadeiros.
Desnaturalizar a instituio escolar significa saber que ela foi pensada
e construda por pessoas como professores, religiosos ou governantes
que tinham interesses e necessidades prprias daquele momento his-
trico. E que, antes desse modelo escolar, existiram outras formas cria-
das pelas sociedades para transmitirem s suas crianas e jovens os
saberes necessrios para a vida social. Portanto, cabe a ns e s prxi-
mas geraes tambm pensarmos e construirmos escolas que estejam
mais prximas de nossas necessidades e nossos sonhos!

    Quais fatores contriburam para o aparecimento e desenvolvimento das
escolas? Foram muitos os fatores. No momento, vamos comentar sobre o con-
texto histrico que favoreceu o nascimento desta instituio.
    As revolues burguesas, principalmente a inglesa (sc.XVIl) e a
francesa (sc. XVIIl), vo encerrar definitivamente o feudalismo e inau-
gurar um novo modo de produo  o capitalismo. A burguesia, clas-
se social em ascenso, ir conceber uma nova doutrina social ou uma
nova ideologia para o capitalismo que se denominar liberalismo. Os

                                                                                               A Instituio Escolar    69
       Ensino Mdio

                                       princpios do liberalismo so: o individualismo, a propriedade, a li-
                                       berdade, a igualdade e a democracia. Explicando os princpios:
                                           A doutrina do individualismo coloca no esforo individual
                                       toda a responsabilidade para que as pessoas atinjam o suces-
                                       so ou o progresso, desconsiderando as condies econmicas e
                                       sociais nas quais estejam vivendo. Para o liberalismo, os indiv-
                                       duos sero to mais livres quanto menor for a ao do Estado,
                                       ou seja, o Estado no deve interferir e despender recursos para
                                       servios pblicos.
                                           Quanto ao princpio da propriedade, significa que todos tm di-
                                       reito  propriedade desde que se esforcem e trabalhem para isso.
                                           A igualdade, como  tratada no liberalismo, no se refere 
                                       igualdade social, mas sim  igualdade perante a lei. J devem
                                       ter ouvido a frase: "Todos so iguais perante a lei". Pois , mas
                                       em relao s desigualdades sociais, a conversa  outra. Os li-
                                       berais consideram natural que existam pobres e ricos, uma vez
                                       que nem todas as pessoas so talentosas ou esforadas da mes-
        Descartes                      ma forma.
       (1596-1650)                 A democracia, defendida pelos liberais, resume-se  democracia re-
                               presentativa, isto , o direito de todos escolherem seus representan-
                               tes polticos. No entanto, democracia  mais do que isto,  o direito de
                               usufruirmos igualmente os bens produzidos em nossa sociedade.
                                   Outro importante movimento que se desenvolve  partir do scu-
                               lo XVII, foi a chamada "revoluo cientfica". A filosofia, e as cincias
                               fsicas, qumicas e matemticas sofrem um grande desenvolvimento e
                               h uma supervalorizao do pensamento racional e cientfico. O filso-
                               fo e matemtico Ren Descartes (Frana,1596  1650)  considerado o
                               fundador desta doutrina.
                                   Observe que no fica difcil estabelecer relaes entre a doutrina li-
                               beral, o pensamento racionalista e o surgimento da escola moderna, tal
                               como essa foi descrita anteriormente.



                      ATIVIDADE

         Agora pensando bem, ser que  possvel identificar alguns dos princpios do liberalismo e do pen-
     samento racionalista na organizao e na prtica da escola contempornea? Reflita sobre o seu dia-a-
     dia escolar e produza um pequeno texto sobre o assunto.


                                  Vocs viram at aqui uma breve histria da instituio escolar, orga-
                               nizada de forma mais ou menos semelhante em grande parte das so-
                               ciedades.
                                  Mas... E as sociedades sem escolas?

70   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                                  Sociologia

                         Retomando a idia inicial desse texto, que apontava como quase
                     absurda a possibilidade da extino das escolas, temos que tomar co-
                     nhecimento da existncia das sociedades "desescolarizadas", ou seja,
                     sociedades que existiram e ainda existem sem a presena das institui-
                     es escolares.
                         Nessas sociedades, assim como na nossa, a educao  elemento          Os Tupinanbs foram os pri-
                     fundamental de socializao e de manuteno do prprio grupo. Nes-         meiros povos que tiveram
                     sas, a herana cultural e os saberes necessrios para a sobrevivncia e    contato com os portugue-
                     a convivncia so transmitidos por meio da educao informal. A pala-      ses, quando teve incio a co-
                     vra informal nos revela que a educao acontece, mas sem a necessi-        lonizao. Habitavam o litoral
                     dade de escolas, salas de aulas, notas, provas, recuperao de estudos,    brasileiro e foram muito utili-
                     etc e etc. A escola  a prpria vida, e os professores so todos aqueles   zados na explorao do pau-
                     que tm experincias e conhecimentos significativos  comunidade.          brasil
                         Florestan Fernandes (1920-1995), importante nome da Sociologia
                     brasileira, estudou os povos Tupinambs, e sua pesquisa nos permi-
                     te conhecer alguns elementos que caracterizam a educao das socie-
                     dades tribais:

                       1 os conhecimentos so acessveis a todos os membros da socie-
                          dade;
                       2 a transmisso da cultura faz-se cotidianamente, sem a utilizao
                          de recursos ou tcnicas pedaggicas;
                       3 como se tratam de sociedades iletradas, a comunicao dos sa-
                          beres ocorre oralmente. Alis, a palavra oral possua tanto pres-
                          tgio quanto a linguagem escrita possui em nossa sociedade;
                       4 a educao no  privilgio das crianas e jovens, uma vez que
                          os membros da comunidade esto continuamente nos papis
                          de aprendizes e de mestres.
< Foto: Joo Urban




                     < Escola de aldeia Guarani


                                                                                                   A Instituio Escolar          71
       Ensino Mdio

                                   Trs importantes valores perpassam a educao dos tupinambs: a
                               tradio, o valor da ao e o valor do exemplo.
                                   A tradio possui um valor sagrado; significa que os conhecimentos
                               produzidos pelos antepassados devem ser respeitados religiosamente,
                               sem questionamentos.
                                   O valor da ao est relacionado  mxima do "aprender fazen-
                               do", ou seja, todos os membros da comunidade devem estar engaja-
                               dos em todas as atividades sociais (resguardadas somente as diferen-
                               as sexuais).
                                   O valor do exemplo refere-se  imitao. Cabia aos adultos a res-
                               ponsabilidade de pensar e agir de acordo com os modelos legados pe-
                               los antepassados para servirem de exemplo aos mais jovens, assegu-
                               rando assim a permanncia das tradies.
                                    possvel perceber que nessas sociedades existia um grande res-
                               peito entre todos os membros do grupo, pois as pessoas mais velhas
                               eram especialmente valorizadas pelas experincias e saberes acumula-
                               dos ao longo dos anos vividos.

                                   Seria possvel uma sociedade sem escolas hoje?
                                   No tipo de sociedade em que vivemos hoje, que so chamadas de
                               "complexas", uma educao informal nos moldes das sociedades tri-
                               bais seria muito difcil de acontecer. As reas do conhecimento se di-
                               versificaram em demasia, e avanam rapidamente. A cincia, a tecnolo-
                               gia, as artes e outras reas se desenvolvem numa velocidade que nem
                               mesmo os especialistas conseguem acompanhar. Imaginar que tudo
                               poderia ser apreendido informalmente por todos seria irreal!
                                   No entanto, existem muitas pessoas que tm buscado educao em
                               lugares diferentes destes que chamamos de escola. As telecomunica-
                               es e a informtica tm ofertado diversos cursos nos vrios nveis de
                               ensino e em vrias reas de interesse, e tm atrado pessoas que dese-
                               jam atualizar-se, ou mesmo iniciar-se em alguma profisso. Se esta mo-
                               dalidade de educao poder vir a substituir a escola, no futuro, ainda
                               no sabemos. Mas tudo indica que a escola, essa nossa velha conheci-
                               da, ainda tem um longo tempo de vida.




                      PESQUISA

        Pesquisar em sua cidade instituies/empresas que oferecem cursos  distncia  as modalidades
     de curso, materiais utilizados, pblico-alvo e resultados obtidos.




72   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                            Sociologia

< Foto: Joo Urban




                         Provavelmente voc j percebeu que a escola no  o lugar que
                     mais agrada aos jovens de sua idade. Freqentar a casa dos amigos,
                     andar pelas ruas, ir s baladas, trabalhar ou ficar  toa parecem coisas
                     bem mais agradveis e interessantes. Por que isto ocorre? Ora, adqui-
                     rir novos conhecimentos, vivenciar experincias que nos auxiliem na
                     compreenso de nosso mundo e nos faam sentir integrantes na cons-
                     truo da cultura das sociedades, so atitudes que fazem parte da na-
                     tureza humana. Sem a curiosidade, a vontade de aprender e de buscar
                     formas diferentes para realizar suas tarefas cotidianas, certamente no
                     teramos sado da idade da pedra, no teramos desenvolvido a tecno-
                     logia, as cincias, as artes, enfim, em todas as reas, o ser humano no
                     cessa a busca por novas alternativas que visem a melhora da qualida-
                     de de vida. Voc poder dizer que isso ocorre por interesses de merca-
                     do. Certo. No entanto, isso no quer dizer que no seja necessrio es-
                     tudo, pesquisa, persistncia, disciplina...
                         Para nos auxiliar na reflexo a respeito da funo disciplinado-
                     ra da escola, podemos recorrer s idias de um filsofo francs  Mi-
                     chel Foucault (1926-1984). Este pensador realizou estudos compara-
                     tivos entre algumas instituies como prises, conventos, quartis e
                     escolas, buscando desvelar suas semelhanas no que se refere aos as-
                     pectos de organizao e controle. Para Foucault, mais importante do
                     que um poder centralizador e visvel, so os "pequenos" poderes que
                     abarcam todo o espao social, e dos quais no conseguimos escapar,
                     porque esto dispersos.  o espao fsico, o mobilirio, as regras, os
                     olhares vigilantes, as ameaas e as punies agindo sempre no senti-
                     do de controlar nossos corpos e nossas conscincias, de nos fazermos
                     "teis", "dceis", treinados para a obedincia.




                                                                                                A Instituio Escolar    73
       Ensino Mdio

                                    Mas o que isto tem a ver com a escola?
                                    A escola  criada (como j vimos anteriormente), num contexto de
                               grande valorizao da cincia, e de preocupao com a formao de
                               um "novo homem", adequado s novas regras e aos novos princpios.
                               Sua funo disciplinadora, normatizadora, desde o incio  muito clara,
                               quase inerente. Mas seu papel de levar s novas geraes os conheci-
                               mentos necessrios para a vida social tambm jamais foi negado. Ain-
                               da hoje se perguntarmos a uma criana, por que ela vai  escola, a res-
                               posta ser: "Para aprender..." Mas aprender o qu? E para qu?
                                    Aprender para nos tornarmos "civilizados"?
                                    Aprender para nos tornarmos obedientes e conformados?
                                    Aprender para acreditarmos e aceitarmos que escola no  para
                               mim, mas sim para os "outros"?
                                    Aprender que aprender  repetir o livro e as palavras do professor?
                                    Aprender que estudar  difcil e cansativo?
                                    Desde o seu incio a instituio escolar tornou-se objeto de estu-
                               do privilegiado de filsofos, socilogos, psiclogos e pedagogos. Mais
                               recentemente, outros profissionais como mdicos, arquitetos, historia-
                               dores, entre outros, tambm tm dedicado suas pesquisas  escola e 
                               educao. Voc, como aluno, no tem idia da polmica que cerca a ins-
                               tituio e a educao escolar. Este lugar, aparentemente to banal, tem
                               sido alvo de debates acirrados e os resultados apresentados em muitos
                               livros, revistas e discutidos em congressos pelo mundo inteiro.
                                    Para que voc compreenda melhor isto que estamos falando, va-
                               mos apresentar algumas teorias explicativas sobre a organizao e o
                               funcionamento escolar desenvolvidos por socilogos que se dedica-
                               vam a este tema:
                                    Teorias crtico-reprodutivistas: estas teorias partem do princpio
                               de que a escola  uma instituio que, por meio de suas prticas, co-
                               nhecimentos e valores veiculados, tm contribudo para a reproduo
                               das desigualdades da sociedade de classe em que vivemos.
                                    Os socilogos franceses, Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean-Clau-
                               de Passeron (1930- ), so representantes desta teoria, e acompanhar
                               seus pensamentos pode ajudar-nos a compreend-la. No interior de
                               uma sociedade de classes existem diferenas culturais. As elites pos-
                               suem um determinado patrimnio cultural constitudo de normas de
                               falar, de vestir-se, de valores, etc. J as classes trabalhadoras (ou domi-
                               nadas, como so identificadas pelos autores) possuem outras caracte-
                               rsticas culturais, diferentes, no inferiores, pois tm lhes permitido sua
                               manuteno enquanto classe. A escola, por sua vez, ignora estas di-
                               ferenas scio-culturais, selecionando e privilegiando em sua teoria e
                               prtica as manifestaes e os valores culturais das classes dominantes.
                               Com essa atitude, ela favorece aquelas crianas e jovens que j domi-



74   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                               Sociologia

nam este aparato cultural. Para estes, a escola  realmente uma conti-
nuidade da famlia e do "mundo" do qual provm. A escola somente
refora e valoriza conhecimentos que estes j trazem de casa.
    J para os jovens filhos das classes trabalhadoras, a escola represen-
ta uma ruptura. Seus valores e saberes so desprezados, ignorados, e
ela necessita quase que reiniciar sua insero cultural, ou seja, apren-
der novos padres ou modelos de cultura. Dentro dessa lgica,  evi-
dente que para os estudantes filhos das classes dominantes alcanar o
sucesso escolar torna-se bem mais fcil do que para aquelas que tm
que "desaprender" uma cultura para aprender um novo jeito de pen-
sar, falar, movimentar-se, enfim, enxergar o mundo, inserir-se neste e
ainda ser bem-sucedido. Bourdieu chama isso de "violncia simbli-
ca", ou seja, o desprezo e a inferiorizao da expresso cultural de um
grupo por outro mais poderoso econmica ou politicamente, faz com
que esse perca sua identidade e suas referncias, tornando-se fraco, in-
seguro e mais sujeito  dominao.
    Perceberam que estes autores fazem uma crtica ao sistema escolar?
Afirmam que a escola est organizada para servir apenas a alguns gru-
pos da sociedade, aqueles que j trazem de casa uma bagagem cultu-
ral semelhante a da escola.


   Essa  uma forma de olhar a escola! Agora vejamos outra:
   Teoria funcionalista  mile Durkheim (18581917)  um dos re-
presentantes do pensamento conservador. Sua teoria faz a defesa da
ordem social dominante, do chamado "status quo". No menciona a
necessidade de mudanas, reformas ou muito menos revolues.
Seguindo a linha de pensamento de Durkheim, a escola, assim
como as demais instituies sociais, tm a funo de imprimir




                                                                                                            < http://www.soc.cmu.ac.th/~chaiwat/mf_home.html
sobre as novas geraes valores morais e disciplinares que vi-
sam  perpetuao da sociedade tal como ela est organizada
quanto  ordem e no respeito aos poderes dominantes.
   Durkheim trata a sociedade como se essa fosse uma entida-
de externa aos indivduos, acima dos conflitos sociais, das lutas
por interesses diversos. A sociedade  assim entendida como um
corpo harmnico, com valores e  qual s nos resta a adaptao.
   Pois bem! Para Durkheim a escola no  alvo de crticas, pois fun-
ciona adequadamente  sociedade na qual est inserida. Para ele, to-
dos os indivduos e instituies tm uma funo a cumprir, que uma
vez, bem desempenhada contribuir para o progresso e  harmonia
social. Os conflitos sociais no resultam das desigualdades provindas
da sociedade de classes, mas so espcies de "doenas", e como tais          < mile Durkheim (18581917)
devem ser "tratadas".
   Esta  uma outra forma de olhar para a sociedade e para a escola!



                                                                                 A Instituio Escolar          75
       Ensino Mdio



                      ATIVIDADE

         Faa uma entrevista com trs colegas de sua escola, levantando elementos das teorias estudadas
     at aqui: Foucault, Bourdieu e Durkheim. Que caractersticas dessas anlises esto presentes em sua
     escola?



                                   O conhecimento dessas teorias nos ajuda a compreender o fracasso
                               escolar, este fenmeno que anualmente exclui centenas de jovens da
                               escola. Se formos verificar a origem social destes alunos que no con-
                               seguiram concluir seus estudos, verificaremos que pertencem s clas-
                               ses menos favorecidas economicamente, e cujos hbitos culturais esto
                               mais distantes dos padres oficiais. No entanto, temos que estar aten-
                               tos ao fato de que as teorias nos ajudam a melhor compreender como
                               e porqu as coisas acontecem de uma determinada forma, mesmo que
                               esta forma esteja desagradando ou prejudicando muita gente, como 
                               o caso da escola, arriscaramos dizer. Mas nenhuma teoria sociolgica
                               consegue dar conta de explicar toda a realidade educacional.

                                  So formas de olhar para esta realidade!
                                   Corremos srios riscos ao tentarmos "encaixar" a realidade aos mo-
                               delos tericos, se nos fixarmos somente nas teorias e no prestarmos
                               ateno s diferenas e s peculiariedades. Estes so alguns riscos:
                               1 O pensamento imobilista  ou seja, se a escola existe somente pa-
                                  ra reproduzir a sociedade desigual que a est, ento nada pode-
                                  mos fazer seno nos adequarmos a esta situao. Esta atitude pas-
                                  siva em nada contribui para desenvolvermos as atitudes crticas e
                                  criativas necessrias  criao de um outro modelo de escola.
                               2 A generalizao  acreditar que todas as escolas so iguais. Que
                                  todas tm a mesma organizao pedaggica, a mesma interpreta-
                                  o das leis, a mesma ideologia, as mesmas prticas. Ainda bem
                                  que isso no  verdade! Vrios so os fatores que contribuem pa-
                                  ra a construo da cultura de cada escola: sua localizao espacial
                                  e temporal, sua arquitetura, e principalmente seus sujeitos  pro-
                                  fessores, alunos, diretores, funcionrios  verdadeiros autores da
                                  educao escolar. A forma como essas pessoas relacionam-se no
                                  dia-a-dia escolar, criam e assimilam regras, selecionam e aplicam
                                  contedos no est necessariamente condicionada s normas ofi-
                                  ciais, mas muito mais s preferncias pessoais, s opes polticas,
                                  s histrias de vida, s formas de pensar e agir prprias daquele
                                  grupo, que podem ser mais ou menos coesas.


76   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                            Sociologia

                    Perceber a escola dessa forma, em suas peculiaridades e diferenas
                 nos permite ver possibilidades de ao e de mudanas nessa institui-
                 o em que passamos tantos anos.
< Foto: Joo Urban




                     Vamos ento para uma outra forma de olhar para a escola!
                     A escola pblica, universal e gratuita  um direito garantido pe-
                 la Constituio Nacional.  uma conquista da sociedade, resultado de       O direito  educao p-
                 muita luta de professores, estudantes, pais e de todos aqueles que se      blica e gratuita foi asse-
                                                                                            gurado na Constituio de
                 importam com a justia e com a igualdade social. Mas ao mesmo tem-
                                                                                            1988, e refere-se somen-
                 po que  um direito, a educao  obrigatria; ou seja, o Estado tem a
                                                                                            te ao Ensino Fundamental
                 obrigao de oferecer escola e os pais ou responsveis tm o dever de      (pr  8 srie). O Ensino
                 matricularem e manterem seus filhos menores na escola, sob pena de         Mdio ainda no est ga-
                 serem punidos at mesmo com a perda da guarda destes.(Art. 22 e 24         rantido a todos pela lei.
                 do Estatuto da Criana e do Adolescente.
                     Parece contraditria essa idia de algo ser direito mas ao mesmo
                 tempo ser um dever, no entanto, as contradies que cercam essa ins-
                 tituio no param a.
                     A escola  uma instituio regida por normas estabelecidas por gru-
                 pos externos a esta. No caso da escola pblica brasileira,  o Poder P-
                 blico quem exerce essa funo. A escolas particulares tambm pres-
                 tam contas ao Poder Pblico, assim como s entidades que as mantm.
                 Por exemplo, as escolas confessionais possuem normas que so dita-
                 das pelas organizaes religiosas a que esto ligadas.
                     Mas alm das normas ditadas exteriormente, as escolas possuem uma
                 dinmica interna, como foi falado acima, que lhes permite criar seu pr-
                 prio sistema de normas e valores, sua prpria "cara", ou o que pesquisa-
                 dores da educao denominam hoje de "cultura escolar". Vamos buscar
                 entender como essa "cultura escolar" pode constituir-se a nosso favor.


                                                                                             A Instituio Escolar       77
                                     Ensino Mdio

                                                                 As escolas so ambientes tensos e permeados de conflitos, o que
                                                             no deve ser considerado um problema, uma vez que sua populao
                                                              absolutamente heterognea: possui origens sociais distintas, assim
                                                             como diferentes idades, bagagens culturais, vises e projetos de vida.
                                                             No entanto, algo aproxima essa populao: todos procuram essa ins-
                                                             tituio com um interesse semelhante, qual seja, o de l sair "melho-
                                                             res" do que quando entraram. Em melhores condies de enfrentar a
                                                             vida, com mais conhecimentos e preparo para prosseguir os estudos
                                                             ou buscar uma profisso. Algumas vezes esses objetivos so atingi-
                                                             dos, outras no. Para conseguirmos fazer com que nossos objetivos,
                                                             buscados nesta instituio escolar, coincidam com sua prtica,  ne-
                                                             cessrio o esforo e o trabalho conjunto de todos aqueles que a cons-
                                                             tituem, no sentido da construo de uma escola democrtica, partici-
                                                             pativa e que integre-se s nossas vidas.
                                                                 Para construirmos esta escola podemos buscar inspirao nas
                                                             idias de grandes educadores que dedicaram suas vidas ao estudo
                                                             e  experimentao de formas de educao que tornam as pessoas
                                                             mais livres, responsveis, criativas e com autonomia de pensamento.
                                                             Estes educadores so chamados pela pedagogia de "educadores pro-
                                                             gressistas", o que significa que suas propostas educacionais apontam
                                                             no sentido de uma ruptura com os valores criados e reforados pela
                                                             sociedade capitalista (submisso, competio, individualismo), e no
                                                             estmulo e reforo de valores que podem contribuir para fazermos
                                                             nossa vida uma experincia diria de solidariedade e, talvez, coleti-
                                                             vamente, podermos projetarmos uma nova ordem social. Estes valo-
                                                             res so a cooperao, a criatividade, a tolerncia, o respeito ao ou-
                                                             tro e ao planeta.
                                                                 Conhecido no mundo todo, Paulo Freire (19211997) represen-
                                                             tante da filosofia da libertao,  considerado um dos mais importantes
                                                             educadores da atualidade. Suas obras e experincias se espalharam
                                                             pelo mundo principalmente porque aps o golpe militar de 1964,
                                                             que instaurou a ditadura brasileira, Freire foi exilado do Brasil, viven-
                                                             do e trabalhando primeiramente no Chile, e depois em vrios lugares
                                                             como Genebra, na Sua, pases africanos, como Cabo Verde, Ango-
 < http://www.paulofreire.org




                                                             la, So Tom e Prncipe, e Nicargua, na Amrica Central. Por onde
                                                             passou, Paulo Freire deixou sua marca de educador comprometido
                                                             com as classes oprimidas. Quando retornou ao Brasil, aps a ditadu-
                                                             ra, retomou suas atividades na universidade, assumiu cargos polticos
                                                             e continuou a escrever para aqueles que sonham e acreditam que a
                                < Paulo Freire (19211997)   educao e o mundo podem ser para todos e no s para alguns.




78                                O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                             Sociologia

    Educao, para Paulo Freire, antes de mais nada, tem a ver com
conscientizao.
   Vamos entender o que ele quer dizer com isso. Partindo do princ-
pio de que vivemos numa sociedade dividida em classes, temos alguns
grupos que esto na situao de domnio, de poder, e outros (a gran-
de maioria), que vivem  merc das ordens e decises tomadas pelos
primeiros, numa situao de opresso. Ser oprimido significa no so-
mente estar subjugado economicamente, mas principalmente no ser
respeitado em suas manifestaes culturais (valores, linguagem, religio,
etc), no ter voz na sociedade (suas insatisfaes e suas propostas no
so ouvidas), e no considerar-se sujeito de sua histria. A condio de
oprimido  muito complexa porque esse, muitas vezes, no se perce-
be como tal, ou pior, se percebe e considera como "natural" o fato de
existirem os que mandam e os que so mandados (viso fatalista), tam-
bm muitas vezes considera-se mesmo inferior e "merecedor" do lugar
que ocupa na sociedade.
    A educao conscientizadora, proposta por Paulo Freire, tem a tare-
fa de ao mesmo tempo conscientizar criticamente o educando de sua po-
sio social e mobiliz-lo internamente para a luta pela transformao da
sociedade. Portanto, a educao assim entendida, reveste-se de um car-
ter essencialmente poltico. Ou seja, alm do estudo, do conhecimento,
da aquisio de habilidades, a escola tem papel fundamental na constru-
o de sujeitos autnomos, crticos, em condies para lutar pela supera-
o das desigualdade e pela transformao da sociedade.
   Este  o sentido da Pedagogia da Libertao  contribuir para a cria-
o de homens e mulheres "livres"  abertos para a vida, para o novo,
para um fazer e refazer permanente na busca do mundo que far a to-
dos mais felizes, e no somente alguns.
   Algumas pessoas criticam Paulo Freire, acusando-o de utpico ou
sonhador. A elas, ele mesmo responde:


      "(...) No h amanh sem projeto, sem sonho, sem utopia, sem esperan-
 a, sem o trabalho de criao e desenvolvimento de possibilidades que via-
 bilizem a sua concretizao. O meu discurso em favor do sonho, da utopia,
 da liberdade, da democracia  o discurso de quem recusa a acomodao e
 no deixa morrer em si o gosto de ser gente, que o fatalismo deteriora (FREI-
 RE, 2001: 86).




                                                                                 A Instituio Escolar    79
       Ensino Mdio



                      PESQUISA

          Realizar um ensaio fotogrfico sobre a sua escola. Fotografar aspectos da arquitetura, a forma de uti-
     lizao das paredes (imagens e smbolos), o mobilirio, as pessoas  alunos, professores, funcionrios,
     visitantes. Procure perceber como estes se sentem e como se relacionam entre si e com o espao es-
     colar. Voc vai descobrir coisas que nunca havia visto. A cmera fotogrfica nos possibilita um olhar de
     redescoberta do que imaginvamos conhecido!
        Proponha uma exposio das fotografias na escola, acompanhadas de pequenos textos sobre as
     impresses que as imagens causaram a vocs.
        Ler e debater em sala a obra sugerida:
        "A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir", de Rubem Alves, que relata
     uma bela experincia educativa, que j existe h vinte e cinco anos em Portugal, e que nos comprova a
     possibilidade de uma escola que ensina na prtica, o verdadeiro sentido da palavra cidadania.
        Os filmes abaixo tambm podem auxili-lo a repensar a educao que voc "recebe", e a escola
     que voc conhece:
        "Sarafina"  o som da liberdade (1993, frica do sul, direo: Darrel James)
        "Nenhum a menos" (1999, China, direo: Zhang Yimou)
        "De volta para casa" (1989, E.U.A, direo:Zhang Yimou)
        "A corrente do bem" ( 2000, E.U.A, direo Mimi Leder)
        "Sociedade dos poetas mortos" (1989, E.U.A, direo: Peter Weir)
        "Professor profisso perigo" (1996, Frana, Grard Lauzier)



                               z Referncias:
                                   ARANHA, M. L.A Histria da educao. So Paulo: Moderna,1996.
                                   BOURDIEU, P.; PASSERON, J.C. A reproduo: elementos para uma teoria
                                   do sistema de ensino. So Paulo: Francisco Alves, 1975.
                                   BRANDO,C.R. O que  educao. So Paulo: Brasiliense, 1982.
                                   CAMBI, F. Histria da educao. So Paulo: Editora UNESP,1999.
                                   CNDIDO, A. A estrutura da escola. In: PEREIRA, L.; FORACHI, M. (org.)
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                                   Nacional,1976.
                                   CHARLOT, B. Relao com o saber, formao dos professores e globalizao:
                                   questes para educao hoje. Porto Alegre: Artmed, 2005.
                                   CONSTITUIO DA REPBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988.
                                    DURKHEIM. E. Educao e sociologia. 6 ed. Trad. Loureno Filho. So Pau-
                                   lo: Melhoramentos, 1965.
                                   ESTATUTO DA CRIANA E DO ADOLESCENTE  Publicado no "Dirio Ofi-
                                   cial" da Unio, de 16 de julho de 1990.


80   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                            Sociologia

  FERNANDES, F. A educao numa sociedade tribal. In: PEREIRA, L.; FORA-
  CHI, M.(org.) Educao e sociedade: leituras de sociologia da educao. So
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  PETITAT, A. Produo da escola/produo da sociedade: anlise scio-hist-
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   ZNANIECKI, F. A escola como grupo institudo. In: PEREIRA, L.; FORACHI,
  M.(org.) Educao e sociedade: leituras de sociologia da educao. So Pau-
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z Internet:
  www.inep.gov.br  censo escolar  acesso em 16/09/2005.




                                                                                A Instituio Escolar    81
                                                                                           5

                                                    A INSTITUIO
                                                        RELIGIOSA                           <Marilda Iwaya1



                                                           Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
                                                          Por causa disso a minha gente l de casa comeou a
                                                           rezar... (Assis Valente)




                                                          magine se algo semelhante ocorresse ho-
                                                         je, ou se nos fosse dado o poder de saber
                                                        o dia de nossa morte? Como agiramos? O
                                                       que pensaramos? Para muitos, a conscin-
                                                      cia de nossa finitude, a certeza de que somos
                                                     mortais, levaria a repensar nossos valores,
                                                    nossos atos cotidianos, nossas preocupaes,
                                                       as quais, numa situao como a colocada
                                                       acima, ganhariam outra dimenso.
                                                          Os versos citados acima pertencem  m-
                                                    sica "E o mundo no se acabou" do composi-
                                                    tor Assis Valente (1908-1958), e foram inspira-
                                                    dos numa notcia divulgada nas rdios do pas
                                                    no ano de 1938.




Departamento de Ensino Mdio  Curitiba  SEED/PR
1
       Ensino Mdio

                                  A notcia era uma brincadeira ( claro), mas o fato provocou a pre-
                               ocupao e agitao da populao do pas que teve as mais variadas
                               reaes, desde gastar todo o dinheiro, at praticar atos considerados
                               insanos...

                                                        "Beijei na boca de quem no devia
                                                  Dancei um samba em traje de mai" (Assis Valente)



                                   Talvez nem seja necessrio pensar no fim do mundo, ou na prpria
                               morte, mas o simples fato de ficar "frente a frente" com a perda de al-
                               gum muito querido, comover-se com as catstrofes que levam  mor-
                               te de milhes de pessoas ou com o drama cotidiano dos doentes e fa-
                               mintos que passam a vida somente em busca de alimento, e morrem
                               ignorando totalmente as possibilidades que a vida pode nos oferecer,
                               sejam situaes que certamente levam muitos de ns a pensar sobre o
                               sentido da vida, sobre as razes de nossa existncia, sobre os motivos
                               que fazem cada um de ns termos vidas to diferentes.
                                   Estas so questes que incomodam a humanidade desde os mais
                               remotos tempos, muito antes dos filsofos gregos colocarem as cls-
                               sicas questes: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Pa-
                               ra que viemos?
                                   A busca dessas respostas motivou-nos a desenvolver o que pode-
                               mos chamar de pensamento sagrado, ou seja, nossa imaginao e in-
                               teligncia, movidas pela curiosidade, levou-nos a criar histrias que
                               nos explicam e aquietam nossas angstias sobre os mistrios acerca da
                               criao de todo o universo, e sobre o destino que nos espera.  cla-
                               ro que a cincia tambm se encarregou de buscar estas respostas, mas
                               trataremos disto mais a frente.
                                   Segundo Marilena Chau, filsofa brasileira, o "sagrado opera o en-
                               cantamento do mundo" (Chau,1998: 297), ou seja, essa forma de pen-
                               samento nos remete a um mundo povoado de seres sobrenaturais com
                               poderes ilimitados que nos observam, nos recompensam, nos casti-
                               gam, nos auxiliam, etc. Em todas as culturas conhecidas, vamos encon-
                               trar sinais do sagrado. No importa se so seres naturais dotados de
                               poderes sobrenaturais  a gua, o fogo, o vento, se animais  o cordei-
                               ro, a vaca, a serpente, se seres com forma humana  santos, heris, ou
                               seres imaginrios  anjos, demnios. Em outros casos no h deuses,
                               mas prticas, regras ou rituais com dimenses sagradas. Exemplifican-
                               do: para alguns povos indgenas o Sol e a Lua so considerados sagra-
                               dos, para os hindus, a vaca  um animal digno de idolatria, os judeus
                               no cultuam deuses, mas tm seus dogmas, assim como os budistas,
                               que transformam todo o universo em entidade sagrada.
                                   Juntamente com o desenvolvimento do pensamento sagrado, so
                               criados os "locais sagrados", templos, igrejas, sinagogas, terreiros, mes-

84   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                             Sociologia

                     quitas, os cus, que so os lugares estabelecidos para as celebraes,
                     as homenagens, os sacrifcios, enfim so os lugares em que as pesso-
                     as se renem ou aos quais se dirigem mentalmente, para reafirmarem
                     suas crenas, celebrarem seus rituais. Observe que para algumas religi-
                     es, em alguns momentos histricos, esses locais tornam-se verdadei-
                     ros smbolos de poder, como as catedrais medievais.
< Foto: Joo Urban




                     < Ritual de beno de alimentos



                     z O que so os rituais?
                         Os rituais so atos repetitivos, que rememoram o acontecimento
                     inicial da histria sagrada de determinada cultura.  fundamental na
                     celebrao do ritual que as palavras e os gestos sejam sempre os mes-
                     mos, pois trata-se de uma reafirmao dos laos entre os humanos e
                     os deuses. Quem j presenciou uma cerimnia de casamento da Igre-
                     ja Catlica conhece de antemo as palavras e os gestos que sero ditos
                     e praticados pelo padre e pelos noivos. Trata-se de um ritual de pas-
                     sagem, da vida de solteiro para a vida de casado. Os rituais so reali-
                     zados para agradecermos graas recebidas, para pedirmos ajuda, para
                     desculpar-nos por atos considerados incorretos, assim como para ser-
                     mos aceitos numa religio, ou nos despedirmos da vida.
                         Outra importante caracterstica das religies so os dogmas  ver-
                     dades irrefutveis que so mantidas pela f. Um dogma jamais pode
                     ser questionado, ou colocado em dvida. Por exemplo: a transforma-
                     o do vinho e do po em sangue e corpo de Cristo.
                         Este conjunto de smbolos sagrados, que inclui o pensamento reli-
                     gioso, somado aos locais e rituais sagrados formar um sistema religio-
                     so, ou uma religio.

                                                                                               A Instituio Religiosa    85
       Ensino Mdio

                                   So muitas as definies propostas a este termo. Por tratar-se de um
                               aspecto ao mesmo tempo amplo, multifacetado e que envolve a sub-
                               jetividade humana, torna-se quase impossvel chegar-se a algum con-
                               senso. No entanto, escolhemos para este texto uma pequena definio
                               de Peter Berger, socilogo norte-americano:


                                          "a religio  uma obra humana atravs da qual  construdo
                                       um cosmo sagrado" (BERGER apud FILORAMI&PRANDI, 1999: p.267).


                                  Em sua definio, Berger contempla tanto o aspecto transcendental
                               quanto o cultural (obra humana).
                                  Prosseguindo nesse raciocnio, cabe a explicao etimolgica da
                               palavra religio. A partir de um pensamento de Santo Agostinho o qual
                               nos prope que liguemos nossa alma a um nico Deus, temos hoje a
                               associao da palavra religio a "religar". Ligar o que a qu? Ligar o
                               mundo sobrenatural, sagrado, ao mundo humano, ou profano, fazer-nos
                               crer (e este  um aspecto fundamental da religio: a f), que ns mortais
                               no estamos sozinhos no universo, que h um sentido para a vida, e que
                               cabe a cada um de ns tentarmos descobrir a que viemos.




                                                                                                           < Foto: Joo Urban




                                  Em resumo, consideramos que esta seja uma das formas de compreender-
                               mos o pensamento religioso:
                                  A religio como uma forma de alimento s nossas esperanas, co-
                               mo uma fora que nos impulsiona em direo a construo daquilo
                               que consideramos justo, tico e ideal. A crena de que em ltima ins-
                               tncia, algo ou algum ir nos socorrer, que no estamos abandona-
                               dos  prpria sorte, pode nos dar a fora necessria para prosseguir-
                               mos em nossa aventura pela vida! A religio pode tambm nos ensinar

86   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                           Sociologia

a conviver com nossos conflitos interiores e aceitarmos o que  inevi-
tvel, caso contrrio, a vida se tornar invivel. Talvez elevar o pensa-
mento ao Cu possa coloc-lo  altura de nossos desejos.

   Mas por que estudar a religio, e suas vrias manifestaes?
   Antes de tudo porque no vivemos isolados no mundo. Estamos
em contato contnuo com as mais diversas culturas do planeta! J h
muito tempo a antropologia nos alertou sobre os riscos e os preju-
zos que o pensamento etnocntrico causaram  humanidade. Quantas
culturas arrasadas, quantos povos destrudos e dominados em virtu-
de da ignorncia e da arrogncia de outros, mais poderosos economi-
camente. Hoje,  inadmissvel termos este tipo de atitude, qual seja, a
de olharmos com superioridade para povos com culturas diferentes da
nossa, julgarmos como inferiores comportamentos culturais que nos
parecem "estranhos" ou exticos. Conhecer as diferentes religies que
se espalham por nosso pas e pelo mundo afora, possibilita-nos abrir-
mos os olhos para o mundo, ou melhor, conhecermos outras dimen-
ses para se compreender e explicar a vida e o universo. Veremos que
o mundo  muito maior do que imaginamos e muito mais fascinan-
te depois de conhecermos as histrias que buscam dar significado s
nossas existncias.

     Uma segunda forma de compreenso do pensamento religioso  perceb-
lo como instrumento de dominao, de intolerncia, e que ao extremo pode
chegar ao fanatismo religioso.
     No Brasil, temos hoje o respeito e a tolerncia pelas mais diver-
sas religies. No somos obrigados a seguir uma nica religio, como
ocorre em alguns pases. Inclusive a Constituio Nacional nos asse-
gura a liberdade de credo e de culto segundo o art.5, cap.I, inciso VI.
Isso significa que, ao nascermos, quase sempre seguimos a religio de
nossa famlia, mas que ao longo da vida podemos escolher uma nova
religio, ou mesmo optarmos pelo atesmo.
     Essa conquista, no entanto, foi obtida por meio de muita luta e de
muita opresso. Relembrando um pouco da histria de nosso pas, va-
mos chegar aos povos nativos que aqui habitavam. Estes povos, assim
como ocorre em uma parte das sociedades ditas "primitivas", tinham o
pensamento religioso como eixo central de suas vidas, o sagrado per-
meando todas as relaes e explicando todos os acontecimentos da co-
munidade. Tinham, portanto, seus deuses, seus rituais, que davam sig-
nificado  sua existncia. A chegada dos europeus, povos de tradio
catlica, na condio de colonizadores, provocou um verdadeiro mas-
sacre cultural.
     Os padres jesutas, representantes do catolicismo, iniciaram, no Bra-
sil, na primeira metade do sculo XVI, sua obra de catequizao, im-
pondo novos valores e uma viso de mundo aos curumins, que em na-

                                                                             A Instituio Religiosa    87
       Ensino Mdio

                               da correspondiam  cultura daqueles povos.
                                   A viso eurocntrica fazia-os crer que os indgenas, apesar de esta-
                               rem situados numa escala inferior de humanidade, se comparados aos
                               europeus, ainda assim poderiam ser cristianizados e salvos com inter-
                               veno de um religioso que lhes encaminhasse para a f.
                                   Logo em seguida, com o processo de colonizao, povos africanos
                               foram trazidos como escravos e consigo carregam tambm seus cul-
                               tos, suas crenas, seus rituais, enfim sistemas religiosos estruturados
                               h muito tempo. No Brasil, essas pessoas foram tratadas como merca-
                               dorias, como coisas, e portanto, suas crenas tambm foram despre-
                               zadas, ou pior, proibidas. Mais tarde houve a vinda de outros povos
                               europeus e asiticos que imigraram em busca de terras e trabalho. Jun-
                               to com seus sonhos, trazem tambm suas religies, as quais buscaram
                               preservar, como forma de manterem-se unidos e mais fortes numa ter-
                               ra to estranha a seus hbitos culturais.
                                   No entanto, mesmo com todas essa variedade religiosa, as leis bra-
                               sileiras declaravam o catolicismo como a religio oficial do pas. Alis,
                               a Igreja Catlica, no Brasil sempre teve um poder muito grande, no
                               somente em seu mbito, mas tambm nas questes polticas nacionais
                               e regionais. At o advento da Repblica, Estado e Igreja legislavam
                               em conjunto, decidindo os rumos da nao. Ainda no perodo Vargas
                               (1930  1945), vamos encontrar fortes influncias dos chamados seto-
                               res catlicos na poltica nacional.




                                                                                                           < Foto: Joo Urban




                               < Cracvia


                                  Mas por que a Igreja Catlica possui tanto poder?
                                  A origem deste poderio da Igreja Catlica pode ser encontrado no
                               fim do Imprio Romano do Ocidente, com a legalizao do cristianis-
                               mo no ano 313. A partir da, o progresso do cristianismo se acelerou,

88   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                                    Sociologia

                       chegando ao seu auge na Idade Mdia europia. Nesse perodo da his-         A Inquisio era um verda-
                       tria, a Igreja Catlica reinou absoluta, decidindo os destinos dos rei-   deiro tribunal que julgava e
                       nos e dos indivduos. Todos eram obrigados a professar a mesma re-         condenava as pessoas que
                       ligio, e aqueles que no obedecessem seriam duramente castigados.         considerava hereges. Qual-
                       Foi um tempo de muito terror e mentiras. Qualquer ato ou sinal que         quer um que questionasse as
                       contrariasse os rgidos preceitos da Igreja eram considerados heresia      idias e as prticas da Igreja
                       ou feitiaria, motivos para perseguies e castigos.                       poderia ser levado aos tribu-
                                                                                                  nais do Santo Ofcio.
< Foto: Nego Miranda




                       < Mxico


                           Muitos sculos se passaram, e somente no sculo XVI, veremos o
                       poder da Igreja Catlica ser abalado, com o Movimento da Reforma
                       Religiosa. A Reforma constituiu-se num rompimento da Igreja Catli-
                       ca e teve como conseqncia religiosa o surgimento de novas igrejas
                        conhecidas como protestantes (luteranismo, calvinismo). O conflito
                       tem incio quando Martinho Lutero (14841546), monge alemo rom-
                       pe com o Papa porque discordava de algumas prticas da Igreja, como
                       a venda de indulgncias, de relquias e cargos.
                           A partir do Iluminismo, teremos o acirramento do conflito entre ci-
                       ncia e religio. Galileu Galilei (15641642) foi obrigado pela Igreja a
                       negar sua teoria (heliocentrismo), caso no desejasse sofrer as penas
                       da Inquisio. O Iluminismo introduziu formas inditas de ver o mun-
                       do, que at ento era percebido somente em termos religiosos, e esta
                       nova viso estava associada a uma nova classe social que se insurgia
                       contra o poder aristocrtico. Neste perodo (sc.XVIII), a religio est
                       associada ao poder aristocrtico. Portanto,  fcil perceber que a luta
                       contra o pensamento religioso transformou-se numa luta poltica, con-
                       tra os representantes deste pensamento conservador.
                            neste contexto histrico (sc.XIX), que alguns tericos da Socio-
                       logia iniciam seus estudos sobre a religio. Karl Marx (1818 -1883),

                                                                                                   A Instituio Religiosa         89
          Ensino Mdio

      "A secularizao representa     mile Durkheim (1858 -1917) e Max Weber(1864 -1920) mais uma vez
     o processo por meio do qual      nos auxiliam nesta tarefa da Sociologia de analisar contextualmente e
     a religio perde sua influn-    desnaturalizar as relaes sociais. Chegam a concluses distintas em
     cia sobre as diversas esfe-      suas anlises e reflexes sobre as funes da religio nas sociedades.
     ras da vida social". (GIDDENS,   No entanto, num aspecto  possvel observar a convergncia entre os
     2005, p. 437)                    trs pensadores: so unnimes em anunciar o previsvel fim da reli-
                                      gio. Afirmam que com o desenvolvimento das sociedades industriais,
                                      a religio tenderia a perder espao para outras atividades sociais. Ou
                                      seja, a modernizao e a industrializao levaria ao que a Sociologia
                                      denomina de processo de secularizao.

                                          !! Parece que se equivocaram! Caso contrrio no estaramos neste mo-
                                      mento gastando nossas horas com esse estudo.
                                          Para Durkheim, a religio teria a funo de fortalecer os laos de
                                      coeso social, e contribuir para a solidariedade dos membros do gru-
                                      po. Por isso, as cerimnias e os rituais ganham uma grande importn-
                                      cia, uma vez que so estes momentos que possibilitam o encontro dos
                                      fiis e a reafirmao de suas crenas. Durkheim iniciou e baseou suas
                                      anlises em uma pesquisa realizada com os povos aborgenes austra-
                                      lianos, na qual abordava a prtica do totemismo. Um totem  um obje-
                                      to sagrado, um smbolo do grupo, venerado nas cerimnias ritualsticas. Po-
                                      de ser uma planta, um animal, ou objeto, que por possuir, em sua origem, um
                                      significado especial para o grupo, adquire o carter de sagrado. A utiliza-
                                      o do termo Totem est restrito s religies chamadas "elementares"
                                      ou simples. Reafirmando, podemos concluir que para Durkheim, a re-
                                      ligio possui unicamente a funo de conservar e fortalecer a ordem
                                      estabelecida. De forma alguma pode ser associada a questes de po-
                                      der poltico ou ideolgico.


                          ATIVIDADE

          Escolha um ritual religioso que voc conhece, descreva-o e aponte os elementos de coeso, soli-
      dariedade social e reafirmao de valores do grupo religioso a que este pertence.


                                          Marx muitas vezes foi citado como um crtico mordaz da religio,
                                      devido principalmente  sua famosa frase: "a religio  o pio do po-
                                      vo" (MARX, 1991: 106). Mas veremos que isto no  bem assim. Marx foi um
                                      grande pensador e crtico do sistema capitalista. Suas anlises e crti-
                                      cas esto focadas no lucro, na mais-valia, na diviso da sociedade en-
                                      tre burguesia e proletariado, na luta de classes. Portanto, suas princi-
                                      pais preocupaes estavam focadas nas condies materiais das vidas
                                      das pessoas, na concretude do sistema. Para ele, a forma como a socie-
                                      dade se organiza para produzir os seus bens materiais, ou seja, a forma

90    O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                Sociologia

de organizao do trabalho vai exercer forte influncia sobre a forma
como as pessoas pensam. Este pensar  representado pelo conjunto de
valores e conhecimentos impostos pelo Estado e pela religio. Em seu
texto "A questo judaica", escrito em 1844, Marx discute a respeito do
papel desempenhado por estas instituies no sentido de controlarem
e modelarem o pensamento social.
    Para Marx, a sociedade civil s ter condies de alcanar a liber-
dade, ou a "emancipao humana" quando tiver condies de partici-
par efetivamente das decises polticas do Estado, e por conseguinte
alcanar a verdadeira democracia. Mas ateno! Entenda-se democra-
cia no somente em sentido poltico/eleitoral, como nos ensinaram os
liberais do sculo XVIII, mas sim em seu sentido pleno, como igualda-
de na distribuio dos bens socialmente produzidos e materializados na for-
ma de direitos sociais.
    Por esse motivo, podemos afirmar que para Marx, a grande trans-
formao deveria acontecer no modo da sociedade produzir e distri-
buir seus bens, assim como na presena de um Estado que atendesse
aos interesses coletivos, pois uma vez construda uma sociedade justa
e igualitria, no haveria mais necessidade das pessoas sonharem com
um mundo ideal, ou um paraso. "pio do povo" significa que o povo
projeta em seus deuses e no mundo sobrenatural a vida que deseja ter
aqui na Terra. Esta forma de pensar leva  resignao, a aceitao das
condies de nossa vida como um destino que no pode ser modifica-
do. Mas Marx demonstra grande compreenso pela manifestaes re-
ligiosas quando afirma: "a religio  o corao
de um mundo sem corao" (MARX, 1991:106), ou
seja, a religio  o nico refgio, o nico con-
solo para aqueles a quem a vida  muito du-
ra e ingrata.
    Essa  mais uma forma de compreendermos a
religio. Que nos leva  acomodao,  submisso,
 aceitao de nosso lugar na sociedade sem ques-
tionamentos como nos sugere o ensinamento "
mais fcil um camelo passar num buraco da agulha
que um rico entrar no reino dos cus".


                                                                                           < Foto: Joo Urban



                ATIVIDADE

   Pesquise a msica "Procisso", do compositor Gilberto Gil. Interprete seus versos apontando os ele-
 mentos de submisso e acomodao estudados acima.



                                                                                 A Instituio Religiosa        91
       Ensino Mdio

                                   Weber foi um grande estudioso da religio. Empreendeu anlises
                               comparativas entre as religies orientais e ocidentais, com o objetivo
                               de compreender as razes do desenvolvimento do capitalismo na Eu-
                               ropa. Concluiu que o mundo oriental no oferecia condies para es-
                               te tipo de organizao econmica devido aos seus sistemas religiosos
                               (que veremos adiante), os quais pregavam valores de harmonia com o
                               mundo, de passividade em relao s condies de existncia, ao con-
                               trrio das religies crists que incentivavam o trabalho e a prosperida-
                               de. Em sua obra "A tica protestante e o esprito do capitalismo", We-
                               ber desenvolve um interessante estudo em que demonstra o quanto
                               os protestantes (em especial os calvinistas) contriburam para o desen-
                               volvimento do capitalismo. Esses possuam um forte esprito empreen-
                               dedor baseado na crena de que com o trabalho estariam servindo a
                               Deus. O enriquecimento e o sucesso material eram sinais de favoreci-
                               mento divino.
                                   Esses so, portanto, trs possveis olhares sociolgicos sobre a institui-
                               o religiosa.
                                   Como j comentamos anteriormente, saber da existncia e conhe-
                               cer outras religies, alm de ampliar nosso universo cultural e nos
                               ensinar a respeitar a diversidade cultural, leva-nos principalmente a
                               compreender melhor nossa prpria religio. Sim, porque s nos perce-
                               bemos como construtores de cultura na medida em que conhecemos a
                               cultura do outro. Quando s conheo o meu mundo este se torna "na-
                               tural", ou o nico possvel!
                                   Importa ressaltar, antes de conhecermos o quadro das religies, a
                               existncia de uma postura filosfica denominada Atesmo. Surge na an-
                               tigidade greco-romana e ganha maior espao  partir do sculo XVIII,
                               com o surgimento das teorias anarquistas, liberais e socialistas. Consis-
                               te na total ausncia de explicao divina para a vida.
                                    Vamos, em seguida, apresentar as principais religies que podemos
                               encontrar espalhadas por todo o mundo. Apenas citaremos e apontare-
                               mos algumas caractersticas de cada uma delas. O interesse e a curio-
                               sidade de vocs poder levar  pesquisa e ao aprofundamento sobre
                               o assunto.


                               z Religies originrias do Extremo-Oriente
                                  Taosmo
                                  Baseia sua doutrina num livro chamado "Tao Te Ching"  o livro do
                               Tao (ordem do mundo) e do Te (fora vital), escrito presumivelmente
                               pelo filsofo chins Lao Ts, no sc. VI a. C. O Taosmo prega a passi-
                               vidade para se alcanar o Tao, ao contrrio do confucionismo que pro-
                               pe o conhecimento. Para Lao Ts, o mundo ideal era aquele das anti-
                               gas aldeias, onde a simplicidade e a ingenuidade criariam as condies
                               propcias para o perfeito equilbrio entre o Tao e o Te.
92   O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                          Sociologia

    Xintosmo
    Trata-se da antiga religio oficial do Japo. Originariamente no
possua um fundador, doutrinas nem dogmas. Estrutura-se por inter-
mdio de um conjunto de mitos e ritos que estabelecem o contato com
o divino e explicam a origem do mundo, do Japo e da famlia impe-
rial japonesa. O universo xintosta  povoado por milhares de deuses,
denominados kamis  que se manifestam na forma de rios, montanhas,
flores, seres humanos, animais, etc. Kami tambm pode ser traduzido
por esprito, sendo o culto aos ancestrais uma das prticas mais impor-
tantes do xintosmo.

    Hindusmo
    So surpreendentes a permanncia no tempo e a complexidade
desta religio, que perdura h aproximadamente 6 mil anos, e com-
pe-se de to grande variedade de cultos e prticas religiosas, que
pode ser considerada como um grande conjunto formado por vrias
pequenas religies. Mas algumas caractersticas unem todos os hindu-
stas, quais sejam: o sistema de castas, a adorao s vacas e a crena
no carma. A organizao da sociedade em castas parte do princpio de
que os indivduos vm ao mundo j ocupando um lugar na hierarquia
social, como resultado de suas encarnaes nas vidas passadas. Por-
tanto, este deve cumprir com resignao a funo que lhe coube, por-
que um viver com pureza pode resultar como "prmio", uma vida fu-
                                                                  .
tura numa casta superior. As quatro castas do hindusmo so: 1  os
                           .               .
sacerdotes (brmanes), 2  guerreiros, 3  agricultores, comerciantes
                .
e artesos e 4  os servos. Um quinto grupo que no  considerado
casta so os prias. Cada casta tem suas prprias regras de condutas e
suas prprias regras religiosas.
    A vaca  considerado um animal sagrado, um smbolo da vida, por-
que ela supre tudo que  necessrio  sobrevivncia humana, portan-
to, no  permitido mat-la.

    Budismo  criado na ndia, pelo prncipe Sidarta Gautama
    O Buda (o iluminado), por volta do sc.
VI a.C.. Este  tratado pelos adeptos do budis-
mo como um guia espiritual, e no um deus.
Importa ressaltar que Buda era absolutamente
contra o sistema de castas existente na ndia.
    Segundo o budismo, o ser humano es-
t condenado  reencarnao aps cada mor-
te, e a enfrentar novamente os sofrimentos do
mundo (lei do carma). Para encerrar este cons-
tante ciclo, deve-se buscar o estado da perfeita
iluminao, ou nirvana. Este estado  alcana-
do por intermdio da meditao e da contem-                                     < Foto: IconeAudiovisual


                                                                          A Instituio Religiosa          93
                        Ensino Mdio

                                                plao, que corresponde  negao dos desejos  fonte de todos os
                                                sofrimentos.

                                                    Confucionismo
                                                    Foi a doutrina oficial da China durante quase dois mil anos (do sc.II
                                                ao incio do sc. XX). Criada pelo filsofo Confcio (Kung Fu Tzu), seus
                                                ensinamentos apontam no sentido da busca do caminho do Tao  que se-
                                                ria o equilbrio e a harmonia entre o universo, a natureza e o indivduo.
                                                Para alcanar este caminho  necessrio o conhecimento e a compreen-
                                                so, os quais so obtidos por meio do estudo do passado, da tradio. A
                                                respeito da vida aps a morte, Confcio no ousava comentar, uma vez
                                                que ainda no havamos compreendido o que  a vida na Terra.


                                                z Religies de origem africana
                                                    Citaremos aqui somente as principais religies afro-brasileiras presen-
                                                tes hoje no Brasil, no esquecendo de que, na frica, encontraremos uma
                                                grande variedade de religies  as religies tradicionais ou tribais.

                                                    Candombl
                                                    Originrio da frica, o candombl chegou ao Brasil junto com os
                                                primeiros escravos africanos, entre os sc. XVI e XVII. Seus deuses
                                                so chamados de Orixs e representam as principais naes africanas
                                                de lngua iorub. Suas cerimnias so realizadas em lngua africana,
                                                acompanhadas de cantos e sons de atabaques. Como esta forma de re-
                                                ligio era proibida no Brasil, seus adeptos associaram seus deuses a
                                                santos catlicos, criando o que se conhece como sincretismo religioso.
                                                Os deuses do candombl do proteo s pessoas, mas no determi-
                                                nam como essas devem agir, e no castigam caso essas cometam algo
                                                considerado incorreto para a sociedade.

                                                                                  Umbanda
                                                                                   uma religio brasileira, resultado da
                                                                               fuso de duas religies africanas: a ca-
                                                                               bula e o candombl, e de crenas euro-
                                                                               pias. O universo para os umbandistas 
                                                                               habitado por entidades espirituais  os
                                                                               guias, que entram em comunicao com
                                                                               as pessoas por intermdio dos iniciados,
 < Foto: Joo Urban




                                                                               ou mdiuns. Os guias assumem formas
                                                                               como o caboclo, a pomba-gira, o preto
                                                                               velho e outros. A umbanda se propagou
                                                                               por todas as regies do Brasil, e  fre-
                                                                               qentada por pessoas de todas as classes
                  < Ritual de Umbanda
                                                                               sociais e todas as origens tnicas.
94                    O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                       Sociologia

z Religies originrias do Oriente-Mdio
   As religies comentadas abaixo adotam a prtica do monotesmo,
ou seja, o culto a um nico Deus.

   Judasmo
    a mais antiga da trs grandes religies monotestas, sendo suas
origens encontradas h aproximadamente 1.OOO anos a.C. A palavra
judeu deriva de Judia, parte de uma regio do antigo reino de Israel.
Os judeus crem num nico Deus, onipotente, o qual estabeleceu com
eles um pacto, uma aliana. Por isso, consideram-se "o povo escolhido
por Deus". O livro sagrado dos judeus  a Bblia judaica, ou Tor, que
corresponde ao Antigo Testamento dos cristos, porm organizada de
uma forma um pouco diferente.
   A vida dos judeus  regida por normas rgidas estabelecidas por
Deus. O no-cumprimento dos deveres com Deus e com seus seme-
lhantes implicar em castigos divinos.

   Cristianismo
   Tem origem no sc.I, na regio ocupada
hoje pelos atuais Estados de Israel e territrios
palestinos. Seus primeiros adeptos so os se-
guidores de Jesus Cristo e de seus apstolos.
A doutrina crist nos ensina que Deus envia 
Terra, seu filho Cristo  o salvador, o qual foi
morto a favor dos homens que estavam dis-
tanciado-se de Deus. Na sua ressurreio Jesus
oferece s pessoas a possibilidade de salvao
eterna aps a morte, caso essas aceitem seguir
seus preceitos de amor a Deus e aos seus se-
melhantes. O cristianismo segue a Bblia, que
se divide em Antigo e Novo Testamento. Algu-
mas vertentes do cristianismo so apresenta-
dos a seguir:

   Igreja Catlica Romana
                                                                                                    < Foto: Joo Urban




   Igreja Ortodoxa
   Igreja Anglicana
   Igreja Luterana
   Igreja Presbiteriana                             < Aparecida - SP
   Igreja Metodista
   Igreja Batista


                                                                         A Instituio Religiosa          95
                           Ensino Mdio

                                                       Igreja Pentescostais:      Congregao Crist no Brasil
                                                                                  Assemblia de Deus
                                                                                  Evangelho Quadrangular
                                                                                  Deus  Amor
                                                       Igrejas Neopentecostais: Igreja Universal do Reino de Deus, entre ou-
                                                                                  tras.
                                                       Cristianismo de fronteira: Mrmons
                                                                                  Adventistas
                                                                                  Testemunhas de Jeov

                                                        Islamismo
                                                        Sua origem baseia-se nos ensinamentos do profeta Maom, assim
                                                    como ocorre com o cristianismo. A palavra isl significa submeter-se.
                                                    Seu deus  chamado Al, e seus seguidores so conhecidos como mu-
                                                    ulmanos (em rabe Muslim, aquele que se subordina a Deus). O livro
                                                    sagrado do islamismo  o Alcoro, sendo seus principais ensinamentos:
                                                    onipotncia de Deus e a necessidade de bondade, generosidade e jus-
                                                    tia entre as pessoas. A maioria dos muulmanos est concentrada no
                                                    norte e no leste da frica, no Oriente Mdio e no Paquisto.
                                                        Aps elencarmos todo este numeroso rol de religies e suas subdi-
                                                    vises em igrejas, que alis no termina aqui, se voc pesquisar, certa-
                                                    mente encontrar outras ramificaes destas religies ou seitas isoladas
                                                    e provavelmente voc ficar surpreso com a quantidade e a diversida-
                                                    de de manifestaes religiosas existentes no mundo. Este quadro cons-
                                                                                titui-se no que se chama de pluralismo reli-
                                                                                gioso, e certamente nos coloca importantes
                                                                                questes sociolgicas, que no podero ser
                                                                                aprofundadas neste momento, mas sobre as
                                                                                quais vale a pena pensar:
                                                                            = A lgica do mercado que nas ltimas dca-
                                                                                das do sculo XX invadiu todas as esferas
                                                                                da vida humana nas sociedades capitalis-
                                                                                tas no poupou as religies. Por isso, temos
                                                                                que estar atentos aos "espertalhes", que se
                                                                                aproveitam dos sofrimentos e falta de pers-
                                                                                pectivas das pessoas para vender sua "mer-
                                                                                cadoria" e ganhar adeptos que favorecero
                                                                                seus "negcios".
                                                                            = O desenvolvimento industrial levaria a uma
                                                                                perda da influncia das religies, diziam os
                                                                                tericos do sc. XIX. A cincia avanou verti-
                                                                                ginosamente no ltimo sculo, e as religies,
 < Foto: Joo Urban




                                                                                por sua vez, ganharam uma abrangncia e di-
                                                                                versidade nunca antes conhecidas.  impor-
                                                                                tante observar o papel dos meios de comu-
                                                                                nicao na difuso de mensagens religiosas,
                                                                                que chegam prontas em nossas casas.
                      < Mesquita em Curitiba - PR

96                      O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                       Sociologia

=    No importam suas crenas religiosas, no importa se voc  ateu.
     Mas importa que voc no espere o mundo acabar para lembrar-
     se da experincia da vida, do presente, que se acaba e recomea a
     cada dia.


                    ATIVIDADE

        Escolher trs religies e realizar uma visita aos seus "lugares sagrados" (mesquita, igreja, sinagoga,
    terreiro, templo). Marcar uma entrevista com o lder religioso, e elaborar um roteiro, contemplando ques-
    tes referentes  histria da religio, suas principais prticas e rituais e seus ensinamentos fundamen-
    tais. Se for possvel, fotografar, para organizar uma exposio em sua escola.


z Sugestes de filmes:
=    "A letra escarlate",1995,E.U.A,direo: Roland Joff
=    "Em nome de Deus", 2002,Inglaterra, direo: Peter Mullan
=    "Lutero", 2003, Alemanha/E.U.A, direo: Eric Till
=    "O corpo", 2001, E.U.A., direo: Jonas MC Cord
=    "Tenda dos Milagres", 1977, Brasil, direo: Nelson Pereira dos Santos
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                                                                                         A Instituio Religiosa    97
                                                                                             6
                                                                        A INSTITUIO
                                                                             FAMILIAR         <Marilda Iwaya1




                                             "Qualquer maneira de amor
                                          vale a pena". (C. Velozo).                "Que seja eterno enquan-
                                                                             to dure, posto que  chama".
                                                                             (Vinicius de Moraes).




                                                   "Desde que Joo se foi
                                                   em busca de trabalho...
                                                   Maria cria sozinha           "A famlia era muito mais
                                                   seus filhos..."           um ncleo econmico... os
                                                                             laos afetivos no importa-
                                                                             vam".
Departamento de Ensino Mdio  Curitiba SEED/PR
1



                                                                                              < Fotos: Joo Urban
        Ensino Mdio

                                   Algumas das imagens apresentadas anteriormente tm a ver com
                               sua idia de famlia? Ou melhor, com a idia que voc construiu a res-
                               peito de famlia? Sim? No? Talvez?
                                   Ser que h algo em comum entre as imagens?
                                   ! Pensar sobre famlia no  algo fcil! Pois so muitas as referncias
                               que temos sobre essa instituio.
                                   A primeira idia provavelmente est ligada  nossa prpria famlia 
                               aquela na qual nascemos ou na qual fomos criados. Mas  medida que
                               crescemos e vamos saindo do nosso "mundinho", comeamos a ob-
                               servar que as pessoas vivem em grupos familiares diferentes do nosso.
                               Vemos a famlia dos vizinhos, dos amigos da rua, dos colegas da esco-
                               la, das novelas da TV, dos comerciais de margarina... Isto sem mencio-
                               nar outros lugares, distantes ou no muito do nosso, e outros tempos
                               histricos, nos quais as famlias eram e so ainda muito mais diferen-
                               tes que as nossas conhecidas.




                                                                                                              < Foto: Joo Urban
                               < Famlia Bojan


                                   Frente a isso somos levados a pensar: que instituio to estranha 
                               essa! Ao mesmo tempo que parecem to semelhantes, so, por sua vez, to di-
                               ferentes!
                                   Veja por exemplo as imagens da primeira pgina. O que h de se-
                               melhante entre a imagem 4 (famlia patriarcal) e a imagem 2 ( me com
                               seus filhos)? Ser que o sentimento que une o casal 1  o mesmo que
                               une as pessoas da imagem 4? Alis, que sentimentos unem os mem-
                               bros de uma famlia? Amor, afeto, respeito, cumplicidade? Muitas ve-
                               zes sim. Mas certamente no foi e no  sempre assim. Algumas vezes
                               as pessoas se unem para formar uma famlia por questes econmicas,
                               outras vezes, por tradio, ou para obedecer regras impostas pela so-


100 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                           Sociologia

                     ciedade. Ou seja, nem sempre  o amor, como estamos acostumados a
                     pensar, o responsvel pelas unies conjugais, e nem sempre  o amor
                     que mantm unidas as famlias.
                         Bem, at aqui j deu para perceber que quando se fala de famlia
                     no h consenso, ou seja, no h chance de chegarmos a um mode-
                     lo considerado melhor ou pior, certo ou errado. E qual  o significado
                     desta instituio para ns? Para alguns, famlia  conforto, para outros
                      tormento. Para alguns  segurana, para outros  priso. Alguns psi-
                     clogos vem na famlia a origem de todos os nossos traumas  pro-
                     blemas que carregamos ao longo de nossa vida, e dos quais muitas ve-
                     zes no conseguimos identificar as causas. O senso comum e a religio
                     nos ensinam que a famlia  a clula-me da sociedade, imprimem-lhe
                     um carter quase sagrado, e tentam nos convencer de que todos te-
                     mos que amar e preservar a famlia, caso contrrio as geraes no se
                     perpetuam... a escola j h algum tempo vem culpando e responsabi-
                     lizando a famlia, caso o aluno no se saia bem nos estudos...
                         E ns, como ficamos no meio disso tudo que se afirma? Amamos,
                     odiamos, permanecemos, fugimos, destrumos ou construmos? J en-
                     contramos nossa famlia pronta quando nascemos, mesmo que se consti-
                     tua unicamente de nossa me. Por isso, os socilogos afirmam que essa
                      primeira instituio social  qual pertencemos. Aquela da qual recebe-
                     mos os primeiros valores e as primeiras impresses sobre a vida e sobre
                     o mundo. Muito do que somos e do que pensamos  resultado da forma
                     como fomos criados em nossos anos iniciais, nessa pequena instituio.
                         Fazendo um parnteses, cabe lembrar das crianas orfs ou aban-
                     donadas, as quais so encaminhadas para orfanatos e que, portanto,
                     recebem um tipo diferenciado de valores e de educao. E as crianas
                     cuja moradia  a rua? Algumas vezes elas possuem uma casa, mas pre-
                     ferem ou so obrigadas a permanecer nas ruas, a fim de garantir seu
                     prprio sustento e mesmo de algum adulto que as explora. Quais so
                     seus valores, e como o mundo chega aos seus olhos?
< Foto: Joo Urban




                                                                                                A Instituio Familiar 101
        Ensino Mdio

                                   Nos orfanatos e abrigos as crianas recebem, alm de cuidados b-
                               sicos para sua sade e educao, valores que esto mais ligados  vida
                               em coletividade, crescem, portanto, aprendendo a viver cooperativa-
                               mente, dividindo direitos e obrigaes. No entanto, se podemos afir-
                               mar que valores como solidariedade, senso de justia e autonomia so
                               aprendidos por meio de relaes de cooperao, estas devem ser teci-
                               das com muito amor e afeto, sentimentos nem sempre fceis de se de-
                               senvolverem em instituies que abrigam um grande nmero de crian-
                               as.
                                   Quanto s crianas que vivem nas ruas, alm de tudo que sabe-
                               mos sobre os constantes riscos a que esto sujeitas, como a violncia
                               das drogas, dos crimes, da prostituio infantil e mesmo de assassina-
                               tos, temos hoje interessantes pesquisas apontadas pela psicloga Sl-
                               via Helena Koller, professora da UFRGS, que "...sustentam que crian-
                               as em situao de rua apresentam caractersticas psicolgicas sadias,
                               apesar do cotidiano adverso que enfrentam na hostilidade da rua. A
                               rua gera altos nveis de stress, testando constantemente sua vulnerabili-
                               dade emocional, social e cognitiva. Todavia, tambm, exige permanen-
                               temente que elas apresentem estratgias de adaptao e de resistncia
                                situao adversa e que pe em risco a sua segurana e sobrevivn-
                               cia". (KOLLER, 2000: 67). Este  um dado importante para revermos nossos
                               preconceitos.
                                    provvel que voc j tenha ouvido a frase: "A vida imita a arte".
                               Ou ser: "A arte imita a vida"? Pois vejamos o que nos diz o poeta Chi-
                               co Buarque de Holanda a respeito de casamentos, famlias, mes e fi-
                               lhos...
                                   Quando trata de casamentos e vida familiar  possvel perceber,
                               nos versos de Chico Buarque, sentimentos como a opresso, o con-
                               formismo e a "mesmice", em que podem tornar-se o cotidiano fami-
                               liar. As canes "Cotidiano" (1971) e "O casamento dos pequenos burgue-
                               ses", exemplificam alguns destes aspectos: "Todo dia ela faz tudo sempre
                               igual/ Me sacode s seis horas da manh/ Me sorri um sorriso pontual/ e me
                               beija com a boca de hortel...", e assim a msica prossegue, repetindo pa-
                               lavras, num ritmo constante e repetitivo, no qual as aes se sucedem
                               de modo sempre previsvel. A msica no nos sugere paixo nem tam-
                               pouco dio entre os cnjuges. Apenas descreve a rotina diria de um
                               casal, que pode significar segurana como tambm um certo tdio co-
                               mo preferirem aqueles que a lerem.
                                   J em "O casamento dos pequenos burgueses",  evidente a hipocri-
                               sia das relaes que se mantm somente para salvar as aparncias, e
                               o conseqente sofrimento daqueles que aceitam uma vida sem sabor,
                               ou ser sem amor?




102 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                           Sociologia




                          "Ele faz o macho irrequieto
                          E ela faz crianas de monte
                          Vo viver sob o mesmo teto
                          At secar a fonte..."




                                                                                                        < Foto: Joo Urban
    Mas Chico no  s pessimismo quando trata de casamentos. Em
sua msica "Valsinha" (1971), ele aponta a possibilidade das pessoas
se "reencontrarem", mesmo aps muitos anos de convvio, e poderem
reconstruir a vida com que um dia haviam sonhado, ao som de uma
valsa de ritmo suave: "Um dia ele chegou to diferente do seu jeito de sem-
pre chegar/ Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costuma-
va olhar/ E no maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar/ e
nem deixou-a s num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar...
E finalmente: E cheios de ternura e graa foram para a praa e comearam a
se abraar."
    Quando trata das relaes entre me e filhos, Chico Buarque de-
monstra tamanha sensibilidade, que quase imaginamos ser ele o pro-
tagonista das histrias. No samba "O meu guri"(1984), podemos com-
preender o orgulho da me, cujo filho tudo faz para v-la feliz, e esta
prefere no ver o que no lhe convm.



                  "Chega suado e veloz do batente
                  E traz sempre um presente pra me encabular
                  Tanta corrente de ouro, seu moo
                  Que haja pescoo pra enfiar
                  Me trouxe uma bolsa j com tudo dentro
                  Chave, cardeneta, tero e patu
                  Um leno e uma penca de documentos
                  Pra finalmente eu me identificar,..."




    J em "Anglica" (1978) chega a nos angustiar o desespero e o sofri-
mento da me que tem o seu filho "roubado" pela ditadura militar, que
se traduz numa melodia triste e desesperanosa:




                                                                                A Instituio Familiar 103
         Ensino Mdio


                                                       "Quem  esta mulher
                                                       Que canta sempre este estribilho
                                                       S queria embalar meu filho
                                                       Que mora na escurido do mar..."


                                   Tambm o menino de rua, ou o menor abandonado  mostrado em
                               "Pivete" com toda a crueldade que a vida lhe reservou. Sua vida acon-
                               tece num nico flego e tem um ritmo acelerado, como o prprio po-
                               ema de Chico e Francis Hime. Seu mundo  a cidade grande, que ele
                               domina como ningum. Seus dolos  Pel, Ayrton Senna e Man Gar-
                               rincha  expressam os sonhos to distantes e quase inacessveis da
                               maioria dos brasileiros. Este menino, cuja me, cujo pai e irmos tam-
                               bm esto em algum lugar, que no se chama lar ou famlia  um me-
                               nino apenas, que luta para sobreviver, do jeito que a vida lhe ensi-
                               nou:

                                                                    "No sinal fechado
                                                                    Ele vende chiclete
                                                                    Capricha na flanela
                                                                    E se chama Pel
                                                                    Pinta na janela
                                                                    Batalha algum trocado
                                                                    Aponta um canivete
                                                                    E at
                                                                    Dobra a Carioca, oler
    < Foto: Joo Urban                                              Desce a Frei Caneca, olar..."



                         PESQUISA

          Pesquise outras msicas e poemas que abordem relaes familiares, da forma como vimos no tex-
      to acima. Procure imagens que correspondam aos textos pesquisados. Monte cartazes e apresente 
      turma.


                                  Mas agora voltemos ao centro de nossa questo. Por que estuda-
                               mos sobre a famlia? Que objetivos tem a sociologia ao propor o estu-
                               do deste assunto?
                                  Certamente no pretendemos chegar a nenhum consenso, a nenhu-
                               ma verdade nica, como tambm no iremos lhes apresentar um belo
                               modelo familiar a ser seguido. Nosso objetivo neste caso  problema-

104 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                        Sociologia

tizar! Sim, problematizar para que possamos nos situar melhor na so-
ciedade, compreender nossa origem social e as implicaes da decor-
rentes, e a partir disso podermos escolher e encontrar nosso lugar no
mundo, mantendo os vnculos familiares que nos forem importantes e
abandonando sem culpa aqueles que nos fazem mal.
    E como faremos esta problematizao? Primeiramente conhecen-
do como a Sociologia define e classifica as organizaes familiares.
Aps, teremos contato com os resultados de algumas pesquisas antro-
polgicas que ilustram a respeito da diversidade familiar encontrada
pelo mundo afora. Finalmente, discutiremos sobre as mudanas pelas
quais passam as famlias nas sociedades contemporneas e as alternati-
vas buscadas pelos grupos humanos, na tentativa de encontrar formas
mais harmoniosas e saudveis de se viver. Ento, conseguiremos re-
lativizar a respeito desta questo, ou seja, no nos utilizarmos somen-
te do ponto de vista individual para analisar uma situao (neste caso
a familiar), mas podermos v-la a partir de outros referenciais tericos
e sociais.
    Vamos a alguns conceitos:

    Famlia  um agrupamento de pessoas cujos membros possuem entre si la-
os de parentesco, podendo ou no habitarem a mesma casa. Por exemplo,
um pai separado continuar fazendo parte da famlia de seu filho (mas
no de sua ex-mulher), embora esteja morando em outra casa. Quan-
do uma famlia  composta por pai, me e filhos, ela  chamada de
famlia nuclear. Quando outros parentes, como avs ou tios convivem
com o casal e seus filhos, temos o que se chama de famlia extensa.
    Os laos de parentesco so estabelecidos a partir da consangini-
dade ou do casamento. Os casamentos ou unies conjugais podem ser
classificados basicamente de duas formas: monogmicos   a unio de
um homem ou de uma mulher com um nico cnjuge; e poligmicos 
que  a unio de um homem ou uma mulher com mais de um cnjuge.
No mundo ocidental, a poligamia  ilegal, embora os meios de comu-
nicao e a literatura vez ou outra nos relatem casos de pessoas que vi-
vem conjugalmente com mais de um marido ou mais de uma esposa.
    Na perspectiva da Sociologia Funcionalista (Durkheim, Parsons), a
famlia nuclear  considerada uma unidade fundamental para a orga-
nizao da sociedade, pois detm as funes de transmitir s crianas
as regras bsicas da sociedade, bem como de proporcionar estabilida-
de emocional a seus membros. Mas, para estes socilogos a grande im-
portncia da famlia refere-se  diviso de tarefas, que permite que um
dos adultos saia para trabalhar enquanto o outro cuida da casa e dos
filhos. Hoje, esta interpretao  considerada conservadora, pois pres-
supe que a diviso das tarefas domsticas  um dado natural. Da mes-
ma forma, as funes referentes  educao dos filhos, antes atribudas
somente  famlia, so cada vez mais divididas com outras instituies

                                                                             A Instituio Familiar 105
        Ensino Mdio

                               como o Estado, a escola e creches, alm da forte influncia exercida
                               pelos meios de comunicao.
                                   Muito bem! Aps estas informaes bsicas vamos ao que interes-
                               sa mais especificamente no pensamento sociolgico. Ou seja, indagar,
                               questionar, desconstruir o que parece "normal", ou "natural", ir na con-
                               tra-mo de verdades repetidas anos a fio, romper com o que  aparen-
                               te, e buscar o que est oculto, o que no  visvel aos olhos da maio-
                               ria, mas que pode ser apreendido pelos olhos curiosos da Sociologia.
                               Desenvolvendo esta forma de olhar, nosso estudo ganhar sentido e
                               perceberemos a sua importncia em nossas vidas. Quem sabe nosso
                               objeto de estudo possa at tornar-se Sujeito, com todas as prerrogati-
                               vas que lhe cabe!

                                   Ento, vamos  primeira pergunta:
                                   H algo mais intrinsecamente ligado a ns do que a nossa famlia? 
                               provvel que no. No entanto, por que to poucas vezes paramos pa-
                               ra refletir sobre este assunto? Uma das respostas pode estar ligada aos
                               ensinamentos que recebemos da cincia e da escola, que nos dizem
                               que as coisas que esto longe de ns  que so importantes, como os
                               afluentes do rio Nilo ou a dinastia do reino Franco, ao passo que a nos-
                               sa histria, nossas inquietaes no so dignas de estudo e pesquisa.
                               Talvez este seja um dos motivos que nos leva a crer que o mundo em
                               que vivemos no nos pertence, e assim pouco importa que nossos di-
                               reitos sejam roubados e que nossas vidas sejam somente objeto de es-
                               tudo para pesquisadores bem intencionados.
                                   Ento pessoal! Vamos continuar pensando:
                                   Ser que a famlia sempre se organizou desta forma nuclear  pai, me
                               e filhos? Observe que sempre comeando pelo pai. Por que ser?
                                   Ser que as regras para o casamento so iguais em todas as socie-
                               dades? Voc sabe por exemplo, que uma das regras na nossa socieda-
                               de  de que no podemos casar com os nossos irmos ou irms.
                                   Ser que esta instituio chamada famlia sempre existiu?
                                   Ser que a forma de organizao familiar, como ns conhecemos
                               hoje,  uma necessidade dos grupos humanos?
                                   As respostas so: No. No. No e no! Portanto, vamos s expli-
                               caes: a complexidade que cerca as formas de organizaes familia-
                               res  semelhante  profuso de sentimentos que estas nos despertam,
                               como foi colocado nas primeiras pginas deste texto. Os exemplos de
                               famlias que conhecemos e que parecem quase eternos so apenas al-
                               gumas das muitssimas possibilidades de agrupamentos familiares co-
                               nhecidos na histria. Antroplogos como Lewis Morgan (1818 - 1881),
                               Bronislaw Malinowski (1884 - 1942), Claude Lvi-Strauss (1908 - ), ou
                               cientistas sociais como Friedrich Engels (1820 - 1895), entre outros,
                               buscaram em suas pesquisas as vrias combinaes criadas pelo ser
                               humano para se organizarem socialmente.

106 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                               Sociologia

    Primeiramente  preciso esclarecer que no h uma escala evoluti-
va das sociedades humanas que caminharam das famlias poligmicas
para as monogmicas. Essas duas formas bsicas de casamento sem-
pre coexistiram em toda a histria da sociedade humana, o que indi-
ca que no h relao de superioridade ou inferioridade entre elas. In-
clusive em alguns grupos sociais verificou-se a existncia de ambas no
mesmo tempo histrico.
    Seria correto afirmar que a famlia  uma instituio que surge das
necessidades naturais do ser humano (a procriao, por exemplo), ou
seria tambm uma construo cultural, embasada em regras e valores?
Esta  uma questo com muitas respostas. O que se sabe,  partir de
inmeros estudos antropolgicos  que podemos encontrar, mesmo nos
mais remotos grupos humanos, regras que autorizam ou probem alguns
tipos de unio. Por exemplo, no se casar com o irmo, ou com o tio.
Esta prtica  chamada de incesto. Portanto, uma relao incestuosa se-
ria uma relao proibida, ou negada, numa dada sociedade.




                                                                                                                < enciclopdia Grandes Personagens da Nossa Histria, Ed. Abril, S.Paulo/SP, 1969, vol. I
    Conclui-se da, que quando o ser humano estabelece tais regras,
ele est procurando expandir seu pequeno grupo, sair de sua famlia
biolgica.
    Vamos a alguns exemplos de agrupamentos familiares distintos dos
nossos conhecidos: os iroqueses (tribos norte-americanas), estudados
por L. Morgan, consideram como seus filhos no somente os seus pr-
prios, mas tambm os de seus irmos, os quais tambm o chamam de
pai. Os filhos de suas irms, por sua vez, so tratados como sobrinhos.
A iroquesa, por sua vez, considera como seus filhos aqueles prove-
nientes de sua irm, enquanto os filhos de seus irmos so chamados
de sobrinhos. Essas denominaes implicam numa srie de deveres e
de obrigaes de cada um dos membros, e que iro configurar o siste-
ma social desses agrupamentos.
    Estamos acostumados hoje com o fato de cada filho ter apenas um
pai e uma me, no entanto, em muitas sociedades  comum que ca-
da filho tenha vrios pais e vrias mes. Nos casos em que seja prati-
cada a poligamia (pelos homens) e a poliandria (pelas mulheres), os
filhos de um e de outros so considerados comuns, e responsabilida-       < Famlia de indios tupinambs, em
                                                                            gravura de Teodore de Bry, do li-
de de ambos.                                                                vro de Jean de Lry.
    B. Malinowski, em suas pesquisas com os nativos das ilhas Tro-
briand, um arquiplago de coral situado a nordeste da Nova Guin,
denominados papuamelansia, verificou que estes constituem-se nu-
ma sociedade matrilinear. Isto quer dizer que a me  a referncia pa-
ra o estabelecimento das relaes de parentesco, e de descendncia,
assim como cabem s mulheres as maiores responsabilidades nas ati-
vidades econmicas, cerimoniais e mgicas. O pai, mesmo acompa-
nhando o crescimento dos filhos,  considerado simplesmente como
o marido de sua me, no estabelecendo nenhum vnculo maior com
estes.


                                                                              A Instituio Familiar 107
        Ensino Mdio

                                   As famlias matrilineares estiveram presentes durante muito tempo
                               em diferentes lugares do mundo, e, segundo F. Engels, o desmorona-
                               mento deste tipo de organizao familiar est relacionado com a pr-
                               tica do escravismo. O escravismo nas sociedades antigas  decorrn-
                               cia de vitrias ou derrotas nas guerras entre as tribos. Com a vitria,
                               o homem apoderava-se das terras, rebanhos, prisioneiros (futuros es-
                               cravos), da direo da casa e da mulher, que aos poucos torna-se ser-
                               vidora do homem. Temos a o grmem da famlia patriarcal  aquela
                               em que o homem, o pai,  senhor absoluto de todos que vivem sob
                               o seu domnio. Este, o chefe, permanece vivendo em poligamia, en-
                               quanto sua mulher e os outros membros de sua famlia devem-lhe to-
                               tal fidelidade.




                                                                                                             < Acervo: Nego Miranda
                               < Famlia Xavier de Miranda

                                   Em sua origem latina, a palavra famlia provm de Famulus, que
                               significa escravo domstico, e famlia  o conjunto dos escravos per-
                               tencentes a um mesmo homem. O direito romano conferia ao pai o di-
                               reito de vida e morte sobre todos que viviam sob suas ordens  espo-
                               sa, filhos, escravos. Para Marx, "(...)a famlia moderna contm em seu
                               germe, no apenas a escravido como tambm a servido, pois, desde
                               o comeo, est relacionada com os servios da agricultura. Encerra em
                               miniatura todos os antagonismos que se desenvolvem, mais adiante,
                               na sociedade e em seu Estado". (Marx apud Engels,1978: 62), ou seja,
                               a desigualdade e a opresso da sociedade de classes capitalistas.
                                   Podemos encontrar exemplos de famlia patriarcal muito prximos
                               de nossa histria, no perodo denominado Brasil Colnia. O prottipo
                               da famlia patriarcal brasileira  a famlia latifundiria, embora este mo-
                               delo possa ser encontrado tambm nos meios urbanos, entre classes

108 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                            Sociologia

de no-proprietrios de terras, como profissionais liberais, comercian-
tes, militares, etc. No momento de organizarem suas famlias no havia
dvida de que cabia ao pai o papel principal e determinante de todas
as outras relaes entre me, filhos e empregados.
    Na famlia patriarcal o pai  o grande proprietrio: das terras, dos bens
e das pessoas que habitam suas terras, no importando se estes esto liga-
dos por laos sangneos ou no. O pai concentra todas as decises, se-
jam referentes aos destinos da terra ou das pessoas, como o chefe de um
cl. E todas as aes giram em torno da manuteno da propriedade. Es-
te tipo de organizao familiar faz com que esta se volte somente para si
mesma, para seus prprios interesses, sendo a sociedade e o Estado ins-
tncias secundrias. No h a preocupao com a formao de cidados,
mas somente de parentes ou agregados preparados para servir aos inte-
resses do patriarca. As mulheres (esposa e filhas), so figuras quase invi-
sveis deste tipo de sociedade. Saem pouqussimas vezes de casa (geral-
mente em festas religiosas), no aparecem para os visitantes, so proibidas
de estudar, envelhecem cedo, pois casam-se ainda meninas (em torno dos
13  14 anos), tm vrios filhos, praticamente no fazem exerccios (tm
escravas para todos os afazeres domsticos). Os maridos para as filhas so
escolhidos pelo pai, sendo o principal critrio o volume de posses do pre-
tendente. Muitas vezes estas eram obrigadas a casarem-se com homens
muito mais velhos, mas j estabelecidos economicamente.
    Os filhos, homens, tinham outras funes: ao mais velho cabia her-
dar e administrar a propriedade paterna, ao segundo cabia seguir a
carreira eclesistica. Constitua-se em motivo de orgulho e quase uma
obrigao toda famlia "de bem", formar um padre. O terceiro filho de-
veria prosseguir os estudos na capital ou na Europa, tornando-se "dou-
tor", provavelmente bacharel em direito ou mdico.
    Este modelo de famlia nuclear e patriarcal tornou-se ao longo da
histria do Brasil sinnimo de honra e respeitabilidade, seguido no s
pelas classes mais abastadas, mas tambm pelas classes mdias.
    Gilberto Freye, socilogo brasileiro, estudioso da formao da socie-
dade patriarcal brasileira, assim resume a importncia da famlia colonial:

     "A famlia, no o indivduo, nem tampouco o Estado nem nenhuma com-
 panhia de comrcio,  desde o sculo XVI o grande fator colonizador no
 Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazen-
 das, compra escravos. Bois, ferramentas, a fora social que se desdobra
 em poltica, constituindo-se na aristocracia mais poderosa da Amrica. So-
 bre ela o rei de Portugal quase reina sem governar". (FREYRE, 2001: 92).


   Este tipo de organizao familiar exerceu profunda influncia na
formao social e cultural da populao brasileira. O poderio do ho-
mem, resultou em atitudes como o machismo, a subservincia da mu-
lher, a educao diferenciada de meninos e meninas, o preconceito e

                                                                                 A Instituio Familiar 109
        Ensino Mdio

                               desrespeito contra empregados domsticos, mesmo quando estes no
                               so mais necessariamente escravos.
                                  Trata-se de um modelo forte, que sem dvida impregnou o pensa-
                               mento cultural brasileiro, mas que no impediu o desenvolvimento de
                               outras formas de organizao familiar.



                       PESQUISA

          A reproduo de modelo autoritrio e machista de famlia traz como uma de suas mais tristes con-
      seqncias a violncia domstica, que constitui-se no abuso fsico de um membro da famlia contra ou-
      tro ou outros. As principais vtimas so as crianas e as mulheres.
          Realize uma pesquisa em jornais e na Delegacia da Mulher (se possvel), ou delegacia de seu muni-
      cpio, levantando casos de violncia domstica.
          Discuta com a turma sobre as diversas causas que levam a estas situaes de violncia no sentido
      de repensarmos as atuais relaes e no reproduzi-las no futuro.
          Convide um especialista no assunto para debater com a turma.


                                   A instituio familiar  essencialmente dinmica, e este dinamismo
                               tornou-se muito visvel na segunda metade do sculo XX, no s no
                               Brasil mas em praticamente todo o mundo ocidental.
                                   A famlia tradicional foi adquirindo contornos nunca antes imagina-
                               dos. As novas configuraes da famlia levaram a sociedade, e inclu-
                               sive os cientistas sociais, a anunciarem a falncia desta instituio so-
                               cial. Mas no era o fim, e sim a prova da imensa capacidade criativa
                               do ser humano de adequar-se a novas necessidades e novos valores.
                               Os movimentos feministas que se iniciaram na dcada de 1950 na Eu-
                               ropa, e logo chegaram ao Brasil, a entrada da mulher no mercado de
                               trabalho, a mudana de valores na criao dos filhos, a quebra de ta-
                               bus como a virgindade, a criao da plula anticoncepcional, que pro-
                               picia maior controle da mulher sobre seu corpo, os movimentos hip-
                               pies (1960), que pregam o amor livre, a instituio do divrcio (1977)
                               so alguns dos fatores que iro contribuir para as novas configuraes
                               de famlia.
                                   A pesquisadora brasileira Elza Berqu, emprega em seus estudos
                               uma nova terminologia: a de arranjos familiares, para denominar es-
                               tas situaes que refletem concepes de vida e estratgias de sobre-
                               vivncia.
                                   Vejamos algumas destas permanncias e mudanas. A famlia nu-
                               clear ainda predomina na sociedade brasileira, apesar do nmero de
                               filhos ter diminudo consideravelmente. Se em 1940, a mdia era de
                               6,2 filhos por mulher, em 1991, caiu para 2,5. O nmero de divrcios
                               e separaes aumentou, como tambm o das unies conjugais no-le-

110 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                       Sociologia

galizadas. Muitos jovens hoje desejam "experimentar" a vida de casa-
dos antes de legalizar a unio. Outros optam pela unio livre, ou "vi-
ver juntos", sem a preocupao de "prestar contas"  sociedade ou 
Igreja. Apesar do nmero de pessoas casadas ser majoritria no cen-
rio matrimonial, por outro lado tm decrescido as taxas de unies le-
gais (em 1979 atingia 7,83, e em 1994, passou a 4,96).
    Outro tipo de arranjo que tem crescido nos ltimos anos  o de fa-
mlias monoparentais  quando um dos cnjuges vive com os filhos,
com a presena ou no de outros parentes na mesma casa. Neste ti-
po de arranjo h um predomnio das mulheres chefes de famlia (em




                                                                                                    < Foto: Joo Urban
1995 representavam 89,6%, em relao  10,4% de homens na mesma
situao). Essas mulheres so hoje predominantemente separadas ou
divorciadas, o que no ocorria na dcada de 1970, quando eram prin-
cipalmente vivas. So muitos os fatores que contribuem para esta pre-
valncia das mulheres chefes de famlias. Junto com o aumento do n-
mero de separaes e divrcios, temos, historicamente, o fato de que
as chances de recasamento das mulheres no Brasil so mais baixas que
as dos homens, seja pelo fato do nmero de mulheres ser superior ao
nmero de homens, seja pela tradio masculina de se casar com mu-
lheres mais jovens. Outro fator refere-se  mortalidade masculina que
 superior e mais precoce do que entre as mulheres, resultando, por-
tanto, em muito mais vivas do que vivos (hoje a expectativa de vida
entre os homens est em asceno). Cabe tambm lembrar o aumento
do nmero de mes solteiras nos ltimos anos.
   Um aspecto que caracterizou durante muito tempo este arranjo fa-
miliar e que hoje est se modificando, era seu atrelamento com a situ-
ao econmica da mulher. A pobreza parece estar nas causas e nas
conseqncias desta situao de comando da famlia pela mulher.
     muito mais freqente encontrarmos nas camadas populares mu-
lheres solteiras, vivas ou separadas. A falta de dinheiro atinge de for-
mas diferentes homens e mulheres. O homem tende muito mais a ati-
tudes como sair de casa em busca de alternativas de trabalho  muitas
vezes parte para outras terras e nunca mais retorna; acabando por per-
der o rumo de casa. Os conflitos constantes com a esposa devido s
dificuldades em manter a famlia, algumas vezes chegam  violncia,
e tambm os levam a desistir, a abandonar o barco, ou o lar; isto sem
contar os acidentes, sejam de trabalho, de trnsito, ou brigas de rua,
que atingem muito mais os homens.
    Essas so algumas justificativas para o alto nmero de mulheres che-
fes de famlia entre as camadas populares. Mas essa situao est se mo-
dificando, e pode-se observar que o crescimento desse tipo de arranjo
familiar tem atingido tambm mulheres das camadas mdias. Essas cada
vez mais tm obtido independncia financeira suficiente para no man-
terem casamentos desequilibrados e instveis. A antiga preocupao em
no desfazer a famlia para manter as aparncias tem deixado de existir.

                                                                            A Instituio Familiar 111
        Ensino Mdio

                                   Todas essas mudanas apontadas acima tm resultado em impor-
                               tantes modificaes nos padres de comportamento dos membros das
                               famlias. A mulher, uma vez que desempenha papel fundamental no
                               oramento familiar, no aceita mais submeter-se aos desmandos do
                               marido. Os filhos, por sua vez, conquistam mais voz e espao para opi-
                               nar e, principalmente, decidir os rumos da prpria vida. A hierarquia
                               to presente nas famlias tem aos poucos sido substituda por relaes
                               mais democrticas. Se h meio sculo podamos afirmar que a insti-
                               tuio familiar se sobrepunha ao indivduo, ignorando sua vida priva-
                               da e seus anseios, hoje o indivduo tem mais condies de impor su-
                               as vontades no ncleo familiar, seja qual for sua posio. E permanece
                               na famlia se esta lhe oferecer segurana, afeto e, principalmente, no
                               interferir em sua vida privada. Caso contrrio este ir procurar outros
                               espaos e outras formas de relacionamento social.

                       PESQUISA

          Pesquisar em sua cidade ou bairro formas de constituio familiar diferentes, indagando sobre: n-
      mero de membros da famlia, idade de cada um, relao de parentesco entre eles, nmero de pesso-
      as que trabalham.
          Aps, montar com a turma um quadro geral contemplando todas as situaes encontradas pela turma.


                                   Falamos at aqui de famlias de sociedades tribais e de sociedades
                               capitalistas. Mas se pesquisarmos a respeito de sistemas sociais distin-
                               tos do capitalismo, como o socialismo e o anarquismo, iremos conhe-
                               cer formas muito interessantes de conceber a instituio familiar.
                                    Os adeptos do pensamento anarquista colocam-se contra todo e
                               qualquer tipo de poder autoritrio, que tenha como objetivos regula-
                               mentar e controlar a vida do indivduo. Propem portanto, a abolio
                               do Estado e do governo, no importando quais fossem as suas formas;
                               da Igreja, de qualquer credo religioso; do exrcito, das prises, das es-
                               colas, tal como so organizadas, e tambm da famlia.
                                   No eram contrrios  existncia da famlia, mas crticos da famlia
                               legal, submetida aos desmandos da lei, do Estado e da Igreja. Os anar-
                               quistas criticavam principalmente o tratamento dado  mulher dentro
                               do casamento e da famlia. A mulher tratada como propriedade do ho-
                               mem, como animal domstico, submissa s vontades e caprichos dos
                               filhos.
                                    Numa sociedade libertria, homens e mulheres teriam os mesmos
                               direitos e deveres, e jamais a vida conjugal e familiar poderia ser emba-
                               sada na autoridade de um dos cnjuges. Segundo Malatesta "(...)homens
                               e mulheres na condio de seres humanos igualmente livres podero, no
                               futuro, celebrar unies amorosas livremente, sem qualquer ingerncia


112 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                                              Sociologia

                     legal ou clerical, e o casamento consumado com base exclusivamente no
                     amor recproco dever durar tanto quanto dure o amor". (Malatesta apud Luizzet-
                     to, 1987: 84.) Portanto, o movimento anarquista no colocava-se contra a fa-
                     mlia natural, mas sim da famlia legal, "(...)fundada sobre o direito ci-
                     vil e sobre a propriedade, ao passo que o casamento religioso e civil seria
                     substitudo pelo casamento livre". (idem, p. 91).
< Foto: Joo Urban




                                       ATIVIDADE

                          A literatura paranaense e brasileira oferece algumas obras que descrevem e analisam a construo
                      e a convivncia numa comunidade anarquista que existiu entre 1890 e 1894, em Palmeira, sudeste do
                      Paran. Foi denominada de Colnia Ceclia, e partiu da iniciativa de um engenheiro italiano  Giovani
                      Rossi. Alguns dos livros que tratam deste tema so: O anarquismo da Colnia Ceclia, de Newton Sta-
                      dler de Souza (Civilizao Brasileira), "Um amor anarquista", de Miguel Sanches Neto (Ed. Record, 2005) e "A
                      Colnia Ceclia  uma aventura anarquista na Amrica" (Ed. Anchieta, 1942).


                          "Colnia Ceclia, 2 de janeiro de 1893
                          ...Se estes episdios conspiram contra nosso experimento, o amor livre foi enfim posto em prtica, e logo vo-
                          cs recebero mais notcias desta grande experincia. Estamos enfim mudando os possessivos, tambm no
                          amor no existe mais o meu e sim o nosso, e com isso nos tornarmos efetivamente anarquistas  o anarquista
                          que defende sua mulher  to reacionrio, to feroz e to implacvel quanto o pior dos capitalistas defenden-
                          do seus milhes... "Giovanni Rossi. (Trecho de uma das cartas de G.Rossi enviada a companheiros da Itlia.
                          In SANCHES NETO, Um amor anarquista, 2005: 33).


                         Pesquise como foi a organizao dessa colnia, principalmente no aspecto familiar, e procure en-
                      tender os motivos que levaram ao seu fim.



                                                                                                                A Instituio Familiar 113
        Ensino Mdio

                                   Pois bem pessoal! Novamente falamos do amor como um sentimen-
                               to que permeia as relaes familiares. Lembram-se da imagem do casal
                               da primeira pgina? "Que seja eterno enquanto dure..." o que lhe pa-
                               rece? Romntico e inconseqente? Ou verdadeiro e responsvel? Alm
                               dos jovens heterossexuais que buscam este tipo de casamento hoje,
                               tambm no podemos omitir o crescente nmero de relacionamen-
                               tos estveis entre casais homossexuais. Estes casamentos esto quase
                               sempre calcados na confiana e no compromisso mtuo, uma vez que
                               poucos pases reconhecem a legalidade destas unies.
                                   Os grupos organizados de homossexuais tm obtido importantes
                               conquistas referentes  adoes de filhos e  permisso da utilizao
                               de tcnicas de inseminao artificial. Essas conquistas so o anncio
                               do aumento da tolerncia por parte da sociedade e do Estado, assim
                               como da consolidao de valores como o respeito s diferenas.
                                   Mais um indicativo de mudanas na organizao da sociedade re-
                               fere-se  opo que muitas pessoas fazem hoje de viverem sozinhas.
                               Viver sozinho no tem mais o carter negativo que tinha anos atrs. O
                               indivduo que vivia sozinho era considerado anti-social, infeliz ou so-
                               litrio. Hoje, muitas pessoas optam por viver sozinhas para garantir a
                               privacidade, e poder escolher os momentos mais apropriados para es-
                               tabelecer contatos com amigos e familiares.
                                   O modo de vida imposto pelas sociedades contemporneas exi-
                               ge que estejamos constantemente nos relacionando com um grande
                               nmero de pessoas (no trnsito, na escola, no trabalho, no comrcio,
                               etc.), o que se torna extremamente desgastante e cansativo. Este pode
                               ser um dos motivos que levam algumas pessoas a refugiarem-se e bus-
                               carem novas energias na solido, recusando o cotidiano familiar, que
                               tambm impe regras e exige ateno.




                                                                                                         < Foto: Joo Urban




114 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                                               Sociologia

                              No estamos falando aqui da famosa "solido em meio  multido",
                          da sensao de sentir-se sozinho mesmo estando cercado de pessoas,
                          uma vez que estas pessoas no esto nem um pouco preocupadas se
                          voc vive ou deixa de existir. Tambm no estamos falando dos rela-
                          cionamentos impessoais via Internet, que nos do a falsa sensao de
                          que no estamos sozinhos. Estas so situaes que podem, inclusive,
                          levar a doenas, como a depresso, e s quais estamos sujeitos se no
                          estivermos atentos e no soubermos reagir contra valores da socieda-
                          de contempornea que nos so constantemente impostos como o in-
                          dividualismo e a competio, por exemplo.
                              Enfim, para concluirmos este assunto, sobre o qual ainda h muito
                          o que se discutir, cabe-nos novamente repetir que no mbito deste te-
                          ma  a famlia  no h verdades absolutas e muito menos modelos a
                          serem seguidos obrigatoriamente.
                              Podemos ter vindo de famlias mais rgidas, mais repressoras e con-
                          troladoras de nossos pensamentos e aes. Assim, como podemos ter
                          vindo de famlias mais abertas, equilibradas ou mesmo permissivas. 
                          claro que estas condies nos deixam marcas, s vezes difceis de se-
                          rem superadas, mas o que importa  que a cada dia conquistamos mais
                          liberdade para escolhermos a forma de convivncia familiar que me-
                          lhor se aproxima de nossas necessidades e desejos.
                              No somos mais obrigados a casar para responder s expectativas
                          sociais, a ter filhos para provar que podemos ser pais ou mes, ou con-
                          viver com pessoas que no mais nos agradam. Podemos mudar nossas
                          opes iniciais, e repensar nossa vida familiar de acordo com o nvel
                          de maturidade que estivermos vivendo.
                              Desde que no nos maltratemos, e, mais do que isso, no faamos so-
                          frer em demasia aqueles que um dia amamos (ou assim pensamos), este-
                          jam certos que "qualquer maneira de amor vale a pena" (C.Velozo).
< Foto: Joo Joo Urban




                                                                                                    A Instituio Familiar 115
        Ensino Mdio

                               z Sugestes de filmes
                                   "A famlia", 1986, Itlia/Frana, direo: Etore Scola
                                   "Parente  serpente", 1992, Itlia, direo: Mrio Monicelli
                                   "A excntrica famlia de Antnia",1995, Holanda, direo Marleen Gorris
                                   "Eu, tu, eles," 2000, Brasil, direo: Andrucha Waddington
                                   "Ana e os lobos", 1972, Espanha, direo: Carlos Saura


                               z Msicas citadas
                                   Valsinha  C. B. de Holanda, 1971.
                                   O meu guri  C. B. de Holanda/ Francis Hime, 1984.
                                   Cotidiano  C. B. de Holanda, 1971.
                                   Casamento dos pequenos burgueses  C. B. de Holanda,
                                   Anglica  C.B. de Holanda/Miltinho, 1978.


                               z Referncias:
                                   AZEVEDO, F. de. A cultura brasileira. Parte III  A transmisso da cul-
                                   tura. RJ. E. UNB/Ed. UFRJ. 1996, 6 ed.

                                   BERNARDI, B. Introduo aos estudos etno-antropolgicos. Trad. A C.
                                   Mota da Silva. Milo, Franco Angeli Editore. 1974.

                                   BERQU, E. Arranjos familiares no Brasil: uma viso demogrfica. In:
                                   SCHWARCZ, L. (org.), Histria da vida privada no Brasil v.4; SP: Com-
                                   panhia das Letras, 1998.

                                   ENGELS, F. A origem da famlia, da propriedade privada e do Estado. Rio
                                   de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1978.

                                   FREYRE, G. Casa-grande & senzala  introduo  histria da socieda-
                                   de patriarcal no Brasil 1. Rio de Janeiro: Record, 2001.

                                   GIDDENS, A. Sociologia. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.

                                   KOLLER, S. H. Resilincia e vulnerabilidade em crianas que traba-
                                   lham e vivem na rua. In: Educar em revista, Curitiba, PR: Ed. da UFPR,
                                   n.15, 1999.
                                   LUIZZETTO, F. Utopias anarquistas. So Paulo: Brasiliense, 1987.

116 O Processo de Socializao e as Instituies Sociais
                                                                                   Sociologia

MALINOWSKI, B. A vida sexual dos selvagens; trad. de Carlos Sus-
sekind; Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

MORGAN, L. A sociedade primitiva I; Portugal/Brasil: Ed. Presena/Li-
vraria Martins Fontes, 1980.

PROST, A.; VICENT,G. (org.). Histria da vida privada 5: da Primeira
Guerra a nossos dias. So Paulo: Companhia da Letras, 1992.

STRAUSS. C. L. O olhar distanciado; So Paulo, Martins Fontes,
1983.


            ANOTAES




                                                                        A Instituio Familiar 117
       Ensino Mdio




            I         z De onde vm as Culturas e por que 

            n           importante estud-las?
                          A Sociologia  uma das reas de conhecimento das Cincias So-


            t
                      ciais que estuda, de maneira cientfica, fugindo do senso comum e dos
                      "achismos", a sociedade. Assim tambm  a Cincia Antropolgica.
                          Mas voc leitor pode se perguntar: Se j existe a Sociologia, que es-
                      tuda a sociedade e nos ensina a tambm sermos "cientistas", pessoas

            r         que saibam refletir sobre as questes sociais e ter ao frente  socie-
                      dade, para que outra cincia?
                          Ora, a vida do homem em sociedade  to complexa que, durante


            o
                      a histria, muitos se dedicaram a entender, explicar e a dar solues a
                      muitas questes da sociedade, incluindo as questes culturais. Tais ex-
                      plicaes deveriam ser "certas", tudo passa a ser explicado pelas Cin-
                      cias. Isso ocorreu no cenrio mundial, principalmente, no final do s-

            d         culo XVII e incio do sculo XIX.

                          Mas a cultura pode ser estudada cientificamente?


            u             Pois , pode sim! Foram muitos os estudiosos que tiveram a preo-
                      cupao de se dedicar  elaborao de uma rea especfica das Cin-
                      cias Sociais para desvendar os mistrios e encantos das diferentes cul-


            
                      turas existentes entre os povos. Foi ento que a Antropologia entrou
                      em cena. O nome parece estranho, no ? Tradicionalmente, foi a An-
                      tropologia que primeiro estabeleceu mtodos cientficos para estudar
                      os fenmenos culturais.


                         Voc sabe por que as Cincias em geral necessitam de instrumen-
                      tais tericos e metodolgicos para poder desenvolver suas pesquisas,
                      estudos e resolues de problemas? O agrnomo, por exemplo, antes


            o

118 Introduo
                                                                            Sociologia




de indicar certo tipo de agrotxico ao agricultor, deve ter a precauo
                                                                            S
                                                                            O
de "verificar" qual a doena que a planta tem. E, como ele estudou, sa-
be os mtodos cientficos para analisar a planta, pois tem as condies
preestabelecidas para no errar na investigao e no diagnstico.
    Assim tambm  com relao  anlise dos fenmenos scio-cultu-
rais. Veremos nas pginas seguintes, alguns dos fundamentos tericos
(as idias cientficas) e dos mtodos de estudos que foram criados para
dar conta de analisarmos e compreendermos a dimenso da vida cul-
                                                                            C
tural das diferentes sociedades.
    No primeiro "Folhas" abordaremos como se projetam as relaes
sociais cotidianas a partir da diversidade cultural brasileira.  luz das
teorias antropolgicas, analisaremos uma questo fundamental que
                                                                            I
                                                                            O
atinge a vida de todo brasileiro, a nossa identidade nacional.
    Entender como ao longo da histria fomos construindo nossa iden-
tidade nacional em todo o processo de colonizao pelo qual pas-
samos nos permitir analisar questes como, diferenas tnicas: pre-
conceito racial e tnico, "cotas" para negros em universidades e em
concursos pblicos, etc.
    No segundo "Folhas" refletiremos sobre a dinmica pela qual a CUL-
                                                                            L
                                                                            O
TURA vem passando, desde o advento da Revoluo Industrial e todo
o processo de industrializao que vem ocorrendo a partir do sculo
XX. Se antes o alvo primordial da Antropologia era o estudo de povos
desconhecidos e toda a questo das diferenas, agora, nas sociedades


                                                                            G
ainda mais "complexas" e desiguais, ela se preocupar tambm em ex-
plicar os novos rumos da dinmica cultural.
    O alvo passa a ser o uso da cultura.
    Uso da CULTURA? Sim,  o mercado de bens culturais de consumo. A
cultura como mercadoria. Como mecanismo social de controle. Vere-
mos que isso ocorre quando uma classe social se apropria de um as-          I
                                                                            A

                                                                                         119
       Ensino Mdio




            I         pecto da cultura e o transforma em produto padronizado para atingir
                      toda a massa. Voc consegue imaginar uma manifestao cultural fol-

            n         clrica transformada em mercadoria? Ou ainda, uma msica ser "usa-
                      da" como uma maneira de repdio ou "imposio" de atitudes e inte-
                      resses de classes?


            t
                              Todos estes temas e outros que no sero abordados direta-
                      mente so questes com as quais convivemos todos os dias. Algumas
                      vezes at passam despercebidas no nosso cotidiano. Outras vezes, so
                      motivos de alegria, festas, entretenimento, etc. Mas, como nem tudo

            r         so rosas, a cultura tambm pode levar o homem e sua sociedade a
                      uma srie de conflitos sociais, principalmente, em meio  diversidade
                      cultural.


            o
                         Convido voc leitor, a mergulhar nas pginas seguintes e a conhe-
                      cer mais do funcionamento da dinmica scio-cultural e a autenticida-
                      de das diferentes culturas, pois, conhecer e compreender os valores
                      culturais que nos cercam nos levar, tambm, a sermos pessoas cons-


            d         cientes e com a capacidade de refletir sobre os diferentes problemas
                      que so originados pelas vises de mundo que os grupos e as classes
                      sociais reproduzem cultural e cotidianamente ao longo da histria.


            u
            
            
            o

120 Introduo
Sociologia




S
O
C
I
O
L
O
G
I
A

             121
                                                                       7

                                               DIVERSIDADE
                                        CULTURAL BRASILEIRA
                                                         <Sheila Aparecida Santos Silva1



                                                             oc se considera le-
                                                             gitimamente
                                                            brasileiro?




1
 Colgio Estadual Senador Teotnio Vilela 
Ensino Fundamental, Mdio e Profissionalizante  Assis
Chateaubriand  PR
        Ensino Mdio

                                   Costumamos dizer e ouvir que somos o povo brasileiro! Que vive-
                               mos no pas do futebol e do carnaval. Pelo menos  assim que nos v-
                               em os outros povos, na maioria das vezes. Contudo, quando somos in-
                               dagados e questionados sobre nossa identidade nacional, ou seja, que
                               povo realmente somos e, qual o sentido da nossa formao enquanto
                               nao, ficamos na maior "crise de identidade".
                                   Ora, como definir quem realmente somos em meio  diversidade
                               cultural?
                                   A questo : como viemos, enquanto povo e nao ao longo da
                               histria, construindo nossa identidade nacional? Mas, ser que temos
                               mesmo uma nica e autntica identidade nacional?
                                   Quando falamos em identidade, logo pensamos em quem somos.
                               Vm  nossa mente os nossos "dados pessoais", ou seja, a cidade on-
                               de nascemos, a data de nascimento, nossa filiao, que so os nomes
                               de nossos pais, uma foto registrando nossa fisionomia, nossa impres-
                               so digital, uma assinatura feita por ns mesmos.
                                   E que ainda contm um nmero de registro geral, que permite ser-
                               mos identificados, no como pessoas, com suas devidas caractersticas,
                               mas como um nmero em meio a tantos outros. E o mais interessante,
                               est ali registrado para todo mundo ver, a nossa nacionalidade, a que
                               nao e povo pertencemos.




                                  Caro leitor, o que o seu documento de identidade significa para vo-
                               c? J havia parado para pensar nisso? O nosso documento de identi-
                               dade nos d algumas informaes sobre quem somos.
                                      Alguns de ns temos condies de reconstruir a rvore genea-
                               lgica e saber toda a nossa histria a partir da constituio familiar ao
                               longo das geraes que foram formadas.

124 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                  Sociologia


                  ATIVIDADE

 Voc tem condies de reconstruir a rvore genealgica de sua famlia?
     Proposta de trabalho: Monte a rvore genealgica de sua famlia descrevendo as caractersticas so-
 cioeconmicas e culturais de cada gerao. Depois, compare as caractersticas de cada gerao re-
 lacionando com a conjuntura social (a situao) de cada poca. Com a construo genealgica feita
 apresente em sala de aula, comparando as realidades sociais de cada grupo familiar.



    O objetivo de construir a nossa rvore genealgica  o de verificar           Herana social e le-
as caractersticas socioeconmicas e culturais de nossas famlias em ca-         gado cultural: so pro-
da perodo da histria. A partir da, descobrir, alm de caractersticas f-     cessos de transmisso cul-
sicas, entender como a nossa cultura foi construda ao longo da hist-           tural, que ocorrem ao longo
ria, com o passar de geraes.                                                   da histria, nos quais as ge-
     Que legal! Alm de podermos descobrir as caractersticas fsicas            raes mais velhas transmi-
e de personalidade que herdamos de nossos antepassados, podemos                  tem s geraes mais jo-
reconstruir a trajetria histrica cultural de nossas famlias. E a partir       vens a cultura do grupo.
dos dados histricos, entendermos a herana social e todo nosso le-
gado cultural.
    Um exemplo desse processo social de transmisso de cultura  a
educao ou criao familiar. A cada gerao vai se transmitindo, ou
melhor, ensinando aos filhos e jovens certos conhecimentos e valores
morais adquiridos pela gerao mais velha.
    Quando falamos em nao ou sociedade, no  diferente. Podemos
descobrir como a nossa nao e ns, enquanto povo, fomos constitu-
dos.
    Saber, por exemplo, quais as caractersticas culturais que podemos
encontrar na formao e depois no desenvolvimento da nossa socie-
dade brasileira. E mais, podemos conferir se a sociedade brasileira ain-
da est refletindo tradicionalmente as mesmas caractersticas culturais
de quando foi formada!
    Entender como tudo comeou, nos levar a compreender a grande
diversidade cultural que caracteriza nosso pas! J que a cultura  um
dos instrumentos de anlise e compreenso do comportamento huma-
no social, podemos nos questionar: "E eu, o que eu tenho com tudo is-
so? Ser que a diversidade cultural do meu pas me atinge diretamente
ou somente de forma indireta?"
    A cultura faz parte da totalidade de uma determinada sociedade, na-
o ou povo. Essa totalidade  tudo o que configura o viver coletivo.
So os costumes, os hbitos, a maneira de pensar, agir e sentir, as tra-
dies, as tcnicas utilizadas que levam ao desenvolvimento e a intera-
o do homem com a natureza. Ou seja,  tudo mesmo! Tudo que diz
respeito a uma sociedade.

                                                                          Diversidade Cultural Brasileira 125
          Ensino Mdio

                                           Muitos socilogos e historiadores brasileiros, a partir do sculo XIX,
                                       buscaram explicar a formao do povo brasileiro, caracterizado pela di-
                                       versidade cultural, enquanto uma nao. E o olhar de alguns desses au-
                                       tores foi exclusivamente dedicado ao aspecto cultural. O legado cultural
                                       que herdamos dos povos que se misturam deu origem aos brasileiros.
                                           Bom, todos ns sabemos, nem que seja um pouquinho, da histria
                                       da colonizao do nosso pas.
                                           Se algum chegar a voc e disser:
                                           - O Brasil foi colonizado pelos egpcios!
                                            Logo voc ir franzir a testa e, dando uma boa aula de histria do
                                       Brasil, ir dizer:
                                           - No, no! Fomos colonizados primeiramente pelos europeus, es-
                                       pecificamente pelos portugueses e espanhis. Temos tambm uma
                                       marcante presena dos africanos, que foram trazidos para c como es-
                                       cravos e os indgenas que aqui j viviam... depois, por volta de 1870
                                       em diante,  que imigraram muitos outros povos, como os italianos,
                                       alemes e holandeses, em busca de trabalho e de uma vida melhor e
                                       promissora no Brasil!
                                           Pois bem,  isso mesmo! Somos um povo que surgiu de uma gran-
                                       de confluncia! Miscigenados! Ou seja, o povo brasileiro foi formado,
                                       a princpio, a partir de uma miscigenao, que foi a mistura de basi-
                                       camente trs "raas", quais sejam: o ndio, o branco e o negro. Vamos
                                       entender o que  raa, etnia e cultura.
      Etnia: grupo de indivduos           O conceito de etnia distingue-se do conceito de raa e cultura. Etnia
      originados de uma ascen-          um conceito associado a uma referncia e/ou origem comum de um
      dncia comum e que com-          povo. Ou seja, so grupos que compartilham os mesmos laos lings-
      partilham uma mesma cul-         ticos, intelectuais, morais e culturais.
      tura.                                Embora possuam uma mesma situao de dependncia de institui-
                                       es e organizao social, econmica e poltica, no constitui ainda em
                                       uma nao, mas apenas um agrupamento tnico. Etnia , portanto, um
      Raa: Os primeiros estu-
      dos Antropolgicos sobre o       conceito diferente de raa e cultura.
      homem buscaram explicar              So exemplos de grupos tnicos, entre outros, os ndios xavantes
      a diferena entre a huma-        e javas do interior de Gois, que so reconhecidos pelo etnmino de
      nidade pelas suas caracte-       tapuios. Hoje habitam no Parque Nacional do Xingu, em nmero ex-
      rsticas fisiolgicas e biol-   tremamente reduzido.
      gicas, herana das Cincias
                                           J a cultura  tudo que as diferentes raas e as diferentes etnias pos-
      Naturais (Biologia), que at
                                       suem em matria de vida social, o conjunto de leis que regem o pas, a
      o sculo XVIII e XIX classi-
                                       moral, a educao-aprendizagem, as crenas, as expresses artsticas e li-
      ficava a humanidade por
      meio da seleo natural e        terrias, costumes e hbitos, ou seja,  a totalidade que abrange o compor-
      organizao gentica.            tamento individual e coletivo de cada grupo, sociedade, nao ou povo.
                                           O termo raa significa dizer que h grupos de pessoas que possuem
                                       caractersticas fisiolgicas e biolgicas comuns. No entanto, o uso do
                                       termo raa acaba classificando um grupo tnico ou sociedade, levan-
                                       do tambm  hierarquizao.

126 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                             Sociologia

                        Como se todos ns, seres humanos, fssemos postos em uma gran-
                     de escadaria, e em ordem de classificao e hierarquizao pelo grau
                     de importncia das caractersticas fsicas de cada grupo tnico; os mais
                     importantes ficariam no topo e assim iria descendo at chegar nos me-
                     nos importantes. Contudo, qual raa ou grupo tnico pode dizer que 
                     melhor ou mais desenvolvido que outro?
                        Muitas crticas a esse pensamento foram levantadas, principalmen-
                     te no final do sculo XIX, pois tais concepes ajudaram a reforar a
                     discriminao e o preconceito e, conseqentemente a legitimao das
                     desigualdades sociais. Apesar de todas as crticas, ainda  possvel ob-
                     servar que nos sculos XIX e XX houve um retorno de prticas racistas
                     como, por exemplo, a eugenia e estudos do genoma, que foram mui-
                     to defendidas por estudiosos adeptos s teorias evolucionistas sobre o
                     progresso fsico e comportamental do homem.
< Foto: Joo Urban




                         Tais teorias concebiam que determinadas raas e etnias deveriam
                     ser conservadas, por serem modelos de pureza, de superioridade, etc.
                     Contudo, outras que no se enquadrassem nos modelos estabelecidos,
                     ou que fossem, pela situao social que viviam, vtimas de doenas ou
                     epidemias tornavam-se um perigo para o progresso da humanidade e
                     no deveriam existir. Podemos tomar como um exemplo claro deste
                     pensamento, o apartheid ocorrido na frica do Sul nos anos de 1948
                     a 1991, quando toda a populao negra foi obrigada a seguir normas
                     e regras rgidas com relao ao convvio social, trabalho, etc., alm de
                     toda a forma de violncia e discriminao sofrida.

                                                                                         Diversidade Cultural Brasileira 127
         Ensino Mdio

      O que pregavam os nazis-
                                        Ou ainda, quem no se lembra do genocdio dos judeus ou mais
      tas: queriam a qualquer cus-   conhecido como o Holocausto dos Judeus, durante a II Guerra Mun-
      to tornar a Alemanha uma       dial? O pensamento ideolgico que estava por trs daquele terrvel ato
      nao Nacionalista-socialis-   que exterminou cerca de 6 milhes de judeus, que no eram reconhe-
      ta, sob o governo ditador de   cidos como seres humanos, era a idia de superioridade da "raa aria-
      Adolf Hitler, mas composta     na" alem. A perseguio e o extermnio dos nazistas alemes contra
      por uma nica raa, a "ra-     os judeus ficou conhecido na histria por anti-semitismo, uma forma
      a ariana", considerada su-    de repudiar tudo o que era contrrio  ideologia nazista.
      perior s demais.
                                        Quando olhamos os trs grupos tnicos que se miscigenaram no
                                     Brasil Colnia, sculos XVI e XVII, com suas caractersticas biolgicas
                                     especficas e tambm scio-culturais, suas tradies, vemos como fize-
                                     ram toda a diferena no processo de colonizao e formao do po-
                                     vo brasileiro, diferentemente de outras colonizaes empreendidas pe-
                                     lo mundo.
                                         Nosso pas  uma "aquarela" de grupos tnicos! Constituda por
                                     meio da colonizao (sculo XVI) e depois, pelas imigraes por volta
                                     dos sculos XVIII e XIX. Temos ento uma pluralidade de identidades,
                                     caracterizada pelas diferenas. Por conta dessa variedade de identida-
                                     des, povos e tradies, os diferentes grupos tnicos fizeram com que
                                     ocorressem em nosso pas, um processo chamado de etnicidade.
                                         Etnicidade... O que  isso? Na nossa vida social cotidiana, muitas ve-
      Etnicidade:  a mobiliza-
      o poltica e social de de-
                                     zes, deparamos-nos com notcias de grupos tnicos lutando e reivindi-
      terminados grupos tnicos      cando algo na sociedade, tanto no mbito econmico ou poltico, como
      em prol de seus direitos e     ocorre com os ndios e os negros. As vrias etnias indgenas se unem
      valores do grupo, na defe-     em prol da luta pelos direitos de suas terras. No se trata de direitos 
      sa de sua identidade socio-    igualdade de distribuio de renda ou de Reforma Agrria, mas, sim da
      cultural.                      posse legtima que os ndios tm das suas reservas de terras.
                                         Outro exemplo de etnicidade e mobilizao  a luta pela igualda-
                                     de de oportunidades no trabalho e na educao, distribuio de ren-
                                     da, contra a discriminao tnica-racial (racismo), etc., que os negros
                                     travam no Brasil.
                                         As cotas, termo que tambm faz parte das chamadas Polticas Afir-
                                     mativas, so medidas positivas, que buscam reparar ou minimizar o ra-
                                     cismo e a excluso social que afetam os negros e descendentes reti-
                                     rando as oportunidades de ingresso nas universidades e nos concursos
                                     pblicos.


                                          POLTICAS AFIRMATIVAS OU AES AFIRMATIVAS: "So estratgias
                                      destinadas a estabelecer a igualdade de oportunidades, por meio de medi-
                                      das que compensem ou corrijam as discriminaes resultantes de prticas
                                      ou sistemas sociais. Tm carter temporrio, so justificadas pela existncia
                                      da discriminao secular contra grupos de pessoas e resultam da vontade
                                      poltica de super-la". (SUPLICY, 1996: 131).



128 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                           Sociologia

    O Brasil  conhecido como o pas de
maior nmero de negros e afrodescendentes
depois do Continente Africano, no entanto,
o racismo que muitas vezes aparece "camu-
flado", estabelece uma grande distncia entre
estes e as suas efetivas e plenas participaes
na vida social.


                PESQUISA

      Vamos investigar como a populao de sua
 comunidade ou bairro "encara" o processo da
 etnicidade. Realize uma entrevista com cinco
 pessoas perguntando o que pensam sobre as
 reivindicaes de alguns grupos tnicos brasi-




                                                                                                        < Foto: Joo Urban
 leiros. Compare os resultados da pesquisa com
 o texto acima e discuta com os colegas em sa-
 la de aula.


   Voc j ouviu essa pergunta:




                        De que descendncia
                               voc ?



    Quando questionado sobre isso, o
que voc responde?
    J parou para pensar que a sua iden-
tidade  de BRASILEIRO, independente de
que etnia seus avs ou pais fazem parte?
    Vamos entender isso?
     muito comum vermos um america-
no encher o peito e dizer: "sou um norte-america-
no!" Vemos em suas palavras e postura o orgulho
de sua nacionalidade! Contudo, no  raro, vermos
entre ns brasileiros e muitas vezes ns mesmos,
dizermos de cabea baixa que somos brasilei-
ros... Mas, logo dizemos: "Ah, mas sou des-
cendente de... poloneses... alemes... portugue-
ses... espanhis... italianos... holandeses... japoneses..." e, alguns mais
"corajosos" dizem: "sou descendente de africanos... indgenas...", no
                                                                       Diversidade Cultural Brasileira 129
        Ensino Mdio

                               que a proposta aqui seja a da "negao" das descendncias e origens.
                               Mas, que possamos refletir e ter um bom entendimento da nossa plu-
                               ralidade, uma das maiores riquezas de nosso pas.




                                                                                                                  < Foto: Joo Urban
                                   Veja bem! Todos os grupos tnicos que imigraram para o Brasil a
                               partir dos sculos XVIII e XIX foram muito importantes no desenvol-
                               vimento da nao e ajudaram a dar um colorido especial ao pas. O
                               problema  quando "desprezamos" as nossas razes, as nossas origens,
                               as pessoas que primeiro formaram aquilo que viramos a ser no futu-
                               ro: "os brasileiros".
                                   O que realmente acontece conosco? Parece que a "crise de identi-
                               dade" paira entre os brasileiros. No nos reconhecemos como uma na-
                               o e no nos valorizamos como outros povos, o nosso pas, a nossa
                               gente, as nossas tradies e a nossa multiforme e colorida diversida-
                               de cultural como um todo. Costumamos to somente exaltar alguns as-
                               pectos ou traos da nossa cultura. Essas questes nos levam a pensar
                               qual o verdadeiro problema ou impasse que nos impede de dizer com
                               orgulho que somos brasileiros.

                                      O que a Histria nos relata sobre isso?... Quais as "razes" culturais do
                                   nosso Brasil que nos faz ser como somos hoje?

                                   Durante o processo de colonizao pelo qual passou parte do mun-
                               do, a partir do sculo XV, foi deixada uma forte marca de etnocentris-
                               mo. Ora, o etnocentrismo  a atitude de superioridade e desprezo que
                               um grupo social, uma sociedade ou um povo tem em relao a outros
                               grupos. Com a descoberta do Novo Mundo e suas gentes, tornou-se
                               necessrio conhecer o outro, o diferente. As interaes sociais prove-
                               nientes do contato com este Novo Mundo, foram marcadas por confli-
                               tos, caracterizados nas formas de genocdios e etnocdios.


130 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                                 Sociologia

    No "Folhas" anterior tratamos da discusso do genocdio. Lembra-
se? Pois ento, as interaes sociais do Novo Mundo foram marcadas
por conflitos, caracterizados nas formas de genocdios e etnocdios.
    Interao social... o que  isso? Interao  uma palavra muito usada
hoje em dia.  comum para nossa gerao ouvir, falar e viver em inte-
rao. Por via de regra, a internet  um grande exemplo de interao.
Conectado  rede mundial de computadores e comunicao eu, voc
e tantos outros passamos a repartir, trocar ou associar no somente in-
formaes, mas tambm vrias e diferentes aes. Com a reciprocida-
de de aes sociais passamos, ento, a interagir com outros indivdu-
os ou grupos sociais.

      Hoje, em pleno sculo XXI, torna-se necessrio entendermos o proces-
  so histrico de formao do povo brasileiro,sem negar a origem histrica da
  maioria da nossa populao!

    Muitos antroplogos, socilogos e historiadores brasileiros pesqui-
saram e discutiram o processo de formao do povo brasileiro. Gilber-
to Freyre (1900-1987), por exemplo, defendeu a idia de que a intera-
o social entre negro, branco e ndio foi harmoniosa. Em seu famoso
livro intitulado Casa-Grande & Senzala (1933), Freyre relata que foi por
meio da miscigenao que houve um equilbrio entre, principalmente,
o negro e o branco. As relaes sociais baseavam-se no trabalho escra-
vo, no poder e mando do senhor de engenho e na famlia patriarcal,
caractersticas da colonizao portuguesa no Brasil, na qual o conv-
vio era caracterizado pela harmonia e o equilbrio entre o senhor pa-
triarca e os escravos.




< Mapa da Casa-Grande. In: FREYRE, G. Casa-Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2000.

                                                                                             Diversidade Cultural Brasileira 131
         Ensino Mdio



                                                                         E voc, j se viu numa situao de interao
                     OPA!!                                            social conflituosa?
                      interessante tomarmos nota: No "Folhas" so-       Em algum grupo que voc participa j surgi-
                     bre as Teorias Sociolgicas voc encontrar as   ram conflitos de idias, de interesses, de tradi-
                     definies sobre o que vem a ser sociedade pa-   es... de culturas?
                     ra cada um dos principais autores clssicos da
                     Sociologia.

                                          interessante saber que o contato intertnico  um fenmeno que
                                     no ocorreu somente no perodo das colonizaes, ainda ocorre, a
                                     ocupao por parte de alguns grupos, como por exemplo, os madei-
                                     reiros, garimpeiros, e etc., em territrios indgenas, assim como pela
                                     utilizao do trabalho manual dos ndios.
                                         A situao de conflito, como j sabemos, decorre do sentimento e
                                     da atitude etnocntrica, que foi uma caracterstica do pensamento evo-
                                     lucionista, apoiando o empreendimento colonialista pelo mundo.
                                         Voc sabe como esses povos eram chamados?
                                        Ah... eram selvagens, considerados sem a menor condio de ra-
                                     ciocnio, servindo somente ao trabalho braal. No precisavam pensar,
                                     calcular ou programar. Serviam de braos e pernas para seus senhores.
                                     No entanto, houve resistncia dos ndios, como  o caso dos Guaranis
                                     que habitavam parte do que  hoje o Paraguai e o estado do Paran e,
                                     os Carijs que habitavam o litoral paranaense.
      Preamentos: aprisiona-
                                         Tanto os colonizadores espanhis quanto os portugueses empreen-
      mentos em massa dos n-
      dios, que eram deslocados      deram grandes preamentos de ndios com o objetivo de os forarem ao
      de uma regio do pas para     trabalho nos engenhos de acar, como no desmatamento para a ex-
      outra como escravos.           panso e ocupao das terras, entre outras atividades no Brasil Col-
                                     nia. O contato e a interao social entre o ndio e o branco foi, e ainda
                                     hoje , de altos e baixos. De amizade e de inimizade, de concordncia
      Mudana cultural:  a          e de no-concordncia, de uma cultura ser mais valorizada que a ou-
      juno de duas ou mais cul-
                                     tra e se sobrepor a esta.
      turas que em contato se al-
      teram, em que alguns tra-          Uma das conseqncias do contato foi um forte processo de mu-
      os culturais de ambas so     dana cultural, sofrida pelos povos nativos no Brasil e no mundo. To-
      mudados e agregados ou-        dos ns j sabemos a histria de como os ndios foram "desprezados"
      tros traos culturais. Ocor-   e muitos deles exterminados pelos colonizadores. Mas, quando o tr-
      re a uma mudana cultural,    fico negreiro passou a ser mais rentvel, os ndios foram trocados por
      a incorporao de outros       braos e ps mais geis e fortes, que foram os escravos africanos. Con-
      costumes que so aceitos       tudo, no podemos esquecer que cada povo ou grupo tem a sua pr-
      e convencionados social-
                                     pria maneira de organizao social, que  vinculada  sua cultura, 
      mente.
                                     sua forma de ver o mundo e a si mesmo.
                                        Muitos grupos indgenas foram cruelmente extintos. Dados do acer-
                                     vo da "ANAͭAssociao Nacional de Apoio ao ndio" (1983), e pe-

132 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                                                 Sociologia

los dados levantados pela Secretaria de Estado da Cultura relatam que
os Xet, grupo indgena que habitava o noroeste paranaense, conhe-
cida como a floresta tropical da Serra de Dourados, nas proximidades
do municpio de Cruzeiro do Oeste, ao noroeste do estado do Para-
n, conseguiram viver de forma mais isolada em suas terras at o in-
cio do sculo XX.
    Gradualmente, mas num curto espao de tempo, o ndice de extin-
o deste grupo foi notrio. Tendo sido retirados de suas terras e com
isso negado o seu direito de posse, sofreram perseguio e morte, do-
enas e fome. Hoje, 2005, o nmero de Xet foi reduzido a seis pes-
soas. Motivo? Ora, nada mais, nada menos que a colonizao cafeeira
calculada e empreendida por colonos em busca de riquezas e prospe-
ridade nas maravilhosas terras frteis do Brasil da dcada de 1950.




< Fonte: CD-Rom "Quem so os Xet?" da Secretaria de Estado da Cultura, resultado da pesquisa antropolgica e his-
  trica de Vladimir Kozk, 2000.

   Aproximadamente dos dez milhes de ndios que havia aqui antes
da colonizao, restam apenas 345 mil ndios, espalhados em 215 so-
ciedades indgenas (dados levantados pela FUNAI  Fundao Nacio-
nal do ndio, acesso em 08 de set. e 20 de out. de 2005).



                                                                                       Como ilustrao para melhor compreenso
                    OPA!!                                                         do contato intertnico entre brancos e ndios,
                    Tomemos nota: Voc pode pesquisar sobre as                    assista ao filme: "A Misso" (Direo: Roland Jo-
                    aes da Funai (Fundao Nacional do ndio)                   ff Inglaterra, 1986, 121 min.).
                    no site: www.funai.gov.br e, a partir deste ende-
                    reo eletrnico obter mais informaes sobre a
                    realidade indgena no Brasil.


                                                                                                             Diversidade Cultural Brasileira 133
                         Ensino Mdio



                                        ATIVIDADE

                           Voc tem idia do nmero de ndios que habita o seu Estado? Realize uma pesquisa nas instituies
                       responsveis pela questo indgena, via internet ou filmes e documentrios e verifique como est atual-
                       mente a situao dos ndios em seu Estado. Com os dados anotados produza um texto refletindo sobre
                       as vrias formas de etnocdios sofridos pelos nativos que aqui habitavam e sua realidade atual.



                                                    E os negros...?
                                                    Bom, os negros foram uma soluo para o "problema" da no "do-
                                                mesticao" do ndio ao trabalho exploratrio e com isso  escassez de
                                                mo-de-obra escrava. Sabemos que os negros que vieram para o Bra-
                                                sil eram de diferentes tribos africanas, cada uma com sua prpria cul-
                                                tura. Como os ndios, os negros africanos tambm sofreram adaptaes
                                                e mudanas culturais, ou melhor, foram incorporados s regras dos co-
                                                lonializadores europeus.
  < Foto: Joo Urban




                                                    A discusso sobre a escravido dos negros no Brasil, desde os scu-
                                                los XVIII, XIX e incio do XX, foram convergentes em muitos estudos
                                                brasileiros. Como vimos antes, a exemplo de Gilberto Freyre, que con-
                                                siderava harmoniosa a convivncia entre negros e brancos, outros au-
                                                tores diziam totalmente o contrrio. Florestan Fernandes, por exemplo,
                                                em seu livro A integrao do negro na sociedade de classes (1978), analisa
                                                o processo de excluso social que os negros sofreram.
                                                    Mesmo depois da abolio da escravatura em 1888, houve um for-
                                                te movimento que colocava como negativa a presena e influncia dos
                                                negros no povo brasileiro. Acusavam a mistura racial como um fator de
                                                desequilbrio na formao social e cultural, impedindo a unidade na-
                                                cional e o desenvolvimento da nao.
                                                    A mestiagem era fortemente condenada por alguns segmentos da
                                                sociedade brasileira da poca, que desejavam e diziam ser necessrio o
                                                embranquecimento da populao. A vinda de muitos imigrantes euro-
                                                peus pode ser considerada como um dos elementos ideolgicos de em-
                                                branquecimento da populao, atrados pela propaganda de prosperi-
                                                dade, riquezas e uma vida nova no pas promissor chamado Brasil.
                                                    Bom, mas continuando com a anlise sociolgica de Florestan Fer-
                                                nandes, ele afirma que o negro sempre foi ativo na sociedade brasi-
                                                leira, participou de todas as transformaes sociais pelas quais o pas
                                                passou desde a sua Independncia. Quando houve a transio do tra-
                                                balho escravo para o trabalho livre, os negros passaram a concorrer
                                                com os outros trabalhadores nas cidades.
                                                    Assim, acabaram nas ruas ou concordavam com as precrias ofertas
                                                de trabalho. Sabe por que isso ocorreu? A cidade no absorveu todos


134 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                            Sociologia

os negros, que agora perambulavam pelas ruas, muitos mendigando, 
merc da prpria sorte ou, partiam para o interior para realizar traba-
lhos manuais, pois na cidade havia os trabalhadores estrangeiros que
j eram acostumados aos moldes capitalistas de trabalho.
     Veja! A sociedade brasileira, aps a abolio, "(...) largou os negros
ao seu prprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilida-
de de se reeducar e de se transformar para corresponder aos novos
padres e idias de homem criado pelo advento do trabalho livre, do
regime republicano e capitalista" (FERNANDES, 1978: 20). Ento, aprofunda-se
a, a marginalizao do negro na sociedade brasileira capitalista e ex-
cludente. Acostumados ao trabalho escravo, manual e arcaico, no ti-
nham uma organizao de vida baseada nos moldes da organizao
do trabalho que surgia.
     Mas, voc pode dizer: Como os negros eram ativos ento? Ativos por-
que j faziam parte da sociedade brasileira, tinham um papel social,
embora de maneira desigual.
     O antroplogo brasileiro Darcy Ribeiro (19221997), em O povo bra-
sileiro, a formao e o sentido do Brasil, defende a importncia dos pri-
meiros negros no contexto da formao do povo brasileiro. Seriam
"(...) agentes de europeizao que difundiriam a lngua do colonizador
e que ensinaria aos escravos recm-chegados s tcnicas de trabalho,
as normas e valores da subcultura que se via incorporado" (RIBEIRO, 1995:
116). Serviram muito bem enquanto mo-de-obra escrava, que necessa-
riamente levantou na fora de seus braos o que hoje temos e somos,
mas no foram contados como pioneiros ou como se dizem hoje, cida-
dos honorrios, importantes.
     Por muitas vezes a literatura brasileira traz a figura do negro seguin-
do um esteretipo elaborado pelo branco e esta condio o aprisio-
nou nas teias do preconceito at os dias de hoje. As histrias infantis,
os contos, fizeram ao longo da histria uma narrativa do negro, asso-
ciando-o a tudo que  ruim, feio e perigoso. O negro e sua condio
de escravo virou um mito. Algo que no representava a realidade, mas
uma fantasia, como se o negro no tivesse feito parte da histria real
do processo de miscigenao e da formao do povo brasileiro.
                                                                                                < ww.artelivre.net/Imagens/




     Monteiro Lobato (1882-1948), romancista e contista autor de li-
                                                                                                  al_monteiro_lobato.jpg




vros infantis, construiu em suas obras um tipo ideal de povo brasi-
leiro. Descreveu bem o distanciamento e a mitificao que muitas
vezes a nossa sociedade tem do negro em relao  sua realidade e
ao mesmo tempo denunciava em seus contos a crueldade e a violn-
cia da escravido. Lobato cria ento tipos raciais do brasileiro, mos-            Monteiro Lobato
trando aspectos negativos e positivos do povo negro e caboclo, por
meio de personagens como o Jeca, que era um "CABOCLO, espcie
de homem baldio, seminmade, inadaptvel  civilizao, mas que
vive  beira dela na penumbra das zonas fronteirias" (LOBATO,1956 apud
MORAES, 1997: 103).


                                                                        Diversidade Cultural Brasileira 135
        Ensino Mdio




                                                                                                                < Foto: Joo Urban
                                    no Stio do Pica-Pau Amarelo, lugar inventado por Lobato e presen-
                               te em diversas obras suas, que ganham destaque por sua singeleza,
                               honestidade, bom humor, por exemplo, Tia Anastcia e Tio Barnab,
                               considerados por ele como representantes do povo brasileiro. Apesar
                               disso, a figura do mulato e do negro continuou, na gerao de Lobato
                               e na realidade social da poca, considerada de menor valor que a fi-
                               gura do branco.
                                   Para alm de 1900, a situao do negro na sociedade de classes s
                               andava de mal a pior. Assim, como em Os Sertes (1902), de Euclides
                               da Cunha, Lobato, em seus contos, denunciava a condio degradan-
                               te do caboclo, do mestio e do negro na poca das grandes fazendas
                               cafeeiras.
                                   Cunha (1866-1909), ao percorrer os sertes nordestinos, denuncia-
                               va o preconceito e o abandono de um povo que poucas vezes era con-
                               tado como brasileiro. Em determinados momentos e processos histri-
                               cos, como diria Lobato, serviam para votar:

          "O fato mais importante de sua vida  sem dvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa
      preta do casamento, sarjo furadinho de traa e todo vincado de dobras; entala os ps num alentado
      sapato de bezerro; ata ao pescoo um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pe-
      gar o diploma de eleitor s mos do chefe Coisada, que lho retm para maior garantia da fidelidade par-
      tidria. Vota. No sabe em quem, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de
      gatafunhos a que chama "sua graa". Se h tumulto, chuchurreia de p firme, com herosmo, as porre-
      tadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa da chefe, de galo cvico na testa e colarinho sunga-
      do para trs, a fim de novamente lhe depor nas mos o "diploma" (LOBATO, 1997: 92-93).


                                  Quando a sociedade brasileira reconhece que o Jeca Tatu no era
                               preguioso e vadio, j que assim era considerado devido  sua mesti-
                               agem, e por conta do abandono do povo caipira, Jeca e seus compa-
                               nheiros comeam a virar motivo de preocupao e eram agora deba-
136 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                        Sociologia

tes nacionais. Como resolver a questo, de quem era a culpa de tantos
transtornos, que num primeiro momento eram causados to somente
pelo povo caipira que no tinha se adaptado  sociedade rica e civili-
zada?
    Jeca Tatu passou a ser o Z Brasil, homem simples e pobre. Seus
problemas seriam solucionados se tivesse umas terrinhas para plantar
e viver sua vida, quem sabe como um ilustre fazendeiro.
    A figura do negro continuava sofrendo o preconceito e discrimina-
o. Em Negrinha, Lobato retrata a violncia com que os negros eram
tratados. A negrinha, personagem que caracterizava a vida de uma
criana negra, rf, sofria constantemente os maus tratos de sua senho-
ra, mesmo em tempos de abolio.
    A menina descrita no conto servia a uma senhora fazendeira, como
uma lembrana do tempo em que o trabalho e todos tipos de afazeres
eram realizados pelos negros escravos. Assim descreve Lobato:

                 "Dona Incia estava azeda... e disse  Negrinha:
                  Traga um ovo.
                Veio o ovo. Dona Incia mesma p-lo na gua
            a ferver; e de mos  cinta, gozando-se na preliba-
            o da tortura, ficou de p uns minutos,  espera.
            Seus olhos contentes envolviam a msera criana
            que, encolhidinha a um canto, aguardava trmula
            alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo che-
            gou a ponto, a boa senhora chamou:
                  Vem c!
                 Negrinha aproximou-se.
                  Abra a boca!
                Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou
            os olhos. A patroa, ento, com uma colher, tirou da
            gua "pulando" o ovo e zs! Na boca da pequena.
            E antes que o urro de dor casse, suas mos amor-
            daaram-na at que o ovo arrefecesse. Negrinha
            urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas s.
            Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo...
                ... E a virtuosa dama voltou contente da vida
            para o trono, a fim de receber o vigrio que che-
            gava. `Ah, monsenhor! No se pode ser boa nes-
            ta vida... Estou criando aquela pobre rf, filha da
            Cesria  mas que trabalheira me d!' `A caridade
             a mais bela das virtudes crists, minha senho-
            ra, murmurou o padre'. `Sim, mas cansa...'" (LOBA-
            TO, 1956: 3-12).




                                                                    Diversidade Cultural Brasileira 137
         Ensino Mdio

                                           Ai, no  de se estranhar na estrutura social brasileira um forte e arraiga-
                                       do sentimento etnocentrista!
                                           Darcy Ribeiro, por exemplo, prefere dizer que o produto final e re-
                                       al da colonizao, foi a formao de um povo-nao, repleto de uma
                                       diversidade cultural, caracterstica da miscigenao, que ocorreu em
                                       nosso pas. Segundo o autor, a nao ficou dividida em grandes gru-
                                       pos tnicos e nos chama a ateno de que no h um Brasil, mas "os
                                       brasis". O Brasil sertanejo, caboclo, crioulo, caipira e gacho... Onde a
                                       perda de identidade do branco, do negro e do ndio (no processo de
                                       miscigenao) fez surgir "o brasileiro"! Povo "misturado", ora no de-
                                       finido! Sim, mas apesar de todas as diferenas: brasileiro! No poden-
                                       do haver o abandono, diagnosticado por Euclides da Cunha, na sepa-
                                       rao do Brasil do "litoral" e Brasil do "serto".


                           ATIVIDADE

          Para sua melhor compreenso sobre a formao do povo brasileiro, faa uma anlise das obras de
      Roberto Da Matta "O que faz o Brasil, Brasil?" e de Euclides da Cunha "Os Sertes", que escreveram
      sobre o processo de colonizao e a formao do nosso povo. Depois, relate em sala de aula, as an-
      lises que eles fizeram sobre a formao do povo brasileiro, na perspectiva da miscigenao.



                                           Sabe por que ns mesmos temos essa atitude etnocntrica arraigada, que
                                       nos leva a no aceitar, dentro de nossa prpria sociedade, determinados gru-
                                       pos tnicos? Temos uma conscincia "contaminada"!
                                           Hum, complicou? Vamos descomplicar e, entender o que  essa tal
                                       de conscincia nas relaes sociais.
      Estruturas sociais: Tem              O antroplogo Levi-Strauss nos ajuda a entender que a nossa vida
     uma relao direta com a          social  "moldada" pelas estruturas sociais. As nossas relaes sociais
     infraestrutura, que  a ba-       so "determinadas" por modelos (que so um conjunto de idias pr-
     se material e econmica da
                                       elaboradas, chamadas por este autor de "estruturas"). As estruturas so-
     sociedade e da superestru-
                                       ciais so como modelos sociais! Agimos na sociedade, na nossa vida
     tura, que so o conjunto de
                                       cotidiana, obedecendo de forma "inconsciente" a esses modelos. E as-
     idias, valores, leis, religio
     que ideologicamente orga-         sim, ocorre o que disse Durkheim, somos "condicionados" na nossa maneira
     nizam a vida social.              de vestir, pensar, agir...
                                           Ou seja, a "conscincia"  aquilo que conseguimos ver e realizar, is-
                                       so ocorre nas nossas relaes sociais. Uma pessoa que discrimina ou-
                                       tra por sua cor, ou ainda grupos tnicos que no aceitam outro grupo
                                       tnico, esto tendo tal atitude por causa do "inconsciente", que so as
                                       estruturas da sociedade, as idias que a sociedade faz das pessoas de
                                       cor, ou dos grupos tnicos que no so valorizados na sociedade.
                                           Nossa sociedade brasileira foi estruturada na no-compreenso e
                                       no-aceitao de sua diversidade... Eis a o motivo da nossa crise de


138 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                  Sociologia

identidade. Muitos de ns no queremos parecer conosco mesmos!
Preferimos pensar que outras naes e culturas so melhores que a
nossa! E assim reproduzimos, em nossas relaes sociais, atitudes de
discriminao ou etnocntricas!!
   Mas, contudo, o discurso simplista e conformista, de atribuir ao in-
consciente (as estruturas sociais), as atitudes preconceituosas, muitas
vezes oculta a ideologia que persiste ainda hoje em nossa sociedade
de que as diferenas raciais, tnicas e culturais so o motivo do no-
desenvolvimento e progresso da nao.
   Nosso pas  rico em toda a sua diversidade, no se constitui, ento,
em "problema" a miscigenao e nem to pouco as imigraes que
aqui se firmaram e formou o Brasil. Presenciamos, hoje, muitos "entra-
ves" econmicos e polticos que no tm em sua gnese relao com
as questes raciais e tnicas.



                ATIVIDADE

      Assista ao filme "Um ato de coragem" (Direo: Nick Cassanvetes, EUA, 2002, 118min.). A partir da
 anlise do filme e do texto acima sobre a denncia das condies de vida do negro no perodo da es-
 cravido e da realidade do preconceito "camuflado" em nossa sociedade, monte uma dramatizao re-
 tratando esta realidade. Depois, escreva um texto crtico sobre a discriminao tnica e as desigualda-
 des de oportunidades no Brasil.



z REFERNCIAS:
   BRANDO, C. R. Identidade e etnia. So Paulo: Brasiliense, 1986.

   CUNHA, E. Os sertes. So Paulo: tica, 1902.

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   FREYRE, G. Casa-grande & senzala. Rio de Janeiro: Record, 2000.

   GONALVES, M. M. T.; AQUINO, Z. T.; SILVA, Z. B.(Orgs.) Antologia escolar
   de literatura brasileira: poesia e prosa. So Paulo: Musa Editora, 1998.

   LARAIA, R. B. Cultura: um conceito antropolgico. Rio de Janeiro: Jorge
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   LVI-STRAUSS, C. O pensamento selvagem. So Paulo: Companhia Edito-
   ra Nacional, 1976.

                                                                              Diversidade Cultural Brasileira 139
        Ensino Mdio

                                   LOBATO, M. Contos (extrados de Urups). Curitiba: Plo editorial do Para-
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                                   LOBATO, M. Negrinha. So Paulo: Brasiliense, 1956.

                                   MAGGE, Y. REZENDA, Claudia Barcellos. (Orgs.) Raa como retrica: a cons-
                                   truo da diferena. Rio de Janeiro: Civilizao Brasiliense, 2001.

                                   MORAES, P. R. Bod de. "O Jeca e a cozinheira: raa e racis-
                                   mo em Monteiro Lobato". In: Revista de Sociologia e Poltica. N  8,
                                   UFPR, 1997.

                                   POUTGNAT, P.; STREIFF-FERNART, J. Teorias da etnicidade. So Paulo:
                                   Unesp, 1998.

                                   OLIVEIRA, R. C. O ndio e o mundo dos brancos. So Paulo, Ed. Pioneira,
                                   1981.

                                   RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formao e o sentido do Brasil. So Paulo,
                                   Companhia das Letras, 1995.

                                   SANTOS, J. L. O que  cultura. So Paulo, Ed. Brasiliense, 1983.

                                   SUPLICY, M. "Novos paradigmas nas esferas de poder". In: Revista: Estudos
                                   feministas. IFCS/UFRJ PPCPIS/NFRJ, Vol. 4, n 1/96.

                                   SANTAnna, Darli Machado e CUNHA, Lcia Helena de Oliveira (orgs.). ndios
                                   do Paran. AVA  Associao Nacional de Apoio ao ndio, Curitiba, 1983.




                       ANOTAES




140 Cultura e Indstria Cultural
                                Sociologia



ANOTAES




            Diversidade Cultural Brasileira 141
                                                                                     8
                                              CULTURA: CRIAO OU
                                                    APROPRIAO?
                                                                       <Sheila Aparecida Santos Silva1




                                                         oc sabe qual a utilidade de um instru-
                                                         mento chamado cabresto?




1
 Colgio Estadual Senador Teotnio Vilela 
Ensino Fundamental, Mdio e Profissionalizante  Assis
Chateaubriand - PR
         Ensino Mdio

                                         O cabresto  utilizado como um instrumento para guiar o cavalo, a
                                     mula, o jumento, etc. Serve para pr freio nos animais ou ainda, para
                                     governar suas aes de tal modo que faam o que queremos. Tais ati-
                                     tudes de dominar e governar as aes "alheias" no acontece somen-
                                     te com relao aos animais.
                                         Socialmente, h mecanismos de controle que visam dominar e guiar
                                     as aes dos indivduos ou de uma coletividade. No "Folhas" anterior
                                     compreendemos o porqu da diversidade cultural em nosso pas. Ago-
                                     ra, vamos entender mais um pouco da dinmica cultural, no somen-
                                     te no mbito nacional, mas analisaremos tambm como a cultura foi se
                                     tornando um mecanismo de controle social e um vivo e prspero "ob-
                                     jeto" de comercializao.
                                         Bom, mas a cultura pode ser um cabresto?
                                         E a, deu um n na sua cabea? Ficou confuso? Vamos esclarecer!
                                     Lembra-se do perodo iluminista? Nos sculos XVII e XVIII, a Europa
                                     passava por profundas transformaes sociais. A burguesia estava em
                                     ascenso, o regime absolutista e aristocrtico estava declinando. O mo-
                                     mento era o da busca da liberdade, o homem procurava em si mes-
                                     mo explicao para sua vida e para a sociedade, no necessitava ou
                                     no queria mais as explicaes religiosas e msticas. O cientfico, ou
                                     seja, tudo o que  testado pela experincia do prprio homem, pas-
                                     sou a ter VALOR.
                                         Com o estabelecimento do capitalismo, o modo de vida burgus
                                     passa a ser dominante, fortemente influenciado pelos ideais iluminis-
                                     tas. As obras artsticas e literrias e, principalmente, as artes plsticas
                                     comeam a representar ou "impulsionar" os valores desta nova classe,
                                     assim como o seu requintado estilo de vida.
                                         Voltando  Idade Mdia, as manifestaes culturais literrias e arts-
     Diferena entre a Literatu-
     ra Barroca e o Arcadismo
                                     ticas Barrocas que tratavam os valores religiosos e artsticos, assim co-
     e suas funes sociais: O       mo o modelo de vida do absolutismo e do poder da Igreja sobre a vida
     Barroco foi uma manifesta-      das pessoas  substitudo e entra em cena o Arcadismo. Este se opon-
     o artstica de Contra-re-     do ao "velho" modo de vida religioso comeou a se basear nos ide-
     forma que investia na volta     rios iluministas, representando por meio da pintura, da msica, da lite-
     de uma intensa religiosida-     ratura e da arquitetura, o domnio da razo, que se expandia por toda
     de em detrimento ao mo-         a Europa. Entrando nos sculos XVII e XVIII, a burguesia nascente des-
     vimento Humanista. J o         te perodo mergulha nestes novos iderios, descobre que pode usu-
     arcadismo herdeiro do pe-       fruir uma vida refinada e culta, porque reafirmava enquanto classe do-
     rodo Iluminista, expressa-     minante seus valores e modo de vida.
     va as manifestaes artsti-
                                         Mas voc pode dizer: "A cultura tem tudo a ver com as obras literrias e
     cas baseadas no novo estilo
                                     artsticas!" E tem mesmo! Mas, alm de vermos a arte e a literatura dos
     de vida e viso de mundo
     da alta burguesia insatisfei-   povos, apenas, como uma manifestao ou expresso cultural,  ne-
     ta com o absolutismo.           cessrio para fazermos uma anlise da sociedade, entendermos como
                                     a cultura foi se tornando ao longo da histria, diferenciada e "usada"
                                     pelo sistema capitalista para acumulao e reproduo de capital.


144 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                             Sociologia

    A relao entre burguesia e o que  considerado culto nos leva a
pensar que existem diferenas culturais, ou melhor, diversas expres-
ses culturais, entre os diferentes grupos ou classes sociais. A cultura
de cada grupo, sociedade, povo ou nao, tem sua prpria lgica que
expressa a maneira de ser e viver dos indivduos.
    Mas como a burguesia por exemplo conseguiu se "apropriar" dos
saberes e conhecimentos intelectuais e cientficos? Nos "Folhas" sobre
as Instituies Sociais, vemos como as diferentes sociedades transmi-
tem seus valores culturais. Em sociedades mais complexas como a nos-
sa, a transmisso de conhecimentos  de maneira sistemtica.
    Ora, desde que a educao passou a ser institucionalizada, ou se-
ja, quando se passou a ensinar os valores, costumes, saberes cientfi-
cos e os procedimentos tcnicos acumulados historicamente, que na-
da mais  do que a cultura da sociedade, a escola passa a ser o lugar
onde as pessoas recebem esses saberes. No entanto, as possibilidades
de acesso aos saberes, que so universalizados, ocorrem de maneira
diferenciada.
     Voc j parou para pensar quais os saberes necessrios ou bsi-
cos para a sobrevivncia, na sociedade capitalista, principalmente pa-
ra uma pessoa da classe trabalhadora? Quem j no ouviu a frase "es-
tuda menino para ser algum na vida, ter um trabalho...". Vemos um grande
contingente da populao brasileira no ter acesso aos conhecimen-
tos ofertados nos bancos escolares para terem a chance de "ter-se da-
do bem na vida". E, o que sabem  considerado como "arcaico", ou
seja, ultrapassado.
    Ora, as sociedades capitalistas tm em sua gnese a dominao co-
mo forma de se impor e um dos meios de legitimao  a cultura. Por-
tanto, quem tem o acesso dos meios institucionais, como a educao,
os meios de comunicao de massa, etc., consegue, de um certo mo-
do, ditar algumas "regras" na sociedade.




                PESQUISA

    Pesquise em sua cidade como est a oferta de trabalho que exija o Ensino Mdio e Superior e quais
 so as funes que cada nvel de ensino pode ocupar. Verifique tambm se sua escola tem a porcenta-
 gem de alunos que assim que terminam o Ensino Mdio ingressam na universidade em busca de "apri-
 moramento pessoal" para o trabalho. Apresente os resultados em sala de aula.

    Mas, para entendermos as diferenas entre a cultura popular e eru-
dita, devemos tambm analisar, alm das relaes sociais de poder, de



                                                                      Cultura: criao ou apropriao? 145
        Ensino Mdio

                               mando e controle social, como ao longo da histria o chamado refina-
                               mento pessoal ajudou a reforar as diferenas entre as classes sociais.
                                   A idia de refinamento pessoal compreende a aquisio de conhe-
                               cimentos, a apropriao das normas lingsticas da escrita, adquiridos
                               na escola e universidades, lembrando que no se trata de um conheci-
                               mento qualquer, mas algo elaborado, sistematizado e reconhecido pe-
                               la sociedade, no sentido de levar as pessoas a serem "cultas" e "civili-
                               zadas". Esse tambm pode ser alcanado pelo convvio com pessoas
                               "refinadas", como por exemplo, a visitao e experincia com obras de
                               arte consideradas Belas-artes.
                                   Na Europa, desde os sculos XIV e XV, quando findava a Baixa Ida-
                               de Mdia, cultura era sinnimo de civilizao e conhecimento expres-
                               so pelas classes dominantes e dito civilizadas, que ainda no era a bur-
                               guesia, mas sim a aristocracia. Ou seja, ter cultura era ser uma pessoa
                               "culta", detentora da razo e do conhecimento das coisas. Por conta
                               disso, os valores culturais eruditos so associados  expanso coloni-
                               zadora. De novo a idia de que  necessrio "civilizar" para o desen-
                               volvimento e progresso das sociedades.
                                   Para alguns autores, como os da escola de Frankfurt, importante
                               Instituto para a Pesquisa Social criado em 1924 na Alemanha, Walter
                               Benjamin (1892-1940), Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Wie-
                               sengrund Adorno (1903-1969), a cultura popular seria um meio de re-
                               sistncia da classe dominada s imposies da dominante.
                                   O que ocorreu foi que, at o sculo XIX, "chique" mesmo era as
                               pessoas portarem-se como os europeus, tudo nas casas burguesas era
                               importado, faziam parte da ltima moda europia. Hoje, o "chique" 
                               consumirmos o que  da ltima moda, mas no final do sculo XIX e
                               incio do XX, com o advento do que se chama cultura de massa e os
                               diferentes modismos, houve certo "enjoamento" daquilo que era eru-
                               dito. E no foi somente isso, a busca pela liberdade de expresso tam-
                               bm contribuiu para a ocorrncia de algumas mudanas culturais. A
                               partir da, o que era produzido e criado pelo povo foi apropriado pe-
                               los meios de comunicao.
                                   Bom, mas que dizer do carnaval ento?  uma festa popular? Em-
                               bora o carnaval seja uma festa para todos, acaba, por conta da apro-
                               priao da indstria cultural e dos meios de comunicao de massa,
                               sendo transformado em um espetculo. O carnaval brasileiro, segundo
                               DaMatta (1984: 75) em seu livro O que faz o Brasil, Brasil?, possibilita o
                               encontro dos grupos e das classes sociais, das diferentes etnias. Cons-
                               titui-se numa festa para todos. A troca de papis sociais  comum, a
                               vida diria, de casa ao trabalho, de muitas pessoas  mudada. Se a so-
                               ciedade segrega e uniformiza a festa de carnaval, para quem participa,
                               cria "(..) um cenrio e uma atmosfera social onde tudo pode ser troca-
                               do de lugar (...)".


146 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                                        Sociologia

                        O operrio que em dias normais passa pelas ruas movimentadas
                     vestindo seu simples uniforme e nem  notado, pode, no carnaval se
                     fantasiar de um rei, aparecer na TV, ser reconhecido e admirado por
                     um grande nmero de pessoas, pela sua destreza e agilidade de passos
                     e coreografias ou simplesmente pela imagem que representa.
< Foto: Joo Urban




                                      ATIVIDADE

                         Faa uma anlise do carnaval na nossa sociedade, com base no texto de DaMatta:
                           "Mas que coisa milagrosa! [...] Carnaval, pois,  inverso porque  competio numa sociedade
                      marcada pela hierarquia.  movimento numa sociedade que tem horror  mobilidade, sobretudo  mo-
                      bilidade que permite trocar efetivamente de posio social [...] Por tudo isso, o carnaval  a possibilida-
                      de utpica de mudar de lugar, de trocar de posio na estrutura social. De realmente inverter o mundo
                      em direo  alegria,  abundncia,  liberdade e, sobretudo,  igualdade de todos perante a socieda-
                      de. Pena que tudo isso s sirva para revelar o seu justo e exato oposto..." (DaMatta, 2000:78).
                      a) O autor apresenta o carnaval como uma possibilidade de troca de papis sociais e tambm nos le-
                         va a perceber seu carter contraditrio frente aos problemas sociais que enfrentamos. Com base
                         no texto acima, discuta com os colegas levantando quais as contradies que o autor nos sugere
                         quando fala das "possibilidades utpicas" do carnaval.


                         No Brasil, por conta das desigualdades socioeconmicas existen-
                     tes, a classe trabalhadora, embora se constitua na maioria da popu-
                     lao, no tem acesso a todas as manifestaes culturais, tais como
                     o teatro, peras, educao de qualidade, etc. Por conta desta situa-
                     o, numa interpretao de Carlos Rodrigues Brando, autores como


                                                                                                Cultura: criao ou apropriao? 147
        Ensino Mdio

                               Gramsci (1891-1937) consideram que, quando essas classes se mani-
                               festam com suas tradies culturais, esto de certa forma resistindo 
                               cultura dominante e passam a lutar pelo que acreditam ser seu modo
                               de vida, algo que faz parte de sua maneira de ver o mundo, de se ex-
                               pressar, de se reconhecer como classe.
                                   A partir da discusso acima, podemos analisar a Literatura de Cor-
                               del no Brasil, veremos que esta, por ser uma literatura feita pelo povo,
                               denunciando suas condies de vida e sua forma de ver o mundo, se
                               constitui numa resistncia por parte do povo de manter suas tradies
                               culturais. Inspirada nos pliegos sueltos ou Folhas Soltas da Espanha e
                               Portugal, a Literatura de Cordel ou os Folhetos, em nosso pas, origi-
                               nou-se e desenvolveu-se tradicionalmente no nordeste brasileiro, con-
                               figurando a expresso e manifestao cultural daquele povo.
                                   A Literatura de Cordel no Brasil  um exemplo de expresso cultu-
                               ral que no sofreu tanto o processo de apropriao por parte da inds-
                               tria cultural. Ou seja, no foram substitudos pelos meios de comuni-
                               cao, mas convivem com o rdio e a TV. Os cordelistas ou repentistas
                               espalhavam notcias e, ainda hoje, so um forte meio de comunicao
                               com teores informativos, jornalsticos e entretenimento.
                                   Os temas so geralmente populares difundindo a arte e a literatura
                               folclrica,  o tipo de manifestao em que o povo ora canta, ora ex-
                               pressa na escrita com vocabulrios prprios e regionais os costumes,
                               as crenas ou personagens reais e imaginrios, que configuram o seu
                               cotidiano e so expostos em fios de barbante e colocados  venda.
                                   Como a histria de Lampio e sua companheira Maria Bonita, Padre
                               Ccero, Cangaceiro, etc., que so personagens histricos do serto nor-
                               destino. O nordeste foi palco da difuso da Literatura de Cordel, pois
                               era um ambiente social cuja diversidade tnica, muito contribuiu para
                               as formas de comunicao literria e poesia popular.

                                                              Lampio e Maria Bonita: Lampio (Virgulino
                                                         Ferreira da Silva) foi um dos lderes mais famo-
                                                         sos dos cangaceiros, tornou-se uma figura mi-
                                                         tolgica e lendria no nordeste, muito admirado
                                                         pelo povo. Embora tendo praticado atos consi-
                                                         derados imorais num perodo de sua vida pelo
                                                         serto, recebeu do governo federal da poca a
                                                         patente de oficial para lutar juntamente com os
                                                         militares contra a Coluna Prestes. Sua compa-
                                                         nheira era Maria Bonita, que tambm o acompa-
                                                         nhava em suas lutas, ambos foram mortos em
                                                         1938 e suas cabeas apresentadas ao povo
                                                         nordestino e depois postas no museu local.
                                                         < (Fonte: HORTA, 2004. Adaptado de: O grande livro do folclore).




148 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                        Sociologia

     Como a cultura  constantemente recriada pelos indivduos em so-
ciedade, tendo um carter dinmico, no  diferente com as expres-
ses das obras da Literatura de Cordel. Os repentistas criam suas can-
es e histrias a partir da realidade social, muitas vezes denunciando
a misria e a fome nordestina, os acontecimentos polticos, a vida di-
fcil dos trabalhadores rurais e urbanos, etc. Como podemos ler no
fragmento do folheto O testamento de Getlio, de Jos Gomes, que os
assinava com o pseudnimo de Cuca de Santo Amaro, cidade onde
nasceu:

   [...] Deixo ao povo brasileiro         E o Ministrio do Trabalho
   Os quais me tinham amizade             Pra castigar os Tubares.
   Elas!... as Leis Trabalhistas
   Para a sua liberdade                   Deixo o cofre da Nao
   Deixo ela para o povo                  L no Rio de Janeiro
   Antes de ir pra a eternidade.          Para os candidatos
                                          E pra todo marreteiro
   Deixo a todo trabalhador               Que pelas eleies
   Igualdade de condies                 Gastaram o seu dinheiro.
   Isto ... o direito                                 < (Fonte: Batista. 1977:231).

   Que tambm tem os patres




                ATIVIDADE

     Com base no fragmento acima, produza um cordel a partir de sua realidade.



    Gramsci (1891  1937), apud Brando, diz que para todos os seus                     Antonio Gramsci: fil-
seguidores, o folclore  uma cultura de classe. (1982, p. 101). Ou se-                 sofo e poltico italiano, um
ja,  a partir da realidade da luta de classes que se d no cotidiano das              dos fundadores do partido
pessoas, que esse tipo de obra literria expressa o saber do povo. Um                  comunista italiano. Como te-
saber baseado no senso comum, mas que reflete uma viso de mun-                        rico marxista defendia a he-
do.                                                                                     gemonia da classe .
    Existe diferena entre a Cultura Popular e o Folclore?
     interessante sabermos que sempre houve uma divergncia entre
os estudiosos e os prprios folcloristas. A "queixa"  a que, para os fol-
cloristas, o Folclore  uma manifestao cultural tradicional do povo pa-
ra o povo, so seus costumes nos contos e canes populares. Contu-
do, o termo Folclore surgiu em meados do sculo XIX e ganhou fora
quando, em 1846, o ingls William Thoms (1803-1885) inventou o ter-
mo folk-lore, (folk = povo e lore = saber, ento, o "saber do povo").


                                                                           Cultura: criao ou apropriao? 149
        Ensino Mdio

                                  Brando em seu livro, O que  Folclore, discute sobre a dificulda-
                               de de se conceituar e diferenciar os termos Folclore e Cultura Popular.
                               Mas, apresenta que no caso brasileiro, foi em 1950, com a inteno de
                               efetivar as pesquisas e o estudo sobre as manifestaes populares, na
                               Carta de Folclore Brasileiro, redigida no I Congresso Brasileiro de Fol-
                               clore, que pela primeira vez se buscou definir o que era o Folclore, e
                               como tal fenmeno se expressa:


                                       "Constituem o fato folclrico as maneiras de pensar, sentir e agir de
                                   um povo, preservadas pela tradio popular e pela imitao, e que no
                                   sejam diretamente influenciadas pelos crculos eruditos e instituies
                                   que se dedicam ou  renovao e conservao do patrimnio cientfico
                                   e artstico humano ou  fixao de uma orientao religiosa e filosfica"
                                   (BRANDO, 1982: 31).




                                                                                                               < Foto: Joo Urban
                               < Festa da Cavalaria de So Benedito - Aparecida - SP


                                   Cultura popular e folclore so dois termos que, para muitos antro-
                               plogos, inclusive para Brando, possuem o mesmo significado, pois,
                               no so formas culturais estticas e irreversveis, mas que fazem parte
                               das construes sociais, e por isso  dinmica. No Brasil, vo alm dos
                               ritos, caractersticos das culturas africanas e indgenas, configuram tam-
                               bm, a religiosidade, as danas, os pratos tpicos de diferentes regies,
                               vivncias e costumes regionais e tradicionais do povo.
                                   Mas o que as pessoas comuns de nossa sociedade, que na maioria das ve-
                               zes no so folcloristas e nem estudiosas dos fenmenos scio-culturais, di-
                               zem de suas prprias tradies?


150 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                             Sociologia



                 PESQUISA

     Faa uma pesquisa em sua cidade para conhecer as manifestaes de cultura popular. Depois,
 entreviste pessoas que participam desses grupos questionando o que as tradies lhes representam.
 Com os dados em mos e com base no texto acima, produza um texto sobre essas manifestaes cul-
 turais do cotidiano de sua cidade.


    Bom, voc deve estar pensando: O que toda essa histria de folclore, cul-
tura popular e erudita tem a ver com dominao e controle social?
    Ao manter a sua prpria expresso cultural, a classe popular traba-
lhadora est se opondo  cultura dominante e oficial, fazendo com que
as tradies populares permaneam no somente no imaginrio das
pessoas, mas tornando-as cada vez mais reais em seu cotidiano.
    Por outro lado, a grande tendncia de padronizao cultural est
fazendo com que as expresses culturais populares caiam no esqueci-
mento ou quando muitas vezes  vista pelo prprio povo e a socieda-
de em geral, como uma cultura "pitoresca". Uma outra crtica levanta-
da com relao  padronizao,  que quando as expresses culturais
populares so planejadas, possuindo datas e regras para acontecerem,
j no esto mais no controle e organizao do povo para si mesmo
no seu cotidiano.
    O folclore torna-se nesse processo um instrumento de manipula-
o e controle social quando deixa de ser uma manifestao popular
e passa a servir de "apaziguamento" entre grupos e classes sociais, co-
mo por exemplo, o carnaval, as festas religiosas, superficialmente de-
monstram uma integrao harmnica das classes. Mas que na realida-
de cotidiana vivem em conflitos sociais.

    E o comrcio, onde ele entra nesta dinmica scio-cultural?
    Na diferena entre os dois aspectos da cultura entram em cena a produo,
a magia e a seduo da INDSTRIA CULTURAL...
    Provavelmente voc j ouviu falar em Indstria Cultural. A inds-
tria cultural foi um termo criado por Adorno e Horkheimer, autores da
escola de Frankfurt, que referenciavam este fenmeno ao que tambm
conhecemos como "cultura de massa", ou seja, a produo em larga
escala de elementos da cultura. Ela  um dos frutos do sistema capita-
lista em que vivemos.
    Com o estabelecimento do capitalismo, as cidades vo se transfor-
mando em plos industriais e de importncia social. Com isso, a popu-
lao urbana aumenta e se torna o alvo do mercado e seus integrantes
se transformam em consumidores em potencial, o que  conseqncia


                                                                       Cultura: criao ou apropriao? 151
        Ensino Mdio

                               de um barateamento da mercadoria industrializada, produzida em s-
                               rie. O mercado, em geral, se dinamiza, atingindo at a esfera cultural
                               que, tambm, passa a ser transformada em mercadoria.
                                   Voc j se perguntou por que os hbitos e at os padres de beleza sem-
                               pre mudam? Com a propagao da cultura de massa entra em cena um
                               novo padro de beleza, uma nova esttica que influencia o gosto das
                               pessoas. E com o estabelecimento do capitalismo e da sociedade mo-
                               derna, isso veio a se transformar mais ainda. As cidades passam a ficar
                               cheias, so multides que, de alguma maneira, esto aprendendo um
                               novo estilo de vida, o urbano.
                                   O sistema de capital percebe que uma massa emerge e, mais ainda,
                               percebe que alm de se produzir mercadorias de consumo geral pa-
                               ra essa massa, poderia ser possvel produzir, tambm, e em larga esca-
                               la, elementos da cultura, transformando-os em mercadorias. Da o ter-
                               mo cultura de massa ou para as massas, pois a partir do momento que
                               se produz em srie para o consumo do povo em geral, para existir um
                               novo padro de significaes na viso de mundo, no que as pessoas
                               pensam, sentem e agem.
                                   Sabe aquela propaganda na TV que lhe deixou com uma vontade
                               de tomar um refrigerante bem gelado, em pleno dia de vero?
                                   Ou...
                                   Aquele belssimo carro, aquela casa dos seus sonhos, as roupas da
                               ltima moda...
                                   Os celulares de ltima gerao...
                                   Hum... So tantas as emoes e opes expostas e impostas pela
                               mdia!




                                                                                                         < Foto: Joo Urban




152 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                 Sociologia

    Realmente so muitas as opes, no entanto... Tudo o que  pro-             Curiosidade:
duzido pela indstria cultural custa dinheiro, ou seja, podemos "com-
                                                                                A msica popular "sertane-
prar" se tivermos as condies financeiras.
                                                                                ja" tem suas letras basea-
    E o capital, onde ele entra em tudo isso? Bom, este por sua vez se          das na coletividade rural.
apropria das expresses culturais, que podem ser: os jornais, livros, fil-
                                                                                 J a msica popular urbana
mes, peas teatrais, msicas, tudo o que possa expressar a cultura de
                                                                                dos grandes centros possui
determinado grupo social. E ento, ele a transforma em produto para o
                                                                                vrios gneros conforme a
consumo fazendo com que a dicotomia entre popular e erudito quase               identidade cultural regional
se anule, pois a indstria cultural visa a compra e venda de tudo que           dos grupos sociais.
ela produz, no importando se a burguesia est consumindo um CD de
msica Funk, originado e tocado nos bailes da periferia.                        J que estamos falando em
                                                                                msica... vamos dar um
    Quando falamos em cultura e, principalmente em cultura de massa             mergulho em algumas pro-
e indstria cultural a coisa no  diferente. O que sempre vai estar em         dues artsticas musicais e
jogo  a manipulao dos valores e padres estticos visando ao con-            entender como os segmen-
trole das massas. Contudo, as classes sociais podem ter suas percep-            tos da sociedade podem se
es e vises de mundo e tambm propag-las.                                    apropriar da arte para ma-
    Quem no se lembra ou j ouviu falar da Ditadura Militar no Brasil          nifestar suas aspiraes e
(1964-1985)? Assim que os militares tomaram o poder com atitudes autori-        idias: a chamada Arte en-
trias passaram a controlar no somente os assuntos polticos e econmi-        gajada.
cos, mas tambm as outras esferas scio-culturais, censurando todo tipo         Contracultura ou anti-
de manifestao artstica que eram contrrias ao regime autoritrio.            cultura: termo originrio
    Jovens artistas como Edu Lobo, Chico Buarque de Holanda, Ge-                da imprensa norte-ameri-
                                                                                cana, que significa oposi-
raldo Vandr, Geraldo Azevedo dentre outros, fizeram parte do movi-
                                                                                o expressa de diferentes
mento oposicionista de esquerda nos anos sessenta e setenta que se
                                                                                maneiras a algo estabeleci-
expressava culturalmente por meio da msica. Tal movimento se cons-             do. Ou ainda,  uma crtica
tituiu numa contracultura, que mobilizou jovens e intelectuais do mun-          radical ao sistema social e
do ocidental, durante os anos 60 e 70, que proclamava uma nova ma-              cultural em vigor.
neira de pensar independente dos valores scio-culturais e dominantes
da poca.
    No Brasil, especificamente com a produo da msica popular bra-
sileira, a MPB, surgiu um novo tipo de msica que denunciava a opres-
so frente s atrocidades do autoritarismo da poca. Cantava um grito
 liberdade! No Folhas sobre Movimentos Sociais voc pode ver, deta-
lhadamente, como o movimento estudantil se articulava e, em especial
a participao de alguns destes compositores e cantores.
    Como diz Renato Ortiz (1947- ) em Cultura brasileira e identidade
nacional, o que est por trs das manifestaes populares no  pura e
simplesmente uma viso de mundo, "(...) mas um projeto poltico que
utiliza a cultura como elemento de sua realizao... significa funo
poltica dirigida em relao ao povo". (ORTIZ, 2003:72). Ou seja, as manifes-
taes culturais populares podem se constituir em um projeto poltico,
engajadas numa luta por diferentes reivindicaes. Na atualidade ainda
h vrios cantores e grupos musicais que expressam em suas canes
a realidade social, denunciando questes como: a crise poltica, a cor-
rupo, a fome e a misria da maioria da populao brasileira.

                                                                       Cultura: criao ou apropriao? 153
        Ensino Mdio

                                      Qual o ritmo de msica que voc "curte"?
                                      Temos  nossa disposio vrios estilos musicais com diferentes rit-
                                  mos, organizados por diversas duraes e intensidade de movimentos.
                                  Os compositores combinam nos trechos das msicas um ou mais rit-
                                  mos que fazem com que as mesmas expressem em todas as suas carac-
                                  tersticas, tanto a mensagem como a emoo contida nas letras. Grande
                                  parte das msicas produzidas durante o regime militar por militantes
                                  de esquerda e opositores ao autoritarismo, eram construdas por com-
                                  posies rtmicas e vrias outras estratgias para passar despercebidas
                                  pela censura do perodo.
                                      Ao ouvir uma msica somos atrados no somente pelos conte-
                                  dos das letras, mas tambm, s suas caractersticas rtmicas, meldi-
                                  cas e harmnicas. H quem goste de ritmos constantes e lentos, como
                                  a valsa, por exemplo, ou ainda ritmos rpidos e fortes, como do sam-
                                  ba, rock, etc.


                       ATIVIDADE
         Vamos entender como Chico Buarque e Geraldo Vandr utilizaram as composies rtmicas para
      expressarem suas mensagens a partir de suas msicas, para "fugir" da censura do Regime Militar: "Pra
      no dizer que no falei das flores" e "Roda-viva". Leia as estrofes abaixo e resolva as questes:

                  Roda-viva, de Chico Buarque (1967):         Pra no dizer que no falei das flores, de
                  Tem dias que a gente se sente               Geraldo Vandr (1968):
                  Como quem partiu ou morreu                  Pelos campos a fome em grandes plantaes
                  A gente estancou de repente                 Pelas ruas marchando indecisos cordes
                  Ou foi o mundo ento que cresceu            Ainda fazem da flor seu mais forte refro
                  A gente quer ter voz ativa                  E acreditam nas flores vencendo o canho
                  No nosso destino mandar
                  Mas eis que chega a roda-viva               Vem, vamos embora que esperar no  saber

                  E carrega o destino pra l                  Quem sabe faz a hora, no espera acontecer

                  Roda mundo, roda-gigante
                                                              H soldados armados, amados ou no
                  Roda-moinho, roda pio
                                                              Quase todos perdidos de armas na mo
                  O tempo rodou num instante
                                                              Nos quartis lhes ensinam uma antiga lio:
                  Nas voltas do meu corao...
                                                              De morrer pela ptria e viver sem razo...

      a) Procure entender como os autores construram suas canes, identificando quais as relaes h en-
         tre: o contexto histrico (realidade social), o contedo das letras e o ritmo que caracterizam este tipo
         de msica.
      b) Relacione as msicas com a atual realidade social e cultural de nosso pas, identificando suas crti-
         cas vlidas para a realidade brasileira. Monte um grupo de alunos e apresentem essas questes em
         sala de aula.


154 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                           Sociologia

    E as novelas e o cinema?
    Voc j percebeu como algumas pessoas no perdem um captulo
da novela, principalmente aquelas que conseguem atingir grande n-
mero de telespectadores? Tanto as novelas como o cinema so criaes
dos meios de comunicao a servio do capital, pois no  feito pelas
pessoas, como eu e voc e tantas outras que os assistem. Os filmes,
por exemplo, reproduzem acontecimentos como o holocausto dos ju-
deus na Segunda Guerra Mundial, mas o interesse de tal produo ci-
nematogrfica, alm de contar a histria,  se utilizar dela como meio
de sobrevivncia e reproduo de capital.
     Aps a Revoluo Industrial do sculo XVIII, tudo virou objeto de
consumo, como vimos acima, tudo pode ser transformado em produ-
to. No s a cultura popular  difundida e disseminada. At a prpria
sinfonia de Mozart, os quadros da Monaliza e Santa Ceia, de Leonardo
da Vinci e obras de importantes artistas, como as do brasileiro Cndido
Portinari, so reconhecidamente de origem erudita. Isto , o que antes
era encontrado somente em museus ou em casa dos ricos, passaram a
entrar em casas simples, de pessoas de baixa renda, ou produzidas em
srie estampadas em camisetas de marcas comuns.
    Contudo, por mais que os filmes e programas televisivos no apre-
sentem um carter enriquecedor para o conhecimento humano, sua
crtica radical deve ser repensada, pois  possvel encontrar diversas
programaes que trazem uma qualidade de produo e de informa-
es, possibilitando s pessoas questionar a si e a sociedade na qual
vivem.



                PESQUISA

     Pesquise sobre os valores scio-culturais e padres tanto de beleza como de consumo que a TV
 transmite. Debatam em sala de aula tais padres, questionando se estes condizem com a realidade da
 populao, especificamente do seu bairro. Depois, monte um documentrio, fotografado ou filmado,
 que pode ser apresentado para os demais alunos do colgio.


    E a, quais as vantagens e desvantagens da indstria cultural?
    Pensar a indstria cultural como vantajosa,  dizer que a partir de-
la mesma e dos meios de comunicao de massa, uma parcela da po-
pulao, que sempre esteve alheia a fontes de informaes, passa a ter
possibilidade de maior acesso a tais fontes informativas, o que contri-
bui para uma maior informao do pblico.
    Outro argumento  o fato de que, pela indstria cultural, os diferen-
tes gostos e culturas poderiam ser vistos e encarados de maneira mais
sensvel e abrangente. Ou seja, os meios de comunicao poderiam es-

                                                                     Cultura: criao ou apropriao? 155
         Ensino Mdio

      Multiculturalismo:             tar trabalhando com a temtica do multiculturalismo, aproximando os
                                     diferentes, culturalmente falando, e diminuindo os entraves causados
      a existncia de diferen-
                                     por tais distines e preconceitos culturais.
     tes e mltiplas culturas. O
     termo multiculturalismo 
     atualmente muito discutido          Mas nem tudo parece ser bom...
     quando o assunto so pol-          O lado desvantajoso da indstria cultural  seu carter coercitivo
     ticas culturais, democracia e   que se caracteriza na imposio  padronizao, pondo em igual pa-
     cidadania, como, por exem-      tamar todas as diferentes manifestaes culturais, ou seja, vende uma
     plo, acesso  educao de
                                     imagem de "harmonia" de cultura nica, descaracterizando as dife-
     qualidade e a todas as ma-
                                     renas.
     nifestaes culturais, inde-
     pendente das diferenas t-         Outro argumento  quanto  criao de uma falsa necessidade de
     nicas e culturais.              consumo pelas propagandas, como j discutimos acima. Alm de de-
                                     sestimular o pblico a pensar e refletir a respeito do que v, uma vez
                                     que tudo  traduzido em forma de entretenimento, informao rpida
                                     e pronta, torna-se um meio de comunicao alienante, pois a maioria
                                     do pblico em geral que somente tem acesso s "informaes-relm-
                                     pago"  geralmente passivo e no consegue refletir com clareza de de-
                                     talhes sobre os acontecimentos sociais.
                                         Portanto, devemos ter a conscincia de que os produtos veiculados
                                     na mdia so, em sua maioria, criados por grupos poderosos e que vi-
                                     sam a lucratividade. Essa linha de raciocnio nos leva a imaginar a ne-
                                     cessidade de continuar com o processo da industrializao da cultu-
                                     ra, porm, no se deve perder a noo da existncia da dominao,
                                     ou seja, que h grupos que desejam manipular as massas a compra-
                                     rem tudo o que vem e a viverem da maneira que eles, os donos do
                                     capital, querem.
                                         A indstria cultural, com suas vantagens e desvantagens, pode ser carac-
                                     terizada pela transformao da cultura em mercadoria, com produo
                                     em srie e de baixo custo, para que todos possam ter acesso.  uma
                                     indstria como qualquer outra, que deseja o lucro e que trabalha para
                                     conquistar o seu cliente, vendendo imagens, seduzindo o seu pblico
                                     a ter necessidades que antes no tinham.
                                         Podemos nos posicionar frente  indstria cultural? A indstria cultural,
                                     caracterstica da sociedade contempornea, deve ser pensada quanto
                                     ao seu papel. Torna-se necessria uma reflexo sobre que valores cul-
                                     turais esto sendo veiculados na mdia e a quem eles servem. Uma ati-
                                     tude otimista quanto  cultura de massa pode existir, porm uma atitu-
                                     de crtica deve permear os processos de transmisso e assimilao das
                                     informaes veiculadas.

                                           Voc se sente alienado pelas macias propagandas que apelam para
                                       o consumismo exacerbado? Vamos analisar como a populao encara es-
                                       ta situao?



156 Cultura e Indstria Cultural
                                                                                                Sociologia



                 ATIVIDADE

     Entreviste 5 pessoas de sua comunidade ou bairro, monte um questionrio sobre a renda familiar, os
 utenslios domsticos e eletrnicos em geral que possuam em suas casas, as despesas com alimenta-
 o, vesturio e sade e o acesso s diferentes manifestaes culturais, tais como: teatro, cinema, m-
 sica, educao, etc. Depois, com base no texto acima, monte um painel sobre a realidade da popula-
 o frente aos apelos consumistas.



z Referncias:
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   se, 1983.
   BATISTA, S. N. Antologia da Literatura de Cordel. 1 ed. Natal: Fundao Jo-
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   BRANDO, C. R. O que  folclore. 2 ed. So Paulo: Editora Brasiliense,
   1982.
   COELHO, T. O que  indstria cultural. 15 ed. So Paulo: Editora Brasilien-
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   DAMATTA, R. O que faz o Brasil, Brasil. Rio de Janeiro: Editora Rocco,
   1984.
   HORTA, C. F. M. M. (Coord.). O grande livro do folclore. Belo Horizonte: Edi-
   tora Leitura, 2004.
   LIMA, L. C. (Org.) Teoria da cultura de massa. 5 ed. So Paulo: Editora Paz
   e Terra, 2000.
   MARX, K. O capital: crtica da economia poltica. Rio de Janeiro: Bertrand
   Brasil, 1994.
   ORTIZ, R. Cultura brasileira e identidade nacional. So Paulo: Brasiliense,
   2003.
   PANELAS, O. Introduo e seleo de Maurice Van Woensel. In: Biblioteca
   de Cordel. So Paulo: Hedra, 2001.
   PEREIRA, C. A. M. O que  contracultura. 7 ed. So Paulo: Brasiliense,
   1989.
   TINHORO, J. R. Cultura popular  temas e questes. 1 ed. So Paulo: Edi-
   tora 34 Ltda, 2001.
   SEMPRINI, A. Multiculturalismo. So Paulo: tica, 2000.




                                                                          Cultura: criao ou apropriao? 157
       Ensino Mdio




            I
                          Quando voc est caminhando nas ruas observa tudo o que h ao
                      seu redor? Casas, ruas, estradas, prdios, carros, nibus, pessoas.... Vo-
                      c sabia que tudo isto existe porque o ser humano para sobreviver
                      age sobre a natureza, modificando-a e assim estabelece relaes com


            n
                      os outros seres humanos? Como? Bem, isto  a vida social. Quando as
                      pessoas vo ao trabalho, elas se relacionam com os outros colegas de
                      trabalho, com a chefia, com o patro. Na escola, elas se relacionam
                      com os outros alunos, com a direo, funcionrios e professores. Se

            t         entendermos estas relaes dentro de um conjunto formado por todos
                      os seres humanos vamos ter a Sociedade.
                          Est claro que ela  formada pelas pessoas, que por sua vez vo


            r
                      formular leis, regras, instituies, formas diferentes de produzir os ob-
                      jetos, de governar os pases, organizar os Estados.
                          Como podemos entend-la j que ela  tudo isto? De uma forma
                      cientfica, isto  dentro de um pensamento racional mas tambm varia-


            o
                      do com uma multiplicidade de interpretaes. Este pensamento  a So-
                      ciologia.  ela que nos ajuda a entender as relaoes de trabalho den-
                      tro da sociedade que vivemos: a sociedade capitalista.
                          Ento para entender o capitalismo devemos recorrer  Sociologia? Sim,

            d         mas no sozinha. Junto com a Histria, a Geografia, a Economia, a Filo-
                      sofia ela vai construindo uma explicao sobre o que ocorre com os seres
                      humanos quando ao ir para o trabalho e para a escola, como citamos aci-


            u
                      ma, eles vo se relacionando. Mas, se vivemos em mundo com guerras,
                      explorao e desigualdade, pobreza e riqueza, como  que podemos afir-
                      mar que estamos nos relacionando? E se estabelecemos estas relaes, co-
                      mo sabemos que vamos poder mud-las, ou que vamos mant-las?


            
                          Para responder a estas questes, dentro da Sociologia, existe um
                      conjunto de temas e de teorias que so estudados pelos pensadores, e
                      que vo revelando as respostas destas indagaes.
                          Entre estes, temos a questo do Trabalho, da Ideologia e da Globalizao.

                     So temas que esto ligados entre si, se considerarmos que fazem parte
                      daquele conjunto formado pelos seres humanos, que  a sociedade. En-
                      to a Sociologia estuda a sociedade ao se preocupar com estes assuntos?


            o
                      Sim!. E considerando que a histria da Sociologia est relacionada com o
                      surgimento e desenvolvimento do capitalismo, vamos ver que ela, ao ana-
                      lisar estas problemticas, criou um conhecimento acerca do mundo, e dos
                      homens e mulheres que nele moram, trabalham e estudam.
                          Para ajudar a entender como a Sociologia faz esta anlise, e possa-
                      mos compreender como esta dinmica se desenvolve, estes dois "Fo-
                      lhas" foram elaborados.

158 Introduo
                                                                           Sociologia




                                                                           S
    O primeiro Folhas trata da questo do trabalho dentro da socieda-
de capitalista, como ele permite o desenvolvimento de um processo
de explorao desta ao criativa. Isto , a existncia das classes so-
ciais faz desta atividade uma ao marcada pela desigualdade. Esta de-


                                                                           O
sigualdade no se revela no momento em que os objetos so produ-
zidos mas sim, no momento em que os trabalhadores vo consumir o
que  necessrio para sua sobrevivncia. Esta produo no resolve
somente problemas materiais como comida e moradia, mas questes


                                                                           C
subjetivas, como o conhecimento, os sentimentos. Como voc ir ler,
segundo a msica "Comida" cantada pelos Tits, "(...) no queremos
somente comida, mas tambm diverso e arte".
    Procuraremos entender que os seres humanos para sobreviver reti-
ram da natureza a matria-prima para produzir objetos necessrios ao
seu consumo. Esta ao  denominada trabalho. Ela  uma atividade
que cria e criou tudo que a humanidade possui, desde a Pr-histria
                                                                           I
                                                                           O
at a atualidade, no sculo XXI. Criou os remdios para combater os
vrus, como criou prdios  como os que existem no Japo, que acom-
panham as oscilaes que os tremores de terras causam. Criou, tanto
uma estao espacial, onde vivem cientistas, que fazem pesquisas re-


                                                                           L
lativas a uma possvel sobrevivncia no espao, como as armas atmi-
cas que dizimaram tantas pessoas. Cria as msicas, os filmes, os livros.
 de fato uma ao criadora.
    A questo  saber se esta produo  decidida por aqueles que a
executam, ou se est nas mos daqueles que so proprietrios das m-
quinas, das ferramentas, da matria-prima.
    O segundo Folhas trata do fenmeno da globalizao e de como e
                                                                           O
                                                                           G
quando ela passou a ser dinmica, dominante no capitalismo neste fi-
nal do sculo XX e comeo do sculo XXI. A globalizao modificou a
relao do Estado com a sociedade e a forma de organizao da pro-
duo dos objetos necessrios  sobrevivncia. Vai observar tambm


                                                                           I
que se a globalizao abre as fronteiras dos pases, vai deixar o Estado
refm dos interesses das corporaes e dos organismos internacionais
como o FMI (Fundo Monetrio Internacional).
    So dois Folhas que iro ajudar a entender o funcionamento do ca-
pitalismo, a partir da explicao sociolgica que existem sobre os te-
mas. Queremos uma sada para tantos problemas, estudar a sociedade
em que vivemos, para sabermos refletir sobre eles, j que a reflexo
                                                                           A
pode ser uma alternativa para comear a desvend-los.
        Boa leitura e bom estudo!



                                                                                        159
                                                                                           9
                                                            O PROCESSO DE
                                                              TRABALHO E A
                                                             DESIGUALDADE
                                                                    SOCIAL                 <Katya Picano1

                                                                "A gente no quer s comida
                                                             A gente quer comida, diverso e arte
                                                                 A gente no quer s comida
                                                            A gente quer sada para qualquer parte
                                                                             (...)
                                                                 A gente no quer s comida
                                                            A gente quer a vida como a vida quer"
                                                                                   < COMIDA  Arnaldo Antunes,
                                                                                   Marcelo Fromer e Srgio Britto.




                                                                  oc j escutou os versos acima e j
                                                                  parou para pensar sobre o que po-
                                                                demos fazer para ter tudo isto? Ou
                                                              melhor, o que voc, sua famlia, e seus
                                                            amigos fazem para ter acesso a tudo isto?




Colgio Estadual Professor Jos Guimares  Curitiba - PR
1
          Ensino Mdio

       Odissia foi a aventura que           Sabemos que para viver temos que ter comida, gua potvel, rou-
     Ulisses ou Odisseu realizou         pas e uma moradia segura. Mas sabemos tambm que na sociedade
     para voltar para casa, cheia        capitalista o caminho para ter o acesso  "comida, diverso e arte" no
     de problemas  mortes de             nada fcil,  uma verdadeira odissia. Ento, como  possvel suprir
     amigos, de familiares, falta de     estas necessidades bsicas?
     comida, encontro com ciclo-             Se "(...) a gente no quer s comida, a gente quer sada para qual-
     pes, chuvas, ventos, questio-
                                         quer parte(...)", o que fazemos afinal, para conseguirmos garantir e re-
     namentos sobre o poder dos
                                         solver estas questes? O que voc faz?
     Deuses e tambm da pr-
     pria existncia do ser huma-            Agora, como esto nos versos da msica, queremos ter a garan-
     no  enfim uma histria re-         tia que as chamadas questes materiais  a comida, a gua potvel, as
     latada por Homero, poeta            roupas adequadas para cada tipo de estao, a casa com segurana 
     grego a quem  atribuda a          e as questes subjetivas  sentimentos, desejos, gostos  sejam resolvi-
     autoria desta histria e da Ila-   das. Temos aqui, portanto, duas questes essenciais: o que  imediato
     da. So histrias que servem        ou bsico so necessidades materiais do ser humano; o que  subjeti-
     para que se resgate na His-         vo so necessidades imateriais. Mas esta preocupao no  somente
     tria da Humanidade o pero-        uma preocupao particular, mas de todas as sociedades ao longo da
     do homrico da Antigidade          histria humana. Como "(...) a gente no quer s comida (...)", estas
     Clssica.
                                         duas necessidades devem ser resolvidas, e na busca destas solues,
                                         novas necessidade vo surgindo. Assim, o contorno do nosso cotidia-
                                         no vai sendo desenhado na medida em que as solues de todos os ti-
                                         pos vo se realizando. Para pensar sobre isso, vejamos como a Socio-
                                         logia pode nos auxiliar.
                                             O pensador alemo Karl Marx (1818-1883) afirmou que, para resol-
                                         ver as suas necessidades bsicas, o ser humano vai se apropriando da
                                         natureza, estabelecendo relaes com outros seres humanos, pensan-
                                         do sobre a sua vida e criando novas e novas necessidades. Como isso
                                          possvel? Imagine que voc tem que construir um banco de praa e
                                         a matria-prima  de "segunda mo". Tendo o material, o que mais 
                                         necessrio para construir o banco? Bem, o conhecimento de como fa-
                                         z-lo, e de como utilizar o material reciclvel e as ferramentas. Temos,
                                         portanto:
                                         = (1) voc  um SER HUMANO;

                                         = (2) o CONHECIMENTO;

                                         = (3) a natureza que j foi modificada, a MATRIA-PRIMA;

                                         = (4) e os INSTRUMENTOS  mquinas, ferramentas e utenslios.

                                              So necessrios todos estes elementos juntos para que o banco se-
                                         ja construdo. Temos uma unidade que permite que voc produza ou
                                         melhor construa o banco. Esta unidade  o que chamamos de PRO-
                                         CESSO DE TRABALHO.
                                             Foi com este processo que a humanidade construiu tudo o que
                                         existe na vida: ferramentas, mquinas, a matria-prima transformada
                                         ou no (um exemplo disto  o ferro encontrado bruto na natureza,
                                         transformado em ao para a fabricao de tratores, nibus, geladeiras,
                                         bicicletas), os prdios, os estdios de futebol, as escolas, as ruas e es-


162 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                                  Sociologia

tradas, os nibus espaciais... enfim um conjunto imenso de coisas. Se
isolarmos o conhecimento, as ferramentas e a matria-prima e retirar-
mos voc da construo do banco, vamos observar que o banco no
ser construdo. Ento consideramos voc  o ser humano  o principal
elemento desta unidade. Isto porque  voc quem vai dar asas  ima-
ginao (pois no  s de po que vive o homem) e construir e trans-
formar tudo que o cerca.




                 PESQUISA

     Pegue qualquer objeto do seu dia- a- dia e pesquise:
 1. Qual  a matria-prima utilizada? Ela  bruta ou j foi processada?
 2. Explique que tipo de conhecimento est envolvido na fabricao deste objeto: artstico, cientfico, fi-
    losfico?
 3. Quais ferramentas foram utilizadas? Quem esteve envolvido na sua fabricao? Explique como.
 4. Faa uma concluso considerando a importncia deste objeto para o seu cotidiano. Explique se ele
     fundamental ou secundrio.




    Ento, seguindo o raciocnio anterior, sabemos que para viver te-
mos que resolver problemas de ordem material e bsica como comer,
beber, vestir e morar. Mas como nos indica a msica no  s disto que
vivemos. Ir ao cinema, sair com os amigos, ir ao futebol, participar das
festividades na famlia, exercitar e exercer nossa sensibilidade e gosto
por um tipo de roupa, de msica, de filme, de time de futebol, de pro-
fessor, e de amigo fazem parte desta busca de resolues. Para isto, os
seres humanos vm modificando a natureza e tudo ao seu redor, at a
ns mesmos. J sabemos que o ser humano  o principal elemento do
processo de produo.
    Se acompanhamos os jornais vamos perceber que as aes no ca-
minham para a resoluo das necessidades materiais e imateriais. A
destruio do planeta e de outros seres humanos ocorrem indiscrimi-
nadamente em quase todos os lugares do mundo. Isto  o que em So-
ciologia foi chamado de contradio, por Karl Marx, pensador alemo
j citado anteriormente neste texto: a no-resoluo das necessidades
humanas mesmo tendo condies para faz-lo. So problemas que a
humanidade no resolveu desde que o gnero homo comeou a do-
minar o planeta.
    Voc sabe que nesta caminhada do ser humano, para resolver estas
necessidades, ele desenvolve ligaes com os outros seres humanos e
vrias formas de organizaes sociais vo surgindo. Seguindo este ra-

                                                            O processo de trabalho e a desigualdade social 163
         Ensino Mdio

                                     ciocnio,  a unidade entre o ser humano, o conhecimento, os instru-
                                     mentos e a matria-prima, que possibilita a relao como o mundo na-
                                     tural e a criao do mundo social modificado. Vamos tentar entender
                                     como se desenvolvem estas ligaes.
                                         Quando o homem se espalhou pelo mundo, saindo da frica e
                                     convivendo, segundo as recentes pesquisas da Paleoantropologia, com
                                     outras espcies do gnero, criou laos com os membros do seu grupo.
                                     Estes laos se estreitaram, ficando cada vez mais fortes, pois enfren-
                                     tar a natureza  clima, vegetao, relevo, animais selvagens  revela-se
                                     uma aventura difcil e perigosa. Por isso, a unio para garantir a exis-
                                     tncia passa a ser o elemento principal para continuar vivendo. Essas
                                     ligaes so denominadas de relaes sociais. Estamos vendo que, no
                                     incio do processo de surgimento das primeiras formas de organizao
                                     social estas relaes eram coletivas.
                                         Ento, o que significa dizer que essas relaes eram coletivas?
                                         Imagine que voc e seus amigos esto perdidos na floresta Amaz-
                                     nica e no conhecem o territrio, e necessitem fabricar instrumentos
                                     e utenslios. O mundo natural parece ameaador e com certeza vocs
                                     buscaro ficar unidos, dividir igualmente a comida, a gua, os cuidados
                                     com aqueles que esto doentes e com medo. Querem resolver tudo
                                     para que todos fiquem bem. Ento, unidos, zelaro para que o grupo
                                     consiga sobreviver em um ambiente inspito para o forasteiro.  muito
                                     importante observar que no processo de transformao da natureza, o
                                                                                     homem vai modifican-
                                                                                      do o espao natural
       O homem moderno ou o                                                           considerando as suas
     homo sapiens sapiens sur-                                                        capacidades e as fer-
     giu segundo os estudos da
                                                                                      ramentas que possui.
     Paleantropologia h mais ou
                                                                                       uma combinao
     menos 200 mil anos. Espa-
                                                                                      e uma escolha entre
     lhou-se pelo mundo h pelos
     menos 50.000 anos. Segun-                                                        a capacidade huma-
     do as polmicas relacionadas                                                     na de transformao e
     como as novas descobertas                                                        aquilo que ele vai en-
     de fsseis, existe tambm a                                                      contrar na natureza. O
     possibilidade de que o ho-                                                       que resulta desta rela-
     mo sapiens tenha convivi-                                                        o  uma nova rea-
     do com outras espcies do                                                        lidade que continua a
     gnero. Esta teoria faz parte                                                    ser explorada. Veja na
     das discusses do processo                                                       proposta de trabalho
     de transformaes biolgicas                                                     a seguir como isto 
     e de apropriao da nature-                                                      possvel.
     za que deram origem ao ho-
     mem moderno. O momento
     desta apropriao  denomi-
     nado de Paleoltico  ou Ida-
      de da Pedra Lascada.


164 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                                   Sociologia



                PESQUISA

     Faa uma pesquisa e veja se ainda hoje existem regies inspitas alm desta descrita acima, e pen-
 se como voc e seu grupo agiriam para sobreviver. Para isto voc deve:
 1. Localizar a regio e indicar qual  o tipo da paisagem;
 2. descrever como garantiriam a gua;
 3. descrever como garantiriam a segurana;
 4. descrever como garantiriam os alimentos;
 5. descrever como garantiriam a sade;
 6. descrever como garantiriam a locomoo.


    Ento, no incio da existncia da humanidade (40.000 a.C.), havia
uma relativa igualdade entre os membros de um mesmo agrupamen-
to social. Relativa porque do ponto de vista das questes bsicas de so-
brevivncia todos tm acesso a eles. Ao mesmo tempo estas sociedades
eram hierarquizadas tanto com a diviso sexual do trabalho quanto com
as demarcaes etrias. Como sabemos disto?  s observarmos os po-
vos indgenas brasileiros, antes da chegada dos europeus (sculo XIV da
Era Crist). A forma de organizao e de resoluo dos problemas de so-
brevivncia destes povos  exemplo deste perodo quando havia a ne-
cessidade de agir coletivamente, para enfrentar a natureza.
    Veja, os indgenas que habitam o Parque Nacional do Xingu e os
Bosqunamos da frica setentrional. Atualmente, so exemplos des-
te perodo (quando havia a igualdade descrita acima  700.000 a.C. a
40.000 a.C.) em que, ao resolver suas necessidades bsicas, o ser hu-
mano o fazia coletivamente. Com o aprimoramento dos instrumentos                  O Parque Nacional do Xin-
e dos utenslios, e um controle maior sobre a natureza, com a agricul-           gu fica localizado no Norte do
tura e a domesticao dos animais, passa a existir em algumas regies            Brasil, entre os estados do
e entre alguns povos o acmulo de alimentos. As casas so melhora-               Amazonas e Par, e que abri-
                                                                                 ga mais de 14 etnias, como
das para garantir um abrigo mais seguro e as roupas tambm acompa-
                                                                                 os Kamaiur, Kuikuro, Mati-
nham estas mudanas com a utilizao de novas matrias-primas para
                                                                                 pu, Mehinako, Trumai, Kara-
a sua confeco. Essas alteraes acompanham a ocupao do espao                bi, Suy, entre outros.
geogrfico fazendo com que deixem de ser nmades e se transformem
em povos sedentrios. A Geografia, a Histria e a Sociologia so as Ci-
ncias que vo pensar o processo de trabalho interpretando como es-
te se desenvolve nesta busca do ser humano de resoluo das neces-
sidades materiais e subjetivas.




                                                          O processo de trabalho e a desigualdade social 165
         Ensino Mdio

                                          O armazenamento da gua e alimentos fica mais aprimorado com a
                                      utilizao da cermica como matria-prima. O aperfeioamento da na-
                                      vegao e a utilizao da roda e do transporte acompanham este ritmo.
                                       importante frisar que estas transformaes no so lineares nem evo-
                                      lutivas. Elas so desiguais e acompanham a forma utilizada por cada
                                      povo na sua regio na ocupao do espao e na criao da sociedade.
                                      No podemos achar que todos fizeram da mesma maneira. Ao contr-
                                      rio, a forma de ocupao e o processo cultural revelam como cada po-
                                      vo enfrentou a natureza e foi resolvendo suas necessidades bsicas.
                                          As formas mais apuradas de soluo dos problemas imediatos: co-
                                      mer, beber, vestir e morar, na medida em que so resolvidos acabam
                                      criando outras e novas necessidades. Assim, locais onde  possvel
                                      guardar os alimentos e a gua vo sendo construdos para que estes
                                      sejam utilizados nos momentos de escassez, que so freqentes e fa-
                                      zem com que as contradies (Lembra? A no-resoluo das primeiras
                                      necessidades) assombrem os seres humanos. Vai ser necessrio que al-
                                      guns cuidem deste acmulo e da sobra do que foi produzido ou con-
                                      sumido.
                                          Estes que vo cuidar do que todos produziram vo criar um grupo de
                                      segurana para auxili-los nesta nova tarefa. Este corpo de segurana, pro-
                                      vavelmente so os mais fortes ou os que j tinham a tarefa de serem os
                                      guerreiros do grupo. Temos aqui um conjunto de pessoas que se desliga,
                                      se afasta daqueles que esto produzindo o necessrio para a sobrevivn-
                                      cia de todos. Voc pode perguntar: quando isso ocorreu?
                                          Essas mudanas ocorrem na passagem do Neoltico para o surgi-
                                      mento da sociedade desigual (III milnio antes da Era Crist), quan-
       No estudo da Histria, va-
                                      do vai existir a propriedade e esta no vai ser coletiva. Este distancia-
     mos observar esta passagem
                                      mento em que alguns vo viver do TRABALHO que outros executam,
     como o surgimento do pero-
                                      permitiu o surgimento da desigualdade entre os seres humanos dentro
     do conhecido como modo de
                                      da mesma sociedade. Essa desigualdade foi se aprofundando e as de-
     produo escravista e tam-
                                      cises sobre a distribuio do que foi produzido passam a ser realiza-
     bm do modo de produo
     asitico; eles se desenvolve-
                                      das por estes, que vo se tornando donos/proprietrios das terras, dos
     ram em regies diferentes do     animais, das ferramentas...
     planeta. O modo de produ-            Como isso  possvel? Imagine que voc est trabalhando no cam-
     o asitico, tambm conhe-      po e as pessoas que cuidam do armazenamento observam que se no
     cido como tributrio e hidru-   for estipulada uma cota de consumo para cada famlia, no tero co-
     lico encontrada no Oriente       mida suficiente para o prximo perodo de escassez. Ento devem, pa-
     prximo Egito e Mesopot-       ra garanti-la, criar punies para aqueles que no cumprirem o que foi
     mia, ndia, Extremo Oriente, e   determinado. Que tipo de punio? Algo como ter que trabalhar em
     em algumas sociedades Pr-       dobro, dar os seus animais, dar as ferramentas que utilizam  da, pa-
     colombianas em diferentes        ra trabalhar tem que utilizar as ferramentas de outros. Viu como come-
     pocas. J o modo de pro-        ou a propriedade do que chamamos meios de produo  ferramen-
     duo escravista encontrado      tas, matrias-primas, os galpes e prdios.
     na Antigidade Clssica, ou
                                          A forma de diviso da sociedade em que uns so proprietrios dos
     seja  Grcia e Roma.
                                      meios de produo  ferramentas, matrias-primas, conhecimentos  e



166 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                               Sociologia

outros so somente proprietrios da fora de trabalho  energia gasta no
dia-a-dia e o conhecimento de como executar a sua tarefa no proces-
so produtivo   a base para o que chamamos de sociedade capitalista.
Esta diferena entre os seres humanos vo marcar as relaes sociais
que passaram a estabelecer a partir do fortalecimento das duas classes
sociais: os donos dos meios de produo e os proletrios. Podemos,
assim, buscar no passado da humanidade muitas das explicaes para
a situao complicada que  a busca do emprego hoje.
    As solues se inscrevem no plano daquilo que chamamos de con-
quistas da humanidade; mas no podemos esquecer o que chamamos de
contradies. So elas que vo marcar estas conquistas e nos alertar para
perguntar sobre o principal elemento do trabalho que  o ser humano.
     Bem, voltando s questes do incio do texto, vamos ver que a hu-
manidade, para resolver as questes materiais e subjetivas (ter "comida,
diverso e arte") vai construindo o seu cotidiano, e que este j foi predo-
minantemente coletivo, mas se modificou com a transformao da natu-
reza. Surge a desigualdade entre os seres humanos e essa, por sua vez,
vai marcar o dia-a-dia da sociedade.
    Assim, o que no podemos esquecer  que, na medida em que a
humanidade vai se apropriando da natureza, modifica o espao que a
cerca e desenvolve no s aes criativas, mas tambm destrutivas  o
aquecimento global  conseqncia do desmatamento, da poluio pelo
dixido de carbono, pela poluio de rios e solos, pela retirada de mi-
nerais de maneira predatria sem citar a matana de animais e a des-
truio do seu hbitat.



                PESQUISA

     Pesquise trs diferentes processos de trabalho e demonstre como ocorre a modificao da natu-
 reza e as relaes entre os homens nesta transformao. Faa um painel para cada um deles e apre-
 sente para a sala.


                                                                               Neste texto voc leu so-
   E  justamente por isso que no podemos desejar somente a comi-            bre a transformao da na-
da, pois junto dela deve vir a gua potvel, a vestimenta adequada, a         tureza a partir do processo
casa segura, o acesso ao conhecimento, s artes,  Filosofia. Tudo o          de trabalho realizado ao lon-
que foi criado pelo ser humano com a inteno de resolver os proble-          go da histria da humanida-
mas para viver, e tambm as solues para os problemas como os in-            de, na busca de resolver su-
dicados acima relacionados com as aes destrutivas. Pense sobre as           as necessidades bsicas. J
solues que podem ser dadas para resolver estas novas questes  a           o emprego  esta ao que
destruio da natureza, que esto diretamente ligadas s necessidades         chamamos de trabalho; ela 
materiais e subjetivas apontadas no incio e nas indagaes finais da         a atividade remunerada, que
msica "Comida" referenciada no texto.                                        os trabalhadores assalariados
                                                                              executam durante a jornada
                                                                              de trabalho no dia-a-dia.

                                                       O processo de trabalho e a desigualdade social 167
        Ensino Mdio

                                   Essa busca de sadas para resolver as contradies entre produo
                              e escassez  de alimentos, de gua, de moradia, de escolas, de segu-
                              rana, de sade, de lazer.... de acesso  "diverso e arte"  transforma
                              o ser humano em um ser que supera limites. Assim, uma indagao de-
                              ve permanecer quando olhamos os problemas e vemos a dor e o so-
                              frimento de muitos: "Voc tem fome de qu?"
                                  Podemos fazer uma lista interminvel de necessidades materiais e
                              subjetivas que no foram resolvidas, mas com certeza o item Justia
                              deve aparecer. Sabia que a idia (e, portanto uma necessidade subje-
                              tiva) de justia  uma construo humana? Muitas vezes para resolver-
                              mos questes materiais, ns recorremos a uma questo subjetiva, co-
                              mo a justia. Ento para sobreviver, o ser humano construiu tudo que
                              temos  transformando a natureza, construindo relaes sociais e tam-
                              bm elaborando discusses complexas sobre as necessidades subjeti-
                              vas. Leia nos versos da msica e perceba como eles formam uma uni-
                              dade: "(...)bebida  gua /comida  pasto / voc tem sede de qu? /
                              voc tem fome de qu? / a gente no quer s comida /a gente quer co-
                              mida, diverso e arte"(...) !!!!




                                                                Foto




                                                                                                             < Foto: Joo Urban




                       ATIVIDADE

         Pense nos versos da msica e elabore uma lista das necessidades materiais e subjetivas. Relacione
      essas necessidades com o processo de trabalho a partir do que foi tratado neste texto.




168 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                                Sociologia

z Referncias:
    ALBORNOZ, S. O que  trabalho. So Paulo: Brasiliense, 1989.
    ANTUNES, R. (Org.) A dialtica do trabalho. Escritos de Marx e Engels. So
    Paulo: Expresso popular, 2004.
    _________________ & SILVA, M.A.M. (Orgs). O avesso do trabalho. So Pau-
    lo: Expresso popular, 2004.
    HARRY B. Trabalho e capital monopolista: a degradao do trabalho no scu-
    lo XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
    KURZ, R. Os ltimos combates. Petrpolis: Vozes, 1997.
    MARX, K. Manuscritos econmicos-filosficos. Lisboa: Edies 70, 1989.
    __________ Misria da filosofia. So Paulo: Liv. Ed. Cincias Humanas, 1982.
    __________ Salrio, preo e lucro. So Paulo: Abril Cultural, 1982.
    __________ A Ideologia alem. So Paulo: Hucitec, 1996.
    __________ Manifesto do Partido Comunista. URSS: Edies Progresso, 1987.
    MARCUSE, H. A ideologia da Sociedade Industrial o homem unidimensional.
    Rio de Janeiro: Zahar editores, 1982.
    POCHMANN, M. O emprego na globalizao. So Paulo: Boitempo, 2002.


z Filmes:
=   Segunda-feira ao sol.(Las Lunes al sol. 2002. Espanha, direo Fernando
    Leon de Aranoa).
=   A guerra do fogo (1981, Frana/Canad, direo: Jean-Jaques Annud)
=   Pees (2004, Brasil, direo Eduardo Coutinho).
=   Ilha das Flores (1989, Brasil, direo Jorge Furtado). Acesso  internet: www.
    portacurtas.com.br
=   Tempos modernos (1936, direo Charles Chaplin)


z Msica:
=   Comida - Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Srgio Britto.




                                                             O processo de trabalho e a desigualdade social 169
                                                                                            10

                                                            GLOBALIZAO                       <Katya Picano1




                                                                               oc j parou para observar
                                                                              onde so fabricados os produ-
                                                                             tos que so consumidos no seu
                                                                           dia-a-dia? J olhou a etiqueta da
                                                                         sua camiseta ou a sola do seu tnis
                                                                      e viu a procedncia de cada um de-
                                                                   les? Ou j observou estas lojas que ven-
                                                                dem produtos a preos baixos e identificou
                                                             a origem de cada um?

                                                                 J ouviu falar ou j utilizou a Internet? No-
                                                             tou que as comunicaes se aceleraram e uma
                                                             pessoa na sua escola neste instante pode se
                                                             comunicar com outro estudante de outra es-
                                                             cola, em outro continente? Se isto ocorre en-
                                                             tre estudantes, pense o que est ocorrendo no
                                                             mundo dos negcios?




Colgio Estadual Professor Jos Guimares  Curitiba - PR
1
                                Ensino Mdio

                                                                    A rapidez da internet parece uma ao meio mgica,
                                                                alm das relaes que os indivduos estabelecem no cotidia-
                                                                no. Veja que a internet imprime uma velocidade  vida coti-
                                                                diana como se todos fossem ficar com mais tempo livre para
                                                                o lazer. Ser que realmente  assim, no cotidiano das pes-
                                                                soas que trabalham e necessariamente precisam da internet
                                                                como instrumento de trabalho? Voc conhece algum que
                                                                aumentou ou que diminuiu a sua jornada em funo des-
                                                                ta "mgica"? Com ela parece que o mundo ficou menor, ou
                                                                                 mais Global?
                                                                                       Por exemplo, j reparou na roupa e
                                                                                    nos acessrios que os jovens de outros
                                                                                  lugares do mundo usam? No  da mesma
    < Foto: Icone Audiovisual




                                                                            marca que o seu tnis, o seu celular, a sua te-
                                                                            leviso? No cinema, as estrias so mundiais, o
                                                                       que significa que voc e os habitantes de outras regi-
                                                               es do globo podem assistir ao filme em uma curta diferen-
                                                      a de tempo.
                                                        E o que tudo isto tm haver com voc? Voc consome produtos, uti-
                                                    liza a internet, vai ao cinema... parece que tem muito!. Mas para enten-
                                                    dermos o quanto ela interfere na sua vida vamos entender porque  que
                                                    ficamos com a impresso de que o mundo ficou menor ou mais global.
                                                    Para isso vamos comear lendo os trechos das notcias que seguem:

                                                    Aumenta tenso s vsperas da cpula do G-8

                                       Gnova  Cerca de 20.000 policiais          Mas a tenso aumentou no norte
                                   patrulhavam a cidade italiana de Gno-      da Itlia por causa de trs falsas suspei-
                                   va e seus arredores enquanto cerca de       tas de bomba, uma em Milo, outra em
                                   50.000 pessoas realizavam nesta quin-       Florena e uma em Turim. A polcia ita-
                                   ta-feira, s vsperas do incio da cpula   liana permanece em alerta mximo e
                                   do Grupo dos Oito (G-8), o primeiro de      mantm rgido controle nos 27 postos
                                   uma srie de protestos contra a globali-    fronteirios do pas. (...)
                                   zao e de maneira geral contra as pol-        Grupos de imigrantes da frica e da
                                   ticas do Primeiro Mundo em relao aos      Amrica Latina lideravam o cortejo, al-
                                   pases mais pobres.                         guns carregando bandeiras de Colm-
                                       Foi um evento pacfico contra as res-   bia, Argentina e Peru. Havia cartazes
                                   tries aos imigrantes. Em tom festivo,     com as mais diversas reivindicaes,
                                   os participantes carregavam cartazes e      como a de integrantes da comunidade
                                   gritavam palavras de ordem. Ambienta-       curda na Europa, pedindo a libertao
                                   listas seguravam enormes bales verdes      do lder rebelde Abdullah Ocalan e "paz
                                   e uma banda tocava msica.                  no Curdisto".
                                                                                                            < www.estado.com.br




172 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                                 Sociologia


                 Polcia bloqueia acesso a local de reunies da OMC em Hong Kong
      Polcia e manifestantes         coreanos e ativistas de pases      manifestantes, 2.000 so fa-
  contra a OMC (Organizao           do sudeste asitico e euro-         zendeiros sul-coreanos, con-
  Mundial do Comrcio) vol-           peus que se opem  liberali-       siderados o grupo asitico
  taram a se enfrentar nas ru-        zao do comrcio global.           que mais se ope  abertura
  as de Hong Kong neste s-               De acordo com a rede de         do comrcio agrcola.
  bado, no dia dos confrontos         TV local, cerca de 30 pessoas           (...)
  mais violentos desde o incio       ficaram feridas. A polcia, no          A manifestao comeou
  da reunio da organizao,          entanto, informou que o con-        de forma pacfica, com os ma-
  na tera-feira (13). As princi-     fronto deixou cinco feridos,        nifestantes levando rosas e
  pais entradas do centro de          incluindo um policial.              bales amarelos, nos quais se
  convenes onde acontece                Cerca de 10 mil ativistas       lia o slogan "No, no OMC".
  a reunio foram trancadas e         antiglobalizao esto em           O aumento no nmero de
  guardadas por grupos de po-         Hong Kong para protestar            ativistas, no entanto, levou al-
  liciais.                            contra a reunio da organi-         guns deles, mais prximos s
      Os grupos de manifestan-        zao, que tenta chegar a um        barreiras, a empurrar alguns
  tes so formados principal-         acordo sobre a liberalizao        policiais.
  mente por agricultores sul-         do comrcio mundial. Dos                (...)
                                                                                                 < Folha Online
    Com a leitura dos trechos das notcias acima voc pde perceber
que existem reunies entre os representantes dos pases ricos, em al-
guns lugares do mundo e que existem pessoas que so contra elas. Se
voc leu com ateno observou que essas pessoas se renem para pro-
testar contra o G-8., FMI, OMC. So siglas que vo aparecer nos notici-
rios de jornais e so relativas  globalizao. Globalizao novamen-
te! O que isto tem a ver com a sociedade em que vivemos?
        Bem, vivemos numa sociedade capitalista que est organizada a
partir da valorizao do capital, isto , a riqueza que  propriedade do
capitalista. Esta  empregada no processo produtivo  novas tecnolo-
gias, novas matrias-primas, novas fbricas  e possibilita que um no-
vo acmulo de riqueza/capital seja gerado. Este acmulo ocorre a par-
tir da extrao da mais-valia que pode ser absoluta quando o trabalho se
estende em jornadas longas ou alm da jornada estipulada legalmente, ou re-
lativa que  gerada pela produo de mais produtos via a utilizao de novas
tecnologias que intensificam a produo.

 FIQUE DE OLHO
    Como  esta riqueza que o capital emprega? Entenda que todo trabalha-
 dor para executar suas atividades  contratado por um nmero X de horas
 que  a sua jornada de trabalho. Dentro desta jornada o que ele produz pa-
 ga o seu salrio, a matria-prima, os impostos, gua, luz, telefone, transporte
 da matria-prima, do objeto produzido e s vezes do prprio trabalhador. Va-
 mos supor que isto ocorra com metade das horas trabalhadas. A outra meta-
 de das horas, em que o trabalhador continua trabalhando  o lucro do patro.

                                                                                             Globalizao 173
        Ensino Mdio

                               E isto gera a mais-valia, isto  um valor a mais, que  o lucro do capitalista.
                               Por exemplo, em uma jornada de oito horas, quatro horas trabalhadas todos
                               os dias no ms pagam os custos com a produo; as outras quatro horas em
                               que o trabalhador continua trabalhando  a mais-valia.

                                  O funcionamento desta sociedade em que se produz muitos obje-
                              tos que sero consumidos no  harmnico.  uma sociedade que tem
                              um desenvolvimento baseado em contradies  problemas que a hu-
                              manidade ainda no resolveu, como a fome entre as populaes ca-
                              rentes em quase todas as regies do mundo. Estas contradies podem
                              gerar crises para o funcionamento da sociedade.
                                  Crise? Voc sabe o que  uma crise? J ouviu algum dizer que est
                              em crise? Observe que quando a pessoa afirma isso, ela est querendo
                              dizer que existem problemas que precisam de solues, mas que esto
                              difceis de serem encontradas. E o que isso tem a ver com os proble-
                              mas que a sociedade capitalista encontra para funcionar?




                       PESQUISA

         Pesquise sobre o que foi a famosa Crise de 1929 e faa uma lista de acontecimentos relacionados
      com ela relativos ao desenvolvimento da Sociedade Capitalista, nos EUA e no Brasil.


                                  Bem, desde os anos 70, o mundo capitalista vive uma crise que tem
                              como estopim o aumento do barril do petrleo estipulado pela Organi-
                              zao dos Produtores e Exportadores de Petrleo  OPEP. Como o pe-
                              trleo  a forma de energia dominante no capitalismo, tanto que o seu
                              controle pode significar a invaso de pases e a morte de seres huma-
                              nos, o aumento do seu preo traz problemas para os capitalistas, pois
                              encarece tudo o que  produzido, impulsionando a diminuio do lu-
                              cro dos capitalistas.
                                  Esta crise foi caracterizada pelos economistas, gegrafos e socilo-
                              gos em geral como uma crise de superproduo. Uma crise de super-
                              produo ocorre quando o capital empregado no tem retorno para o
                              capitalista, nem como forma de valor (extrao da mais-valia), como
                              tambm de consumo, pois este no acompanha o excesso de oferta de
                              produtos. Isto ocorre quando se produz mais do que se consome, ge-
                              rando desemprego, o que diminuiu o consumo.
                                  Para resolver essa crise, que se aprofundou nos anos de 1973 e
                              1974 e atingiu todos os pases que necessitavam de petrleo para man-
                              ter a produo de objetos, as solues foram interessantes para os ca-
                              pitalistas: diminuir o nmero de trabalhadores, utilizar novas formas de

174 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                        Sociologia

organizar a produo e a utilizao de novas tecnologias; diminuir as
taxas a serem pagas ao Estado.




               PESQUISA

     Faa uma pesquisa sobre as guerras que envolvem o controle sobre o petrleo, confeccionando
 um mapa com datas e os pases envolvidos nestas disputas, no esquecendo de demonstrar como tu-
 do isto terminou.




    Tendo em vista que esta crise, que tem nos anos 70 o seu pice,
impossibilitava que o capitalismo internacional (indstrias, bancos es-
trangeiros e os organismos internacionais) o FMI e o Banco Mundial
mantivessem a sua taxa de lucro semelhante ao ps guerra (aps 1945
quando houve um crescimento da economia), a sada capitalista foi a
abertura de mercados, a reestruturao produtiva e a instalao de go-
vernos neoliberais. Vamos entender cada um destes itens.
    Segundo o pensador Robert KURZ (1997), a globalizao significou
uma perda para os trabalhadores e aquelas pessoas excludas do mer-
cado de trabalho, seja ele o mercado formal  com a carteira assinada,
seja o informal  sem carteira e sem benefcios. Ela significa no a mo-
dernizao, mas um aprisionamento do Estado aos interesses das gran-
des corporaes e dos organismos multinacionais. Neste processo, o
Estado vai liberando a fronteira econmica do pas para que as empre-
sas estrangeiras se instalem com iseno de taxas  gua, luz, impostos
 e com a adequao de uma infra-estrutura que possibilita a chegada
de matrias-primas e o escoamento da produo  via estradas, portos
e aeroportos. Aliado a isso, h uma abertura de mercado aos produtos
estrangeiros, que passam a competir com os produtos nacionais. Nes-
te processo, as pessoas menos favorecidas so prejudicadas, pois o Es-
tado, ao diminuir o investimento em programas e projetos sociais, im-
possibilita que justamente aqueles que mais precisam tenham acesso
aos servios pblicos.
    Alm da diminuio (veja que estamos destacando uma diminui-
o e no extino) do poder do Estado, com o processo de glo-
balizao, os blocos econmicos intensificam as tarefas como: a
abertura comercial e a possibilidade das empresas globalizadas de
utilizarem a mo-de-obra mais barata que possa existir neste con-
junto de pases regionalmente fronterio.  o caso do MERCOSUL,
do NAFTA e da proposta da ALCA. (Estas siglas esto definidas no
fim do texto).


                                                                                    Globalizao 175
          Ensino Mdio

                                   Os blocos econmicos so reunies de pases que possuem rela-
                               es econmicas e uma proximidade geogrfica  veja o exemplo do
                               MERCOSUL  e se organizam para realizar uma abertura comercial
                               mais intensa das suas fronteiras alfandegrias e sociais. A existncia
                               dos Blocos Econmicos foi uma das sadas do capitalismo  crise dos
                               anos 70, e impem sobre os trabalhadores no mundo, e no caso da
                               ALCA, sobre os trabalhadores de todo o continente americano, a pos-
                               sibilidade de perder direitos trabalhistas com as mudanas neoliberais
                               (ver neste texto sobre Neoliberalismo e Estado). Essa organizao in-
                               tensifica a circulao de capital  da extrao da mais-valia, pois pode
                               se deslocar instalando fbricas nas regies onde a mo-de-obra  mais
                               barata e com uma organizao sindical inexistente ou mais enfraque-
                               cida. Essa circulao aumenta a explorao sobre os trabalhadores e a
                               transforma em uma explorao continental.
                                   A globalizao cria uma iluso de que vivemos a era de um pro-
                               gresso sem limites, e esconde assim a sua forma exploratria (o au-
                               mento da explorao do trabalho, com as empresas circulando, se
                               instalando e desinstalando sem se preocupar com o nus social) e des-
                               trutiva (ao estabelecer junto com as polticas neoliberais uma forma de
                               retirar dos trabalhadores a seguridade que as leis trabalhistas propor-
                               cionam). Em 2002, foi realizado no Brasil um plebiscito sobre a ALCA.
                               Voc teve conhecimento do seu resultado? Pesquise em sites relacio-
                               nados com o movimento social e popular sobre este resultado e reflita
                               sobre o que os brasileiros pensam sobre esta questo.

      FIQUE DE OLHO
         J leu nos jornais sobre migrantes ilegais tentando entrar nos pases buscando melhores condies de
     vida; isto ocorre com brasileiros e mexicanos tentando entrar nos EUA, com bolivianos tentando entrar no
     Brasil, chineses e africanos tentando entrar na Europa. Em relao a isso, duas questes so importantes
     para que possamos pensar: por que no conseguem ficar no seu pas? O que ocorre nos pases de origem
     que os impede de ficar e trabalhar, ter famlia, estudar, ter acesso ao lazer? A outra questo  como estas
     pessoas so tratadas nestes pases em que tentam entrar? Essa situao s tem se agravado com o pro-
     cesso de globalizao em que, como diz o pensador citado acima, Robert Kurz, neste processo os traba-
     lhadores, em todas os lugares do mundo, vm perdendo. Acompanhe as notcias sobre essas migraes
      e no esquea que todos somos seres humanos e devemos ser tratados com respeito.




                         PESQUISA

           Pesquise sobre as seguintes questes relativas ao Mercosul:
      =    Quais os produtos que so comercializados entre estes pases.
      =    Se existem taxas, e qual  o valor aproximado, para a entrada de produtos dos pases do Merco-
           sul e no Brasil.


176 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                         Sociologia

z A organizao do trabalho
    Entre os anos do ps-guerra (Segunda Guerra Mundial e os anos 70)
a organizao do trabalho na fbrica estava baseada nas idias de J. Ford
(1863-1947) e F. Taylor (1856-1915). Ford era dono da fbrica norte-ame-
ricana Ford e Taylor era um engenheiro que trabalhava na Fbrica Mid-
vale Steel Company. Eles foram os responsveis, cada um a sua manei-
ra, por estabelecerem medidas para um controle sobre os trabalhadores,
no cotidiano da fbrica. A compreenso de Henry Ford, conhecida co-
mo a proposta fordista, estava baseada na seguinte premissa: "(...) para
um consumo em massa uma produo em massa (...)". Para isso, a pro-
duo deveria ser organizada de maneira a impedir desperdcio de tem-
po do operrio na execuo das tarefas. Para que isso ocorra o trabalho
deveria ser partido em vrias funes e o trabalhador executaria somen-
te uma funo. Para que haja continuidade entre estas tarefas parcela-
das, criou-se uma esteira rolante, na qual os objetos vo sendo produ-
zidos na medida em que os trabalhadores executam a sua funo um
ao lado do outro. Para que no ocorressem interrupes nesta "linha de
montagem", Ford props a padronizao das peas.
     J as idias de Frederick Taylor, conhecida como a proposta tayloris-
ta, estavam baseadas nas seguintes questes, em que deveria haver:
= a separao entre quem planeja a atividade de produo de um ob-
    jeto e quem de fato vai execut-la;
= um processo de seleo de operrios que sejam adequados para o
    trabalho, sem que tenham um perfil rebelde, capaz de questionar
    as regras na seleo dos trabalhadores;
= um controle sobre o tempo e sobre o movimento que o trabalha-
    dor leva para executar uma atividade. Esse controle deveria ser re-
    alizado pela chefia utilizando um cronmetro, medindo a ao des-
    te operrio.
                                                                 < Foto: Joo Urban




       < Linha de montagem

                                                                                      Globalizao 177
        Ensino Mdio

                                  Essas idias j estavam sendo aplicadas na Ford, no incio do scu-
                              lo XX. Mas  somente com o ps-guerra que h uma disseminao des-
                              se sistema pelo mundo, atingindo at as fbrica rivais da Ford como a
                              General Motors e a Chrysler. (GOUNET, T. 2002).
                                  Assim, uma questo deve ser respondida: como  que foram produ-
                              zidos os carros a partir da crise que afetou a produo capitalista mun-
                              dial? Para responder a essa questo veja o que se segue:
                                  Os anos 70 foram marcados pela crise do petrleo (1973) o que im-
                              pulsionou a crise de superproduo e uma mudana na forma de or-
                              ganizao da produo, e na intensificao do processo de globaliza-
                              o da economia. As mudanas na forma de organizao da produo
                              significaram um reordenamento das funes cotidianas nas fbricas e
                              a utilizao de novas tecnologias  acelerando a utilizao da robti-
                              ca na linha de montagem. A indstria automobilstica foi a primeira a
                              passar por essas mudanas.
                                  Veja que na organizao fordista a produo ocorreu primeiro nas
                              fbricas de automveis e depois se dissemina pela sociedade; isso
                              ocorre pelo complexo industrial e de servios que esto ao longo da
                              cadeia produtiva da indstria automobilstica que  muito extenso e
                              atinge a produo industrial como um todo. A produo do ao, do vi-
                              dro, das borrachas e outras fibras, tintas, estofamento, peas e acess-
                              rios, propaganda, financiamentos, pontos de venda e revenda, postos
                              de combustveis, enfim, uma amplitude que atinge todas as esferas da
                              economia da sociedade.




                                                                                                         < Foto; Joo Urban




178 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                                      Sociologia

                           Essas mudanas possibilitaram que uma outra forma de organiza-
                       o da produo, mais enxuta, que produzia de acordo com a deman-
                       da do mercado, passasse a ser utilizada como uma das sadas para re-
                       solver a crise da sociedade na esfera produtiva.  o padro toyotista
                       que tem origem na fbrica japonesa Toyota, nos anos 50, e se diferen-
                       cia do Fordismo nos seguintes aspectos:
                       = enquanto o fordismo produzia em massa; o toyotismo produzia na
                           medida em que ocorre uma procura por determinado modelo de
                           automvel;
                       = o trabalho parcelar e individualizado passa a conviver com o traba-
                           lho em equipe, em que as mquinas vo sendo utilizadas pelo gru-
                           po de trabalhadores responsveis que vo operando vrias mqui-
                           nas. Essa caracterstica intensifica um processo de convencimento
                           do trabalhador, quando das mais diversas formas  reunies, jor-
                           nais internos, premiaes  ele  instigado a "vestir a camisa da em-
                           presa", e passa a achar que faz parte de uma equipe e que  ca-
                           paz de participar efetivamente do processo. Esse convencimento
                           no aponta que as decises sobre o que vai ser produzido, quem
                           vai ser demitido, em qual regio do mundo a fbrica vai se instalar,
                           no passa pelo seu crivo;
                       = o trabalho deixa de ser especializado em uma nica tarefa e passa
                           a ser feito por um operador preparado para realizar mais de uma
                           funo dentro do processo produtivo;
                       = o planejamento da produo  adequado  demanda e a produo
                           de mais de um modelo e automvel pode ser realizada na mesma
                           fbrica, o que  diferente do fordismo, quando se produz somente
                           um modelo de automvel.
< Foto: Nego Miranda




                                                                                                   Globalizao 179
         Ensino Mdio

                                          Mas fundamentalmente, o toyotismo permite que a fbrica funcione
                                       comum nmero menor de funcionrios ao ser comparada com o fordis-
                                       mo, j que  possvel que um operrio realize mais de uma funo. Na
                                       Toyota, por exemplo, um operrio pode operar mais de cinco mquinas
                                       e ao atuar com outros operrios, passa a realizar funes que antes eram
                                       da chefia. Isso diminui as funes, possibilitando um "enxugamento" no
                                       processo produtivo. (GOUNET, 2002).

                                        FIQUE DE OLHO
                                            A diminuio de funes e a utilizao de mquinas mais sofisticadas tm
                                        diminudo a oferta de emprego com carteira assinada e, assim, aumentado
                                        o nmero de pessoas trabalhando sem carteira assinada. Se o Estado dimi-
                                        nui a fiscalizao sobre o que ocorre na sociedade, como uma das propos-
      Os governos so forma-            tas Neoliberais, cada vez mais vamos ter pessoas trabalhando sem garantia
     dos por pessoas que so            de direitos. Estes direitos no podem ser vistos como privilgios de alguns,
     eleitas (existem governos no      mas como uma conquista que deve ser estendida e ampliada para todos os
     eleitos como foram os suces-       trabalhadores.
     sivos governos militares en-
     tre os anos de 1964 e 1984
     no Brasil) para administrarem
     o Estado com uma propos-              Neste processo de desenvolvimento do capitalismo, a globalizao
     ta poltica. O Estado Mo-         assume uma dinmica interessante quando h o encontro entre o que 
     derno surge durante os pro-       global, e o que  local. Neste caso, em muitos lugares temos a tradio
     cessos revolucionrios dos        se defrontando com uma dinmica que modifica as caractersticas ou
     sculos XVII e XVIII. Alvo de     que as remodelam. A instalao das montadoras de automveis na re-
     polmicas constantes dentro
                                       gio metropolitana de Curitiba so um exemplo de relao global e lo-
     do pensamento filosfico e
                                       cal. Elas se instalam e h um conjunto de mudanas na regio que mo-
     sociolgico, vai-se consubs-
                                       dificam hbitos e costumes, como a busca intensa dos trabalhadores da
     tanciar em um complexo de
     leis, instituies, os trs po-   regio de realizarem cursos que os habilitem ao trabalho nestas fbricas.
     deres  legislativo, executivo    Por isso, nesta regio, aumentaram as ofertas de cursos e faculdades vol-
     e judicirio  sendo tambm       tados  capacitao industrial,  informtica e s lnguas estrangeiras.
     representado pela idia de            A sociedade capitalista  organizada a partir de leis, da ideologia,
     nao com um territrio com       das instituies, que vo se desenvolvendo na medida em que os se-
     fronteiras, idioma, moeda,e       res humanos vo atuando sobre elas e vice-versa. Como vivemos em
     cultura.                          uma sociedade capitalista, estas leis esto determinadas pelos interes-
     O governo no  o Es-             ses daqueles que dominam a sociedade: os capitalistas. Em contrapar-
     tado; ele  o conjunto de         tida existem aqueles que se organizam em movimentos sociais e que
     propostas polticas que de-       esto contrrios a esses interesses. Neste embate, entre quem domina
     terminado grupo de pesso-         e quem  dominado, o Estado  uma instituies com muitas ramifi-
     as, organizadas nos partidos      caes  aparece para as pessoas como alm deste conflito, como se
     polticos, vai executar quan-     fosse um juiz.
     do est administrando o Es-
                                           Esta aparncia reside na concepo disseminada na sociedade de
     tado. As propostas polticas
     so realizadas vias os progra-    que o Estado  uma entidade acima dos seres humanos como se fos-
     mas assistenciais, educacio-      se superior aos interesses das classes sociais. Mas ele no , pois  ad-
     nais, econmicos.                 ministrado por pessoas que representam os interesses dominantes, fi-


180 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                               Sociologia

cando para os dominados a tarefa de denunciar essa situao e tentar          Estado intervencionista:
mudar o Estado e a sociedade. Isso fica observvel quando entende-           (europeu)
se que esta ao aparece no Estado via polticas governamentais, isto
                                                                             "Partidos de Massas, sindi-
, via governo.                                                              catos fortes e rpido cresci-
    A concepo de Estado demonstrada acima, como um conjunto de             mento eleitoral marcaram
instituies,  diferente da concepo Marxista (baseada nas idias do       este reformismo no Norte.
pensador Karl Marx) que entende o Estado como um aparelho, ou um             (...) Embora indstrias sele-
instrumento a servio da dominao capitalista, formado por aparelhos        cionadas tenham sido
repressores e ideolgicos.                                                   estatizadas em alguns pa-
                                                                             ses (Gr-Bretanha e ustria
    Lendo o texto ao lado voc observa duas idias que so rivais so-
                                                                             foram os casos mais
bre o funcionamento da sociedade capitalista.  muito importante vo-
                                                                             significativos), a propriedade
c entender a existncia destas duas concepes, e analisar que o Esta-      pblica no estava entre os
do  um conjunto complexo de instituies, mas que essas instituies        seus objetivos bsicos.
so administradas por pessoas, que vo representar os mais variados          A marca registrada da social-
interesses na sociedade. Sendo este um complexo de instituies, va-         democracia no Norte foi a
mos compreender que existe uma dinmica no funcionamento do Esta-            edificao de welfare
do que vai variar na medida em que variam as pessoas e as propostas          states, com pleno emprego e
que elas utilizam para governar.                                             amplos servios sociais. As
    Assim, entenda primeiro, que o Estado no  uma entidade que es-         formas e a abrangncia des-
t acima dos interesses dos seres humanos. E segundo que ele pode            tes servios variavam de pas
ser modificado na medida em que as polticas adotadas impulsionam            para pas, e os resultados
mudanas no conjunto de instituies que o constituem, modificando-          raramente se deviam apenas
                                                                             a iniciativa socialdemocrata."
o. Essas polticas tm como objetivo central, diminuir a influncia do
                                                                             (ANDERSON, 1996:10).
Estado sobre a economia, a sociedade, a cultura. Como ser que essas
polticas so compreendidas na atualidade do final do sculo XX e co-        Estado neoliberal:
meo do sculo XXI? Vejamos.                                                 "O modelo ingls foi, ao mes-
    Segundo o historiador ingls Perry Anderson (1995), o Neolibera-         mo tempo, o pioneiro e o
lismo tem uma histria que remonta os anos posteriores a Segunda             mais puro. Os governos Ta-
Guerra Mundial quando um grupo de pensadores neoliberais se orga-            tcher contraram a emisso
nizou e elaborou um conjunto de medidas, tais como: liberar o Estado         monetria, elevaram a taxa
das questes sociais e coletivistas que segundo estes pensadores so         de juros, baixaram drastica-
onerosas para os cofres pblicos; liberar as fronteiras comerciais de ta-    mente os impostos sobre os
xas que dificultassem as relaes comerciais internacionais; controlar       rendimentos altos, aboliram
a emisso da moeda; modificar as leis que controlam o Estado no que          controles sobre fluxos finan-
diz respeito  Previdncia, s leis trabalhistas, aos impostos,  proprie-   ceiros, criaram nveis de de-
dade intelectual, s empresas e instituies pblicas e a relao com o      semprego massivos, aplasta-
movimento sindical; a estas modificaes na lei damos o nome de Re-          ram greves, impuseram uma
forma do Estado.                                                             nova legislao anti-sindical
                                                                             e cortaram gastos sociais. E
    Estas idias passaram a ser aplicadas nos pases na dcada de 1970       finalmente(...) se lanaram
e tm significado a diminuio da presena do Estado na sociedade,           num amplo programa de pri-
na economia, na cultura. Essa diminuio vai encontrar na Reforma do         vatizao, comeando por
Estado a sua legitimao. Precisamos entender o que  a Reforma do           habitao pblica e passando
Estado:  uma mudana nas leis, que liberam ou diminuem a presena           em seguida a indstrias b-
do Estado na fiscalizao das questes trabalhistas; no cuidado com a        sicas como o ao, a eletrici-
escola e com a sade pblica; no cuidado com os aposentados; com a           dade, o petrleo, o gs e a
infraestrutura  estradas, portos, aeroportos. A soluo dada por aque-      gua. (ANDERSON, 1995:12).

                                                                                         Globalizao 181
        Ensino Mdio

                              les que defendem o Neoliberalismo  a privatizao dos rgos e ser-
                              vios que esto sob a tutela do Estado.
                                  O Neoliberalismo  uma retomada, no sculo XX e XXI, da propos-
                              ta liberal, defendida por John Locke (1632-1704), no sculo XVII. Lo-
                              cke, pensador ingls afirma que os homens so livres e iguais entre si,
                              na medida em que no existe uma desigualdade natural. Tudo est ao
                              acesso de todos, no devendo nada regular o acesso aos bens. Assim,
                              operrios e capitalistas como proprietrios, cada um  sua maneira, de
                              qualidades diferentes podem troc-las como se fosse uma troca entre
                              iguais, entre seres livres, no devendo o Estado se colocar entre eles.
                                  No pensamento liberal, o trabalhador pode escolher entre trabalhar
                              para este ou para aquele patro, de acordo com a sua convenincia,
                              pois ele  livre para escolher.  aqui que entra o pensamento marxista
                              para fazer a crtica a esta questo e desvendar o papel do Estado, co-
                              mo representante dos interesses capitalistas.
                                  Na grande maioria das vezes o trabalhador no pode escolher a ta-
                              refa, o salrio e muitas vezes para quem vai trabalhar. H na socieda-
                              de dividida em classes a hegemonia da classe dominante no controle
                              da organizao do trabalho, do Estado, da economia, da cultura. Essa
                              hegemonia  a prpria dominao que os capitalistas exercem sobre
                              os trabalhadores e sobre o conjunto da sociedade, o que impede que
                              os indivduos possam escolher incondicionalmente para quem vo tra-
                              balhar.
                                  As pessoas que trabalham j devem ter ouvido, quando pedem um
                              aumento de salrio ou melhores condies de trabalho, que se no es-
                              tiverem satisfeitas, podem pedir a conta, pois existem pessoas que tra-
                              balhariam por um salrio menor. Essa presso faz com que as pessoas
                              muitas vezes aceitem a imposio hegemnica do patro.




                                                                                                   < Foto: Joo Urban




182 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                                                   Sociologia

    O Neoliberalismo, como uma reedio das idias liberais, vm mo-
dificando a relao do Estado com a sociedade. Por exemplo, no Bra-
sil ocorreu a privatizao de estradas com a cobrana de pedgio; do
Sistema Brasileiro de Telecomunicaes; dos bancos estaduais, como o
Banestado (Banco do Estado do Paran); da CSN, Companhia Siderr-
gica Nacional, empresa que produz ao para a indstria de bens dur-
veis  como carros, eletrodomsticos.
    Desta lista o que voc concluiu? J parou para pensar como fica-
r a situao daqueles que no podem ter acesso ao servio de telefo-
nia, luz, gua, gs, escola, sade, sem que o Estado financie e garan-
ta o acesso de todos s conquistas tecnolgicas e sociais? So questes
importantes que envolvem a adoo por parte dos governos, das pol-
ticas neoliberais, e que dizem respeito  sua existncia.
 FIQUE DE OLHO
      Voc tem conhecimento sobre a situao da sade pblica no Brasil?
 Hospitais lotados, com pessoas morrendo nas filas sem atendimento, funcio-
 nrios com salrios atrasados, lixo nos corredores. Da alguns podem pensar,
 ento por que no vender, j que no consegue cuidar? Veja que a sade j
 est sendo vendida com a existncia dos planos privados que cobram taxas
 altssimas e nem sempre atendem nas situaes de risco de vida. Mas a per-
 gunta que devemos fazer : e como ficam aqueles que no podem pagar?
 Existem pessoas que fecham os olhos para isto porque conseguem pagar
 planos caros e no se importam com o que ocorre com os outros indivduos.
 Ser que esta atitude corresponde a uma atitude humanista e solidria?

    Existe uma questo muito importante nesta
discusso de globalizao e neoliberalismo. No
podemos ficar com "raiva" do que  estrangeiro
e passarmos a praticar atos preconceituosos, atos
de xenofobia  preconceito contra os estrangei-
ros. O problema central  que a globalizao e
o neoliberalismo passaram a ser mundiais e atin-
gem os trabalhadores e as populaes mais po-
bres do mundo todo. As manifestaes contra a
globalizao apontam, como est nos textos jor-
nalsticos do comeo deste "Folhas", para aes
globais na defesa dos mais pobres, dos trabalha-
dores, contra o trabalho infantil, contra o trfico   < Caminhada contra a ALCA II Frum Social. Diponvel em: http://www.mst.
de crianas e mulheres, contra a prostituio in-       org.br/multimidia/gfotos/II%20FSM/2forum1.htm
fantil em todo o mundo. Voc sabia, por exem-
plo, que existem os homeless (sem casa ou sem-
teto) nos pases europeus e nos EUA?
    A globalizao tambm significou o au-
mento das contradies do capitalismo em to-
dos os pases (essas contradies so os pro-

                                                                                                             Globalizao 183
        Ensino Mdio

                              blemas bsicos que a humanidade ainda no resolveu para todos como
                              moradia, comida, segurana, vesturio, educao, sade); o que pode
                              significar em contra partida um crescimento da solidariedade mundial.
                              Sobre essa questo veja sobre o Frum Social Mundial na ltima par-
                              te deste "Folhas".


                              z Os movimentos anti-globalizao
                                  Os primeiros anos do sculo XXI so palco para um conjunto de
                              manifestaes que possuem vrias reivindicaes, mas com uma carac-
                              terstica que as unifica: so globais. Ocorrem s vezes em pocas dis-
                              tintas, em vrios pases, principalmente como uma resposta s reuni-
                              es do G-8, da OMC e de outros fruns de discusso internacional do
                              capitalismo que renem somente os representantes dos governos.
                                  O Frum Social Mundial que se reuniu quatro vezes em Porto Ale-
                              gre, no Brasil e uma vez em Mumbai, na ndia,  tambm uma respos-
                              ta dos setores populares e organizados contra a globalizao hegemo-
                              nizada pelos interesses norte-americanos, que tm no Banco Mundial
                              e no FMI os seus representantes.
                                  So movimentos contrrios  poltica econmica do G-8, que  hegem-
                              nica. Mesmo sem ter uma unidade e muitas vezes sem ter uma articu-
                              lao das propostas vo desenvolvendo suas reivindicaes.  a unio
                              daqueles que so contra uma globalizao desumana e um Estado ne-
                              oliberal privatizador. Questes importantes fazem parte das discusses
                              destes que so contra a globalizao. Desde a polmica dos transg-
                              nicos, do aquecimento global, dos direitos dos povos pobres, contra a
                              fome no mundo, pelos direitos dos pequenos agricultores, contra a d-
                              vida externa dos pases pobres. Enfim, um conjunto indistinto de mani-
                              festaes e reivindicaes por uma globalizao dos explorados e do-
                              minados, contra a globalizao do capital.




                       PESQUISA

          Pesquise em jornais e revistas quais so as reivindicaes dos grupos que fazem parte das mani-
      festaes antiglobalizao e identifique aqueles que tm como proposta serem contrrios aos rumos da
      globalizao capitalista, que foram tratados neste texto: a abertura de mercado, as mudanas na orga-
      nizao do trabalho e o neoliberalismo.




184 Trabalho, Produo e Classes Sociais
                                                                                 Sociologia

z Siglas
    FMI: FUNDO MONETRIO INTERNACIONAL: criado em 1946 pelo acordo
de Bretoons Wood, tinha como finalidade coordenar as relaes finan-
ceiras entre os pases; o desenvolvimento das polticas ficou sob a hege-
monia norte-americana, na medida em que os EUA passavam a liderar o
mundo capitalista no ps-guerra.
    BANCO MUNDIAL: criado em 1945 pelo acordo de Bretoons Wood, ti-
nha como finalidade no ps-guerra coordenar as relaes financeiras
entre os pases. o desenvolvimento das polticas ficou sob a hegemo-
nia norte-americana, na medida em que os EUA passavam a liderar o
mundo capitalista no ps-guerra.
    G8: A cpula do G-8 (Grupo dos Oito)  uma reunio anual que
conta com a participao dos governos dos sete pases mais ricos do
mundo (G-7), formado por EUA, Japo, Alemanha, Frana, Reino Uni-
do, Itlia e Canad, e da Rssia. Suas reunies tratam de questes re-
lativas  globalizao.
    OMC: Organizao Mundial do Comrcio. Suas reunies tratam de
questes relativas ao comrcio entre os grandes grupos empresariais
no mundo todo.
    MERCOSUL (Mercado Comum do Sul): foi criado em 1991, so mem-
bros: Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela.
    NAFTA (TRATADO DE LIVRE COMRCIO DAS AMRICAS): (North Ameri-
ca Free Trade Agreement) O NAFTA foi iniciado em 1988, so pases-
membros do NAFTA: Estados Unidos, Canad e Mxico.
    ALCA (REA DE LIVRE COMRCIO DAS AMRICAS): proposta dos EUA de
um novo acordo comercial e industrial compreenderia Amrica do Norte,
Sul, Central, alvo de negociaes, sem acordo entre os pases, principal-
mente da Amrica Latina que resistem  sua implementao.
    FRUM SOCIAL MUNDIAL: um espao organizado de discusses dos seto-
res populares apoiados por sindicatos, ongs, governos populares, associa-
es profissionais e que discutem propostas diferentes das feitas pelo G-8.
    "(...)  um espao de debate democrtico de idias, aprofundamen-
to da reflexo, formulao de propostas, troca de experincias e arti-
culao de movimentos sociais, redes, ongs e outras organizaes da
sociedade civil que se opem ao neoliberalismo e ao domnio do mun-
do pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. O Frum Social
Mundial se caracteriza tambm pela pluralidade e pela diversidade, ten-
do um carter no-confessional, no governamental e no-partidrio.
Ele se prope a facilitar a articulao, de forma descentralizada e em re-
de, de entidades e movimentos engajados em aes concretas, do nvel
local ao internacional, pela construo de um outro mundo, mas no
pretende ser uma instncia representativa da sociedade civil mundial.
O Frum Social Mundial no  uma entidade nem uma organizao"
(www.forumsocial.org.br).

                                                                              Globalizao 185
        Ensino Mdio

                              z Referncias:

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                                 _____________. Balano do Neoliberalismo In: Sader, E. e GENTILI, P. Ps-
                                 neoliberalismo: as polticas sociais e o Estado Democrtico. So Paulo: Paz
                                 e Terra, 1995.

                                 GOUNET, T. Fordismo e Toyotismo na civilizao do automvel. So Paulo:
                                 Bomtempo Editorial, 2002.

                                 HARVEY, David. Condio ps-moderna. So Paulo: Loyola, 1994.

                                 HOBSBAWN, E. A era dos extremos: o breve sculo XX (1914-1991). So
                                 Paulo: Companhia das Letras, 1995.

                                 IANNI, Octavio. Neoliberalismo e neosocialismo. IN: IANNI, Octavio. A era do
                                 globalismo. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1996.

                                 KURZ, R. Os ltimos combates. Petrpolis: Vozes, 1997.

                                 _________. O colapso da modernizao: da derrocada do socialismo de ca-
                                 serna  crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

                                 SANTOS, B. de S. Dilemas de nosso tempo: globalizao, multiculturalismo
                                 e conhecimento. Revista Educao e Realidade. n 26 (1) 13-32. jan/jul.,
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                              z Sites
                                 www.forumsocial.org.br




186 Trabalho, Produo e Classes Sociais
               Sociologia



ANOTAES




            Globalizao 187
         Ensino Mdio




              I
              n                                  esde que homens e mulheres passaram a viver em gru-
                                                  pos e a trabalhar coletivamente, vrias formas de orga-
                                                  nizao social foram se configurando, sendo que uma
                                                  das mais recentes e que permanece at hoje em vrias


              t                                 sociedades, chama-se Estado.
                                      Mas, por que isso aconteceu? Se retornarmos aos filsofos que re-
                                  alizaram as primeiras anlises acerca do Estado, iremos perceber que
                                  esses chegaram a algumas concluses, mas principalmente a uma, que


              r                   fala da necessidade que os homens tm, como um todo, quando vivem
                                  em sociedade, de estar sob a responsabilidade de uma instncia orde-
                                  nadora, que lhes d o direcionamento de determinadas decises, quer
                                  dizer, o que aponta a dificuldade dos homens e mulheres em viverem


              o                   coletivamente em "estado de natureza".
                                      Assim, o Estado se consolidou como uma instituio que no decor-
                                  rer do desenvolvimento das sociedades, apresentou caractersticas as
                                  mais distintas, que foram desde o poder de um nico homem, at o


              d                   Estado que buscava representar a coletividade.
                                      A partir do incio do desenvolvimento do capitalismo, temos a for-
                                  mao dos Estados Nacionais Modernos, os quais so caracterizados por
                                  mecanismos polticos que facilitam o governo de determinado grupo so-


              u                   bre determinado territrio. Esses mecanismos baseiam-se em sistemas
                                  de leis e regras sociais, mas principalmente na capacidade do governo
                                  de usar a "fora" com a finalidade de implementar suas polticas.
                                       Essa capacidade de atingir objetivos (com o uso da fora), inclusi-


                                 ve diante de fortes resistncias, chama-se poder. O poder, para ser efe-
                                  tivado (bem -sucedido em seus objetivos) faz uso do que conhecemos
                                  como ideologia.
                                       A ideologia pode ser definida como o conjunto de idias ou como


                                 a "viso de mundo" de um grupo (ou classe social) que se impe, ou
                                  procura se impor sobre outro.




              o
188 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                            Sociologia




    Todos desejam estar bem, viver bem, enfim ser felizes!  isto que
ouvimos continuamente, principalmente dos meios de comunicao 
nos comerciais de TV, nas msicas, nos filmes, etc... Mas o que signifi-
ca esta "felicidade" propagada pela mdia? Significa consumir, ou seja,
ser proprietrio de um carro maravilhoso, do ltimo modelo de celu-
lar, freqentar lugares badalados da moda...
    As conseqncias desse tipo de raciocnio nos levam a uma busca
desenfreada por produtos e por um modelo de vida quase inatingvel!
Trata-se de uma corrida sem ponto de chegada, e na qual descobrimos
que esta "felicidade" que se compra, caber a apenas alguns. E como
ficam os milhes de seres humanos que morrem de fome e de epide-
mias, que nunca freqentaram uma escola, que vivem nas ruas ou na
beira das estradas? Qual o significado da felicidade para estas pessoas?
 muito provvel que seja um prato de comida.
    O que nos leva a desenvolver este pensamento individualista? A
acreditar que o sucesso e a felicidade dependem unicamente do es-
foro de cada um? A ignorar que vivemos numa sociedade na qual as
oportunidades no so colocadas igualitariamente...
    O primeiro "Folhas" aqui apresentado discute como a sociedade
capitalista vai sendo mantida mesmo com todos os problemas que ela
possui. A Sociologia novamente vai contribuir para demonstrar como
ocorrem as dinmicas dentro do capitalismo. Ela explica como a ide-
ologia vai disseminar um conjunto de normas e idias que vo repro-
duzindo as relaes que homens e mulheres estabelecem quando bus-
cam resolver suas necessidades de sobrevivncia.
    No segundo "Folhas" voc estudar o por qu e como o Estado foi
sendo organizado, algumas de suas formas e tipos de governo, bem
como o seu desenvolvimento em alguns pases. Ver, tambm como as
populaes, de acordo com algumas ideologias, foram se organizando
e mudaram os rumos dos governos de seus pases. Diante disso, fica o
desafio para podermos pensar o Brasil.




                                                                           Introduo 189
                                                                                            11

                                                                       IDEOLOGIA               <Katya Picano1




                                                                      oc j parou para refletir por que agi-
                                                                      mos desta ou daquela maneira, quan-
                                                                     do estamos na escola, no trabalho, nas
                                                                   festas familiares? Ou por que voc se
                                                                 veste deste ou daquele modo e por que
                                                              quer comprar um celular ou um tnis novos
                                                            que voc viu na televiso?




Colgio Estadual Professor Jos Guimares  Curitiba - PR
1
         Ensino Mdio

                                      As propagandas que aparecem na TV, nos jornais e nas revistas
                                  mostram imagens bonitas com a inteno de cativar o telespectador.
                                  Elas podem ser da seguinte forma: a imagem representa uma paisagem
                                  bonita, que pode ser uma praia, estrada de terra, deserto, cidade  e
                                  o automvel  dirigido por pessoas sorridentes e felizes, vivendo situ-
                                  aes surpreendentes. Ou ainda em um ambiente animado, cheio de
                                  jovens, sorridentes, danando, todos com um celular sofisticado com
                                  novas funes. E assim elas encantam as pessoas, pois as propagandas
                                  tm a tarefa de cativar para vender o produto e estimular um compor-
                                  tamento que  caracterstico da sociedade capitalista: o consumismo.
                                  Esse comportamento aparece como mximo que todos  jovens, adul-
                                  tos, idosos, crianas e adolescentes devem seguir ao criar necessidades
                                  que esto alm daquelas que so bsicas  comer, ter acesso  gua po-
                                  tvel, moradia segura, educao, lazer, sade e transporte.
                                      Assim, as propagandas, os programas televisivos, os filmes e as no-
                                  velas passam a idia de que com a posse de objetos  celulares, t-
                                  nis, roupas, mochilas, bons, chaveiros, cosmticos, acessrios, eletro-
                                  domsticos  todos tero uma satisfao imediata e universal. Como
                                  se o fato de consumir fosse suficiente para garantia de uma vida ple-
                                  na e feliz.
                                      Para compreender melhor, observe o quanto existe de consumismo
                                  na sua ao e da sua famlia, realizando o exerccio abaixo.


                        PESQUISA

            Faa uma lista de objetos consumidos por voc e sua famlia durante um ms separando aquilo que
       necessrio para voc daquilo que  considerado suprfluo. Depois, observe se o que est na lista do
      que  necessrio  realmente essencial, pois consideramos bsico dentro deste texto aquilo que garan-
      te a nossa existncia: comida, gua, moradia, lazer, sade, transporte e conhecimento. Compare e re-
      flita na seguinte ordem:
                         consumo necessrio > consumo suprfluo > consumo bsico.
          Este  o ponto de partida neste texto, para entender a ideologia em uma de suas formas aparentes
       o consumo  que vai moldando o comportamento das pessoas dando  ao humana uma direo
      que tem como objetivo a posse dos objetos. Observe ainda que nas propagandas essa posse aparece
      como se estivesse ao alcance de todas as pessoas. Como vivemos na sociedade capitalista, sabemos
      que ela  uma sociedade desigual  dividida em classes sociais  e que essa desigualdade marca qual-
      quer acesso  propriedade de objetos particulares como a propriedade dos meios sociais de produo.
      Mas, nas propagandas h uma inverso dessa realidade. Vamos refletir sobre essas questes buscan-
      do no pensamento terico da Sociologia um apoio para desvendarmos a ideologia camuflada.




192 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                                               Sociologia



                ATIVIDADE

    Leia os trechos das msicas e indique qual  a crtica ao consumismo que est na mensagem de
 cada uma delas:

                                                                       Televiso
                                                                          Tits
                                                              A televiso me deixou burro,
             Gerao Coca- cola
                                                                   muito burro demais
                Legio Urbana
                                                    Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais
     Quando nascemos fomos programados
                                                              O sorvete me deixou gripado
      A receber o que vocs nos empurram
                                                                   pelo resto da vida
       Com enlatados dos USA, de 9 s 6.
                                                             E agora toda noite quando deito
                                                                    boa noite querida
       Desde pequenos ns comemos lixo
              Comercial e industrial
                                                                   cride, fala pra me
         Mas agora chegou a nossa vez
                                                              Que eu nunca li num livro que
 Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocs...
                                                                       um espirro
                                                                fosse um vrus sem cura
                                                             V se me entende pelo menos
                                                                    uma vez, criatura!



z A ideologia e a dominao capitalista
    O pensador alemo Karl Marx (1818-1883) afirmou que a ideolo-
gia dominante ser aquela advinda da classe que domina a socieda-
de, ela representar, ento, as idias, a forma de pensar e explicar o
mundo provenientes desta mesma classe. Essas afirmaes encontra-
mos na obra A Ideologia Alem escrita em 1845-1846, "As idias (...) da
classe dominante so, em cada poca, as idias dominantes; isto , a
classe que  a fora material dominante da sociedade , ao mesmo
tempo, sua fora espiritual dominante" (MARX, 1996: 72). E essas idias pos-
suem a caracterstica de aparecerem para todos como universais e ra-
cionais "(...) cada nova classe que toma o lugar da que dominava an-
tes dela  obrigada, para alcanar os fins a que se prope, a apresentar
seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros
da sociedade, isto , para expressar isso mesmo em termos ideais: 
obrigada a emprestar s suas idias a forma de universalidade, a apre-
sent-las como sendo as nicas racionais, as nicas universalmente v-
lidas" (MARX, 1996: 74).

                                                                                               Ideologia 193
         Ensino Mdio




                                  < Andy Warhol. 210 coca-cola bottles, 1962, o/c 82,5 x 105". Private Collection  NY.

                                      Para Marx, na sociedade capitalista a produo de objetos  a ati-
                                  vidade essencial, pois  com ela que a diviso em classes e a explora-
                                  o do trabalho ocorrem. Essa diviso impulsiona a classe dominante
                                  em manter o controle sobre o conjunto da sociedade. Na anlise que
                                  Marx realiza sobre o capitalismo, que encontramos na obra O Capital,
                                  de 1867, h uma crtica  forma como essas relaes entre patres e
                                  empregados vo ocorrendo na sociedade.
                                      Quando compramos alguma coisa no nos importamos em saber
                                  em quais condies de trabalho e com qual salrio aquele objeto foi
                                  produzido. Por exemplo, se voc est com frio e tem que comprar uma
                                  blusa, vai se preocupar com a utilidade que ela ter para voc. No
                                  se preocupar com as condies de trabalho dos operrios da inds-
                                  tria txtil.
                                      A propaganda ir atuar sobre voc e o consumo ocorrer via esta
                                  ao misteriosa e mgica que revela somente a utilidade do produto.
                                      Isso ocorre com qualquer objeto produzido no capitalismo, pois to-
                                  dos eles podem ser igualados. Veja: se as horas gastas para produzir a
                                  sua blusa forem igualadas s horas para produzir um CD, eles vo ter o
                                  mesmo preo.  por isto que muitas vezes um CD custa o mesmo que
                                  uma lata de ervilha. Quanto menos tempo leva, dentro da jornada, pa-
                                  ra produzir um objeto, mais lucro tem o capitalista, que com uma de-
                                  terminada produo paga os gastos que tem com o trabalhador. Essa
                                  igualdade de horas trabalhadas vai equiparar as mercadorias e na hora
                                  do consumo s vai importar o preo das coisas. Este  o carter mgi-
                                  co cheio de "argcias teolgicas" que Marx est indicando no seu tex-
                                  to que vamos citar a seguir:



194 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                                                    Sociologia

      "A primeira vista, a mercadoria parece ser coisa trivial, imediatamente
compreensvel. Analisando-a, v-se que ela  algo muito estranho, cheio de
sutilezas metafsicas e argcias teolgicas. Como valor de uso, nada h de
misterioso nela, quer a observemos sob o aspecto que se destina a satisfazer
necessidades humanas, com suas propriedades, quer sob o ngulo de que
s adquire essas propriedades em conseqncia do trabalho humano.  evi-
dente que o ser humano, por sua atividade, modifica do modo que lhe  utl
a forma dos elementos naturais. (...) A mercadoria  misteriosa simplesmente
por encobrir as caractersiticas sociais do prprio trabalho dos homens, apre-
sentando-as como caracterstica materiais e propriedades sociais inerentes
aos produtos do trabalho". (MARX, K., 1994: 82).

    Nesta obra, O Capital, Marx, demonstra o Valor de todo e qualquer
objeto que no capitalismo possui a forma de Mercadoria. Estes obje-
tos vo possuir uma utilidade, que est localizada no consumo, e algo
mais que est localizado na hora que a blusa, no caso do exemplo, for
produzida. Analisar e desvendar o processo produtivo e a organizao
da sociedade foi a sua inteno.
    Ao consumirmos somos influenciados pela necessidade e utilidade
 bsica ou suprflua  que temos de possuir determinado objeto. Em
geral, no nos preocupamos em compreender o que ocorre com a re-
alidade do trabalhador e seu modo de vida. Assim, o valor de uso, a
utilidade possui uma fora ao despertar a nossa ateno para o con-
sumo.
    Ento a Mercadoria possui um VALOR DE USO que  a utilidade do
produto, o que nos leva a consumi-lo para suprir essa necessidade.
    J o que Marx chamou de VALOR  o processo de fabricao des-
te objeto (no caso do exemplo, a blusa), que tem um lugar determi-
nado, na fbrica, quando durante a jornada de trabalho, ocorre o pro-
cesso de explorao do trabalho no capitalismo. Vejamos, no exemplo
a seguir:
      Quando um(a) trabalhador(a)  contratado por uma determina-
                                                                                   Mais-valia: So as ho-
da jornada de trabalho de 8 horas dirias, estamos considerando, que
                                                                                 ras dentro da jornada de
dentro desta jornada, existem trs momentos:
                                                                                 trabalho  a de 8 horas do
1. Uma primeira parcela em que com duas horas de atividade em que                exemplo acima  em que a
    este trabalhador(a) executou a sua funo, ele paga o seu salrio.           produo executada se re-
2. Uma outra parcela, de duas horas em que a sua atividade paga os               verte para o capitalista na for-
    custos da produo  matrias-prima, impostos, transporte do produ-          ma de lucro. Ela pode ser re-
    to, a compra de novas mquinas.                                              lativa  quando estas horas
                                                                                 aumentam de acordo com o
3. Uma terceira parcela de quatro horas em que este trabalhador con-
                                                                                 desenvolvimento do proces-
    tinua produzindo e estes produtos so o lucro ou um valor a mais             so de automao; e pode ser
     MAIS-VALIA  que o proprietrio da fbrica vai se apropriar.               absoluta: quando as horas
    Esse processo configura o que Marx chamou de essncia da socie-              de trabalho excedem a jor-
dade, quando ocorre a produo de objetos, pois  neste momento                  nada.


                                                                                                   Ideologia 195
         Ensino Mdio

                                  que o trabalhador vai reproduzindo a sociedade ao aceitar as disposi-
                                  es legais do seu contrato de trabalho e se submete  jornada nele es-
                                  tipulada. Em outros momentos tambm ocorrem determinaes sobre
                                  os indivduos quando vo estabelecendo uma ao de conformidade
                                  frente  "dureza" que  o cotidiano da busca do emprego, de pagar as
                                  contas, de ser atendido pelo mdico, de poder ir ao cinema, enfim, re-
                                  solver as necessidades materiais  ter acesso  comida,  gua potvel, a
                                  um abrigo seguro, ao conhecimento, e as necessidades subjetivas - sen-
                                  timentos, desejos, questionamentos, aspiraes.
                                      E na hora em que vive este cotidiano, ele vai sendo sugado pela
                                  necessidade de garantir que as metas estabelecidas, no emprego sejam
                                  cumpridas: prazos, cotas, produtividade que esto na fbrica, na loja,
                                  no banco, na grfica, no trabalho do cobrador e do motorista de ni-
                                  bus. No campo a realidade no  diferente, h a exigncia de melhor
                                  rentabilidade na colheita de tantos alqueires no dia, nas exigncias de
                                  colher tantas toneladas de cana no dia, enfim. Prazos so estabeleci-
                                  dos e para garanti-los ns no pensamos muito, vamos fazendo, exe-
                                  cutando e obedecendo, sem questionar.



                                  z A ideologia e a normatizao do cotidiano
                                     Continuando a anlise sobre a relao da ideologia com o cotidia-
                                  no, e considerando a reproduo e manuteno da sociedade como
                                  um processo social, apresentamos o pensamento da filsofa Marilena
                                  Chau sobre esta questo:

                                       "Como sabemos, a ideologia no  apenas a representao imaginria
                                   do real para servir ao exerccio da dominao em uma sociedade fundada
                                   na luta de classes, como no  apenas a inverso imaginria do processo
                                   histrico na qual as idias ocupariam o lugar dos agentes histricos reais.
                                   A ideologia, forma especfica do imaginrio social moderno,  a maneira ne-
                                   cessria pela qual os agentes sociais representam para si mesmos o apa-
                                   recer social, econmico e poltico, de tal sorte que essa aparncia (que no
                                   devemos simplesmente tomar como sinnimo de iluso ou falsidade), por
                                   ser o modo imediato e abstrato de manifestao do processo histrico, 
                                   o ocultamento ou a dissimulao do real. Fundamentalmente, a ideologia 
                                   um corpo sistemtico de representaes e de normas que nos "ensina" a
                                   conhecer e a agir". (CHAU, 1997: 3-4).

                                     Portanto, as nossas escolhas esto ligadas  ideologia que de acor-
                                  do com os interesses daqueles que dominam a sociedade, vai organi-
                                  zando o mundo  nossa volta.
                                     Ao observar cenas na televiso que mostram as pessoas andando
                                  na rua indo para o trabalho em nibus lotados, em caminhes prec-


196 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                                               Sociologia

rios, as filas e os grupos que se formam  volta de uma oferta de em-
prego ou de vagas na colheita de algum produto, voc j parou pa-
ra pensar porque isto ocorre? O que faz com que as pessoas todos os
dias, realizem esta busca cotidiana, incessantemente? Por que as pesso-
as vo repetindo estas aes cotidianas? H um conformismo nesta re-
petio? O que pensar sobre isto nos indica?




< Foto: Icone Audiovisual

    Voltando ao ponto de partida do conceito vamos observar que ao
reafirmarmos a necessidade de fazermos "aquilo que se espera de ns"
vamos reproduzindo a sociedade. Esta reproduo est justamente no
que foi descrito acima quando as pessoas aceitam a situao sem ques-
tion-la. Mas, a responsabilidade deste conformismo no est nas pes-
soas isoladamente, nos indivduos. Est nas idias contidas na ideolo-
gia, que ao serem disseminadas na sociedade vo garantindo que a
aceitemos nos moldes em que ela est organizada. Fazemos isto por-
que recebemos um conjunto de informaes que vo atuar sobre a
nossa forma de pensar sobre o mundo, as pessoas e as coisas. Faa a
tarefa a seguir e analise sobre o papel da ideologia e a ao dos se-
res humanos.



                            ATIVIDADE

      Descreva uma situao ou uma cena (em que) voc se conformou com as limitaes impostas  no
  trabalho, na escola ou, na famlia ou na comunidade  e uma outra situao em que voc no se con-
  formou e quebrou as "regras". Reflita sobre isso, concluindo sobre o que  mais fcil:  conformar ou
  se rebelar? Por qu?




                                                                                              Ideologia 197
         Ensino Mdio

                                     Aps as concluses da proposta de trabalho acima leia novamente
                                  o que escreveu Marilena Chau sobre a fora da ideologia sobre as pes-
                                  soas, tendo em vista a presso que ela exerce sobre o cotidiano:


                                        "A sistematicidade e a coerncia ideolgicas nascem de uma determi-
                                   nao muito precisa: o discurso ideolgico  aquele que pretende coincidir
                                   com as coisas, anular a diferena entre o pensar, o dizer e o ser e, destarte,
                                   engendrar uma lgica da identificao que unifique pensamento, linguagem
                                   e realidade para, atravs dessa lgica, obter a identificao de todos os su-
                                   jeitos sociais com uma imagem particular universalizada, isto , a imagem
                                   da classe dominante. Universalizando o particular pelo apagamento das di-
                                   ferenas e contradies, a ideologia ganha coerncia e fora porque  um
                                   discurso lacunar que no pode ser preenchido. Em outras palavras, a co-
                                   erncia ideolgica no  obtida malgrado as lacunas, mas, pelo contrrio,
                                   graas a elas. Porque jamais poder dizer tudo at o fim, a ideologia  aque-
                                   le discurso no qual os termos ausentes garantem a suposta veracidade da-
                                   quilo que est explicitamente afirmado". (CHAU, 1997: 3-4).


                                       Essas idias universalizantes so dbias e passam a concepo,
                                  por exemplo, de que todos esto em condies iguais de competir,
                                  o que  garantido pela Constituio Federal de 1988, mas ao mesmo
                                  tempo demonstra que entre estes existem os mais "capazes" que vo
                                  ter acesso ao emprego, a vaga na universidade, a ser campeo na gin-
                                  cana da escola. Esse pensamento, ao dar primazia ao vencedor, cria
                                  um preconceito, pois desconsidera aqueles que ficaram em segundo
                                  lugar, em terceiro, em quarto, em ltimo como se essas pessoas no
                                  merecessem respeito. No percebemos esta dubiedade quando in-
                                  centivamos e assistimos s competies entre as pessoas, entenden-
                                  do que o resultado que elas apresentam  a verdade absoluta.
                                        E esta verdade passa a ser uma idia universal de que os primei-
                                  ros so os mais capazes, o que incentiva um comportamento compe-
                                  titivo entre as pessoas. Ao fazer isso, a ideologia cria uma ao pre-
                                  conceituosa e individualista, pois muitos acham que  correto ser
                                  assim, pois "eu fui o melhor". Nada mais ilusrio, j que h desigual-
                                  dades materiais (de classe) e de outros tipos tambm, como as de
                                  gnero e etnia, que esto fora das "escolhas" dos indivduos, e que
                                  acabam tornando desiguais tambm, as oportunidades sociais das
                                  pessoas.
                                       O individualismo  uma ideologia que surge com o pensamento
                                  liberal do sculo XVII, que tem John Locke como principal represen-
                                  tante. Essa concepo, naquela poca, guindava o ser humano a uma
                                  esfera de atuao que lhe era negada na Sociedade Feudal (sculo V
                                  a XV), com a dominao da nobreza. Com a ascenso da burguesia
                                  (sculo XVIII) e o seu controle do Estado e a disseminao e norma-


198 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                           Sociologia

tizao das suas idias na sociedade, a concepo de Indivduo como
aquele capaz de agir, deixa de ser inovadora passa a cristalizar no nos-
so cotidiano, via os meios de comunicao, a idia de que o melhor,
 o mais capaz e  aquele que deve ter acesso aos bens e sevios da
sociedade. Isso significa desenvolver um individualismo, que nos s-
culos que se seguiram (XVIII ao XXI) aumentou com o consumo, pois
somente alguns podem consumir mais que os outros.
    Muitas pessoas acham que isto est correto pois foi ele quem ven-
ceu  a disputa pelo emprego, pela promoo, pela vaga na faculda-
de. Vencer em uma sociedade de desiguais significa reproduo da so-
ciedade, pois se algum venceu outros ficaram de fora. E se ficaram de
fora, permanece a desigualdade. Questionar essa realidade  importan-
te para percebermos como veremos adiante, neste texto, a quebra dos
padres individualistas e conformistas vigentes.
    Primeiro precisamos entender o processo de internalizao que im-
pulsiona a ao cotidiana de ir ao trabalho,  escola, ao mdico, aos
compromissos sociais, para depois entendermos o processo de rompi-
mento com a ideologia.


z O processo de internalizao
  e a condio humana
    Sabemos que se faltarmos na escola, no trabalho, na consulta m-
dica vamos sofrer uma punio. Se no cumprirmos as regras de or-
ganizao da sociedade, a mesma vai atuando sobre ns na forma de
advertncias, desemprego, perda da vaga, no caso das situaes indi-
cadas acima. E existem outras situaes, como chegar atrasado na pro-
va de um concurso e no podermos entrar mesmo que a responsabili-
dade sobre o atraso no seja nossa. Ou melhor, imagine que voc est
observando o pr-do-sol e pensando sobre como esta cena  bonita;
ou pensando na sua vida  familiares, amigos, namorados e namoradas,
emprego, escola, futebol... enfim, tudo que diz respeito a voc. O que
isso tem haver com a dominao e a reproduo na sociedade?
    O seu pensamento no ocorreu sem voc estar ligado  sociedade
em que vive. Voc no comeou a pensar naquele momento, pois tudo
que voc sentiu no surgiu de repente. Voc o trouxe consigo, pois rea-
lizou a experincia de ser punido pelos cdigos de conduta, e aprendeu
ao longo de sua vida o que significa ser punido de alguma forma.
    Assim, voc sabe quando est na hora de ir para o emprego, pois
se no for vai ser no mnimo repreendido, podendo at ser demitido.
Assim voc se levanta e deixa de ver o nascer do Sol e vai para a em-
presa, o banco, a loja, o mercado, a colheita, o armazm, o escritrio
da cooperativa.


                                                                           Ideologia 199
         Ensino Mdio

                                      Voc j ouviu falar da trilogia do filme Matrix? Nessa trilogia, segun-
                                  do o enredo, as pessoas vivem em um mundo que a mquina criou.
                                  Tudo que o ser humano  e deseja est nesta histria, ligado a esta do-
                                  minao. Alguns personagens se revoltam contra esta situao e se or-
                                  ganizam para romper com ela. A frase a seguir est no primeiro filme
                                  da trilogia: "Voc vivia em um mundo de sonhos, Neo". Ela, dentro da
                                  histria  o momento em que  demonstrado a um dos personagens, o
                                  Neo, que o mundo em que ele vivia era criado pela mquina.
                                      J observou tambm, na televiso, as propagandas de carros que
                                  mostram todos felizes, vivendo aventuras, satisfeitos e realizados com
                                  a posse do automvel? Ou ainda as propaganda de celulares (voc tm
                                  um?) em que a satisfao se realiza tendo em vista a posse de um ce-
                                  lular mais e mais sofisticado?
                                       como se vivessemos um outro mundo controlado por outras pes-
                                  soas e objetos, e que vamos aceitando como se ele fosse normal e uni-
                                  versal.




                        ATIVIDADE

           Assistir ao filme Matrix e fazer um paralelo entre a situao colocada pelo filme e pelas propagan-
       das, assinalando sua concluso. Elabore um texto em que voc apresente as suas consideraes so-
       bre o tema a partir do seguinte roteiro: a) descrio daquilo que assistiu; b) relacionar o filme com a pro-
       paganda; c) relacion-los com a realidade; d) dar a sua opinio no final do texto comparando todos os
       outros itens com o seu cotidiano.

                                      Considerando que ideologia  este processo de identificao e
                                  aceitao de um comportamento universalizado e ao mesmo tempo
                                  individualizado voc j pensou como  que de fato ela atua organi-
                                  zando a vida cotidiana. Afinal, somos ou no somos livres para orga-
                                  niz-la de acordo com a nossa vontade? Essa discusso envolve uma
                                  reflexo muito interessante que  realizada dentro da Filosofia e que
                                  diz respeito ao que os filsofos chamam de CONDIO HUMANA.
                                  Veja no texto ao lado o que o filsofo Jean-Paul Sartre (1905  1980)
                                  escreveu sobre a condio humana afirmando que na sua configura-
                                  o no existe natureza  condies naturais que no podem ser mu-
                                  dadas, por exemplo, mesmo com toda a modificao tecnolgica so-
                                  bre uma macieira, mudando o sabor, a casca, as sementes a macieira
                                  sempre vai dar ma)  e sim ao histrica  ao humana que mo-
                                  difica continuadamente a realidade (desde a sua ao de acordar e ir




200 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                                              Sociologia

todos os dias para escola ou para o trabalho at aes que envolvem          "Alm disso, se  impossvel
conflitos sociais), e que portanto a indagao sobre o que somos passa     achar em cada homem uma
por entender que se somos histricos devemos compreender as con-           essncia universal que seria a
tradies ou os problemas que os seres humanos vivem ao longo da           natureza humana, existe con-
histria da humanidade.                                                    tudo uma universalidade hu-
    Sendo assim, as pessoas no so conformistas porque querem livre-      mana de condio. No  por
                                                                           acaso que os pensadores de
mente, mas porque a existncia de um complexo que atua sobre elas
                                                                           hoje falam mais facilmente de
vai conformando as suas aes e idias. Este complexo, que  a ide-
                                                                           condio do homem que da
ologia vai conservar o grupo que controla as decises, como a classe       sua natureza. Por condio
que domina a sociedade. Assim, h uma dominao ideolgica, que se         entendem mais ou menos
desenvolve com a inteno de reproduzir a sociedade e fazer com que        distintamente o conjunto de
as regras e o lugar que cada um ocupa  os que dominam e os domi-          limites a priori que esboam a
nados  continue o mesmo, ou que as mudanas ocorram dentro do             sua situao fundamental no
controle daqueles que tm interesse em manter tudo como est.              universo. As situaes hist-
                                                                           ricas variam: o homem pode
                                                                           nascer escravo numa socie-
z A dominao ideolgica                                                   dade pag ou senhor feudal
                                                                           ou proletrio. Mas o que no
  e o interesse do indivduo                                               varia  a necessidade para
                                                                           ele de estar no mundo, de lu-
    Mas este processo ideolgico que atinge a todos os indivduos,         tar, de viver com outros e ser
transformando a nossa maneira de entender e pensar e, portanto agir,       mortal (....) E embora os pro-
no  somente um processo de dominao.  possvel encontrar no            jetos possam ser diversos,
nosso dia-a-dia, manifestaes de ruptura desta ideologia. Vejamos co-     pelo menos nenhum me  in-
                                                                           teiramente estranho (...)" (Sar-
mo isso poderia ocorrer:
                                                                           tre, 1978:16).
    Imagine que voc e seus amigos resolveram reivindicar mais luz e
infra-estrutura de lazer no seu bairro. Vocs vo ter que se organizar,
fazer abaixo assinado, entrar em contato com a prefeitura, exigir a pre-
sena dos vereadores. Mas, o terreno que vocs esto pensando em
utilizar para construir uma praa com bancos, quadra, iluminao, pal-
co para apresentaes, um galpo para reunies  alvo de interesse de
uma construtora e de imobilirias. Existem outros terrenos, mas para
vocs este  o melhor porque est localizado ao lado de um bosque
de mata nativa. E  por isso que a construtora est tambm interessa-
da. Vai construir um condomnio de luxo na regio. Vejam s a dispu-
ta que vai ser para convencer a prefeitura que o terreno deve ser des-
tinado para o lazer do bairro. Assim como vocs, a construtora vai se
organizar.
    De um lado vocs e seus amigos e do outro a construtora. No meio
est o poder pblico, representado pela prefeitura. Ser uma boa bri-
ga, se vocs de fato tivessem interesse e disposio para organizar es-
ta luta. Ento, no so somente os interesses daqueles que detm o ca-




                                                                                             Ideologia 201
         Ensino Mdio

                                                   pital e o controle das decises que vo se organizar e
                                                      se manifestar. Aqueles que no so proprietrios do
                                                      capital, mas da sua fora de trabalho  energia e co-
                                                      nhecimento, tambm vo ter os seus interesses ex-
                                                      pressos nos embates dentro da sociedade. No es-
                                                      quea que capital  a riqueza  fbricas, mquinas,
                                                      matria-prima, prdios, aes  que  propriedade
                                                                do capitalista que deve ser constantemen-
                                                                                    te investida para gerar
                                                                                    mais capital.
                                                                                        Entenda e fique
                                                                                    atento para a questo
                                                                                    a seguir, que na socie-
                                                                                    dade capitalista, o po-
                                                                                   der pblico est a ser-
                                                                                 vio da classe dominante,
                                                                               via seus representantes nos
                                                                             governos. O governo de um
                                                                          municpio  realizado por pes-
                                                                        soas que possuem identificaes
                                                                      polticas com as mais diferentes pro-
                                                                    postas sobre como administrar e go-
                                                                  vernar uma cidade. Isso ocorre porque
                                  nesta sociedade no existe neutralidade nas aes que as pessoas de-
                                  senvolvem, pois como a ao humana  uma ao histrica e poltica,
                                  ela sempre vai representar os interesses das classes sociais, das mais
                                  variadas formas, em meio aos confrontos entre a ideologia dominante
                                  e os interesses dos dominados.
                                      Assim, estes interesses  dos dominados  expressam-se das mais
                                  variadas formas, sejam organizados nos sindicatos, nos partidos polti-
                                  cos ligados s lutas democrticas e dos trabalhadores, sejam nos mo-
                                  vimentos sociais  feministas, negros, tnicos, estudantil, ecolgicos,
                                  do campo e da cidade, pelo direito ao emprego,  terra, por moradia
                                  e por infra-estrutura bsica.
                                      Por exemplo, voc j deve ter ouvido falar em greve! Este  um di-
                                  reito, que no Brasil  assegurado por lei a partir de 1988 com a pro-
                                  mulgao da Constituio. Esse direito  exercido pelos trabalhadores
                                  organizados nos seus sindicatos, nos momentos em que precisam pres-
                                  sionar mais os seus empregadores  no meio rural e urbano, no setor
                                  de servios ou produtivo, no setor pblico ou no privado, no Brasil e
                                  em muitos lugares do mundo.
                                      Quando exercem este direito esto defendendo os seus interesses
                                  por melhores salrios e melhores condies de trabalho. Esses interes-




202 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                                                Sociologia

ses so diferentes dos seus empregadores, que no capitalismo, buscam
economizar com o trabalho e aumentar o capital. Esse modo de con-
frontao ao ser exercida pelos trabalhadores na forma de greve faz
com que os seus interesses se contraponham aos dos empregadores.
    Como vimos acima, aqueles que dominam a sociedade querem que
sejamos conformistas, que aceitemos as regras que a ideologia disse-
mina na sociedade. Com a greve ou outra forma de contestao  ma-
nifestaes, passeatas, operaes para diminuir o ritmo do trabalho,
faltas coletivas, denncias na imprensa e no ministrio pblico  os tra-
balhadores abrem brechas na ideologia dominante, possibilitando que
outra forma de pensar e agir no cotidiano possa se desenvolver, o que
pode possibilitar que um questionamento sobre a organizao da so-
ciedade ocorra.
    Este desenvolvimento enfrentar a dominao ideolgica pela ao
da classe dominante, que ao utilizar todos os meios de comunicao, o
aparato militar e disseminao de idias, vai reforar a ideologia pre-
dominante de que as pessoas "so baderneiras, gostam de confuso e
querem prejudicar o pas".




                 PESQUISA

 1. Entrevistar duas pessoas que tenham participado de alguma greve, fazendo as seguintes pergun-
    tas:
     a) Foi fcil tomar a deciso de entrar em greve?
     b) Havia organizao anterior  sindicato, Comisso Interna de Preveno de Acidentes (CIPA), co-
        misso sindical, de negociao e/ou outras ou ela comeou com a necessidade de realizar a
        greve?
     c) Quais eram as reivindicaes?
     d) O que propunha o patro?
     e) Qual foi o resultado?
     f)   Se a organizao para a greve continua ou se o sentimento de solidariedade e/ou amizade en-
          tre os trabalhadores se desenvolveu e se ele permaneceu com o fim da greve.
 2. Observar:
     a) Se as reivindicaes dos trabalhadores tm objetivos diferentes da proposta patronal;
     b) A quem o resultado obtido favoreceu?
 3. Escrever um relatrio sobre as questes que foram analisadas com a entrevista e uma concluso a
    partir do item 2.




                                                                                                Ideologia 203
         Ensino Mdio

                                      Veja que deste modo muitas vezes essas lutas localizadas dentro da
                                  sociedade podem assumir um carter mais econmico, ou mais pol-
                                  tico ou cultural ou social, enfim, o que  importante  saber que es-
                                  sas lutas existem na medida em que as pessoas vo se deparando com
                                  contradies, isto  com problemas no resolvidos da humanidade. As-
                                  sim h um embate entre a ideologia dominante e os interesses dos do-
                                  minados.
                                      Se buscarmos na histria vamos encontrar muitos exemplos destas
                                  situaes como por exemplo:
                                  = A Revoluo Francesa (1789) e a Revoluo Russa (1917) so tam-
                                      bm momentos histricos diferentes, mas que podem demonstrar
                                      como os confrontos, de forma diferenciada pelo momento histri-
                                      co em que ocorreram, so elementos importantes para que possa-
                                      mos entender este conflito entre a classe que domina a sociedade
                                      e a classe dominada.
                                  = Os movimentos hippie, feminista e pelos direitos civis nos EUA,
                                      nos anos 1960 so exemplos de lutas que realizam reivindicaes
                                      alm das questes entre o trabalho e o capital  como liberdade de
                                      expresso e de manifestao cultural, contra o machismo, o autori-
                                      tarismo patriarcal e contra o preconceito tnico.
                                  = Em fins dos anos 70 e incio dos anos 80, no Brasil, houve um cres-
                                      cimento da luta sindical. Esta atingiu o patamar de luta poltica ao
                                      contribuir para o movimento democrtico pelo fim da Ditadura Mi-
                                      litar (1964-1984).

                        PESQUISA

        Pesquisa: A Ideologia pode ter outros sentidos alm do que foi apresentado neste Folhas. Ela pode,
     por exemplo, referir-se a constituio de uma cincia que buscasse a gnese das idias, procurando
     desvendar como as mesmas foram sendo criadas e divulgadas na sociedade. (Destutt de Tracy).
         Ela ainda pode ser entendida como uma "viso de mundo" mais geral e hegemnica, que domina em
     certas conjunturas histricas por ser "coerente" com as demais estruturas sociais, o que poderia levar os
     indivduos a atuar-agir em determinadas direes. Ela: "organiza a ao pelo modo segundo o qual se
     materializa nas relaes, instituies e prticas sociais e informa todas as atividades individuais ou cole-
     tivas". (GRAMSCI, 1978, p.377).
         Em um outro sentido, ela pode ser entendida tambm como a forma de compreender o mundo que
     se baseia na aparncia imediata dos fatos analisados, sem perceber a condio histrica-social- cultural
     para produo dos mesmos. (Marx)
         Baseado no que foi rapidamente apresentado acima, voc deve ter percebido que, algumas vezes,
     os conceitos trabalhados na Sociologia, tm significados diferentes. Vamos testar isto? Escolha uma das
     possibilidades listadas acima e procure mais informaes a seu respeito. Crie um pequeno texto onde
     voc ir comparar o conceito de Ideologia apresentado neste Folhas e o de sua pesquisa, apontando os
     elementos que eles tenham em comum e os que os diferencia. Bom trabalho!



204 Poder, Poltica e Ideologia
                                                                              Sociologia

z Referncias:
  ALTHUSSER, L. Aparelhos ideolgicos de Estado. Rio de Janeiro: Gra-
  al, 1985.
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  So Paulo: Hucitec, 1992.
  CHAU, M. O que  ideologia, So Paulo: Brasiliense, 1997.
  EAGLETON, T. Ideologia. So Paulo: Unesp, 1997.
  FORACHI, M.M. & MARTINS, J. de S. (Orgs) Sociologia e sociedade. Rio
  de Janeiro : LTC, 2004.
  FROMM, E. Conscincia e sociedade industrial, In. FORACHI, M.M. & MAR-
  TINS, J. de S. (Orgs.) Sociologia e sociedade. Rio de Janeiro: LTC, 2004.
  GRAMSCI, A. Concepo dialtica da histria. Rio de Janeiro: Civiliza-
  o Brasileira, 1986.
  ________________ Maquiavel, a poltica e o Estado moderno. Rio de
  Janeiro: Civilizao Brasileira, 1984.
  HARVEY, D. Condio ps-moderna. So Paulo: Loyola, 1999.
  HOBSBAWM, E. A era dos extremos. So Paulo: Companhia das Letras,
  1995.
  MARCUSE, H. A Ideologia da sociedade industrial: o homem unidi-
  mensional. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
  MARX, K. O Capital: crtica da economia poltica. So Paulo: Nova Cultu-
  ral, 1985.
  _________. O Manifesto comunista. URSS: Edies Progresso, 1987.
  _________. Manuscritos econmicos-filosficos. Lisboa: Edies 70, 1989.
  _________. A ideologia alem. So Paulo: Hucitec, 1996.
  MANNHEIN, K. Ideologia e utopia. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
  SARTRE, J-P. O existencialismo  um humanismo. So Paulo: Abril Cul-
  tural. 1978.
  ZIZEK, S. (org). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999.


z Filmes:
  Matrix (EUA ,1999, Diretores: Andy Wachowski, Larry Wachowski )
  Sarafina, o Som da Liberdade ( EUA, 1993, 116 min, direo: Darrel Roodt)
  Hair ( EUA, 1979, 120 minutos, direo: Milos Formam)
  A. Spartacus (EUA : 2004, 76 minutos, direo: Robert Dornhelm )
  B.Spartacus (EUA : 1960 183 minutos Direo: Stanley Kubrick)
  Viva Zapata! (EUA, 1952, direo: Elia Kazan)
  Danton (Frana / Polnia, 1982, 130 minutos, direo: Andrzej Wajda


                                                                              Ideologia 205
                                                                                      12

                                                          FORMAO DO
                                                       ESTADO MODERNO             <Salvina Maria Ferreira1




                                                                e os homens sempre procuraram ser li-
                                                               vres, por que organizaram um meio de se-
                                                               rem controlados?

                                                             Tal como ns, muitas pessoas tentaram
                                                           responder  questo acima e escreveram
                                                           verdadeiros tratados a partir de seus estu-
                                                           dos e anlises de sua sociedade e do mo-
                                                           mento histrico em que viviam. Acompa-
                                                          nhemos algumas dessas respostas!




Colgio Estadual Hasdrubal Bellegard  Curitiba - PR
1
         Ensino Mdio

                                      Comecemos por Nicolau Maquiavel (1469-1527) que viveu numa
                                  sociedade italiana corrompida, dividida, sujeita s invases externas.
                                  Ele nos diz que os homens buscam uma organizao de um poder ca-
                                  paz de colocar freios em seus maus sentimentos e em seus desejos
                                  mundanos. Assim sendo, o homem s tem um caminho: escolher uma
                                  forma de governo capaz de controlar a maldade humana.
                                      Afinal que tipo de governo seria esse? Segundo Maquiavel, somente
                                  um prncipe seria capaz de organizar os homens numa sociedade onde
                                  existisse o equilbrio, sem maus desejos, educada, virtuosa e com ins-
                                  tituies estveis. Quando chegasse a atingir esse tipo de sociedade, o
                                  prncipe no precisaria mais governar pois os homens chegariam a um
                                  ideal e poderiam mudar a forma de governo para a Repblica pois os
                                  homens seriam virtuosos e participariam ativamente.
                                      Para o filsofo Thomas Hobbes (1588-1679), o homem, em seu "es-
                                  tado de natureza", acaba provocando conflitos com os outros, pois
                                  vive competindo, desconfia de todos e vive buscando a glria. Es-
                                  sa situao levou os homens a buscarem uma maneira de evitar esse
                                  constante estado de guerra de todos contra todos.
                                      E qual foi a sada? A sada foi fazer um contrato que assegurasse a
                                  paz. Mas ser que s isso resolveu a questo? Segundo Hobbes, no,
                                  pois um papel assinado no garante a paz.  necessrio que os ho-
                                  mens submetam sua vontade  vontade de um s homem que os man-
                                  tenha em respeito e sob leis. E quem seria esse homem? Que tipo de
                                  organizao seria necessria? Esse homem seria um rei que exerceria o
                                  poder despoticamente e essa organizao seria o Estado absolutista.
                                      Mas o que  Estado absolutista e por que Hobbes nos d essa res-
                                  posta? Bem, na sociedade dele, a Inglaterra, havia muitos conflitos en-
                                  tre o poder real, absoluto, e o poder do Parlamento, que queria liber-
                                  dade poltica e econmica, e isso estava levando a muitas brigas. Alm
                                  do mais, o governo existe para que possamos viver em paz e o poder
                                  do governante tem que ser ilimitado. Portanto, segundo Hobbes, ou o
                                  poder  absoluto, centralizado e sem divises ou continuamos a viver
                                  na condio de guerra, de poderes que se enfrentam constantemente.
                                      J, para John Locke (1632-1704), a resposta  questo inicial : os
                                  homens concordaram, livremente, em organizar a sociedade com o
                                  objetivo de preservar e consolidar ainda mais os direitos que possu-
                                  am no "estado de natureza". Que direitos so esses? O direito  vida,
                                   liberdade e aos bens, que Locke simplesmente chama de proprieda-
                                  de. E como garantiriam isso? Por meio de um corpo de leis. A prxi-
                                  ma ao dos homens foi a de escolher a forma de governo a partir da
                                  deciso da maioria.
                                      Qual a forma de governo defendida por Locke? Aquela que for es-
                                  colhida pela maioria e que cumpra seu objetivo: conservar a proprie-
                                  dade. Se isso no for cumprido e ainda o governo usar da fora sem
                                  amparo legal, o povo tem o legtimo direito de resistncia  opresso
                                  e  tirania.
208 Poder, poltica e ideologia
                                                                                           Sociologia

    Por que Locke defende o poder legtimo da populao ir contra uma
forma de governo? Porque ele era contra o poder absoluto exercido em
sua sociedade, a inglesa. Essa  mais uma prova de que qualquer tipo de
governo, para ele, s  vlido se for do consentimento do povo.
    Vejamos mais uma resposta  nossa questo inicial. Ela nos  dada
por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) que, em seu livro O Contrato
Social, nos diz que os homens fizeram uma escolha entre serem infini-
tamente livres em seus impulsos, que podem aniquilar a "vida natural"
ou aceitarem as garantias de liberdade e de propriedade dadas pela
lei.  possvel, ento, ser livre mesmo a partir da criao de leis? No
 algo esquisito, pois as leis no nos limitam? Segundo Rousseau no,
porque somos parte ativa e passiva nesse processo. Como assim?  o
seguinte: ns elaboramos as leis e ao mesmo tempo as obedecemos, o
que mostra ser possvel a relao perfeita entre liberdade e a obedin-
cia. Obedecer  lei escrita por ns mesmos  um ato de liberdade.
    Para que a melhor escolha prevalecesse, foi necessrio que todos
fizessem uso da razo e da liberdade, a fim de institurem um contra-
to. Essa  a primeira condio que d legitimidade  vida poltica, uma
vez que todos estamos em p de igualdade. A partir da os homens fi-
zeram um contrato que inaugurou a organizao de um Estado. E qual
a forma de governo defendida por Rousseau? Diferentemente dos ou-
tros pensadores aqui apresentados, ele afirma que qualquer forma de
governo que se adote  secundria desde que ela esteja submetida ao
poder soberano do povo. O governo , ento, entendido como corpo
administrativo do Estado, sendo limitado pelo poder do povo.  nesse
sentido que, mesmo sob o regime monrquico, o poder do povo pode
ser soberano, se o monarca governar como funcionrio do povo.



                ATIVIDADE

     Diante dessas idias, nos cabem algumas questes. Responda-as:
 1. Pesquise o que significa "estado de natureza" para Hobbes e John Locke.  a mesma explicao de
    "vida natural" para Rousseau? Faa uma comparao entre os significados encontrados.
 2. Releia as idias de Maquiavel, Hobbes, John Locke e Rousseau. Depois diga com qual delas voc
    concorda e no concorda, bem como o porqu.
 3. Voc  convocado a responder a questo: "Por que o homem, querendo ser livre organiza um meio
    de ser controlado?" Como a responderia?



   E a problemtica continua, mesmo que tenhamos conseguido en-
tender um pouco os motivos da organizao do Estado. E qual seria,
ento a melhor forma de organizao desse Estado? Maquiavel defende
um governo centralizado na pessoa de um prncipe; Hobbes defende

                                                                       Formao do Estado Moderno 209
         Ensino Mdio

                                  a monarquia absolutista; John Locke diz que a melhor forma  aque-
                                  la escolhida pelo povo; j Rousseau defende que a melhor forma de
                                  governo  aquela em que, quem for escolhido para governar deve ser
                                  funcionrio do povo, que  soberano. Para entendermos melhor por
                                  que existem essas opes de tipos de governo, leia atentamente a his-
                                  tria que se segue.


                                               "Uma discusso clebre"
           "Uma histria das tipologias das formas de governo, como esta, pode ter incio na discusso refe-
      rida por Herdoto, na sua Histria (...) entre trs persas  Otanes, Megabises e Dario  sobre a melhor
      forma de governo a adotar no seu pas depois da morte de Cambises. O episdio, puramente imagin-
      rio, teria ocorrido na segunda metade do sculo VI antes de Cristo, mas o narrador, Herdoto, escreve
      no sculo seguinte. De qualquer forma, o que h de notvel  o grau de desenvolvimento que j tinha
      atingido o pensamento dos gregos sobre a poltica um sculo antes da grande sistematizao teri-
      ca de Plato e Aristteles (no sculo IV). A passagem  verdadeiramente exemplar porque, como vere-
      mos, cada uma das trs personagens defende uma das trs formas de governo que poderamos deno-
      minar de "clssicas" (...). Essas trs formas so: o governo de muitos, de poucos e de um s, ou seja,
      "democracia", "aristocracia" e "monarquia", embora naquela passagem no encontremos ainda todos
      os termos com que essas trs modalidades de governo foram consignadas  tradio que permane-
      ce viva at nossos dias.
          (...) Otanes props entregar o poder ao povo (...) argumentando assim: `Minha opinio  que ne-
      nhum de ns deve ser feito monarca, o que seria penoso e injusto. Vimos at que ponto chegou a pre-
      potncia de Cambises, e sofremos depois a dos magos. De qualquer forma poderia no ser irregular
      o governo monrquico se o monarca pode fazer o que quiser, se no  responsvel perante nenhuma
      instncia? Conferindo tal poder, a monarquia afasta do seu caminho normal at mesmo o melhor dos
      homens. A posse de grandes riquezas gera nele a prepotncia, e a inveja  desde o princpio parte de
      sua natureza. Com esses dois defeitos, alimentar todas as malvadezas: cometer de fato os atos mais
      reprovveis, em alguns casos devido  prepotncia, em outros  inveja. Poderia parecer razovel que o
      monarca e tirano fosse um homem despido de inveja, j que possui tudo. Na verdade, porm, do mo-
      do como trata os sditos demonstra bem o contrrio: tem inveja dos poucos bons que permanecem,
      compraz-se com os piores, est sempre atento s calnias. O que h de mais vergonhoso  que, se
      algum lhe faz homenagens com medida, cr no ter sido bastante venerado; se algum o venera em
      excesso, se enraivece por ter sido adulado. Direi agora, porm, o que  mais grave: o monarca subver-
      te a autoridade dos pais, viola as mulheres, mata os cidados ao sabor dos seus caprichos.
           O governo do povo, porm, merece o mais belo dos nomes, `isonomia'; no faz nada do que ca-
      racteriza o comportamento do monarca. Os cargos pblicos so distribudos pela sorte; os magistra-
      dos precisam prestar contas do exerccio do poder; todas as decises esto sujeitas ao voto popu-
      lar. Proponho, portanto, rejeitarmos a monarquia, elevando o povo ao poder: o grande nmero faz com
      que tudo seja possvel'.
         (...) Megabises, contudo, aconselhou a confiana no governo oligrquico: `Subscrevo o que disse
      Otanes em defesa da abolio da monarquia; quanto  distribuio do poder ao povo, contudo, seu
      conselho no  o mais sbio. A massa inepta  obtusa e prepotente; nisto nada se lhe compara. De ne-
      nhuma forma deve tolerar que, para escapar da prepotncia de um tirano, se caia sob a plebe desati-
      nada. Tudo o que faz, o tirano faz conscientemente; mas o povo no tem sequer a possibilidade de sa-


210 Poder, poltica e ideologia
                                                                                                Sociologia


ber o que faz. Como poderia sab-lo, se nunca aprendeu nada de bom e de til, se no conhece nada
disso, mas arrasta indistintamente tudo o que encontra no seu caminho? Que os que querem mal aos
persas adotem o partido democrtico; quanto a ns, entregaramos o poder a um grupo de homens
escolhidos dentre os melhores  e estaramos entre eles.  natural que as melhores decises sejam to-
madas pelos que so melhores'.
   (...) Em terceiro lugar, Dario manifestou sua opinio: `O que disse Megabises a respeito do governo
popular me parece justo, mas no o que disse sobre a oligarquia. Entre as trs formas de governo, to-
das elas consideradas no seu estado perfeito, isto , entre a melhor democracia, a melhor oligarquia e
a melhor monarquia, afirmo que a monarquia  superior a todas. Nada poderia parecer melhor do que
um s homem  o melhor de todos; com seu discernimento, governaria o povo de modo irrepreensvel;
como ningum mais, saberia manter seus objetivos polticos a salvo dos adversrios.
    Numa oligarquia,  fcil que nasam graves conflitos pessoais entre os que praticam a virtude pe-
lo bem pblico: todos querem ser o chefe, e fazer prevalecer sua opinio, chegando por isso a odiar-
se; de onde surgem as faces, e delas os delitos. Os delitos levam  monarquia, o que prova que es-
ta  a melhor forma de governo.
   Por outro lado, quando  o povo que governa,  impossvel no haver corrupo na esfera dos ne-
gcios pblicos, a qual no provoca inimizades, mas sim slidas alianas entre os malfeitores: os que
agem contra o bem comum fazem-no conspirando entre si.  o que acontece, at que algum assu-
me a defesa do poder e pe fim s suas tramas, tomando-lhes o lugar na admirao popular, admirado
mais do que eles, torna-se monarca. Por isso, tambm a monarquia  a melhor forma de governo.
    Em suma, para diz-lo em poucas palavras: de onde nos veio a liberdade? Quem a deu? O povo,
uma oligarquia, ou um monarca? Sustento que, liberados por obra de um s homem, devemos manter
o regime monrquico e, alm disso, conservar nossas boas instituies ptrias: no h nada melhor'."
                                                                                 < (BOBBIO, 1985. p.39-41).




               ATIVIDADE

  Vejamos: temos algumas respostas do porqu os homens organizaram a sociedade e o Estado. Va-
mos trabalhar um pouco respondendo s questes abaixo.
1. Os trs personagens da histria "Uma discusso clebre", Otanes, Megabises e Dario fazem, cada
   um, a defesa de uma das formas de governo e criticam outra. Faa um quadro que mostre qual 
   o tipo de governo defendido e criticado por cada um. Neste quadro anote os argumentos que eles
   utilizam.
2. Com mais trs colegas, elejam um tipo de governo para defende-
   rem e um outro para criticarem, isto , dizerem porque apiam
   um e no o outro. Depois montem um tribunal onde apresen-
   taro a defesa e as crticas desses tipos de governo. Escolham
   cinco colegas para serem os juizes que elaboraro o veredicto
   final de cada tipo de governo.



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         Ensino Mdio

                                      Tudo isso nos leva a pensarmos em nossas sociedades e em nossos
                                  tipos de governo. Por que temos, no Brasil e nos E.U.A., a Repblica
                                  presidencialista? Por que na Inglaterra e na Espanha h a Monarquia
                                  parlamentarista? Por que na Frana e na Itlia h o Parlamentarismo?
                                  Por que a experincia de alguns pases, como, por exemplo, a Frana
                                  e os E.U.A.,  tida como modelo para os demais?
                                      Para respondermos essas questes  necessria a pesquisa do pro-
                                  cesso histrico de cada pas a fim de entendermos as razes ou os mo-
                                  tivos de terem determinado certo tipo de governo. Vejamos a histria
                                  da Frana, mais exatamente o processo da Revoluo Francesa, como
                                  exerccio de anlise e compreenso.
                                      Essa Revoluo ocorreu em 1789 e desde ento  cantada em ver-
                                  so e prosa como modelo de revoluo democrtico-burguesa. Mas por
                                  qu?  considerada modelo porque pode e deve servir de exemplo;
                                  democrtico porque ao lanar as palavras de ordem  liberdade, igual-
                                  dade e fraternidade  procurou assegurar o respeito aos direitos de ca-
                                  da um; e burguesa porque, conforme mostrou a histria, ajudou e aju-
                                  da a deter propostas de mudanas mais efetivas.
                                      Mas precisamos nos perguntar sobre a organizao da sociedade
                                  francesa s vsperas da revoluo de 1789: Que tipo de sociedade era?
                                  Quem a governava? Como a governava? Quem inspirou os ideais revo-
                                  lucionrios? Os revolucionrios conseguiram atingir os objetivos pro-
                                  postos?
                                      Para comear, pode-se dizer que, apesar dos historiadores colo-
                                  carem como perodo final do feudalismo o sculo XVI, havia ainda,
                                  na Frana, alguns caracteres feudais que, teimosamente, insistiam em
                                  manter-se vivos por mais tempo. Isso est longe de significar, entretan-
                                  to, que o sistema feudal se mantivesse dominante at o sculo XVIII,
                                  pois, um capitalismo "agrrio" vinha sendo introduzido muito antes
                                  disso, a ponto de, no sculo XVIII, os tradicionais pagamentos aos se-
                                  nhores serem bastante modestos quando comparados com os arrenda-
                                         mentos capitalistas.
                                                 Politicamente, a sociedade francesa era governada pelos
                                                reis que mantinham o poder centralizado em suas mos a
                                                  ponto de Luis XV dizer ao Parlamento de Paris:

                                                    "Em minha pessoa reside o poder soberano. S a mim
                                                      pertence o poder legislativo, sem dependncia e sem
                                                      partilha. A ordem pblica emana de mim por inteiro, e os
                                                      direitos e interesses da nao esto unidos necessaria-
                                                      mente aos meus, e s repousam em minhas mos." (MI-
                                                      CELI,1987:52).




212 Poder, poltica e ideologia
                                                                                           Sociologia

    Veja voc! O que diferencia os antigos reis absolutistas dos ditado-
res de hoje no  a prepotncia deles, mas a capacidade de dizer cla-
ramente e em pblico, o que ia em suas cabeas!
    Luis XV ignorava ou talvez fingia no saber que a monarquia es-
tava desacreditada, que os poderes locais, simbolizados pelos antigos
senhores feudais, no aceitavam a centralizao da administrao, que
os intendentes de justia, de polcia e de finanas eram funcionrios
poderosos, pois em suas mos estava o controle das revoltas, do co-
mrcio, da agricultura e da indstria, alm de serem responsveis pe-
lo recrutamento de soldados para o exrcito e da cobrana de impos-
tos antecipados  Coroa.
    Alm desses problemas internos, a Frana estava falida pois dispu-
tava, com a Inglaterra, a ustria e a Prssia, por exemplo, territrios
coloniais. No fundo era uma briga pela diviso do mundo e do contro-
le poltico e econmico a partir de interesses exclusivos.
    Est dando para perceber como o tipo de governo implantado na
Frana vai construindo seu prprio fim? Ento continuemos! Vejamos
agora como a sociedade francesa estava organizada internamente. Va-
mos lembrar de uma perguntinha clssica que se faz quando estuda-
mos de 5  8: Como estava organizada a sociedade francesa s vs-
peras da revoluo de 1789? Lembra a resposta? Vamos ajuda-lo! Ela
estava organizada em trs grupos:
a) 1 Estado representado pelo clero que tinha privilgios polticos, judi-
    cirios e fiscais, controlava 10% das terras de todo territrio francs e,
    alm disso, cobrava taxas de batismo, casamento, sepultura e a dzima.
    Isso no quer dizer que todo o clero tinha esses privilgios. Somente o
    alto clero, isto , bispos e abades, tinha esses privilgios. Os que per-
    tenciam ao baixo clero, ou seja, os padres sem cargos, passavam difi-
    culdades tanto quanto a maioria da populao francesa.
b) 2 Estado representado pela nobreza, aquela que detinha o poder
    na Idade Mdia, tambm tinha muitos privilgios como: podiam
    usar espada; tinham banco reservado nas igrejas; no pagavam im-
    postos; tinham o monoplio de acesso aos cargos superiores do
    exrcito, da igreja e de serem juzes. Muitos ainda recebiam impos-
    tos dos seus camponeses.
c) 3 Estado era composto pelos camponeses, artesos, operrios, pe-
    la burguesia, fosse ela comercial, industrial ou financeira e pelos
    profissionais liberais  mdicos, juristas, literatos e professores. Pa-
    ra grande parte desses que compunham o 3 Estado, especialmente
    os camponeses, artesos e operrios, a situao no era nada boa.
    Para piorar, uma grande seca, entre 1785 e 1789, provocou a ele-
    vao dos preos dos principais produtos consumidos por eles. Is-
    so fez com que a fome se alastrasse ainda mais. D para perceber
    o que andou acontecendo, no? Como conter camponeses, artesos
    e operrios famintos e revoltosos?

                                                                          Formao do Estado Moderno 213
         Ensino Mdio

        Aqui, para tentar responder quem inspirou os propsitos da revoluo, retornemos aos nos-
    sos pensadores, especialmente Locke e Rousseau que tentaram provar que os homens so os
    principais responsveis por seu destino. Analisemos assim: as necessidades prticas da burgue-
    sia de aumentar seus lucros e a busca dos camponeses, artesos e operrios de acabar com
    a fome e a misria acabaram dando
    respaldo s idias filosficas. S falta-
    va arregaarem as mangas e irem pa-
    ra a luta. Foi o que aconteceu em 14
    de julho de 1789 quando uma multi-
    do invadiu e tomou a Bastilha, forta-
    leza onde o rei trancafiava seus inimi-
    gos polticos.




                                                 < Foto: Joo Urban




                        PESQUISA

          S nos resta saber se os revoltosos conseguiram seus objetivos. Fica aqui o desafio:
      1. Faa uma pesquisa e responda se os revoltosos conseguiram atingir seus objetivos e quais meios
         foram utilizados.
      2. Pesquise se na histria do Brasil houve um acontecimento ou uma revolta que possa ser compara-
         da com a Revoluo Francesa. Faa um quadro comparativo entre elas destacando: por que ocor-
         reu, quem participou, quais os objetivos, o que a influenciou e quais os resultados obtidos.
      3. Entreviste cinco pessoas com as seguintes questes:
          a) Voc sabe explicar o que :
             1) Monarquia?
             2) Oligarquia?
             3) Democracia?
             4) Parlamentarismo?
          b) Hoje, no Brasil, temos o presidencialismo como tipo de governo. Quem fez essa escolha? Com
             base em qu?
          c) Se tivssemos um plebiscito no Brasil para mudar o tipo de governo, em qual voc votaria? Mo-
             narquia, Oligarquia, Parlamentarismo ou Presidencialismo? Por qu?


          Construa um texto comentando e relacionando as respostas com a questo inicial de nosso estu-
      do. Leia suas concluses para os demais colegas.



214 Poder, poltica e ideologia
                                                                                           Sociologia

z Referncias:
  BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade: por uma teoria geral da polti-
  ca. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.


  BOBBIO, N. A teoria das formas de governo. 4 ed. Braslia: Ed. UnB,
  1985.


  GOMES, R. Crtica da razo tupiniquim. 8. ed. Curitiba: Criar, 1986.
  HOBBES, Thomas. Leviat ou Matria, forma e poder de um estado
  eclesistico e civil. 3 Edio. So Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pen-
  sadores)


  KANT, I. Crtica da razo prtica. Lisboa: edies 70,1989. (Textos Filo-
  sficos).


  MICELI, P. As revolues burguesas. So Paulo: Atual, 1987.


  ROUSSEAU, J. J.. Do contrato social. So Paulo: Nova Cultural, 1999.
  v. 1.


  SADEK, M. T. Nicolau Maquiavel: o cidado sem fortuna. O intelectual de vir-
  t. In.: WEFFORT, Francisco (Org). Os clssicos da poltica: 3. ed. So
  Paulo: tica, 2003. v. 2.


  WEFFORT, F. (Org). Os clssicos da poltica: 13 ed. So Paulo: tica,
  2003. v. 2.




                                                                          Formao do Estado Moderno 215
       Ensino Mdio




            I
            n
            t
                          Neste captulo abordaremos um tema de extrema importncia para a
                      Sociologia que trata dos movimentos sociais. Buscaremos compreender
                      quais as caractersticas dos mesmos e ainda trataremos de apresentar al-
                      guns movimentos que se fazem presentes na histria do capitalismo.


            r
                          Mas por que seria to importante para a Sociologia a temtica dos
                      movimentos sociais? Por que abordar essa discusso e no outra?
                          Bom, podemos comear a pontuar algumas questes importantes
                      que demonstram a relevncia desse tema em um livro didtico de So-

            o         ciologia destinado ao Ensino Mdio.
                          Vamos comear discutindo o que querem dizer essas duas palavras
                      "movimento" e "social". Pensar todo o desenvolvimento da histria da


            d
                      humanidade  pensar todas as transformaes que o homem vem pro-
                      duzindo para si mesmo.
                          Essas transformaes esto presentes em todos os mbitos da vida
                      humana, desde a forma de se comunicar (pense que at o desenvolvi-

            u         mento da palavra e da escrita outras formas de comunicao foram uti-
                      lizadas, como por exemplo, a pintura na parede das cavernas at a for-
                      ma de se alimentar, se vestir, de se organizar socialmente.


            
                          Temos, portanto, que a palavra "movimento" nos indica uma srie
                      de transformaes na vida do homem, e estas garantem que a histria
                      seja um movimento que cria novas situaes, permitindo que um dia
                      seja diferente do outro.


            
                          Mas quem realiza esses movimentos?
                          Essas mudanas, movimentos que acontecem na histria so gera-
                      dos pelos prprios homens que fazem parte da histria. Isso quer di-


            o

216 Introduo
                                                                             Sociologia




                                                                             S
                                                                             O
zer que todas as alteraes que acontecem em nossas vidas so fruto
da interferncia do prprio homem na mesma.
    Isto porque o homem no vive isolado do mundo  sua volta, ns
somos seres sociais e, enquanto tais, realizamos as transformaes na
                                                                             C
                                                                             I
histria de forma social, envolvendo um grupo ou uma classe, mas
nunca isoladamente.
    Desta forma, j estamos discutindo a segunda palavra: "social". O
que ela quer nos dizer? Ela nos traz a idia de que esses movimentos
de transformao que estvamos tratando acima ocorrem junto  socie-
dade, em situaes especficas e em um perodo especfico.
    Se agora juntarmos essas duas palavras tem-se que movimento social  a
                                                                             O
transformao histrica desencadeada pelo homem que vive em sociedade na
sua prpria histria.
    Essa afirmao no  incorreta para movimento social. Mas, para a
Sociologia essa definio certamente  incompleta. Isso porque, a mes-
                                                                             L
                                                                             O
ma no explica porqu surgem os movimentos sociais, no nos auxi-
lia a discutirmos sobre o papel que os movimentos sociais cumprem
na sociedade contempornea, no nos ajuda a pensarmos quais so os
tipos de movimentos sociais existentes, isso para citar apenas alguns
problemas.
    Por isso, nos trs Folhas que seguem este captulo procuramos de-
senvolver indagaes que proporcionem a voc, aluno, o questiona-
                                                                             G
                                                                             I
mento do que  um movimento social, ao mesmo tempo que exempli-
ficamos a temtica historicamente com alguns casos que julgamos mais
relevantes para um primeiro contato.



                                                                             A

                                                                                          217
       Ensino Mdio




            I             Assim, no primeiro Folhas abordaremos questes como: por que


            n
                      surgem os movimentos sociais? O que so os movimentos sociais?
                      Quais os possveis projetos dos movimentos sociais? Bem como, dis-
                      cutiremos como os movimentos sociais encontram-se na atualidade do
                      capitalismo.

            t             No segundo Folhas, discutiremos sobre os movimentos com car-
                      ter agrrio que se desenvolveram no Brasil, falaremos, portanto, das Li-
                      gas Camponesas e do MST. Abordaremos tais organizaes discutindo


            r
                      a formao agrria de nosso pas, desde a colonizao at a contem-
                      poraneidade, buscando compreender porqu se faz necessrio na nos-
                      sa histria esses tipos de movimentos.
                          Ainda, trataremos das especificidades histricas que diferenciam o


            o
                      surgimento das Ligas Camponesas de 1945 at 1964 quando compa-
                      rado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que surgem
                      com carter nacional em 1985.
                          No terceiro e ltimo Folhas, o movimento a ser enfocado ser o

            d         estudantil. Nesta discusso demonstraremos o importante papel de-
                      senvolvido pelos estudantes no mundo durante o ano de 1968, e for-
                      neceremos os recursos legais para que o aluno, na escola em que se


            u
                      encontra, atue de forma positiva tanto dentro de seu espao escolar
                      como em sua comunidade.




            
            
            o

218 Introduo
                                                                                       Sociologia




    Todos os trs Folhas apresentados, portanto, discutiro os movi-
                                                                                       S
                                                                                       O
mentos sociais no perodo de vigncia do sistema capitalista, mais es-
pecificamente, no sculo XX, sempre tendo como princpio apontar o
porqu, quando e como os mesmos se desenvolveram.
    Seguindo a proposta do Livro Didtico Pblico, essas discusses
apontadas no se encontram encerradas, mas so apresentadas de mo-
do a ajud-lo a questionar e analisar a realidade social a partir dos re-
ferenciais tericos da Sociologia.
                                                                                       C
                                                                                       I
    Agora, que voc aluno inicia a leitura dos textos, sugerimos que a
ordem seja esta seqncia apresentada, e apreenda com os vrios mo-
vimentos sociais, marcantes em nossa histria, que a possibilidade de
realizarmos transformaes sociais dependem de aes coletivas, sem-


                                                                                       O
pre criando um movimento, mudanas em nossas vidas.




                                                                                       L
                                             "[...]Canta a primavera, p
                                                        C estou carente
                                                      Manda novamente
                                          Algum cheirinho de alecrim."

                                                   "Tanto Mar", Chico Buarque, 1978.   O
                                                                                       G
                                                                                       I
                                                                                       A

                                                                                                    219
                                                                            13
                                                  MOVIMENTOS
                                                      SOCIAIS                  <Valria Pilo1




                                                         or que h pessoas que teimam
                                                        em se organizar e propor mu-
                                                     danas para a sociedade?

                                                    Voc j ouviu falar em movimentos
                                                  sociais, no ? Afinal, o que so os mo-
                                                  vimentos sociais, e mais, qual a impor-
                                                  tncia deles para nossa vida cotidiana?




Colgio Estadual Paulo Leminski  Curitiba - PR
1
        Ensino Mdio

                                  Na histria contempornea temos diversos exemplos de formas
                              de organizaes coletivas, reivindicando as mais diferentes coisas ou
                              aes caracterizando o que  um movimento social.
                                  Como exemplo, citamos o Movimento dos Trabalhadores Ru-
                              rais Sem-Terra (MST), o Frum Social Mundial (FSM), o movimento
                              hippie, movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento
                              dos sem-teto, o movimento pela "Tradio, Famlia e Propriedade"
                              (TFP), os movimentos anti-capitalistas, dentre outros. A lista de movi-
                              mentos sociais existentes  longa, isso pensando apenas nos sculos
                              XX e XXI.
                                   pelo significado social e poltico e, ainda, pela quantidade de mo-
                              vimentos sociais existentes que tal tema  de extrema importncia pa-
                              ra a Sociologia.


                                  Vamos por partes...
                                   importante dizer que abordaremos a temtica dos movimentos
                              sociais sempre pensando na forma de organizao social atual em que
                              vivemos. Portanto, estaremos tratando dos movimentos vinculados ao
                              sistema capitalista. Quer dizer, priorizaremos aqueles movimentos so-
                              ciais que nascem de demandas prprias desta forma de organizao
                              social.
                                  As cidades, organizadas na forma que conhecemos hoje, desenvol-
                              veram-se a partir do sculo XII, ligadas s necessidades dos homens
                              medievais de realizarem trocas comerciais. Mas, no entanto, sabendo
                              que durante a Idade Mdia a forma de organizao social dava-se prin-
                              cipalmente dentro dos feudos, essas cidades ainda no assumiam a im-
                              portncia que as mesmas possuem numa sociedade industrial.
                                  Com a consolidao do capitalismo a partir do sculo XVIII, con-
                              tinuou existindo uma separao entre campo e cidade, mas tal distin-
                              o no criava um isolamento do campo, ao mesmo tempo em que,
                              o desenvolvimento e o progresso no se restringiam  cidade. Em su-
                              ma, estamos tratando da importncia do rural e do urbano para o de-
                              senvolvimento capitalista, que cria duas realidades diversas, mas que,
                              no entanto, nunca deixam de estar vinculadas e apresentando novas
                              necessidades.
                                   Considerando que a sociedade capitalista tem sua organizao e
                              sua dinmica marcadas pelas disputas e conflitos entre as classes so-
                              ciais presentes nela, principalmente, entre as duas classes fundamen-
                              tais, a burguesia e os trabalhadores, boa parte dos movimentos sociais
                              ser motivada diretamente, por interesses de classe ou manifestar as-
                              pectos daquelas disputas como so os casos dos movimentos sindical,
                              de camponeses, dos sem-teto. J outros movimentos, como o feminis-
                              ta, os de juventude, o hippie, os ecolgicos, podem ou no estar, tam-



222 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                              Sociologia

bm, motivados diretamente por "interesses de classe" de seus partici-        Classes Sociais: com a
pantes. Ocorre, muitas vezes, de suas razes mais evidentes serem da         consolidao do capitalis-
ordem de outros interesses, como os ligados a lutas contra discrimina-       mo segundo Karl Marx, es-
es de gnero, tnicas, de gerao ou culturais.                            tabeleceu-se o conflito e a
    Assim, na sociedade contempornea, tanto quem vive nas zonas ur-         contradio, principalmen-
banas, como quem vive nas zonas rurais, organiza-se em torno de seus         te, entre os interesses de
interesses particulares e forma os mais diversos movimentos sociais.         duas classes sociais funda-
                                                                             mentais neste sistema. Es-
    No negamos a diferena quanto ao ritmo de vida existente pa-
                                                                             tamos falando da burguesia
ra quem mora no campo e para quem vive na cidade. Por exemplo:               (composta pelos indivdu-
quem mora na cidade sempre se assusta, num primeiro momento, com             os que detm os meios de
os horrios que as pessoas da zona rural acordam, almoam e jantam,          produo e o capital) e do
pois, na maioria das vezes, isso ocorre sempre mais cedo, em compa-          proletariado (classe traba-
rao  vida urbana.                                                         lhadora que necessita ven-
    A comparao contrria tambm  verdadeira: quem sempre morou            der a sua fora de traba-
no campo fica alucinado com o nmero de pessoas nas ruas, com a              lho em troca de salrio, por
quantidade de carros, de prdios e da corrida contra o tempo de quem         no deter os meios de pro-
vive nas cidades.                                                            duo e capital).

    Diferenas entre o campo e a cidade existem e, certamente vo
muito alm destes dois exemplos acima, mas h tambm um elemento
que une essas duas formas de vida aparentemente distintas: o fato de
que tanto o trabalhador da cidade como o do campo e seus pequenos
produtores, para obter a sua sobrevivncia,submetem-se s regras e
leis da produo de mais-valia. Os primeiros quando vendem sua for-
a de trabalho no mercado, os segundos quando tm a sua produo
sujeitada s demandas e obrigaes impostas pelas leis de mercado ca-
pitalista e da prioridade dos interesses dos capital urbano.
    Sendo assim, boa parte dos movimentos sociais que se organizam
a partir desta realidade social nasce ou se relaciona, direta ou indireta-
mente, com questes ligadas  estrutura de classes e aos conflitos de
interesses entre as diversas classes e fraes de classe. Isto pode ser
observado, por exemplo, no movimento feminista, onde demandas pe-
lo fim do machismo esto ao lado de reivindicaes pela reduo da
explorao no trabalho. O mesmo pode ser observado em movimen-
tos como o dos negros no Brasil, onde a luta contra a discriminao
por cor da pele est associada a demandas por emprego e escolarida-
de. Ou, ainda, quando se v, no movimento social que luta por terra,
surgir a organizao das mulheres exigindo dos "homens sem-terra"
tratamento igualitrio dentro da organizao do prprio movimento.
    Os movimentos caracterizam-se por reivindicaes diferentes, mas
a idia do movimento social como forma de organizao coletiva  ex-
tremamente importante neste sistema, pois  a partir deles que se con-
segue suprir determinadas necessidades dos mais diversos grupos.




                                                                               Movimentos Sociais 223
        Ensino Mdio




                       PESQUISA

          Pesquise como o modo de produo capitalista, ao longo do sculo XX, determinou as formas de tra-
      balho encontradas tanto no campo como na cidade, diferenciando-as, e traando suas semelhanas.


                                  Quando tratamos dos movimentos sociais encontramos diversas ca-
                              ractersticas gerais que permeiam a todos eles, uma delas, por exem-
                              plo,  o fato de que estes demonstram a possibilidade de atuarem na
                              Histria de modo a "determinar" como ser o seu desenvolvimento.
                              Estamos falando que os indivduos tornam-se sujeitos histricos quan-
                              do organizados de forma coletiva e com objetivos em comum, e, por-
                              tanto, apesar de no terem certezas sobre o futuro do movimento, po-
                              dem lutar (seja qual for a reivindicao e o projeto) para a incluso,
                              excluso ou transformao radical da sociedade.
                                  Esta forma de movimento  muito importante numa sociedade co-
                              mo a que vivemos, pois polticas pblicas, tais como: econmicas, so-
                              ciais, educacionais, trabalhistas, dentre tantas outras, podem ser mo-
                              dificadas, quando indivduos que isoladamente no possuiriam um
                              grande poder de transformao organizam-se, e com isso, conseguem
                              interferir na sociedade, transformando-a, ou at, mantendo-a de forma
                              a garantir seus interesses.
                                  Podemos citar, como exemplo de manifestaes sociais que extra-
                              polam a tentativa de reformas e desejam uma transformao social ra-
                              dical da sociedade, a Revoluo Cubana, que surge como uma mani-
                              festao contrria ao regime ditatorial presente no pas, e acaba por
                              culminar num governo socialista, a partir de 1959.
                                  Inmeros exemplos poderiam ser citados para mostrar o homem
                              enquanto sujeito histrico. A partir do momento em que no Brasil tem-
                              se o movimento social dos negros buscando a sua incluso, uma srie
                              de benefcios foram por este grupo conquistados, como por exemplo:
                              as polticas afirmativas (sobre este assunto ver mais no "Folhas" sobre
                              cultura), isso representa um processo de transformao na organizao
                              da sociedade, que para acontecer necessitou que o indivduo compre-
                              endesse seu papel na sociedade como sujeito histrico.
                                  Portanto, afirmar que a sociedade  desta ou daquela forma, e que
                              no adianta tentar interferir,  reproduzir um pensamento que na ver-
                              dade atende aos interesses daquelas pessoas, grupos ou classes sociais
                              que se encontram privilegiadas nas relaes sociais, j que os movi-
                              mentos sociais esto presentes na Histria para demonstrar exatamen-
                              te o contrrio: quando os indivduos organizam-se coletivamente mui-
                              to da estrutura social pode ser alterada.


224 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                               Sociologia

    A princpio, abordaremos este tema de forma mais terica para
melhor definir o que , quando, como e porque se desenvolvem os mo-
vimentos sociais.
   Os movimentos sociais apresentam-se ao longo da Histria de di-
versas maneiras e por diversos motivos mas, como se ver em seguida,
h algumas caractersticas em comum a todos eles, por exemplo: em
todo movimento social h um princpio norteador.



z O que seria este princpio norteador?
    Trata-se de um projeto construdo coletiva-
mente, na maioria das vezes buscando a solu-
o de um problema, a transformao de uma
situao, ou ainda, o retorno a uma situao




                                                                                                            < www.mst.org.br/multimidia/gfotos
anterior, na qual os indivduos entendem que
havia uma melhor condio para suas vidas.
    Os tipos de projetos dos movimentos so-
ciais variam, principalmente, a partir do posi-
cionamento quanto a caractersticas do status
quo. Alguns movimentos ligados  luta por ter-
ra e por moradia podem pr em dvida a pr-
pria lgica do sistema social, questionando, por < Assentamento Joo Batista - Par
exemplo, a forma da propriedade e de distri-
buio da riqueza social. Outros movimentos sociais, como o femi-
nista, os de juventude, os tnicos, podem pretender, primeiramente,
modificar valores e comportamentos sociais.  o que ocorre quando
movimentos sociais feministas "pedem" tratamento igual para as mu-
lheres no mercado de trabalho, mesmo sem questionar, exatamente, o
trabalho assalariado como forma de explorao do trabalho.
    Para uma melhor compreenso do que est sendo dito acima pode-
mos usar como exemplo as reivindicaes do Movimento dos Traba-
lhadores Rurais Sem-Terra (MST). Este tem como projeto a realizao
da reforma agrria que significa o fim dos latifndios e a possibilidade
da existncia de pequenas propriedades rurais, nas quais os menos fa-
vorecidos, nesta sociedade capitalista, poderiam estabelecer-se de for-
ma a criarem seu sustento atravs de uma agricultura de subsistncia
ou organizada em cooperativas.
     importante salientar que a questo da terra no Brasil sempre foi
uma das bandeiras dos movimentos sociais, pois em nossa estrutura
agrria a concentrao de terras e a existncia de latifndios esto pre-
sentes desde o incio de nossa colonizao. Isto porque nossa forma-
o social deu-se em dependncia de outros pases, consequentemen-
te, nossa produo agrria tambm.


                                                                                      Movimentos Sociais 225
        Ensino Mdio

                                        Para elucidar o que estamos dizendo, podemos citar a criao das
                                   Capitanias Hereditrias -- cuja produo era destinada ao mercado
                                   portugus; um exemplo disso na atualidade  a produo da soja e da
                                   laranja que tambm  destinada ao mercado internacional.
                                        Assim, temos como caracterstica estruturante em nosso pas, a su-
                                   bordinao de parte importante da produo agrcola a uma produo
                                   em larga escala e s necessidades do exterior, o que leva a um mode-
                                   lo baseado na utilizao de grandes propriedades rurais, produzindo
                                   uma pequena variedade de produtos.
                                        Podemos ter uma maior clareza desse processo no Brasil quando
                                   utilizamos algumas informaes obtidas a partir dos dados cadastrais
                                   do INCRA (Instituto Nacional de Colonizao e Reforma Agrria) de
                                   1992, a partir dos quais fica claro que a concentrao de terra no Bra-
                                   sil s tem aumentado. Conforme podemos observar no grfico abaixo,
                                   desde a dcada de 1960, vem aumentando a poro de terras abarca-
      Capitanias Heredit-
                                   das pelas propriedades com mais de 1000 hectares e, em contraparti-
     rias: forma inicial da dis-
     tribuio das terras bra-
                                   da, diminuindo aquela ocupada pelas propriedades com menos de 100
     sileiras. Neste modelo, as    hectares. Para facilitar a visualizao da imensido de terras de que es-
     terras eram dadas, pela co-   tamos tratando, cada 1 hectare equivale a 10.000 m2.
     roa portuguesa, para quem
     tivesse a possibilidade de                                                   Porcentagem sobre o total de terras do Brasil
     investimento e quisesse se                                                                                                                 55,2
                                                                                                                            53,3
     aventurar por aqui.
                                                                                         45,1            47
                                     < montado a partir de dados do INCRA, 1992




                                                                                  20,4
                                                                                                16,4                                     15,4
                                                                                                                     16,5




                                                                                  1966            1972                  1978                1992


                                                                                                propriedades com menos de 100 hectares
                                                                                                propriedades com mais de 1000 hectares




                        ATIVIDADE

          O que aconteceu no perodo de 1972 a 1978 que acelerou a concentrao fundiria brasileira? Is-
      to ocorreu em todas as regies? Por qu?
          Quais as conseqncias sociais desse processo no campo e nas cidades?




226 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                   Sociologia

    Essa concentrao fundiria causa srios problemas. Os pequenos
produtores no conseguem obter rendimentos significativos, pois lhes
falta o essencial  a terra. Considerando que esses produtores so a
maioria e que empregam grande parte da fora de trabalho do cam-
po, podemos entender muitos fatos, como as precrias condies de
vida da maioria da populao rural e a venda de terras por parte dos
pequenos proprietrios para os produtores maiores ou para as gran-
des empresas.
    Em suma, a questo da terra torna-se uma bandeira para os movi-
mentos sociais, pois sua concentrao transforma-se em um problema
num pas de grandes dimenses, e com uma populao sem acesso 
terra e sem condies de ter acesso quilo que ela produz.
    No caso dos movimentos sociais que lutam pela mudana na es-
trutura agrria, fica evidente a presena de " interesses de classe" em
jogo. Por exemplo, trabalhadores do campo X grandes proprietrios.
Conhece-se tambm, movimentos sociais do campo organizados por
pequenos proprietrios, que buscam, s vezes, melhores polticas es-
tatais para suas necessidades (crdito, poltica de preos mnimos) ou
se organizam para enfrentar ameaas de desapropriao por causa da
instalao de barragens e usinas de energia em suas terras. Aqui, j se
tem um conflito de classes direto. O enfrentamento se d entre peque-
nos proprietrios e o Estado. V-se, portanto, que h movimentos cujas
motivaes e propostas visam mais a defesa do status quo, conforme
j observado anteriormente
    Na atualidade, um movimento que pode explicar de maneira cla-
ra o que so essas organizaes coletivas, que no pensam na organi-
zao social de forma a transform-la e sim de modo a voltar a formas
anteriores so os movimentos neonazistas, tambm conhecidos como
skinheads.
    No s no Brasil, mas por todo mundo, crescem as manifestaes
fbicas a diferentes culturas, nacionalidades ou etnias; especificamen-
te aqui, h movimentos oriundos da ideologia nazista, que chegam a
tratar com violncia indivduos que se vestem ou comportam-se dife-
rentemente do eles definem como correto.
    H um grupo na grande So Paulo chamado "Carecas do ABC", cuja
atividade coletiva chegou ao extremo da agresso fsica contra outros
jovens como os de grupos punks. Encontra-se, tambm entre os "Ca-
recas", o preconceito contra os negros, os homossexuais e os nordesti-
nos. Na cidade de Curitiba, capital do estado do Paran, recentemente
(set/2005) um grupo pregando `o orgulho branco' agrediu uma pessoa
negra na regio denominada setor histrico da cidade. Suas atitudes




                                                                          Movimentos Sociais 227
        Ensino Mdio

                              no pararam por a, panfletos cujo contedo propunha o preconceito
                              aos homossexuais e aos negros foram afixados nos postes do local.




                                 Como j adiantamos atrs, temos um terceiro tipo de movimento
                              social que no s luta pela transformao de uma dada situao, mas
                              tambm tem como objetivo a transformao radical da forma de orga-
                              nizao da sociedade.
                                 O que estamos dizendo, neste caso,  que o coletivo organiza-se
                              a partir de uma necessidade cotidiana, como, por exemplo, melhores
                              condies de trabalho; mas quando o movimento comea a desenvol-
                              ver seus objetivos transformam-se, a luta intensifica-se, e inicia-se uma
                              tentativa de mudana radical do sistema.
                                 Certamente, o que estamos descrevendo no  nenhuma receita de
                              como o movimento social deve se organizar para se tornar revolucio-
                              nrio, na verdade, para que tal dimenso possa ser atingida h fatores
                              sociais e histricos do momento vivenciado que contribuem para tal
                              formao, portanto, h uma indeterminao histrica, isso quer dizer
                              que h uma impossibilidade, a priori de afirmar o que acontecer ou
                              no no futuro, se esse carter revolucionrio pode ocorrer ou no.
                                 Esses movimentos geralmente organizam-se a partir de uma reivin-
                              dicao local e especfica, mas,  medida que se desenvolvem, come-
                              am a adquirir maior expresso social, extrapolando suas reivindica-
                              es iniciais, o que exige do prprio movimento um novo projeto e
                              uma nova proposta para o futuro.
                                 Estamos dizendo agora que, se por um lado,  possvel pensar em
                              movimentos que querem alterar algumas caractersticas da realidade
                              social, outros pedem uma volta a antigas formas de pensamento pre-
                              conceituosas e autoritrias, e ainda, existem os movimentos sociais
                              que criam a possibilidade de uma nova forma de organizao social,
                              na tentativa de superarem suas necessidades.



228 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                                                                    Sociologia


                       PESQUISA

     Realize uma pesquisa buscando um movimento social existente no Brasil que represente uma des-
 tas trs formas descritas acima, caracterizando-o e compreendendo os motivos que os levaram a de-
 fenderem, suas reivindicaes. Para realizar esta pesquisa sugerimos que procure um movimento que
 exista na sua regio, seja ela rural ou urbana.


    Desta forma, trataremos um pouco mais cuidadosamente dos movi-
mentos sociais que apresentam pouca possibilidade de ruptura (trans-
formao radical da sociedade) com a realidade social posta, mas que
de alguma forma apresentam alternativas. Um bom exemplo para es-
tas formas de movimento encontra-se no Frum Social Mundial, reali-
zado desde 2001, que j ocorreu no Brasil, em Porto Alegre, e na n-
dia, em Mumbai.
     O Frum Social Mundial (FSM) foi idealizado e criado a partir da
iniciativa de alguns brasileiros que desejavam desenvolver uma resis-
tncia ao pensamento dominante, e principalmente, a forma neolibe-
ral de organizao poltica e econmica em que a sociedade encontra-
se na atualidade.
    A vontade de fazer oposio ao neoliberalismo no Frum Social
 to sria que, as datas para as suas realizaes foram programadas
sempre concomitantes a do Frum Econmico Mundial em Davos, Su-
a. Esse Frum Econmico  realizado anualmente para discutir os ru-
mos a serem dados  economia dos pases centrais e perifricos.
    A partir do momento em que surgiu a idia, criou-se um Comit
Organizador a fim de por em prtica o Frum; o mesmo acabou ocor-
rendo no ano de 2001, em Porto Alegre, na sua primeira edio, e no
mesmo ano foi criado um Conselho Internacional para melhor desen-
volver a sua organizao e eventos.

                                                                                       Neoliberalismo:
                                                                                       Os princpios do neoliberalismo remontam o libera-
                                                                                       lismo clssico de Adam Smith, no qual o mercado
                                                                                       no  regulado pelo Estado, e sim pela livre concor-
                                                  < www.mst.org.br/multimidia/gfotos




                                                                                       rncia. Na atualidade o liberalismo est sendo re-
                                                                                       estabelecido de acordo com as novas necessida-
                                                                                       des histricas surgidas  por isso, o uso do prefixo
                                                                                       neo (novo)  na poltica econmica mundial. Entre
                                                                                       as propostas de tipo neoliberal, destacam-se a in-
                                                                                       dicao de retirada do Estado das atividades eco-
                                                                                       nmicas, a reduo de polticas estatais de prote-
  < I Frum Social Mundial  Abertura                                                  o de mercado e a reduo da regulamentao
                                                                                       estatal sobre as relaes trabalhistas




                                                                                                                      Movimentos Sociais 229
        Ensino Mdio

                                  O FSM  tambm composto por outros Fruns realizados paralela-
                              mente nas mais diversas regies, com os mais diversos propsitos. H
                              os chamados fruns temticos: Frum Mundial da Educao, Frum
                              sobre "Democracia, Direitos Humanos, Guerra e Trfico de Droga"; e
                              ainda, os fruns nacionais e regionais: como por exemplo, Frum Pan-
                              Amaznico, Frum Social Africano, entre tantos outros mais.
                                  Esta formao caracteriza o FSM como uma srie de grandes even-
                              tos, nos quais so discutidas as mais diversas temticas sempre preo-
                              cupadas com a criao de alternativas para a realidade social. Desta
                              forma, o FSM constitui-se como um espao de articulao, debate, dis-
                              cusso e reflexo terica pelos mais diversos movimentos sociais que
                              participam de suas atividades.
                                  Estes movimentos sociais, por sua vez, possuem os interesses mais
                              diversos, no havendo, portanto, uma prioridade na defesa das lutas.
                              Todas so importantes e vlidas, pois seguindo o projeto norteador do
                              Frum, cada uma delas possui um contexto especfico que as fazem
                              necessrias. Segundo o que diz Boaventura de Sousa Santos, socilo-
                              go e participante do Frum: "As prioridades polticas esto sempre si-
                              tuadas e dependentes do contexto" (Santos, 2005: 37)
                                  Assim, a impossibilidade da construo de uma alternativa coleti-
                              va, geral, ao mesmo tempo que, possibilita a diversidade e a no im-
                              posio de um nico modelo como alternativa, tambm faz com que o
                              ambiente de debate perca-se na preocupao individual de cada mo-
                              vimento. Geralmente,  pensado como uma sada que reforme o siste-
                              ma, pois para uma transformao radical da sociedade  necessrio a
                              existncia de um grande movimento social.
                                  Portanto, cada movimento possui suas necessidades, buscam alter-
                              nativas diferenciadas para seus problemas e utiliza-se do FSM como um
                              momento para suas articulaes e debates. Esta caracterstica  to for-
                              te dentro da organizao ou realizao do Frum que na sua carta de
                              princpios consta que nenhum dos participantes pode falar em nome do
                              FSM, tamanha  a diversidade de reivindicaes e propostas l encontra-
                              das. Para maiores informaes sobre a Carta de Princpios do FSM pode
                              ser consultado o site do Frum: www.forumsocialmundial.org.br.
                                  Uma outra caracterstica peculiar quanto  constituio do Frum
                               o fato do mesmo no possuir qualquer liderana; os seus dois con-
                              selhos e o carter democrtico das decises no permitem que exista
                              uma hierarquia, e ainda  atribuda, por parte dos movimentos sociais
                              que participam do Frum uma grande importncia s redes que so
                              criadas ou possibilitadas por intermdio da Internet.
                                  Assim, como afirma o prprio Boaventura: "O FSM  uma utopia
                              radicalmente democrtica que celebra a diversidade, a pluralidade e a
                              horizontalidade. Celebra um outro mundo possvel, ele mesmo plural
                              nas suas possibilidades". (Santos, 2005: 89)


230 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                              Sociologia

    As diferenas dos movimentos sociais participantes do FSM, por-
tanto, so inmeras, como j foi afirmado. H uma pluralidade quanto
 sua constituio que fica ainda mais clara quando so discutidas as
possibilidades e alternativas para a sociedade. Encontram-se desde os
que querem romper drasticamente com esta forma de organizao so-
cial em que vivemos, at os que reivindicam uma reforma no sistema
poltico, econmico e social, garantindo sua incluso neste.
    O que h em comum entre todos eles, e os fazem se reunir,  a lu-
ta contra as formas devastadoras assumidas pelo neoliberalismo contra
as minorias e os no-detentores de capital. H tambm, a opo pela
busca da transformao, seja ela qual for, por intermdio da interven-
o e presso poltica, lutando e idealizando a construo de um ou-
tro mundo por meio de mecanismos pacficos.
    Na verdade essa caracterizao atual do Frum enquanto espao
de movimentos sociais, no  um consenso. Esta  uma posio, por
exemplo, de Francisco Withaker (um dos fundadores do FSM e mem-
bro das comisses), defensor da idia de que se uma linha comum for
estabelecida, o espao ser perdido e se estar "asfixiando" a prpria
fonte de vida do Frum.
    Outra posio tambm encontrada  a de que o Frum deve ser
sim um movimento dos movimentos, isso quer dizer que o Frum de-
ve assumir uma posio poltica, pois caso contrrio, ser um espao
que se perder e no canalizar nenhuma ao concreta, perdendo seu
sentido de existncia.
     assim que o Frum, tomado como exemplo, sintetiza algumas das
caractersticas e dilemas dos movimentos sociais atuais.




                PESQUISA

     Uma afirmao realizada no inicio desta discusso ainda pode ser retomada: foi afirmado que o FSM
  representativo dos movimentos sociais que no realizam uma ruptura radical com a realidade, mas
 tambm, foi dito, que os movimentos que compem o Frum so contrrios ao neoliberalismo e bus-
 cam alternativas para a sociedade.
      Assim, com base no que foi dito acima, pesquise os projetos de dois movimentos sociais que par-
 ticipam do Frum Mundial Social e compare seus objetivos e suas propostas para a sociedade. Para
 realizar tal pesquisa, sugerimos que se consulte o site ou os materiais impressos produzidos pelo F-
 rum.".




                                                                                   Movimentos Sociais 231
        Ensino Mdio

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                                  www.forumsocialmundial.org.br




232 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                     Sociologia



ANOTAES




            Movimentos Sociais 233
                                                                                14
                                                        MOVIMENTOS
                                                  AGRRIOS NO BRASIL               <Valria Pilo1




                                                            Se voc fosse um latifundirio, o
                                                            que pensaria sobre os movimen-
                                                           tos sociais que lutam pela reforma
                                                         agrria?
                                                         E se voc fosse um trabalhador ru-
                                                         ral sem lugar para morar e trabalhar,
                                                       voc participaria desses movimentos?




Colgio Estadual Paulo Leminski  Curitiba - PR
1
         Ensino Mdio

                                                                                        "- Essa cova em que ests,
                                                                                      com palmos medida,
                                                                                       a cota menor
                                                                                      que tiraste em vida.
                                                                                      -  de bom tamanho,
                                                                                      nem largo nem fundo,
                                                                                       a parte que te cabe
                                                                                      neste latifndio.
                                                                                      - No  cova grande.
                                                                                       cova medida,
                                                                                       a terra que querias
                                                                                      ver dividida.
    < Assentamento do Contestado, prximo a cidade da Lapa, ocupado em
      07/02/1999. Foto: Giselle Nicaretta.                                            [...]
                                                                                      - Vivers, e para sempre
                                            Reforma Agrria: Processo de re-          na terra que aqui aforas:
                                           distribuio de terras (latifndios), em   e ters enfim tua roa.
                                           novas modalidades de ocupao, co-         - A ficars para sempre,
                                           mo pequenas propriedades, proprieda-       livre do sol e da chuva,
                                           des coletivas, colnias com direito ao     criando tuas savas.
                                           uso de terras do Estado, realizado pe-     - Agora trabalhars
                                           lo Governo.                                s para ti, no a meias,
                                                                                      como antes em terra alheia.
                                                                                      - Trabalhars uma terra
                                                                                      da qual, alm de senhor,
                                                                                      sers homem de eito e trator.
                                                                                      - Trabalhando nessa terra,
                                                                                      tu sozinho tudo empreitas:
                                                                                      sers semente, adubo, colheita".

                                                                                      (Joo Cabral de Mello Neto, "Morte e Vida Severina")




                                         z Vamos refletir sobre estes problemas conhe-
                                           cendo os movimentos sociais que lutam pela
                                           posse da terra!
                                             Como foi dito no "Folhas" anterior com relao aos movimentos so-
                                         ciais, para que possamos compreender um movimento temos que en-
                                         tender as necessidades histricas que possibilitaram o surgimento des-
                                         te. Ou seja, para abordarmos a questo dos movimentos sociais rurais
                                         no Brasil  necessrio analisar e entender o desenvolvimento do capi-
                                         talismo brasileiro e suas formas de produo agrria.
                                             Para alguns autores das Cincias Humanas, houve pelo menos trs
                                         formas de desenvolvimento do capitalismo. Isto quer dizer que ao lon-

236 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                            Sociologia

go da histria os pases tornaram-se capitalistas, mas cada um com ca-
ractersticas especficas. Para ilustrar o que estamos discutindo, pode-
mos exemplificar perguntando por que o Brasil  diferente dos EUA,
ou da Itlia, e assim por diante. E  por conta desta maneira diferen-
ciada de desenvolvimento do sistema capitalista, que temos, por exem-
plo, movimentos sociais que lutam pela Reforma Agrria no Brasil e
no na Europa.


z Vejamos como isso aconteceu!
    Em pases como a Frana e a Inglaterra tem-se a chamada via clssi-




                                                                                                          < www.bibl.u-szeged.hu/ bibl/mil/ww1/who/lenin.jpg
ca do desenvolvimento do capitalismo. Isso quer dizer que nesses pa-
ses, a burguesia realizou rupturas radicais com o antigo mundo feudal
e absolutista. Em suas bandeiras de luta, a burguesia desejava no s o
progresso, mas tambm, a liberdade, a igualdade e a fraternidade para
todos. Em outras palavras, nestes pases ocorreram revolues, a Revo-
luo Francesa (1789) e a Revoluo Industrial (sculo XVIII).
    Em locais onde esses processos aconteceram, especialmente no ca-
so francs, a burguesia, na luta pelo poder do Estado, contou com a
colaborao de outros segmentos sociais. Posteriormente, renegando
as classes que haviam participado da queda do mundo absolutista, a         Lnin: Vladimir Ilitch L-
saber: a classe de camponeses expropriados de suas terras, um nme-        nin (1870-1924) Um dos
ro significativo de pequenos comerciantes e de trabalhadores assalaria-    participantes da Revoluo
dos da cidade. Estes, mais tarde conformariam o proletariado.              Russa (1917) -- revoluo
                                                                           esta que teve por objetivo
    No restante da Europa e, em destaque, na Alemanha, a transio         criar um sistema socialista
para o sistema capitalista no se deu pelo movimento de massas popu-       --, desenvolveu importan-
lares, mas sim num acordo entre a burguesia ascendente e a nobreza         tes discusses a respeito do
feudal decadente. Este processo foi descrito por Marx e Engels como        desenvolvimento do capita-
aburguesamento da nobreza e enobrecimento da burguesia.                    lismo e sobre a implemen-
    Esse caminho de desenvolvimento do capitalismo foi denomina-           tao do socialismo na Rs-
do por Lnin de via prussiana do desenvolvimento burgus. Diferente-        sia.
mente do ocorrido na Frana e Inglaterra, no h ruptura revolucion-
ria com as antigas classes dominantes de proprietrios rurais.
    Apresentamos at agora, duas formas de desenvolvimento do capi-
talismo, no entanto, dependendo da leitura que se faa sobre o desen-
volvimento do mesmo, ainda  possvel tratar a respeito de uma ter-
ceira forma. Esta terceira forma est diretamente vinculada  maneira
como o capitalismo desenvolveu-se no Brasil, que teve incio no Pero-
do Colonial, a partir do sculo XVI.
    No s o "descobrimento" do Brasil, bem como todo o processo
produtivo que aqui foi desenvolvido, esteve necessariamente vincula-
do com as necessidades polticas e econmicas da metrpole portu-
guesa. Tanto a extrao de pau-brasil, quanto a produo de cana-de-
acar eram atividades realizadas de acordo com as necessidades da
economia da coroa portuguesa.

                                                                    Movimentos Agrrios no Brasil 237
        Ensino Mdio

     Capital Internacional:
                                         Os latifndios de monocultura formam a base da organizao agr-
     Acmulo de riqueza, repro-      ria do nosso pas. Desde o incio de nossa formao social temos na
     duzido no desenvolvimen-        constituio do Brasil a presena de latifndios vinculados  monocul-
     to industrial, financeiro e     tura. Esta caracterstica, apresentada desde o princpio, mantm-se pre-
     agrrio de um pas diferen-     dominantemente em toda a histria brasileira.
     te do seu local de origem           A histria do Brasil agrrio  marcada por uma caracterstica pecu-
     (geralmente pases perifri-    liar: o fato de nossa produo sempre ter ocorrido vinculado s neces-
     cos como o Brasil), visando     sidades dos pases europeus, seja no perodo de transio do mundo
     sempre a gerao de mais        medieval para o capitalista, seja posteriormente, j com o efetivo de-
     riqueza e lucro, que retorna-
                                     senvolvimento do capitalismo. So as necessidades do capital interna-
     r ao seu pas inicial.
                                     cional que direcionam nossa produo.
                                         Assim, desde o perodo no qual a economia baseava-se na produ-
     Balana Comercial: Re-          o canavieira, passando pela produo de algodo (mercadoria pro-
     lao final entre a exporta-    duzida em larga escala, devido  demanda oriunda da revoluo in-
     o e importao de mer-        dustrial), produo cafeeira e atualmente, da soja e do gado de corte,
     cadorias por um pas.           dentre outras mercadorias produzidas, o Brasil manteve-se com uma
                                     economia agrria subordinada aos interesses externos e, portanto, den-
     PIB: Valor total da produ-
                                     tro de um modelo agro-exportador.
     o e riqueza produzida em          Se por um lado, afirma-se que tais empreendimentos so positivos
     um pas.                        para o desenvolvimento da economia nacional, do PIB (Produto Inter-
                                     no Bruto) e da balana comercial, por outro, uma srie de fatores ne-
                                     gativos podem ser evidenciados nesta forma de desenvolvimento agr-
                                     rio. Dentre estes fatores podemos citar:

                                     a) este  um tipo de produo que por estar vinculado a interesses ex-
                                        ternos ao do pas pode, a qualquer momento, em funo de uma
                                        crise da economia mundial, por exemplo, tornar-se desinteressan-
                                        te, e por conta disso criar uma situao de crise econmica nacio-
                                        nal;
                                     b) este tipo de modelo agrrio, por necessitar de grandes extenses de
                                        terras, torna a propriedade rural restrita a uma pequena parcela da
                                        populao;
                                     c) realiza uma produo que no satisfaz as necessidades imediatas
                                        (subsistncia) da populao nacional.

                                        Esses fatores so as principais explicaes que nos mostram a ne-
                                     cessidade de uma Reforma Agrria no Brasil. E tambm demonstram
                                     porque tal fato no acontece, por exemplo, nos pases europeus.
                                        Vimos, mesmo que brevemente, que nos pases de via clssica
                                     (Frana e Inglaterra) houve uma revoluo que rompe com o antigo
                                     mundo medieval, e ainda, nesses pases a produo agrcola no foi a
                                     da monocultura, caracterizando a formao do latifndio, muito pelo
                                     contrrio, esses pases compravam a produo das colnias (monocul-
                                     tura) para a sua produo industrial.


238 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                     Sociologia

    Quando houve a revoluo industrial na Europa, e a Inglaterra ini-
ciou com a produo txtil, foi o Brasil um dos fornecedores de algo-
do. Hoje, a produo de laranja em larga escala  exportada aos Esta-
dos Unidos, e tambm a soja  exportada para vrios pases.
    Na atualidade, essa realidade da produo agrcola baseada em
enormes extenses de terras, com uma pequena variao do tipo de
produto, proporciona uma sociedade na qual a quantidade de proprie-
trios de terra  reduzida, e ainda , a produo da pequena proprieda-
de rural  desvalorizada no mercado nacional.
    H pelo menos de 4 a 6 milhes de famlias sem-terra, cerca de 1%
dos proprietrios rurais possuem 46% das terras produtivas e cadastra-
das no Brasil (Censo do IBGE  1996). As propriedades com menos de
100 ha representam neste ltimo censo, 89,3% das propriedades, mas
representam cerca de 20% das terras brasileiras. Neste mesmo Censo
foram registradas 17.930.890 pessoas ocupando atividades no campo,
contrapondo-se aos dados de 1985 -- que registram 23.394.881 traba-
lhadores -- portanto, percebe-se uma reduo do trabalho no campo
em 23%.
    Existe um outro indicativo que contribui para destacarmos a impor-
tncia da pequena propriedade na produo agrcola no Brasil. Segun-
do os dados estatsticos sobre o montante da produo das pequenas
e mdias propriedades produzidos pelo IBGE no Censo Agropecu-
rio de 1996, temos que: a produo de reas com menos de 100 ha
correspondem a 47% da produo nacional, os estabelecimentos en-
tre 100 ha a 1.000 ha correspondem a 32%; j as reas com 1.000 ha
a 10.000 ha correspondem a 17% da produo, e ainda, as reas aci-
ma de 10.000 ha produzem apenas 4% do valor total da produo no
Brasil.
    Segundo esses dados,  possvel observar que mesmo a produo
da pequena e mdia propriedade sendo desvalorizada pela existncia
de atividades rurais agro-exportadoras, ela  responsvel pela maior
parte da produo agrria realizada no pas. Isso em ltima instncia
refora a discusso e a necessidade de realizao de uma grande Re-
forma Agrria neste territrio.
    So consideradas no Brasil, segundo a chamada Lei de Reforma
Agrria, pequenas propriedades, reas que possuam menos de 5 m-
dulos fiscais, mdias propriedades, aquelas que tenham de 5 a 15 m-
dulos e grandes propriedades, reas que tenham mais de 15 mdulos.
Os valores dos mdulos fiscais variam de Estado para Estado, de re-
gio para regio, pois para a determinao do valor em hectares so
levados em considerao o tipo de explorao predominante no mu-
nicpio, a renda obtida com tal explorao, outras atividades produti-
vas na rea, e ainda, o conceito de propriedade familiar.




                                                                  Movimentos Agrrios no Brasil 239
        Ensino Mdio



                       PESQUISA

          Realize uma pesquisa sobre a condio da produo agrcola na sua regio ou do Estado, buscan-
      do dados que tragam o tipo de produo existente (seu destino), bem como a distribuio dessas ter-
      ras (tamanho e proprietrios) e a condio de vida do trabalhador do campo.



                                  Bom, at aqui explicamos, mesmo que brevemente, porque um pa-
                              s como o Brasil possui movimentos sociais cujo objetivo  a Reforma
                              Agrria. Mas temos ainda de entender quando e como esses movimen-
                              tos sociais se organizam para tal.


                              z Primeiros Movimentos de luta pela terra:
                                As Ligas Camponesas
                                  Vamos descrever um quadro social bastante peculiar quanto s su-
                              as caractersticas agrrias. Caractersticas estas que colocam em xeque
                              a forma como a organizao do campo encontra-se na atualidade, pe-
                              lo menos no que diz respeito  distribuio de terras. Se por um lado,
                              tem-se um pas cuja formao capitalista permitiu uma desigualdade
                              social mpar, e certamente necessita de uma reformulao para aten-
                              der s necessidades de toda a populao; por outro, essa transforma-
                              o pode ser alcanada de diversas maneiras.
                                  Ao longo da histria brasileira, principalmente no que diz respei-
                              to ao sculo XX, vrias propostas de Reforma Agrria foram discuti-
                              das pelos mais diversos movimentos e governos. Hoje o movimento
                              de maior destaque e evidncia  o Movimento dos Trabalhadores Ru-
                              rais Sem-Terra (MST).
                                  Mas antes de seu surgimento, houve uma srie de movimentos que
                              discutiram e lutaram pela reforma agrria. Dentre eles podemos citar
                              as Ligas Camponesas; a Comisso Pastoral da Terra (CPT) criada em
                              1975; ULTAB (Unio dos Lavradores e Trabalhadores Agrcolas do Bra-
                              sil) criada em So Paulo, final de 1955; e o MST.
                                  A histria das Ligas Camponesas pode ser compreendida em trs
                              momentos: o primeiro, que comea em 1945 e vai at 1947; um segun-
                              do, que se inicia em 1948 at 1954; e um ltimo momento, com cer-
                              teza, o mais expressivo do movimento, que foi de 1954 at o seu fi-
                              nal, em 1964.
                                  As chamadas Ligas Camponesas tm sua origem entre os anos de
                              1945  1947. Neste perodo, nosso pas estava passando por um regime
                              de relativa democracia. Havia chegado ao fim a ditadura do 2 gover-

240 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                       Sociologia

no de Getlio Vargas, que reprimiu toda e qualquer forma de manifes-
tao social contrria as suas idias, inclusive colocando na ilegalida-
de o Partido Comunista Brasileiro.
    E foi justamente a partir dos integrantes do Partido Comunista que
as primeiras Ligas Camponesas se formaram. Em quase todos os Esta-
dos brasileiros os trabalhadores rurais organizaram-se, no entanto, de-
vido ao fato do Partido ter sido colocado novamente na ilegalidade no
ano de 1947, houve uma certa desmobilizao do movimento, que, no
entanto, continuou resistindo at meados dos anos de 1950 em alguns
lugares.
    Alguns fatos marcaram este segundo perodo: a guerrilha de Pore-
catu (conflito entre posseiros e latifundirios na divisa de So Paulo e
Paran -- 1950), a revolta de Dona Noca (conflito no interior do Ma-
ranho -- 1951), o territrio livre de Formoso (conflito entre posseiros
e latifundirios por uma rea de quase 10 mil quilmetros quadrados)
e o primeiro Congresso Nordestino de Trabalhadores Agrcolas (ocor-
rido em Recife, sob a orientao do Partido Comunista de Pernambu-
co -- 1954).
    Aps o ano de 1954, as Ligas Camponesas organizaram-se ainda
com mais fora, principalmente no estado de Pernambuco. De modo
geral, ser esse o principal foco de resistncia e atuao desse movi-
mento rural. Isto porque havia uma srie de fatores que contriburam
para o desenvolvimento do movimento no local, destacam-se: o fen-
meno da seca, altos ndices de mortalidade, a decadncia da economia
da regio, dentre outros.
    A atuao das Ligas desenvolveu-se no sentido de conscientizao
e politizao dos trabalhadores do campo e a busca pela reforma agr-
ria tambm estava vinculada a melhores condies de trabalho.
    O movimento das Ligas Camponesas adquiriu tamanha importn-
cia no cenrio nacional que muitos de seus integrantes visitaram a ex-
Unio Sovitica, a China e Cuba, em diversos momentos. Isso com o
intuito de melhor organizar o movimento e articul-lo com outros, co-
mo tambm, conhecer a produo agrcola desses pases e a forma co-
mo se dava a distribuio de terras.
    A passagem por esses pases, por parte dos membros das Ligas
Camponesas, tambm se deve ao fato dessas naes estarem experi-
mentando formas de organizao social e do trabalho diferenciadas
das existentes no capitalismo. Chamadas de socialismo, estas experi-
ncias apareciam no horizonte como possibilidades de se efetivar um
sistema no qual os valores humanistas poderiam ser vivenciados, e as
desigualdades sociais superadas, acabando, inclusive, com a luta de
classes entre os trabalhadores e a burguesia.
    Algumas inovaes dessas alternativas de organizao social pode-
riam ser observados na forma de distribuio de terras que experimen-


                                                                    Movimentos Agrrios no Brasil 241
        Ensino Mdio

                                    tavam. No caso de Cuba, por exemplo, logo aps a Revoluo (1959),
                                    estabeleceu-se no pas uma Reforma Agrria que nacionalizava as pro-
                                    priedades com mais de 420 hectares e as redistribua aos trabalhado-
                                    res e arrendatrios.
                                        Portanto, tinha-se em Cuba ps revolucionria, uma distribuio
                                    das terras diferenciada do sistema capitalista (e do Brasil) e ainda, por
                                    mais que nestes solos a maior parte da produo fosse a da cana-de-
                                    acar, l no havia a concentrao de terras, nem a distribuio con-
                                    centrada da renda, pois o trabalho era organizado de forma coletiva.
                                        Estes eram exemplos de organizaes sociais que os integrantes das
                                    Ligas Camponesas estavam buscando conhecer, para que assim, de al-
                                    guma forma, pudessem desenvolver novas experincias em solo bra-
                                    sileiro.
                                        Uma srie de fatores polticos e sociais, nacionais e internacionais,
                                    colaboraram para o desenvolvimento e ampliao no s da Ligas
                                    Camponesas, no incio da dcada de 1960, mas de uma srie de movi-
                                    mentos tanto no campo quanto na cidade. Estamos falando da eleio
                                    de um governo progressista para governo federal, nas figuras de Jnio
                                    Quadros e Joo Goulart  1961, e tambm da Revoluo Cubana (j ci-
                                    tada no primeiro Folhas de movimentos sociais  1959).
                                        Por um momento as Ligas Camponesas aglutinaram em sua volta
     Guerrilha:        organiza-    uma srie de outras manifestaes sociais, como por exemplo: Ligas de
     o poltica, cujo objetivo    Estudantes; Ligas Urbanas; Ligas Feministas; dentre outras. Houve ain-
     de transfomao pode ser
                                    da na Liga Camponesa a formao de guerrilhas para organizar a resis-
     atingido atravs da luta ar-
                                    tncia  oligarquia agrria, tendo a participao no s do homem do
     mada.
                                    campo, mas tambm, o da cidade.
                                        Na organizao dos movimentos utiliza-se uma srie de mecanis-
                                    mos para sensibilizar o homem do campo e mobiliz-lo pela luta da
                                    terra e da Reforma Agrria. Seus integrantes discutiam a necessidade
                                    da existncia desse movimento utilizando-se da Bblia, do Cdigo Ci-
                                    vil, e da Poesia Popular (violeiro, cantador e folhetista); isto porque
                                    estas eram linguagens que faziam parte daquele cotidiano, ao mesmo
                                    tempo, que se tornavam grandes facilitadores, considerando que uma
                                    grande quantidade da populao era analfabeta.
                                        No estatuto das Ligas  possvel compreender a finalidade da exis-
                                    tncia do movimento. Consta no Artigo 2:
                                        "A liga tem por objetivos:
                                    1 Prestar assistncia social aos arrendatrios, assalariados e pequenos
                                        proprietrios agrcolas.
                                    2 Criar, instalar e manter servios de assistncia jurdica, mdica, odon-
                                        tolgica e educacional, segundo suas possibilidades.
                                        Pargrafo nico: A Liga no far discriminao de cor, credo polti-
                                    co, religioso ou filosfico entre seus filiados." (ESTATUTO DAS LIGAS, 2002:183).



242 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                                           Sociologia

                   Desta forma, tem-se que na organizao e reivindicaes das Ligas
               estava presente alm da luta por uma redistribuio dos latifndios,
               antes de tudo, uma melhor condio do homem do campo e a sua de-
               vida assistncia. As ligas Camponesas sofreram um revs e chegam ao
               seu fim quando ocorre o golpe militar de 1964, impossibilitando qual-
               quer atuao do movimento.
                   As causas do golpe militar foram as mais diversas, mas podemos
               colocar a existncia de um governo progressista no Estado Federal,          Burguesia Nacional:
               aliada a uma srie de manifestaes sociais que colocavam em risco in-      detentores de capital e dos
               teresses da burguesia nacional e internacional. Havia tambm a ame-         meios de produo cuja ori-
               aa  grande propriedade rural, associada  existncia do Partido Co-       gem  a mesma do pas no
               munista, em um cenrio internacional que apontava, de certa forma,          qual investem.
               uma possvel expanso do socialismo na Amrica Latina. Estes fatores
               criaram condies para a efetivao do golpe poltico da direita que to-
               mou o poder e decretou o fim de todos esses movimentos.
                   Da que podemos compreender que a histria do Brasil  marcada por
               uma srie de atos polticos e sociais tanto da classe trabalhadora quanto
               da burguesia  procura de melhores condies para a sua existncia. Co-
               mo j foi mencionado no "Folhas" anterior, esta situao geralmente leva
               ao conflito, sendo que os movimentos sociais so a expresso dos mes-
               mos, ao mesmo tempo que o golpe militar em 1964 tambm o .
< Foto: O. Jansen




             < Revolta dos Posseiros  Capanema  PR (1957)

                                                                                    Movimentos Agrrios no Brasil 243
        Ensino Mdio



                       PESQUISA

         Realize uma pesquisa que aborde os motivos do golpe militar em 1964 e suas conseqncias para
      os movimentos sociais e partidos de esquerda existentes no Brasil naquela poca.




                                  Bom,  fato: a ditadura militar brasileira impediu uma maior expan-
                              so dos movimentos sociais no ps-1964, mas, no entanto, estes nunca
                              deixaram de existir efetivamente, pois, se por um lado o golpe os aba-
                              fou, por outro, ele no resolveu uma srie de questes sociais que es-
                              tavam presentes na nossa realidade e que levavam parte da populao
                              a retomar a luta por reivindicaes anteriores. O problema da concen-
                              trao de terras, por exemplo, agravou-se.


                              z A reorganizao dos trabalhadores rurais:
                                A retomada da luta pelo MST
                                  Entre 1964 e 1985, durante o perodo de ditadura militar, o capitalis-
                              mo no Brasil conheceu um certo tipo de "crescimento"; hoje, tambm
                              fruto desse crescimento o pas  verdadeiramente um gigante, mas 
                              um gigante na ordem dos pases que se subordinam aos interesses do
                              capital internacional e dos pases centrais.
                                  A partir de 1964, a economia nacional conheceu uma forma de de-
                              senvolvimento na qual a sua produo passou a ser direcionada pa-
                              ra dois plos principais. De um lado a intensificao da produo dos
                              bens de consumo durveis (automveis, eletro-eletrnicos), e de ou-
                              tro, o esforo para uma produo com carter exportador. Tais medi-
                              das econmicas proporcionaram um surto de desenvolvimento econ-
                              mico, que s teria fim nos anos 70.
                                  Entretanto, assim como em outros perodos da histria nacional, os
                              mesmos mecanismos que asseguraram o xito do chamado "milagre
                              econmico" do perodo militar, condicionaram e conduziram ao seu
                              prprio fim. Se o regime militar proporcionou, de uma forma ou de
                              outra, um suposto desenvolvimento econmico nacional, por outro la-
                              do, este mesmo governo trouxe diversas mazelas para a Nao.
                                  Entre os problemas desencadeados pelos governos militares, sem
                              dvida, a questo do "arrocho salarial" foi a mais significativa. Por
                              meio de medidas constitucionais, o governo proibiu o aumento dos sa-
                              lrios em perodos menores que um ano; e quando os reajustes eram
                              efetivados, quem fornecia os ndices era o prprio governo (Justia do

244 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                              Sociologia

Trabalho  Federal), certamente manipulando-os, sendo estes sempre             Crise do Petrleo: Na
inferiores ao da inflao do ano anterior.                                    dcada de 1970 houve
    Assim, as custas dos trabalhadores e de um regime no qual qual-           duas crises do petrleo, a
quer manifestao contrria ao governo era absolutamente proibida, o          primeira em 1973 e a se-
Brasil, na dcada de 1970, teve elevados ndices de crescimento, que          gunda em 1978, ambas
se tornaram conhecidos como o "milagre econmico".                            fruto de uma alta do pre-
                                                                              o do petrleo, que sen-
    No entanto, este surto de acelerao da economia entrou em co-
                                                                              do a matria-prima bsica
lapso a partir de 1973, quando se tem no mbito internacional a cha-
                                                                              (combustvel e derivados),
mada "crise do petrleo". E em alguma medida foi tornando-se cada             criaram um colapso econ-
vez mais difcil sustentar as formas manipulatrias do Estado brasilei-       mico no mundo capitalista.
ro, j que em determinado momento, boa parte da burguesia nacional
tornou-se contrria aos militares, pois estes no estavam satisfazendo-
os tanto como desejavam. Tais insatisfaes aumentaram ainda mais,
quando no ano de 1978, ocorre a "2 crise do petrleo", deixando a
economia mais vulnervel, tanto pensando na tica dos trabalhadores
como da burguesia, pois o crescimento nacional a altos ndices no
mais ocorre ao mesmo tempo que se mantm o "arrocho" salarial.
     neste momento que se tem no plano nacional duas situaes conhe-
cidas, que ocorreram concomitantes: de uma lado o Estado  tendo como
presidente o general Ernesto Geisel  j propondo, em vista da sua pou-
ca legitimidade e do esgotamento da experincia ditatorial, uma transio
a um regime democrtico de forma " lenta, gradual e segura"; e de ou-
tro lado, a efervescncia de vrios movimentos sociais, pois parte da po-
pulao, principalmente trabalhadores e moradores pobres das periferias
das grandes cidades, j no se subordinava totalmente ao silncio impos-
to pelos militares."
    Inegavelmente, a segunda metade da dcada de 1970 foi marcada
por profundas tentativas de oposio ao regime militar: se de um lado,
a prpria burguesia comeava a se incomodar em alguns momentos
com o regime, de outro, as contestaes por parte do movimento es-
tudantil, das articulaes nos bairros (por meio da Igreja Catlica) con-
tra a carestia comeam a tomar flego.
    Iniciava-se um processo de manifestaes e a tentativa de mais uma
vez inserir os intelectuais, polticos e militantes (que estiveram, ou ain-
da estavam exilados), na cena nacional. Uma das discusses que se
processam neste perodo j era a tentativa de se reestabelecer os anti-
gos partidos de esquerda (que at este momento, tinham um peque-
no espao legal apenas por intermdio do MDB), e ainda, a criao de
novas organizaes sociais e partidos.
     marca desse perodo o surgimento no s do Movimento dos Tra-
balhadores Rurais Sem-Terra MST (1984), mas tambm do Partido do
Trabalhadores  PT, no final da dcada de 1970.
    Nesse momento de crise econmica e poltica nacionais, junto 
possibilidade novamente de organizao coletiva  que o MST surgiu,


                                                                       Movimentos Agrrios no Brasil 245
                                          Ensino Mdio

                                                                       a princpio sem uma organizao centralizada; uma srie de conflitos
                                                                       de terras aconteceu durante o regime militar, mas s com o surgimen-
                                                                       to da Comisso Pastoral da Terra (CPT), o movimento comeou a se
                                                                       articular.
                                                                           O movimento, embora j existisse desde o final da dcada de 1970,
                                                                       s ganha estatuto de movimento organizado nacionalmente em 1984
                                                                       com o 1 Encontro Nacional, na cidade de Cascavel, no estado do Pa-
                                                                       ran. Em 1985, acontece o 1 Congresso Nacional do MST, na cida-
                                                                                                de de Curitiba, tambm, no estado do Paran.
                                                                                                (Documentos e mais informaes sobre o MST
                                                                                                visitem o site www.mst.org.br)
  < www.mst.org.br/multimidia/gfotos




                                                                                                    Esses dois momentos marcaram o surgi-
                                                                                                mento de um movimento que ao longo da d-
                                                                                                cada de 1980 e 1990 deixou marcas profundas
                                                                                                na histria nacional. Se estas marcas so ques-
                                                                                                tionveis ou no, o fato  que a produo agr-
                                                                                                ria no Brasil volta a ser discutida, bem como a
                                                                                                distribuio de terras, e ainda, as desigualda-
                                   < Encontro dos Sem Terrinha                                  des sociais existentes nesta sociedade.
                                                                           A forma de atuao do MST  feita a partir de ocupaes de terras
                                                                       pblicas ou particulares (latifndios improdutivos ou que possuem d-
                                                                       vidas com o Estado) criando um fato poltico que pressiona os rgos
                                                                       pblicos a negociarem a concesso da posse da terra. Certamente, es-
                                                                       te processo de ocupao nem sempre  harmonioso, grandes conflitos
                                                                       armados e sangrentos j ocorreram.
                                                                           Como foi dito no "Folhas" anterior a respeito dos movimentos so-
                                                                       ciais, em alguns movimentos  evidente a defesa de interesses e vises
                                                                       de mundo que surgem a partir das condies de classe de seus mem-
                                                                       bros. No caso do MST, seu interesse, a saber a Reforma Agrria, entra
                                                                       em conflito necessariamente com os interesses da burguesia proprie-
                                                                       tria dos latifndios.
                                                                           Em vrias ocasies h conflitos entre os integrantes do MST e a po-
                                                                       lcia, que , por vezes, incumbida pela justia de restaurar a posse da
                                                                       terra. Outras vezes enfrentam milcias armadas pelos fazendeiros pa-
                                       Fato Poltico:                  ra evitar que ocupem suas terras. Os latifundirios no Brasil possuem
                                                                       uma organizao prpria criada em 1985, chamada UDR (Unio De-
                                       Atividade realizada por um
                                                                       mocrtica Ruralista), cujo objetivo  a defesa da propriedade fundiria,
                                       grupo que desencadeia
                                       uma srie de conseqn-
                                                                       que seus possuidores julgam estar ameaadas pelo MST.
                                       cias, dentre elas, tornar p-       Quando a ocupao  considerada legal ainda demora um perodo
                                       blica a sua reivindicao,      para que os integrantes do movimento consigam a posse da terra. Por
                                       tendo como principal obje-      mais que grandes dificuldades sejam encontradas nesses processos de
                                       tivo a ateno da imprensa      ocupao at o da conquista do direito da posse da terra, uma outra
                                       e do Estado para uma re-        srie de problemas  criada a partir do momento em que se conquis-
                                       soluo mais rpida do pro-     ta o direito da terra.
                                       blema.


246 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                                                Sociologia

    Um desses problemas  o de como organizar a produo agrcola,
agora que o latifndio foi dividido em uma srie de pequenas proprie-
dades? E ainda, como criar possibilidades para que esses "novos" peque-
nos proprietrios sobrevivam e consigam tirar da terra o seu "po"?
    Uma das sadas que vem sendo gerada pelo movimento  o de or-
ganizar a pequena propriedade em cooperativas, ou mesmo os agricul-
tores se unirem para produzirem coletivamente, buscando assim uma
maior insero destes produtos no mercado.
    Por seu lado, essas alternativas tambm enfrentam dificuldades.
Muitas vezes, por conta do incentivo insuficiente dado pelos gover-
nos, o pequeno produtor no resiste e acaba por vender a terra. A co-
mercializao da terra "conquistada" pela Reforma Agrria por par-
te dos integrantes dos Movimentos
de Sem-Terra,  um dos fatos que
recebe a crtica mais comum pre-
sente entre a populao em geral.
Tambm, no podemos deixar de




                                                                                         < www.mst.org.br/multimidia/gfotos
mencionar o papel da mdia na n-
fase que ela d a esse fato, tratan-
do-o de modo isolado das suas cau-
sas. De um modo geral, quanto ao
MST, as notcias de boa parte da m-
dia, so quase sempre tendenciosas
 favorveis s posies dos pro-
                                       < Acampamento Cabanos no Maranho
prietrios de terras




                ATIVIDADE

    Procure notcias de jornais ou, se possvel, assista ao documentrio chamado "Meu bem, meu
 mal"-- sobre a caravana do MST que se dirigia a Curitiba no ano de 2000, e teve um dos integrantes
 morto num confronto com a polcia -- e avalie a quem a reportagem analisada acaba defendendo.


   Alm de tudo, deve-se levar em considerao que a concorrncia
do pequeno produtor com a produo em larga escala e mecanizada
no campo, na maioria das vezes,  desleal, j que o latifndio no s
possui toda uma infra-estrutura para sua produo como tambm, con-
segue muito mais facilmente crditos dos governos, geralmente por
sua produo ter como finalidade a exportao.
   Dentre as tentativas de superao destes obstculos, o MST tam-
bm possui como alternativa no s a capacitao poltica, mas tam-
bm tcnica do assentado, formao preocupada em fornecer conhe-
cimentos adequados para um melhor aproveitamento da terra.

                                                                       Movimentos Agrrios no Brasil 247
        Ensino Mdio

                                 O MST, alm de ser contrrio a um nico tipo de produo agro-ex-
                              portadora (monocultura), tambm incentiva a realizao de culturas que
                              deixem de utilizar agrotxicos em seus produtos, bem como o de se-
                              mentes transgnicas, realizando inclusive encontros agroecolgicos, na
                              tentativa de gerir novas experincias.
                                 Certamente, a repercusso do MST, no Brasil, aumentou em muito
                              a partir de meados dos anos 1990, quando alguns conflitos ocorreram
                              em diversas ocupaes. Tendo em vista sua capacidade de articulao,
                              o movimento tambm aumentou sua atuao na sociedade, participan-
                              do de uma srie de outras discusses como, por exemplo, colocando-
                              se contra a ALCA (rea de Livre Comrcio das Amricas), discutindo o
                              papel da mulher e produzindo um projeto poltico-pedaggico para os
                              processos educacionais que acontecem nos seus assentamentos.
                                 O MST certamente  fruto de um conjunto de fatores histricos na-
                              cionais e internacionais do desenvolvimento do capitalismo que cria-
                              ram uma realidade social cheia de conflitos e contradies, da mesma
                              forma que as Ligas Camponesas foram uma tentativa de luta e reivin-
                              dicao por melhores condies do trabalhador rural.




                                                                                                < www.mst.org.br/multimidia/gfotos
                                              < Assentamento Santa Maria do Oeste - PR



                       ATIVIDADE

          Como ltima atividade a ser desenvolvida, sugerimos uma sada a campo realizando uma visita a um
      assentamento ou acampamento do MST, para conhecer essa realidade. Uma outra sugesto  a leitu-
      ra de notcias que tratem do tema da Reforma Agrria, bem como, vdeos que falem sobre o movimen-
      to realizando assim uma produo de texto.




248 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                           Sociologia

z Referncias:
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  liense, 1973.
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  Paulo: Expresso Popular, 2002.
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  www.incra.gov.br. Acesso em 30/11/2005
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z Vdeos
  Cabra marcado para morrer, 1984, Brasil, direo: Eduardo Coutinho.
  O bem e o mal, 2001, Brasil, Direo: Tet Moraes.
  O sonho de Rose, 2001, Brasil, Direo: Tet Moraes.




                                                                        Movimentos Agrrios no Brasil 249
                                                                          15
                                                         MOVIMENTO
                                                         ESTUDANTIL           <Valria Pilo1



                                                    nquanto estudante o que voc pode
                                                    fazer para transformar a sociedade
                                                  na qual voc se encontra?

                                                   er que os estudantes, quando organi-
                                                  zados, podem ser considerados movi-
                                                  mentos sociais?

                                                    ser que essas organizaes j trou-
                                                   xeram mudanas para a sociedade?




Colgio Estadual Paulo Leminski  Curitiba - PR
1
        Ensino Mdio

                                  Em novembro de 1985, foi criada uma lei federal que regulamen-
                              ta o funcionamento das entidades estudantis no Brasil. Essa lei, de n
                              7.398 de 4 de novembro de 1985, assegura aos estudantes do Ensino
                              Fundamental e Mdio o direito de se organizarem autonomamente e
                              criarem uma entidade representativa de seus interesses.
                                  Mas voc sabe como funcionam tais entidades e conhece esta lei?
                                  O que estamos tratando  da possibilidade, por exemplo, dos alu-
                              nos de qualquer escola no Brasil poder criar um Grmio Estudantil a
                              partir da eleio direta do corpo discente (alunos).
                                  Est na lei n 7.398:
                                   "Art. 1o  Aos estudantes dos estabelecimentos de ensino de 1 e 2
                                              graus fica assegurada a organizao de Estudante como en-
                                              tidades autnomas representativas dos interesses dos estu-
                                              dantes secundaristas com finalidades educacionais, cultu-
                                              rais, cvicas, esportivas e sociais".


                                  Qual o procedimento que devemos ter para criar um Grmio?
                                   criada uma ou mais chapas, compostas por alunos da prpria es-
                              cola, que concorrero a uma eleio, e posteriormente, representaro
                              os interesses dos alunos nas discusses da escola.
                                  Portanto, a partir dessa lei, o estudante alm de se organizar en-
                              quanto entidade representativa, tambm pode reivindicar mudanas
                              no s dentro da sua escola, como tambm, no que diz respeito  so-
                              ciedade em que est envolvido.
                                  Boa parte das instituies de ensino hoje, tanto do Ensino Funda-
                              mental e Mdio, como as de nvel Superior, possuem suas entidades
                              representativas. As escolas possuem seus Grmios Estudantis, as Uni-
                              versidades possuem CA's (Centros Acadmicos), DA (Diretrio Aca-
                              dmico) e DCE (Diretrio Central dos Estudantes); e ainda existem
                              entidades que representam o coletivo dos estudantes no s na insti-
                              tuio, mas em toda a sociedade, nas mais diversas instncias. Assim,
                              temos no Estado do Paran a UPE (Unio Paranaense de Estudantes)
                              e a UPES (Unio Paranaense de Estudantes Secundaristas), e em nvel
                              nacional a UBES (Unio Brasileira de Estudantes Secundaristas), a UNE
                              (Unio Nacional dos Estudantes).
                                  Mas nem sempre foi assim na histria do Brasil. Durante o perodo
                              militar (1964-1985), essas entidades foram proibidas de se organizarem
                              em acordo com a lei. No que as mesmas deixaram de existir, mas elas
                              estiveram na clandestinidade durante quase todo o perodo, e por con-
                              seqncia, seus integrantes tambm.
                                   Agora, se essas organizaes eram ilegais (do ponto de vista cons-
                              titucional e jurdico), por que esses estudantes colocaram suas vidas
                              em risco fazendo parte dessas instituies e organizando movimentos
                              sociais no Brasil durante esse perodo?

252 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                            Sociologia

    A resposta certamente no  porque eles eram baderneiros, ou dese-
javam criar conflitos sem nenhum sentido, muito pelo contrrio, esses
estudantes que na poca fizeram parte dos movimentos estudantis, de-
sejavam uma sociedade mais justa, democrtica, na qual de fato pu-
dessem defender seus interesses.
    Portanto, da mesma forma que os movimentos sociais j estuda-
dos nos textos anteriores, como o movimento dos trabalhadores rurais
sem-terra  que defendem o fim do latifndio e a reforma agrria , o
movimento social organizado pelos estudantes tambm reivindicavam
transformaes na sociedade brasileira.
    E isso no acontece s no Brasil, em outros pases como a Frana,
os Estados Unidos da Amrica, a Alemanha, a Itlia, o Chile, a Argenti-
na, a Espanha, dentre tantos outros pases, possuram ou possuem mo-
vimentos estudantis, defendendo os mais diversos motivos.



                ATIVIDADE

    A sua escola tem um Grmio Estudantil? Voc sabe quais atividades esse Grmio tem desenvolvido
 em prol de voc, estudante, e da sua comunidade? Discuta as suas propostas em sala de aula, bus-
 cando interferir nessa entidade.
     Caso em sua escola no exista um grmio, organizem-se de modo a oferecer discusses que pro-
 porcionem a criao de um.
     Para obter maiores informaes sobre como organizar um Grmio, bem como as lutas do movimen-
 to estudantil na atualidade, procurem as entidades representativas no Estado ou mesmo as Nacionais.



    A segunda metade do sculo XX teve em sua histria uma srie de
situaes que de certa maneira criaram condies para o surgimento
de inmeros movimentos sociais.
    No caso especfico do Brasil, o golpe militar de 1964 deu incio ao
regime ditatorial, incompatvel com os valores democrticos e, acabou
por favorecer e desencadear movimentos sociais, tanto de oposio
quanto de defesa do governo vigente.
    O regime ditatorial brasileiro tinha como um de seus objetivos con-
ter as crescentes manifestaes de carter popular, que exigiam refor-
mas sociais, mais ou menos, profundas (agrria, estudantil e urbana,
principalmente). A direita e a extrema direita poltica da poca, julga-
vam que essas manifestaes e reivindicaes estavam vinculadas de
forma direta e indireta  expanso do socialismo e do comunista pe-
lo mundo.




                                                                               Movimento Estudantil 253
          Ensino Mdio

                                         No podemos deixar de lembrar que durante a dcada de 1960,
                                     ocorria no mundo a chamada Guerra Fria, cujos principais participan-
                                     tes eram a ex-URSS (Unio das Repblicas Socialistas Soviticas) e os
                                     Estados Unidos. Ps-II Guerra Mundial estabeleceu-se uma disputa en-
                                     tre essas duas potncias, que desejavam a expanso e consolidao de
    Guerra Fria:                     seus regimes econmicos e polticos, a saber, o socialismo e o capita-
    Momento histrico iniciado       lismo. E este fator externo foi fundamental para o advento da ditadu-
    aps o fim da II Guerra Mun-     ra militar no Brasil, inclusive contando com a participao direta de
    dial, no qual EUA (Estados       organizaes secretas e militares norte-americanas como a CIA (Agn-
    Unidos da Amrica) e URSS        cia Central de Inteligncia dos Estados Unidos) no processo de treina-
    (Unio das Repblicas So-        mento dos militares brasileiros e observando o desencadeamento das
    cialistas Soviticas) dividem    aes da esquerda.
    o mundo em dois blocos, o            Os jornalistas tinham suas reportagens censuradas, os atores e es-
    que era capitalista e o blo-
                                     critores tinham suas peas impedidas de serem exibidas, os professo-
    co comunista. Neste perodo
                                     res eram obrigados a deixarem as salas de aula por emitirem opinies
    houve uma srie de confli-
                                     contrrias tanto ao regime ditatorial, como tambm, os valores morais
    tos indiretos entre esses dois
    pases dentro de outros ter-     e sociais impostos pelo Estado.
    ritrios nacionais, como, por        Um grande nmero de partidos e organizaes de esquerda surgiu
    exemplo, Cuba ou o Vietn. A     neste perodo de tenso na sociedade brasileira, cujo principal objeti-
    corrida armamentista, o de-      vo era o fim da ditadura militar.
    senvolvimento tecnolgico-           Cada organizao desta exerceu, durante a ditadura, um importan-
    espacial e a busca pela ex-      te papel de resistncia. Uma srie de aes foram pensadas e realiza-
    panso de seus regimes em
                                     das na busca pela transformao da sociedade brasileira.
    outros pases tambm foram
    marcas desse perodo.                Podemos ento citar dentre essas mais variadas formas de atuao
                                     na sociedade brasileira: O PCB (Partido Comunista Brasileiro), ALN
                                     (Aliana Libertadora Nacional), PCBR (Partido Comunista Brasileiro
                                     Revolucionrio), MR-8 (Movimento Revolucionrio 8 de outubro), o
                                     Partido Comunista do Brasil (PC do B), Ao Popular (AP), a POLOP
                                     (Organizao Operria Marxista Poltica Operria), isso para elencar
                                     apenas algumas.
                                         Esses grupos tinham as mais diferentes orientaes: uns tinham co-
                                     mo meta a guerrilha armada, outros discutiam a formao de uma "fren-
                                     te ampla", a qual uniria a burguesia nacional, os trabalhadores e as mais
                                     diversas organizaes sociais para combater a ditadura.
                                         Entre as formas de interveno desses grupos, podemos lembrar da
                                     prtica de seqestros organizados pelo MR-8, que chegaram a incluir
                                     embaixadores estrangeiros, e tambm a realizao de assaltos a bancos,
                                     organizados como o intuito de arrecadar fundos para a resistncia  di-
                                     tadura.
                                         O prprio movimento estudantil desenvolvia aes que questiona-
                                     vam e combatiam a ditadura. Mesmo antes da execuo do golpe em
                                     1964, principalmente a UNE possua uma srie de atividades, nas quais
                                     a valorizao do nacional estava posta em primeiro plano.
                                         Uma dessas atividades era em torno dos CPC's (Centro Popular de
                                     Cultura). Esta entidade foi criada no ano de 1962 pela UNE e tinha co-

254 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                        Sociologia

mo objetivo fomentar a produo cultural brasileira. Seus incentivos
davam-se em todas as reas da arte. Em todas as obras que foram pro-
duzidas estavam presentes um carter nacional popular associado ao
protesto social. Com esta nova concepo sobre o que a arte tinha de
representar, objetivava-se criar uma unidade nacional por meio da va-
lorizao da populao brasileira, trazendo para o centro das manifes-
taes artsticas o seu cotidiano e suas experincias sociais.
     Dessa forma, a msica, o teatro e todas as outras manifestaes ar-
tsticas tinham como objetivo final de suas produes a apresentao
de temas que fossem, de algum modo, ligados s classes populares do
pas, buscando criar uma identidade nacional que se opunha aos va-
lores culturais das elites dominantes, "contaminados" por cultura es-
trangeira.
     Um bom exemplo para este tipo de produo que valorizava o na-
cional popular e ainda realizava protesto  a msica "Subdesenvolvi-
do", de Carlos Lyra e Chico de Assis.
     Nessa msica, a letra descreve uma situao j bastante comum na
poca, que era a incorporao de valores que no eram nacionais, mas
sim norte-americanos, denominado pelos autores de "americanos".
     Eles fazem referncia ao consumo de formas de pensar, danar e
cantar que tinham sua origem nos EUA, um pas desenvolvido. Este
pas, segundo a letra, nos influenciava, mas, no entanto, estas formas
de pensar no correspondiam  nossa realidade nacional.

                               Subdesenvolvido
    Os versos da msica dizem:
     "[...] O povo brasileiro embora pense, dance, cante como o americano,
                            no come como americano
                          no bebe como americano
                            vive menos, sofre mais
                    [...] Subdesenvolvida, subdesenvolvida
                        Essa  que  a vida nacional".

    Portanto, temos uma letra que discute a incorporao de um modo
de vida que no  brasileiro, de um povo que no possui as dificulda-
des nacionais e ainda, no vive numa nao subdesenvolvida.
    E a soluo para este tipo de problema, seguindo a proposta do
CPC, seria a elaborao cultural e terica de manifestaes genuina-
mente brasileiras, que resgatassem a produo nacional popular e ain-
da, que fossem instrumento de crtica poltica e social.
    Os trabalhos desenvolvidos pelos artistas que compunham o qua-
dro do CPC's da UNE, portanto, desejavam criar uma arte que resga-
tasse o nacional popular e, ao mesmo tempo, fosse uma forma de se
protestar contra questes de carter poltico e social.

                                                                             Movimento Estudantil 255
        Ensino Mdio

                                       O movimento estudantil realizou outros atos contra as polticas edu-
                                   cacionais, j sob o regime militar brasileiro. No ano de 1965, os estu-
                                   dantes saram s ruas reivindicando mais verbas para o ensino, como
                                   tambm o fim do acordo MEC-USAID (Ministrio de Educao e Cul-
                                   tura/Agncia e Ajuda Externa dos EUA).
                                       Uma das principais mudanas propostas no acordo com a Agn-
                                   cia norte-americana dizia respeito ao incentivo  privatizao do ensi-
                                   no brasileiro, principalmente o Ensino Superior. Alm disso, a Agncia
                                   financiava programas educacionais de carter conservador e subsidia-
                                   va ainda a formao de ps-graduados no EUA. O USAID tambm ti-
                                   nha como objetivo promover no estrangeiro uma posio favorvel
                                   aos EUA no que dizia respeito  Guerra Fria. Em um dos seus relat-
                                   rios afirmava:

                                       "A Guerra Fria  uma batalha para o intelecto do homem [...].Se ns pu-
                                    dermos ajudar essas universidades a exaltar a verdade, a encontr-la e a
                                    ensin-la, ento ns teramos a maior segurana de que o Brasil seria uma
                                    sociedade livre e um amigo leal dos Estados Unidos". (USAID apud GERMANO, 2000;
                                    127-8)



                                                                                      Confronto entre policiais e estu-
                                                                                      dantes em So Paulo, em agos-
                                                                                      to de 1968.




                                                                                    < Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manh.


                                      Com posies contrrias a essas polticas educacionais propostas
      Grupos Paramilita-           pela Reforma Universitria, mais uma vez, o movimento estudantil co-
     res: : organizaes de ca-    loca-se contra as polticas desencadeadas pelo governo militar.
     rter privado, que reprodu-      Por conta de suas atuaes na sociedade brasileira, a UNE, e de
     zem o iderio do Estado e
                                   modo geral, todo o movimento estudantil foi alvo do governo militar
     realizam aes com estru-
                                   brasileiro. J em 1 de abril de 1964, a sede da UNE, localizada no Rio
     turas muito parecidas com
                                   de Janeiro, foi invadida e incendiada por um grupo paramilitar chama-
     as do Exrcito.
                                   do CCC (Comando de Caa aos Comunistas). Esses grupos paramilita-
                                   res agiram durante quase todo o perodo da ditadura, na tentativa de
                                   eliminar os movimentos sociais existentes que representavam um su-
                                   posto "perigo vermelho", como comunistas (organizados ou no nos
                                   partidos), e os estudantes que eram, em boa parte,vinculado  UNE.
                                       Fazer oposio a esse regime, no entanto, era uma ao bastante
                                   perigosa, principalmente, aps o ano de 1968, quando os militares ins-

256 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                        Sociologia

tituem o chamado AI-5 (Ato Institucional n 05). Esses Atos eram ins-
trumentos jurdicos que permitiam a criao de novas leis, que se so-
brepunham a Constituio Nacional, mas ao mesmo tempo permitiam
a utilizao da mesma no que estivesse de acordo com os valores do
regime militar.
    Consta no artigo 4do Ato Institucional n 05 de 13 de dezembro
de 1968:

     " Art 4 - No interesse de preservar a Revoluo, o Presidente da
                 Repblica, ouvido o Conselho de Segurana Nacional,
                 e sem as limitaes previstas na Constituio, poder
                 suspender os direitos polticos de quaisquer cidados
                 pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos fede-
                 rais, estaduais e municipais".

    Esse ato dentre as vrias aes que deliberava, colocou o Congresso
Nacional em recesso, da mesma forma que vrias Assemblias Legisla-
tivas Estaduais e Cmaras de Vereadores. Diversos parlamentares foram
cassados e presos, inclusive um dos articuladores do golpe de 1964, Car-
los Lacerda que, at o ano de 1965, mantinha-se como governador do
antigo estado da Guanabara, hoje Rio de Janeiro. Este ato demonstra co-
mo o governo estava tornando-se cada vez mais rgido e punitivo.
    A criao deste ato institucional ainda possibilitava que a qualquer
momento fosse dada voz de priso ao cidado e encaminhado as insti-
tuies competentes (polcia poltica), sem a necessidade de um man-
dato judicial e sem a garantia do direito de "hbeas corpus", que  um
direito garantido por Constituio, no qual  possvel que o preso seja
libertado e aguarde todo o andamento do processo.
    Isso possibilitava que a cada passo julgado equivocado pelo gover-
no, a cada palavra dita fora da medida estabelecida pelo mesmo, o ci-
dado poderia ter rapidamente sua priso decretada ou mesmo seus
direitos de poltico, de jornalista, de compositor impossibilitados de se-
rem exercidos.
    Do ponto de vista social e poltico estabeleceu-se um caos no pa-
s do futebol, que no mais possua um rbitro que antes do jogo es-
tabelecesse as regras do mesmo, muito ao contrrio, as regras, as nor-
mas e as possibilidades eram a todo o instante alteradas, obviamente,
sempre de acordo com os interesses do governo.
     em meio desse conflito social e poltico, no qual os partidos e or-
ganizaes de esquerda existentes estavam na ilegalidade e eram sem-
pre considerados subversivos, e ainda, numa nao na qual existiam
no Congresso Nacional apenas dois partidos polticos: o MDB (Movi-
mento Democrtico Brasileiro) e a ARENA (Aliana Renovadora Nacio-
nal), que o movimento estudantil brasileiro faz forte oposio ao go-
verno, exigindo direitos democrticos e mudanas em suas polticas.

                                                                             Movimento Estudantil 257
                                                 Ensino Mdio

                                                                             O ano de 1968 marca a histria do Brasil, no entanto, no s pela
                                                                         criao do Ato Institucional n 05, mas, tambm, porque neste mesmo
                                                                         ano foram realizadas inmeras aes contrrias ao governo militar orga-
                                                                         nizadas pelo movimento estudantil de grande repercusso nacional.
                                                                             Uma srie de fatos marca o movimento estudantil no ano de 1968,
                                                                         um dos mais chocantes foi a morte do estudante Edson Lus, no Rio de
                                                                         Janeiro, em maro deste referido ano. Sua morte deve-se a um confli-
                                                                         to entre os estudantes e a PM (Polcia Militar), a Polcia Civil e agentes
                                                                         do DOPs (Departamento de Ordem Poltica e Social).
                                                                             Os estudantes estavam reivindicando que o restaurante universit-
                                                                         rio Calabouo, na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) tives-
                                                                         se o valor de suas refeies reduzidas alm das melhorias e concluso
                                                                         das obras no estabelecimento.
                                                                             Uma manifestao foi organizada para que essas reivindicaes se
                                                                         tornassem pblicas, no entanto, neste perodo, era necessrio pedir
                                                                         que o governo a autorizasse. Uma vez no sendo autorizada, e ain-
                                                                         da, por ser contrrio ao governo, esse movimento foi brutalmente re-
                                                                         primido com violncia dos policiais, levando o estudante Edson Lu-
                                                                         s  morte.
                                                                                                    A partir da morte deste estudante, vrios con-
                                                                                               flitos envolvendo os estudantes, a comunidade
                                                                                               de modo geral e a polcia foram acirrados. A re-
 < Foto: Arquivo Nacional-Correio da Manh.




                                                                                               presso policial tomava as formas mais brutais,
                                                                                               deixando alguns setores da sociedade escanda-
                                                                                               lizados com os fatos que eram transmitidos pe-
                                                                                               la imprensa.
                                                                                                    Na missa de stimo dia de Edson Lus, no-
                                                                                               vamente todos os participantes, inclusive os pa-
                                                                                               dres, foram cercados pela presena de policiais e

                                               Estudantes carregam caixo com o corpo de Edsonda cavalaria na frente da Igreja da Candelria no
                                                                                              Rio de Janeiro, antes e depois da missa.
                                              Lus Lima Souto, morto em confronto com a polcia
                                              militar em 28 de maro de 1968, no Rio de Janeiro. A tenso e o medo de se desencadear no-
                                                                                              vamente um massacre com os presentes para a
                                                                                              missa, fez com que no final da mesma, todos sa-
                                                                         ssem juntos, com os padres na primeira fila.

                                                                              " No gritem, no falem nada -- de vez em quando dizia um padre. --
                                                                           Devagar, ningum corre.
                                                                              O silncio do cortejo permitia que se ouvisse a impacincia do inimigo
                                                                           que os esperava a alguns metros: era aquele mesmo rudo de cascos de
                                                                           cavalos que antes chegava ao altar e agora estava cada vez mais prximo"
                                                                           (VENTURA, 1988: 121).




258 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                               Sociologia

     Mas apesar da represso mostrar-se cada vez mais dura e obstinada
em liquidar seus adversrios, as manifestaes, dos mais diversos gru-
pos no deixaram de acontecer. Por todo o pas, tanto os estudantes,
como os intelectuais e militantes no deixaram de se organizar.
     Em So Paulo, so impressionantes os relatos que tratam dos con-
flitos na Rua Maria Antonia, onde se localizavam a Faculdade de Filo-
sofia da USP e a Faculdade Mackenzie. No caso de So Paulo, o confli-
to foi entre estudantes que tinham posies contrrias, os que tinham
uma postura de esquerda, contestadora da ditadura com alunos cujas
posies polticas estavam vinculadas ao do regime militar.

     "[...] os estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filo-
 sofia da Universidade comearam uma batalha de tiros, bombas, rojes e
 coquetis molotov que durou at o dia seguinte, deixando como saldo um
 prdio incendiado, muitos feridos e um morto: o secundarista Jos Guima-
 res de 20 anos". (VENTURA, 1988: 221)

    Como j foi afirmado anteriormente, a participao em movimentos
sociais est vinculada  posio poltica que defendemos na socieda-
de. Desta forma, podemos encontrar no movimento estudantil os con-
trrios  existncia do prprio movimento contra a ditadura. Estes esta-
vam por sua vez inseridos em organizaes paramilitares como o CCC
(Comando de Caa aos Comunistas), j citado anteriormente.
    Os conflitos, portanto, aconteciam tendo os mais variados objeti-
vos e defesas. E estes levavam a sociedade brasileira a uma situao
de tenso constante. Inclusive, aps a promulgao do AI-5, este esta-
do de "nervosismo" tornou-se ainda mais comum, nem tanto pelo au-
mento dos conflitos, pois estes foram progressivamente reduzindo-se,
j que o risco de ser preso e morto era enorme, mas pela dificuldade
extrema de posicionar-se politicamante
    A lista de presos, torturados e desaparecidos durante a ditadura
brasileira  imensa, h 125 presos polticos, cujo destino suas famlias
nunca descobriram, mesmo existindo, j na poca, um movimento or-
ganizado pelas mes e familiares dos presos que desejavam obter no-
tcias de seus paradeiros.



                PESQUISA

     Vivemos em um pas democrtico, podemos eleger nossos governantes, podemos nos posicionar
 politicamente, podemos inclusive nos manifestar contra uma srie de situaes livremente... Ser? Faa
 uma pesquisa sobre o movimento estudantil nos ltimos anos aqui no Paran e na sua cidade, e pro-
 cure descobrir quais so as reivindicaes do movimento estudantil na atualidade e ainda, pesquise se
 estas foram alcanadas.


                                                                                  Movimento Estudantil 259
        Ensino Mdio

        A tenso e o descontentamento desses anos da ditadura brasileira podem ser percebidos
    vislumbrando-se no s uma srie de manifestaes dos estudantes, mas, tambm, podem ser
    ouvidos e sentidos quando analisamos uma srie de composies da poca.
        Em muitas composies de vrios artistas nacionais era cantada a tristeza do exlio, ou mes-
    mo, a melancolia de uma sociedade na qual os direitos polticos dos cidados estavam com-
    pletamente limitados. Neste perodo da nossa histria, vrios compositores, das mais diferentes
    vertentes musicais da poca: tropicalismo, msica popular brasileira tiveram suas canes par-
    cial ou completamente censuradas pelos militares.
        Chico Buarque de Holanda, um dos mais importantes                    Apesar de voc
    compositores da msica popular brasileira, teve diversas
                                                                         "[...] Apesar de voc
    msicas censuradas pelo regime militar. Ele utilizava pseu-
    dnimos, como Julinho da Adelaide, para tentar burlar a               Amanh h de ser
    censura dos militares.                                                       Outro dia
        Isso porque em suas letras, muitas vezes, ele criticava a          Inda pago pra ver
    ditadura ao mesmo tempo em que apostava em dias me-                    O jardim florescer
    lhores. Dias melhores significavam para o compositor a re-          Qual voc no queria
    tomada de um pas democrtico.
                                                                         Voc vai se amargar
        Em sua msica "Apesar de voc" est a esperana num
                                                                            Vendo o dia raiar
    futuro, ao mesmo tempo em que a ditadura brasileira  re-
    tratada como uma forma de conter o "florescimento" (desen-          Sem lhe pedir licena
    volvimento) da nao. Leia os versos da msica ao lado:             E eu vou morrer de rir

        S que, ao mesmo tempo em que eram produzidas as                  que esse dia h de vir
    chamadas msicas de protesto contra a ditadura, havia tam-        Antes do que voc pensa [...]."
    bm os compositores que exaltavam o pas do futebol, bem                  (Chico Buarque, 1970)
    como, suas maravilhas e seu crescimento econmico verti-
    ginoso.
        Podemos observar essa diferente postura frente  sociedade brasileira da poca quando
    analisamos trechos da msica "Pr frente Brasil", de Miguel Gustavo, que foi escrita para a se-
    leo brasileira de futebol tri-campe no ano de 1970.
        Nessa cano, h a tentativa de valorizar conquistas esportivas nacionais do perodo, bus-
    cando retratar um Brasil otimista e promissor. Este tipo de postura, por causa do silncio em
    relao s atrocidades do regime militar, substitudo pelo elogio ufanista da nao, acabava por
    ser a forma de expresso ideolgica mais apropriada aos propsitos de controle social por par-
    te dos militares.

                                                 Pr frente Brasil
                                                                                         < http://www.museudosesportes.com.br/




                                          "Noventa milhes em ao
                                                                                           img_noticias/5352.jpg




                                       Pr frente Brasil do meu corao
                                              Todos juntos vamos
                                                Pra frente Brasil
                                              Salve a seleo [...]."
                                                 (Miguel Gustavo, 1970)
                                                                          < Taa Jules Rimet

260 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                                         Sociologia

    Como pode ser observado, h nas duas canes uma postura diferente quanto  socieda-
de em que se vivia. Na primeira letra, de Chico Buarque, temos uma postura crtica, na qual se
tem a esperana que aquela forma de organizao poltica tivesse fim, a esperana do trmino
da ditadura militar. J na outra consagrada cano para os campees da copa de 1970, a sele-
o canarinho, tem-se o ufanismo (exaltao) da nao brasileira.
    Da mesma forma, portanto, que os movimentos sociais adquirem projetos diferentes em
acordo com sua conscincia de classe, na msica, na arte em geral, a forma com que represen-
ta o mundo possui um vnculo direto com a maneira com que o indivduo ou o grupo que a
produz concebe e analisa a sociedade. Com isso, compreendemos o porqu destas duas pos-
turas to diferentes retratando o Brasil militar.
    D um lado, portanto, com a msica de Miguel Gustavo h a valorizao da seleo de fu-
tebol e a aclamao de um futuro coletivo e melhor para a sociedade brasileira, com os ver-
sos: "Todos juntos vamos/ Pra frente Brasil [...]"; por outro, temos a msica de Chico Buarque
que em acordo com sua postura diante do regime ditatorial brasileiro (regime este que o obri-
gou a exilar-se, pois o referido compositor era contrrio ao governo militar e um defensor da
redemocratizao do pas), escreve uma msica cuja principal mensagem  a aposta que mais
cedo do que se imaginava o fim do regime chegaria.


                 ATIVIDADE

     H uma msica chamada "Sinal Fechado" do sambista Paulinho da Viola do ano de 1969, na qual
 h vnculos diretos com o perodo vivenciado pelo Brasil aps a criao do AI-5, j mencionado ante-
 riormente no texto. Analise esta letra e explique o porqu desta ligao, se preferir procure a letra na n-
 tegra para realizar a atividade.


                           "[...]Quanto tempo... pois ... (pois ... quanto tempo...)
                                        Tanta coisa que eu tinha a dizer
                                        Mas eu sumi na poeira das ruas
                                         Eu tambm tenho algo a dizer
                                        Mas me foge a lembrana [...]"


    Se no Brasil a dcada de 1960 foi marcada por uma srie de mani-
festaes de carter social, nos quais o movimento estudantil teve uma                    Guerra do Vietn:
atuao bastante importante, no restante do mundo, seja ele ocidental                    conflito entre os vietcon-
                                                                                         gs e vietnamitas. Eles dis-
ou oriental, de modo geral os estudantes tambm estiveram presentes.
                                                                                         putavam pelo territrio na-
    No que diz respeito ao ano de 1968, em diversos pases os estudan-                   cional do Vietn, e tinham
tes saem s ruas gritando palavras de ordem, pelo fim da Guerra do                       como aliados, os primeiros,
Vietn, confrontando a rigorosa represso sexual em voga, ou ainda, as                   os comunistas soviticos,
rgidas relaes de autoridade comuns nas escolas da poca.                              e os segundos os Estados
    O ano de 1968 foi particularmente caloroso no mundo todo. Mas                        Unidos da Amrica, ambas
certamente podemos destacar alguns movimentos cujas repercusses                         forneciam homens e arma-
extrapolaram seus limites nacionais.                                                     mentos para os conflitos.


                                                                                         Movimento Estudantil 261
        Ensino Mdio

        Voc j ouviu falar do movimento hippie? Certamente sim, mas voc sabe o que ? Qual a
    sua origem? Quais as suas causas, os projetos de vida de seus participantes?
        Esse movimento tem sua origem nos Estados Unidos da Amrica, com o objetivo de fazer
    oposio  guerra do Vietn. Pregava-se o amor e no a guerra, com a frase: "Faa o amor no
    faa a guerra", objetivava-se uma nova forma de vida cujos valores so bem diferentes do ame-
    rican way of life (jeito americano de ser), desenvolvendo uma forma de conceber a vida mui-
    to diferente dos valores sociais vigentes na atualidade.
        E mais, o movimento hippie era contrrio a esse consumismo desenfreado ao qual as pes-
    soas subordinam-se cotidianamente. Consumismo este que inclusive se apropria do visual do
    movimento para "lanar a moda da prxima estao".
        O movimento hippie foi, portanto, tambm a expresso de uma "contra-cultura", isso quer
    dizer que: ao mesmo tempo que eram contrrios  Guerra do Vietn, os que faziam parte do
    movimento tambm ofereciam uma forma de organizao social diferente, diferente da forma
    com que a sociedade norte-americana organizava-se e se reproduzia tanto socialmente como
    culturalmente.
        O movimento hippie pode ser considerado tambm a expresso social de certos desconten-
    tamentos referentes  sociedade norte-americana, da mesma forma que no Brasil, o movimen-
    to estudantil pode ser considerado fruto e tentativa de rompimento com valores obscuros e se-
    gregadores como os presentes no regime militar.
        Se discutirmos o movimento estudantil francs, tambm poderemos observar que desde o
    seu surgimento h um descontentamento presente, e a necessidade de se criar algo novo na
    sociedade.
        O chamado Maio de 68, na Frana,  um exemplo de movimento estudantil que tambm
    rompeu com os limites nacionais, pois na poca, o mesmo influenciou outras atividades estu-
    dantis pelo mundo, ao mesmo tempo, que por meio de outras manifestaes realizadas pelos
    quatro cantos do planeta tambm obteve a solidariedade de muitos estudantes.
        O maio de 68 francs ainda hoje  discutido nas Cincias Sociais, sendo objeto de estudo
    de muitos pesquisadores, pois o mesmo proporcionou na sociedade francesa, durante seu cur-
    to perodo de intensas manifestaes, a revelao de uma srie de descontentamentos e poss-
    veis solues que marcariam a Frana para sempre.

                       "Na Frana a rebelio estudantil liderada pelo estudante Danny Cohn-
                   Bendit, promove uma greve geral e aproximadamente 10 mil pessoas en-
                   frentam a polcia num confronto que ficou conhecido como a Noite das Bar-
                   ricadas" (PARANA, 1998, s/p).

        O movimento estudantil francs extrapolou os limites da universidade para incorporar na sua lu-
    ta a necessidade de outros, como os trabalhadores, que num ato conjunto decide realizar uma gre-
    ve geral na Frana.
        Por conta do descontentamento com a estrutura universitria, os estudantes saem  rua e
    entram em choque, tal qual aconteceu no Brasil, com a polcia. E estes confrontos foram ab-
    solutamente violentos.
        "[...] os confrontos entre universitrios, colegiais, transeuntes, policiais sero extremamen-
    te violentos: carros tombados, incndios de caixotes, granadas de gs lacrimogneo, espanca-
    mentos." (MATTOS, 1981: 53).
262 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
                                                                                                                  Sociologia

                        Da mesma forma que aconteceu no Brasil, uma srie de estudantes foram presos; a Univer-
                    sidade Sorbonne foi invadida pela polcia na tentativa de sufocar o movimento. Essas invases
                    s Universidades foram atitudes bastante presente aqui no Brasil; os estudantes da UnB, por
                    exemplo, foram brutalmente reprimidos em Braslia, dentro da prpria universidade.
                        O maior diferencial do movimento do Maio de 1968, foi sem dvida, sua juno com movi-
                    mentos de trabalhadores que tambm participaram dos conflitos de rua. Barricadas eram mon-
                    tadas nas ruas para a proteo. Os paraleleppedos eram arrancados das ruas e posteriormen-
                    te eram utilizados como "arma" lanados nos policiais.
                        Seria possvel elencar uma srie de manifestaes estudantis pelo mundo que tiveram sua
                    organizao estritamente vinculada aos fatos ocorridos na Frana, vrios movimentos aconte-
                    cem em apoio aos estudantes franceses, por exemplo, na Tchecoslovquia.
                        Os estudantes da Tchecoslovquia, que em maio de 1968, manifestaram-se favorveis aos
                    estudantes franceses na frente da embaixada da Frana, tambm tentaram resistir meses depois
                     invaso sovitica em seu pas.
                        Mais uma vez, mostra-se uma capacidade muito grande dos movimentos estudantis em se
                    organizarem e imporem uma resistncia a sistemas polticos que por meio de determinadas for-
                    mas de organizaes reprimem e limitam a atuao e criao do homem em sociedade.
                        Com tudo o que foi discutido e apresentado neste texto, conclumos que o movimento estu-
                    dantil historicamente possui uma grande possibilidade de resistncia e de participao social...
                                                                  Pensando nisso... vocs, alunos, j discutiram so-
                                                                  bre o Grmio Estudantil da sua escola????
                                                                      No h nenhum movimento que j tenha co-
                                                                  meado grande, a histria tem um ritmo prprio,
                                                                  no qual tudo  construdo, portanto, iniciar pelo
                                                                  grmio estudantil j  um bom comeo.
                                                                      Mas se lembrem, as organizaes sociais de-
                                                                  vem ser discutidas sempre com muita responsa-
< Foto: J. Maral




                                                                  bilidade, pois o movimento estudantil no mun-
                                                                  do todo possui uma histrica digna e feita de
                                                                  importantes projetos para transformao social.
                    < Movimentos de Estudantes em defesa da escola pblica, 2000, Curitiba.



                                             PESQUISA

                         Bem pelo que abordamos neste texto e nos dois Folhas anteriores sobre os movimentos sociais, vi-
                      mos que para a existncia de qualquer forma de organizao  necessrio um ponto em comum, que
                      pode ser um desejo de transformao.
                          Na ltima atividade proposta, vocs alunos pesquisaram sobre as aes do movimento estudantil
                      hoje. Mas e vocs, alunos do Ensino Mdio possuem um projeto, tm desejos para si e para a socie-
                      dade ?
                            Ou vocs acham que em nossa sociedade est tudo bem, nada deve ser mudado ?
                           Estamos num mundo no qual catstrofes ecolgicas vm sendo anunciadas, por conta de dese-
                      quilbrios ambientais, um mundo onde h um continente inteiro morrendo de fome, e muito pouco  fei-
                      to, uma sociedade que ainda reproduz valores como os racistas e ainda acham que os errados so os
                      negros...

                                                                                                     Movimento Estudantil 263
        Ensino Mdio


           possvel elencar uma lista de situaes desagradveis que devem ser mudadas...
         Pensando nisso, desenvolvam um texto apontando elementos que poderiam favorecer mudanas
      positivas na sua vida e na da sua comunidade.




    z Referncias:
        ARNS, D. P. Brasil nunca mais. Petrpolis: Editora Vozes, 1985.
        GERMANO, J. W. Estado militar e educao no Brasil (1964-1985). So Paulo: Editora Cortez,
        2000.
        GORENNDER, J. Combate nas trevas. So Paulo: Editora tica, 1987.
        MATTOS, O. Paris 1968: as barricadas do desejo. So Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
        RIDENTI, M. Em busca do povo brasileiro: artistas da revoluo, do CPC e a era da TV. Rio de Ja-
        neiro/So Paulo: Editora Record, 2000.
        SECRETARIA DO ESTADO DA CULTURA (SEEC) maio de 68: Sonhos de transformao. Curitiba: Im-
        prensa Oficial, 1998.
        VALLE, M. R. 1968, o dilogo  a violncia: movimento estudantil e ditadura militar no Brasil. Campi-
        nas: Editora da Unicamp, 1999.
        VENTURA, Z. 1968: o ano que no acabou. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988
        WORMS, L. S.; COSTA, W. B. Brasil sculo XX: ao p da letra da cano popular. Curitiba: Editora
        Nova Didtica, 2002.


    z Site
        www.une.org.br


    z Vdeos
        "O que  isso companheiro", 1997, Brasil, direo: Bruno Barreto.
        "Que bom te ver viva", 1989, Brasil, direo: Lcia Murat.
        "Pra frente Brasil", 1983, Brasil, direo: Roberto Farias.


    z Msicas Citadas:
        Subdesenvolvido, Carlos Lyra e Chico de Assis.
        Apesar de Voc, Chico Buarque de Holanda, 1970.
        Pra frente Brasil, Miguel Gustavo, 1970.




264 Direito, Cidadania e Movimentos Sociais
